As Artes Plásticas no Período Barroco e no Modernismo e a Ética da Psicanálise



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As Artes Plásticas no Período Barroco e no Modernismo e a Ética da Psicanálise
Rafael Guarize de Almeida*
Introdução

O homem barroco e o do século XX são o único e mesmo homem agônico, perplexo, dilemático, dilacerado entre a consciência de um mundo novo. Ontem revelado pelas grandes navegações e as idéias do humanismo. Hoje pela conquista do espaço e os avanços da técnica e as teias de uma estrutura anacrônica que o aliena das novas evidências da realidade. No passado a Contra-Reforma, a inquisição, o absolutismo, e no presente, o risco da guerra nuclear, o sub desenvolvimento das nações pobres o sistema cruel das sociedades altamente industrializadas. Vivendo aguda e angustiosamente sob a órbita do medo, da insegurança, da instabilidade, tanto o artista barroco quanto o moderno exprimem dramaticamente o seu instante social e existencial, fazendo com que a arte também assuma formas agônicas, perplexas, dilemáticas.

Partindo desta idéia central, este estudo tem por objetivo verificar as relações existentes entre as artes plásticas no período barroco e no modernismo com a sistemática ética da psicanálise veio propor.

Esta idéia surgiu através da minha participação no Treino de pesquisa orientado pela professora Denise Maurano no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Nossos estudos direcionam se para as relações entre a tragédia, a estética barroca, e a ética da psicanálise, e se encaminham em uma etapa mais avançada para verificar quais estéticas da Arte Moderna colocam-se ao lado do Barroco e da Arte Trágica numa perspectiva onde a concepção do belo atua na transfiguração do horror que se demarca com a ética da psicanalítica.

Visa este trabalho de pesquisa, mostrar o barroco e o modernismo não só como estilo artístico, mas também como uma expressão que perdura em outras épocas e que guarda íntima relação aos aspectos presentes na experiência da clínica psicanalítica.

As etapas realizadas se iniciam com a descrição do momento histórico da arte barroca, suas principais características e seus principais representantes. Em seguida trabalharei o período Modernista, também descrevendo o momento histórico que ele acontece, suas características principais e seus representantes.

Ao decorrer deste trabalho, estarei identificando pontos de ligação entre a ética da psicanálise e as artes plásticas no período barroco e modernista. Ressaltarei, também, a intenção daqueles artistas em construir obras que acessavam o inconsciente.

Posteriormente, apresentarei questões relativas a ética da psicanálise, ética esta, que se sustenta no paradoxo, na falta de certezas, no desamparo e no desejo do sujeito.
1. Momento histórico do barroco

1.1 Histórico do período Barroco

O barroco foi o estilo que se manifestou em várias formas de arte na Europa ocidental e na América Latina, prevalentemente, da metade do século XVI ao final do século XVII. A arte barroca é monumental e plena de detalhes dramáticos.

Os artistas, a partir da segunda metade do século XVI, rebelaram-se contra a arte renascentista, que era contida e primava pela harmonia, simplicidade e equilíbrio simétrico. Os pintores, arquitetos e escultores barrocos conseguiram estabilizar-se em formas mais dramáticas e rebuscadas.

Seu primeiro impulso partiu da Itália. “O movimento barroco se desenvolveu, num período histórico de autoritarismo, o qual baseava na centralização absoluta do poder nas mãos do rei”1. Muitos soberanos europeus pretendiam um estilo artístico que exaltasse seus reinos,expressando o poder e a autoridade do chefe de Estado.

Etimologicamente, barroco significa, cova, barranco, penedo pequeno e irregular, pérola irregular, nome de várias pedras preciosas, estilo artístico e literário. A etimologia da palavra é controvertida. Segundo alguns é originalmente portuguesa (significando pedra de superfície irregular) e “barrueco”, seu equivalente em espanhol, seria a sua tradução, e assim, uma alusão às formas irregulares do estilo artístico barroco. O fenômeno barroco compreende maior parte da produção artística e literária ocidental entre meados do século XVI e final do século XVII embora em alguns países tenha se estendido até o século XVIII e conhecido como “Barroco Tardio”. O período barroco é posterior ao Renascimento e

anterior ao Neoclassicismo. Até o século XIX o termo era pejorativo e a partir daí é incorporado a ele conceitos complexos com aspectos ideológicos e estilísticos. Por seu desenvolvimento ter se dado na Espanha pretendeu-se ligar este estilo à Contra-Reforma que nos séculos XVI (últimos anos) e XVII, provocou um sentimento de exaltação religiosa em diversas partes da Europa, aonde podemos observar nas igrejas barrocas a representação mais fiel do drama e emoção desse movimento religioso. A companhia de Jesus e a Contra-Reforma trouxeram, para aquela época uma nova onda de religiosidade aonde destacavam –se sentimentos contraditórios muito bem representados pela arte barroca que oscilava entre o clássico e o pagão o medieval e o Cristo.

