Arte e sociedade



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Encontro02.08.2016
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ARTE E SOCIEDADE

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As relações entre arte e sociedade não podem ser consideradas assim, de maneira imediata. O escritor é um membro da sociedade, pertence a uma determinada classe social, mas a literatura não pode ser considerada apenas uma expressão da sociedade em que ele vive. O artista exprime a realidade, a História, a literatura é um reflexo do processo da História. A arte não só reproduz a realidade, mas dá forma a um tipo de realidade. E a literatura não substitui a sociologia e a política como maneiras de explicar a sociedade. A arte não obedece ao princípio da imitação da realidade estabelecida, mas ao princípio da negação desta realidade, que não é meramente negação, mas transposição da realidade (a preservação que transpõe a imanência) para superar os problemas. Como parte da sociedade, a literatura está imanente à realidade (está nela). Mas como ficção, como imaginação, ela transpõe essa imanência, criando uma outra realidade possível para opor à realidade concreta. Essa oposição é uma negação da realidade, para por à realidade uma outra possível, por exemplo mais humana ou menos violenta, por exemplo não dividida em classes.

A literatura como ficção é quase autônoma da realidade. Ela denuncia a realidade de fora(através da forma, tanto quanto através do conteúdo, pois é a forma que expressa o conteúdo). A literatura desrealiza a realidade, para quebrar o monopólio da realidade em definir e questionar o que é real, porque a realidade concreta está mascarada, mistificada, alienada. O homem na sociedade não é livre e vive uma realidade distorcida e alienada. Ou seja, o literário assenta na divergência entre a essência e a aparência; o que a sociedade considera como real é essa aparência da realidade, que é falsa, mas que é tomada como verdadeira.

Na literatura, o que é real é definido a partir de uma desrealização que a obra-de-arte faz. O monopólio da realidade é quebrado para se definir o que é real, e para ver-se a separação entre aparência e essência, mostrando como no mundo real os indivíduos se acham alienados. Desta maneira, a arte parte de uma alienação do mundo da realidade para o mundo da obra, para denunciar a realidade de fora. O artista reproduz uma imagem para que os receptores saiam do mundo da realidade e assim possam ver a ilusão da própria realidade em que se inseriram, e como tomam a aparência do real pelo real mesmo.

Realidade é tudo que for apreendido pelos sentidos. Real é tudo que só pode ser concebido pelo intelecto. A sociedade é vista num primeiro momento pelos nossos sentidos, principalmente a aparência da realidade em que ela acredita estar sua concretude. Entretanto, a sociedade não é só uma realidade perceptível, mas o que a estrutura é a ideologia dominante, de que tratamos. Assim, a sociedade, além de ser a realidade, é o real, pois sua essência só pode ser percebida pelo intelecto. Quando descobrimos o real da realidade, podemos dizer que a “desmascaramos”.

A arte, porque imaginativa, é autônoma da realidade, mas a realidade continua presente no mundo autônomo da arte como base. A sociedade, na obra, é rachada na sua integridade aparente e transformada no campo de suas possibilidades disponíveis, como possibilidades de libertação não utópicas, mas possíveis. A arte assim destrói o universo “normal” mistificado, pois sua verdadeira natureza constitui uma revolução da realidade, para além do mundo das necessidades destrutivas que caracterizam a realidade.

É necessário também ter muito cuidado ao usar a expressão “engajada”, pois não pode existir arte verdadeira que não seja de algum modo engajada. A arte tem seu próprio mundo e ilumina o mundo da realidade a partir de uma desrealização, pretendendo ser mais real do que a própria realidade. Para afirmar a realidade, ela primeiramente nega o que seja real. A criação cria sua própria realidade, que permanece válida mesmo quando contrária à realidade negada.

Somente quando a arte obedece à sua própria lei de autonomia contra a realidade é que ela não só preserva a sua verdade, como também torna consciente a necessidade de mudar o mundo, pois ela pode atuar nas consciências, e falar é agir. Quando as consciências são alteradas, toda realidade já se modificou. Mas a arte se opõe à práxis política, porque tem seu caminho próprio. A subversão própria da experiência da arte é a rebelião contra o princípio da realidade estabelecida, que nem sempre é criada por amor ao homem. O potencial próprio da arte reside precisamente na não-identidade com a realidade. É claro que o discurso artístico nunca é completamente autônomo, porque assim seria ilegível: a arte faz parte do mundo que denuncia, sua autonomia parte da realidade concreta, com a qual estabelece laços de consolidação. A autonomia artística só se dá do ponto de vista da nova consciência que ela faz nascer, da nova percepção da realidade que ela faculta. Ela faz a mimese do distanciamento estético, intensificando a percepção, distorcendo propositalmente a realidade, tensionando o discurso com suas promessas de realidade. A arte cria uma tensão para provocar a libertação, e ao libertar a tensão, libera a liberdade. A liberdade é o fim de toda tensão, portanto elemento catártico, só conseguido após tensão extrema.

Se a arte fosse prometer que no fim o bem triunfaria sobre o mal, tal promessa seria refutada pela verdade histórica, pois é o mal que triunfa sempre, e apenas existem ilhas em que podemos refugiar-nos durante algum tempo. Tendo consciência disto, as obras-de-arte recusam o final feliz, o aliviante final que é o contrário da arte. A liberdade fica além da mimese, fica num eterno devir, é conquista permanente: a liberdade é algo que, uma vez conseguido, é logo perdido, para iniciar-se numa nova fase de trabalho para conquistar, não a liberdade passada, mas a nova dimensão da liberdade por vir, pois a liberdade não é algo estático, mas muito dinâmico. A liberdade não é a reintegração do que se perdeu, mas a integração do que antes não havia.



Desta maneira o mundo fictício da literatura contém mais verdade do que a realidade cotidiana mistificada pela necessidade natural. Quando a realidade concreta parece falsa, ilusória, é quando nos libertamos dela. Essa destruição se dá por amor à vida. E desta maneira se estabelece a relação direta entre a literatura e a sociedade.

(SAMUEL, Rogel (org.), 1985, p. 14-16)


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