Artur Xexéo Um Cartão para o Dr. Gustavo



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Encontro29.07.2016
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Artur Xexéo
Um Cartão para o Dr. Gustavo

Todo dia 1º de janeiro há uma feira de antiguidades em Londres. Bem, sempre há uma feira de antiguidades em Londres. Mas esta, a do dia 1º de janeiro, fica em Bloomsbery e é especializada em cartões-postais. Há outros tipos de antiguidades à venda. Revistas de cinema com fotos de astros de filmes britânicos da década de 40, relíquias da Segunda Guerra Mundial, manuais que ensinam a jogar dardos. Mas o que há mais mesmo são cartões-postais. Com imagens de Londres do início do século, com anúncios ingênuos da década de 50, com bucólicas paisagens da vida no campo. Em cada banca, o freguês encontra cartões de determinado país. Noventa por cento oferecem cartões europeus. Mas pesquisa daqui, pesquisa, o curioso acaba encontrando cartões antigos de países exóticos, como México, Cuba e ... Brasil. A banca do Brasil é bem variada. Ali estão à venda cartões da Bolívia, da Argentina e até do Brasil. No último dia 1º de janeiro, encontrei um cartão brasileiro que, desde então, tem feito minha imaginação voar. Era um bilhete postal, como se chamava na época, comemorativo do centenário da Abertura dos Portos. Custou sete libras, o que não chega a ser uma pechincha. Hoje, deve estar valendo quase 30 reais. Uma fortuna de valorização, levando-se em conta que, na época, há 101 anos, era vendido a por 50 réis. Um cartão-postal novinho, com 101 anos de idade, por sete libras! Comprei na hora.

Em preto e branco, a ilustração é linda. No lado esquerdo, o perfil de um nobre, imagino que seja Dom João VI – afinal, foi ele quem abriu os portos, trajando uma armadura. Se for ele mesmo, é bom que se diga que seu nome ainda não tinha recebido o algarismo romano que lhe fez a fama. Em 1808, quando os portos brasileiros foram abertos às nações amigas, era apenas o príncipe regente Dom João. No lado direito, o perfil de uma figura feminina. Bonita – portanto, não pode ser Carlota Joaquina -, vestindo véus, com os cabelos presos por uma coroa de louros e trazendo uma espada na cintura. Algo me diz que é a própria Abertura dos Portos. Uma Miss Abertura dos Portos, digamos assim. Ao fundo, navios de guerra e as bandeiras do Brasil e de Portugal. Em cada canto do cartão, um dístico. No canto esquerdo inferior, a data 1808 circundada pelos dizeres “Carta Régia D João P R abrindo os poros”. Em seguida, no sentido horário, o retrato de Dom Carlos I, rei de Portugal, o retrato de Affonso Penna, presidente dos Estados Unidos do Brasil, e a data 1908, cercada pelos dizeres “Centenário da Abertura dos Portos”.

Se o leitor chegou até aqui, deve estar se perguntando. Afinal, o que fez a imaginação do colunista voar? O perfil de Dom João VI? A espada na cintura da Miss Abertura dos Portos? O retrato de Affonso Penna? Nada disso. É que o cartão foi postado do Rio de Janeiro, no dia 11 de abril de 1909, há exatamente 100 anos, endereçado ao Ilmo. Sr. Dr. Gustavo Edwald, 45 Rua das Palmeiras, São Paulo. Seguiu o recado: “Estarei em São Paulo no dia 15 no Rotisserie Dreby”. Sem nenhuma assinatura.

Que mensagem foi essa que resistiu 100 anos? Um encontro amoroso? Um almoço de negócios? Uma chantagem? Por que o remetente não assinou? Teve medo de seu recado ser lido pela mulher do doutor Gustavo? Ou o doutor Gustavo era solteiro, tinha vivido uma paixão no Rio de Janeiro – quem sabe no Carnaval de 1908? – e estava à beira de um reencontro com a namorada? Mas aí ela teria assinado. Claro, o doutor Gustavo era solteiro, mas a paixão de Carnaval, não. Ela sim era casada e estava conseguindo dar uma escapadinha até São Paulo. Ou não é nada disso. Seria apenas um encontro entre dois homens de negócios para resolver problemas pendentes na filial carioca de uma empresa paulista. Ou então...

As possibilidades são infinitas. E me perseguem desde o dia 1º de janeiro. Será que o encontro de realizou? Será que o doutor Gustavo temeu envolver-se mais seriamente com sua paixão carnavalesca e não apareceu? E, mais enigmático ainda, como é que esse bilhete foi parar numa feira de cartões-postais antigos em Bloomsbery? O doutor Gustavo faliu e vendeu suas relíquias do passado? Toda a mansão da Rua das Palmeiras foi a leilão?



Sei que nunca foi desvendar essa história. Mas aprendi que, romanticamente, um cartão-postal dura pare sempre. Se a mensagem tivesse sido gravada numa secretária eletrônica, talvez não durasse mais de 24 horas. Se fosse aviada por fax, um mês depois já estaria apagada. Por e-mail, não resistiria ao comando de “delete” ou a uma mudança de browser para um Netscape mais moderno. No bilhete postal, já existe há um século. As paixões registradas em cartão-postal – é claro que essa é uma história de amor – são mais duradouras do que as digitadas por alta tecnologia.

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