Ao se ligar o Estilo Barroco a Contra Reforma sendo uma reação espiritualista contra as tendências antropocêntricas de um Renascimento imbuído do paganismo e do humanismo grego-romano. Contra isso está a verificação de que nem sempre o barroco se opôs ao Renascimento, já que neste último há traços do Barroco no renascentista e maneirista Michelangelo.



A sua vinculação com a Contra Reforma perde força quando se verifica que o estilo barroco estendeu-se por países protestantes como a Alemanha e Inglaterra, sobretudo quando se pensa em J. S. Bach e Handel. Sem dúvida, a religiosidade está presente e é uma constante no barroco e reconcilia contrários: “o antropocentrismo renascentista e o teocentrismo medieval, dizendo de um sensualismo e de um misticismo como se pode perceber em El Greco e um naturalismo pictórico um Caravaggio”2. A evolução estilo renascentista para o barroco, segundo Wolfflin (primeiro historiador de arte que reconhece o Barroco como estilo) parte da estrutura linear, de composição em planos do Renascimento para a estrutura pictórica, de composição em profundidade e linhas diagonais barrocas, de uma estrutura fechada para uma estrutura aberta, de uma claridade absoluta para uma claridade relativa. No estilo barroco, temos assimetria , predomínio da imaginação, sobre a lógica, clima de imprevisibilidade tensão, ornamentação. Na escultura existe violenta manifestação e pode-se observar em todas as manifestações barrocas um apelo às emoções, as metáforas, onde o fruidor é pego de surpresa e é levado a transformar o possível em verdadeiro. Disto aproveitou a igreja para reconquistar seus fiéis. Atualmente existe concordância entre estudiosos modernos em assinalar “o caráter eminentemente barroco da civilização mineira do século XVIII, na arquitetura de Mariana e Ouro Preto, na escultura de Antônio Francisco Lisboa, na pintura de Manuel da Costa Ataíde”3. Padre Antônio Vieira, na literatura, é estudado como exemplo deste barroquismo já que muitos defendem a tese de que este primeiro estilo artístico do Brasil foi trazido por jesuítas como ele.

Ao nascer em Roma do grupo que sucedeu a Michelangelo (Moderno, Bernini, Barromini) o barroco espalhou-se rapidamente e conquistou a Itália, a Europa central, a península Ibérica e a América Latina. Foi cultivado na Áustria pelos arquitetos Ficher von Erlach e Hildebrandt na Boêmia, na Polônia, em Flanches, na Alemanha e na Holanda. Na Espanha apresenta grandes revelações e na América Latina atinge seu grau de exuberância. “Quanto a arquitetura e a escultura o barroco é fartamente representado e sobrevivente de maneira popular e ‘sui generis’ nas obras de Aleijadinho e de outros artistas brasileiros do século XVIII, sendo que alguns autores referem-se a eles como artistas barrocos – coloniais e não como artistas barrocos”4.

A Contra-reforma tinha por objetivo restaurar a fé cristã medieval e estimular a vida e os valores espirituais. Além disso, a arte barroca é principalmente, marcada por uma profunda dualidade. Por um lado, é o desdobramento do humanismo clássico e do Renascentismo, com seus apelos ao racionalismo, ao prazer, ao ‘Carpi diem’ (do latim, “aproveite o dia”). Por outro lado, o homem é pressionado pela igreja católica e pelo protestantismo mais vigoroso a um regresso ao teocentrismo medieval, à postura estóica, à renúncia aos prazeres, à mortificação da carne e à observância plena do” amar a Deus sobre todas as coisas “, principal capitular do teocentrismo medieval”.

O mercantilismo estava em plena expansão baseava-se na balança comercial favorável e no acúmulo de capitais. Costuma-se definir o barroco europeu como a arte do esplendor. Há uma estreita relação entre o desenvolvimento desta e as riquezas (pedras e metais preciosos) das colônias recém-descobertas. Uma pequena minoria de pessoas abastadas da Itália, França, Inglaterra, Espanha e Países Baixos procurou apoiar artistas que refletissem em suas obras a opulência das grandes fortunas.

No Brasil do século XVIII, a adoção do estilo barroco vincula-se certamente com

o descobrimento de minas e a conseqüente riqueza de algumas camadas da população. O barroco brasileiro coincidiu com o nascimento da consciência nacional, ao mesmo tempo em que a favoreceu. Contando com o apoio dos protetores das artes - paróquias, confrarias e associações religiosas - tornou-se a primeira possibilidade de expressão artística do país.

O homem do século XVII via o mundo sob duas formas diferentes. Viviam num dilema entre o céu e a terra, o pecado e a salvação, a mística e a sensualidade, a santidade e o liberalismo, só havendo para ele uma saída: acolher os pólos opostos.

É sabido que se a arte barroca é a expressão do homem e de seu tempo, o estilo barroco haveria de refletir as angústias, as incertezas e o desespero daqueles que viveram essa época. Fruto da síntese de duas mentalidades, a medieval e a renascentista, o homem do século XVII era um ser contraditório, tal qual a arte pela qual se expressou.Economicamente, o homem da época era oprimido, porém, sentia-se livre para enriquecer como a possibilidade de ascensão social.Os temas abordados na arte refletiam o estado de tensão da alma humana, tais como vida e morte, matéria e espírito, amor platônico e amor carnal, pecado e perdão.
2. Principais caracteristicas da arte barroca.

O barroco “é o característico de um largo período da história do mundo ocidental durante o qual surgiram estilos diversos da mesma forma que foram diversos os grupos sociais que produziram obras de arte naquela época”5.

O barroco exprime o imponderável, visando ao infinito, pois nem os tetos das igrejas limitam o espaço, quando decorados com pinturas que os projetam para as nuvens, representando a assunção da Virgem, a ascensão do Senhor ou a corte celeste.

Esta imponderabilidade tem seu complemento nos elementos de sustentação que se multiplicam graciosamente, sem nada sustentar; nos arcos que se curvam e torcem como se fossem maleáveis; na pintura com iluminação artificial e de caráter ilusionista; enfim, um mundo plástico criado com o objetivo de enaltecer o Altíssimo, numa glória e exaltação religiosas que bem indicam a reação da contra-reforma dentro de uma religião que necessitada de renovação saneadora.

Ele foi à expressão artística de 200 anos de atividades construtivas, e sua manifestação teve que representar as emoções dos povos e das civilizações da época.

O barroco, na sua expressão religiosa, tem o característico geral de uma aspiração ao infinito. É suntuoso, porque assim exalta a glória de Deus.É redundante, porque reforça a expressão dessa glória; é cheio de formas esvoaçantes, que exprimem a espiritualização da fé. Dentro dessa aspiração, manifestou-se com riqueza espantosa onde houve recursos, sobretudo o ouro que amparava suas pretensões; e foi modesto, pobrezinho, humilde onde, mesmo a míngua de recursos, deixou sua marca nesta ou naquela composição que exprimiu tudo o que a veneração modesta do fiel pôde oferecer a seu Deus”6.

São todas expressões do barroco, com cambiantes ligadas à situação social das comunidades. Se o suntuoso representa o barroco na sua plenitude áurea, o modesto exprime o mesmo barroco que, por sua vez, é a sua linguagem de fé.

No barroco, “o corpo apresentava-se em sua massa, em sua densidade viva , as articulações se esmeram em dar a ver não seu contorno, mas sim o movimento, com uma impetuosidade e sua violência exacerbada”7. Há um fundo denso na transposição dos planos fazendo da arte não um espelho da realidade, mas uma lente deformadora que promove o descentramento do sujeito. Com isso, vige o risco da dessubjetivação e a proximidade da relação ao nada, à morte.

Diante de um mundo em profundas transformações resta por um lado à fé e por outro o ceticismo e a luta pelos bens materiais, com isso, o pano de fundo da cena a ser mostrada não poderia ser outra, senão turbulento.

A obra barroca está a todo tempo indicando que o mundo vai além daquilo que está sendo revelado. Por isso que há uma ampla utilização de espelhos, portas, janelas, olhares, dedos apontados, que indicam sempre um lugar fora da cena, uma ‘outra cena’. São várias as indicações de que a cena apresentada é somente um recorte de um mundo que é muito amplo. Há um esgarçamento da função do olhar, que é a indicação dos limites do que se pode ver.

O declínio dos princípios de universidade exprime particularmente o barroco. O Barroco não trabalha a exclusão.

2.1 Principais características do Barroco no Brasil

O Brasil, sendo colônia riquíssima pela cultura e comércio do açúcar e pela mineração, teria que produzir um barroco rico na sua representação máxima, em talha polimorfa recamada do mais fino ouro brasileiro. Aí estão as construções de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Por exemplo, as igrejas barrocas com sua arquitetura imponente, com volutas imensas, cornijas, janelas, portadas com linhas características onde predominam a curva e a simetria de ornatos. O encanto das torres com suas cúpulas esféricas, e às vezes sobrepostas, e suas pináculas.

Em meio a esse turbilhão de formas de sustentação e de enfeites, anjos, cariátides, pelicanos e grifos completam o conjunto como chamas esvoaçantes de ouro, que exaltam a efígie de Cristo e dos santos de sua corte celestial. Entre os altares, quadros a óleo ou talha decorativa, num movimento contínuo, envolvendo os fiéis que, olhando para cima, vêem o próprio céu no além representado no forro pintado: a porta celestial para o infinito, para a companhia dos anjos, da Virgem, dos apóstolos e do próprio Deus.

Em contraposição, temos que reconhecer que nem sempre o Barroco no Brasil foi assim representado, pois houve regiões onde as condições sócio-econômicas determinaram outros tipos de construções. Nelas, teve expressão modesta, sem ouro; a talha ambiciosa na sua pobreza, manifesta-se em algumas colunas salomônicas, em raras volutas simétricas, em linhas curvas, numa ou outra folha de acanto, em raros e grosseiros anjos. O intuito na fé foi o mesmo, os recursos é que foram mínimos.

Havia abundância de ouro bruto; mas faltavam artistas e material adequado que permitisse uma representação consentânea com o desejo do clero. A diferença é tão grande que se poderia negar o espírito barroco no ambiente do pobre, o que não é nem justo nem verdadeiro.

Aí estão, em rápidas linhas, os dois pólos do barroco como o vemos no Brasil. Nesta faixa, oscilando entre o maior e o menor, podemos observar as manifestações de arte religiosa do nosso período colonial. Tal constatação faz supor uma profunda influência dos acontecimentos sócio-econômicos no seu desenvolvimento.



2.1.1 Arquitetura e a Escultura Barroca

A arquitetura barroca combinou de forma nova, elementos clássicos e renascentistas, tais como colunas, arcos e capitéis. Elementos curvos, impetuosos, tomavam o lugar de elementos retangulares e harmônicos. A escultura e a pintura passaram a desempenhar um papel mais importante nos projetos das construções, contribuindo para criar ilusão de amplidão e espaço. O interesse pela harmonia entre prédios e ambiente conduziu a uma ênfase maior com relação ao planejamento da cidade e ao traçado das paisagens em grandes jardins.

Ornamentaram-se e elaboraram-se de modo especial as construções barrocas na Áustria, Espanha e América Latina. Na França, predominou um estilo mais clássico e ordenado. Entre os melhores arquitetos que desenvolveram o barroco, estão os italianos Gian Lorenzo Bernini e Francesco Borromini. No Brasil, essa arquitetura encontrou maior expressão em Minas Gerais - onde a tendência era equilibrar as formas - e no Nordeste (sobretudo Bahia e Pernambuco), onde a tendência era rebuscar o estilo. 

A escultura barroca “caracterizou-se pela idéia de grande atividade e movimento. Esta impressão foi criada pela combinação cuidadosa de massa e espaço, e o recurso a novos materiais, tais como estuque e gesso. Foram especialmente imaginativas as esculturas barrocas alemã e austríaca. Na Itália, Gian Lourenzo Bernini executou fontes e retábulos de altares”8.

Os escultores do barroco brasileiro usaram quase sempre como material de trabalho a madeira e a pedra-sabão - abundante na região mineira -, criando belíssimos púlpitos, talhas em altares-mores, pedestais, nichos, pias batismais e imagens.

Por vários motivos, o clímax do desenho barroco pode ser visto na criação de vastos jardins, como os do palácio de Versalhes, onde o homem parecia ser o controlador absoluto da natureza. Os jardins barrocos realçaram o lado dramático do uso da água em

cascatas, fontes e canais.
3. A pintura barroca e o seu período

No barroco, a pintura é inquietante e altamente espiritualizada. Os pintores barrocos enfatizaram novos e sugestivos métodos de composição. Usaram técnicas tais como figuras desproporcionais ante a perspectiva e desenhos que eram intencionalmente assimétricos. ”Esses artistas interessavam-se mais em captar a idéia de espaço e movimento do que apresentar formas individuais como a última perfeição”9. Ao se falar em pintura barroca não há como deixar de mencionar Georges de la Tour, francês, Michelangelo Merisi da Caravaggio, Diego Rodrigues de Silva e Velasquez, espanhol, como importantes nomes que, em pontos geográficos diferentes, executaram obras das mais relevantes da História da arte. Trabalharam dentro de mesmos parâmetros artísticos, entre outros, o da valorização do mundo laico, das sombras profundas, da simplificação das formas.

No barroco as formas são novas, explosão de uma vivência em ebulição não mais vinculadas estreitamente as ordens e à compostura antes ditadas. As pinturas barrocas ajeitam-se numa plástica de espiral de contorção e acrobacia extravagantes, numa musicalidade sempre de alto diapasão e transtorno como acontecia nas próprias orquestras carregadas de músicos, numa época que, entretanto dá a música excelentes compositores. “O Barroco é o reflexo de uma época diferente, fora da constrição de pensar sem alma”10.

O Barroco é o descanso após a Renascença uma espécie de pretexto que parece esconder a moléstia da política corsária os episódios violentos e vulgares, não excluído o das carnificinas dos povos do novo mundo. A natureza na pintura barroca é remodelada, artificializada, petrificada; fazem-se mesmo palmeiras de pedra, grutas, monstros: o visual deve ser cenográfico, dilatado, surpreendente. A pintura é coerente com o ritmo: o vento agita as vestes dos santos, a paisagem é sem medida, repleta de abismos e de céus fulgurantes. As figuras estão contorcidas em êxtase, há um delírio de mitologia nos países livres do cheiro das velas da sacristia , velhas épocas em que os reis católicos governavam com obscurantismo e autos de fé. O Barroco foi condenado pela crítica arcádica e, naturalmente, pela neoclássica. Desconsiderado e chamado de louco, é preciso, no entanto, assinalar que esse objetivo foi usado mais em tom polêmico do que crítico. No período Ottocento, o Barroco era uma categoria extra-histórica.

Na confusão de múltiplas atitudes e no fracionamento e nas combinações políticas do Seicento, um artista consegue escapar aos costumes aparentemente rigorosos e ser ao mesmo tempo, pintor religioso e mitológico. Velázques deixa um nu de mulher, que só apareceria muito depois de sua morte. Velázquez na diversidade de sua arte com a dos personagens contemporâneas do século: Cervantes, Calderon de la Barca, Gongora. Qual a relação entre esses nomes e o autor de As meninas? Temos aqui uma oportunidade para frisar que a expressão é individual e particular e que, num século tão vibrante e repleto de revoluções morais de todos os tipos, pensa-se num Galileu num Descartes, num Espinosa, num Leibniz, as aparições surgem à tona com impressionante continuidade e diversidade.

Velázquez, calmo, pacato, sutil, é do tempo de Rubens, a quem são permitidas todas as licenças mitológicas, o que demonstra a consistência de muitos temperamentos e possibilidades do seu período. Esses gênios da pintura que conseguem formas de alta e livre expressão às vezes dificilmente encaixáveis no Barroco mesmo forçando-se a “catalogação”. Não que num autor estejam contidos todos os aspectos históricos e espirituais de seu tempo, ou que nele refletiam ou a poesia ou a moral. Uma diferenciação inteligente e serena deve estar presente nas avaliações das atividades. O Barroco possui também , outras expressões que não são religiosas.

O grosso da pintura barroca, isto é, ofício torna-se instrumento para a igreja , meio de propaganda e ação. A pintura da Contra-Reforma na América chegará como exemplificação da catequese, como historieta de persuasão para se ganhar o paraíso ou padecer no inferno.

Assim, a poética barroca enraizada no catolicismo e literatura de sermão misterioso, repleta de atrações festivas e ao mesmo tempo açoites, uma invenção contínua para impedir que fiquem indiferentes os que a olham : movimento, brilho, cores.

A arte tem por tarefa disfarçar o fato real. Monsenhor Paolo Aresi, na arte de Predicar Bene, codifica: “... o poeta deve saber antes de tudo, a verdade dos fatos, depois deve fabricar em cima muitas coisas novas , e enfeitá-lo ( o poema) de episódios agradáveis...”11.

O maior expoente do ‘Período Barroco na pintura, Carravagio, instaura uma pureza estilística que se contrapõe violentamente às impurezas da academia do Maneirismo e, ao mesmo tempo, renascentistas. Por isso sua pintura será de um conteúdo forma, ético e inovador absoluto. A vitalidade fresca, incruenta e severa de sua arte, combatida por todos os meios e academias, não foi compreendida em sua proposta de conteúdo . Diz Panofsky que, “numa obra de arte, a forma não vai desunida do conteúdo: a disposição das linhas e da cor, da luz e da sombra, dos volumes e dos planos, porquanto sejam um espetáculo encantador, deve ser compreendida como portadora de um significado que vai além do visual”**. Não era possível compreender a significado da arte caravaggesca num ambiente habitado à pintura genérica. Às formas capciosas do raciocínio, Caravaggio opunha uma poética popular, humana, tomada da realidade da vida. Transpõe as lendas sagradas para a intimidade popular.

A arte sagrada no período Barroco tem o mesmo lugar da oratória é a inflação da retórica. Outra coisa são os pintores que se dedicam a telas destinadas a decorar paredes de palácios. Forçosamente recorre-se à paisagem, as alegorias, ao retrato, às naturezas mortas e até as bambochatas, espécie de caricaturas bizarras. Os problemas da Reforma, Contra-Reforma não chegaram afetar os novos gêneros. Salvaram-se muito bem os pintores que reproduzem a vida burguesa nos países onde a reforma passa a abolir as “quinquilharias religiosas”. Também São Carlos foi severo na interpretação dos decretos do Concílio de Trento. E mais severo foi Federico Borromeu, que prescreve, por exemplo, para refigurar a Virgem: “rainha das rainhas”, vestimenta não esvoaçante sem luxo e nem requinte, cuja aparência deslumbra a vista. Nas colônias espanholas, no entanto, deu-se justamente o contrário dessa recomendação. As pinturas peruana e mexicana brilham nos ornamentos fantásticos que vestem nossa Senhora com colares de pérolas, de fios longos até o chão plumas na cabeça, brincos, sedas, numa prova de que os decretos eram válidos para o encontro, mas não para as periferias longínquas de Roma.

O trabalho dos pintores depende sempre das encomendas. Além da igreja, surgem os colecionadores, expressão da burguesia que acumula riquezas. O barrocoé também o período em que se delineiam não só os interesses dos colecionadores, mas os valores venais da pintura.

“Os quadros são ouro em lingotes”, escreveu o Barão de Coulanes a Madame de Séviané, dizendo que ele poderia vendê-las pelo dobro no momento em que ele quisse. O Cardeal Mazzarino compra e vende; Carlos I adquire a coleção dos Gonzaga De Mântua, mais tarde vendia por Cromwell, Colbert, o Duque de Richelieu e os banqueiros parisiense de visão, com seus tráficos de telas, aumentam enormemente o valor da arte, que passa a servir também como instrumento diplomático.

É no Barroco que se estruturam as grandes coleções e surgem em Amsterdam e Paris os dois maiores mercados de arte, como hoje acontece com Londres e Nova York. A partir do Louvre se constituirão os grandes museus europeus.

O Barroco muito interessa o Brasil. Foi o primeiro estilo que nos chegou da Europa. Advém dos colonizadores da Península Ibérica, dos países baixos, províncias que tem a leste a Alemanha a ao sul da Bélgica. Nenhuma cidade está a mais de 200 km do mar do norte. A língua é o holandês e as religiões são em igual proporção o catolicismo e o protestantismo. Algumas formas recebemos dos países baixos (Amsterdam, Rotterdam, Haia, Haarlem, Utrecht...) um pouco mais Holanda, ao tempo de Maurício de Nassau, quando da invasão holandesa no Brasil, e, em seguida quando o vaivém da Companhia das Índia ocidentais nos trazia novidades. Desconsiderado ao longo do ottocento, os brasileiros poucos se interessavam pela conservação do Barroco. Faz, de fato, poucos decênios que teve início uma apreciação crítica, nos rastros das revisões estrangeiras. E somente agora começa-se a pensar que Missão Francesa de 1816 liquidou com a tradição que o Aleijadinho continuava, renovava e engrandecia. Pouco a pouco, a singularidade de nossa arte do Seicento e do Settecento terá de ser descoberta, naquele encontro entre o colonizador, o índio e o africano, um filão plástico tão autêntico quanto o das canções espirituais norte-americanos.

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