As bases filosóficas da maçonaria irm\ João Alves da Silva



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AS BASES FILOSÓFICAS DA MAÇONARIA

Irm\ João Alves da Silva*


*Da Academia Maçônica de Letras de Alagoas - Gr\ 30 - membro Honorário da Academia Maçônica de Letras, Ciências e Artes no Nordeste do Brasil.
Sumário
1 - Introdução
2 - A Moral teórica ou perspectiva filosófica da moral
3 - A Moral social ou perspectiva sociológica da moral
4 - Diferentes dimensões da religiosidade
5 - Conclusões para a Maçonaria
6 - Da ordem Cósmica à ordem dos Espíritos
1 - INTRODUÇÃO

A definição filosófica da Maçonaria transcende sua definição jurídica, ou sociológica, como um sinceríssimo de filosofias espiritualista, um sinceríssimo cultural, o mais universal que podemos identificar, porque se trata de um complexo de aculturação dos mais ricos que se conhece, revelando conteúdos mágicos, formas ritualísticas e também racionalizações de uma instituição complexa embora de objetivos bem definidos. Eis ai uma nossa caracterização bem pessoal através da qual procuramos situar as bases filosóficas de um estilo de pensar e um estilo de agir.


São tantas as versões sobre as origens da Maçonaria que isso justifica uma grande dificuldade para situá-la numa posição. Em primeiro lugar, parece-nos que aqueles que a situam na Inglaterra, ou na França fazem uma pesquisa menos profunda e não se adentram na Maçonaria Real, esotérica e só apanham poucos aspectos históricos da instituição, numa visão superficial. Deslumbram-se com a Maçonaria esotérica, exterior, e sem intuição filosófica, anatomizam a instituição nos seus objetivos visíveis e mais superficiais.
Só pode entender o que é Maçonaria quem entende sua filosofia, ou a rigor quem é conhecedor das filosofias orientais, todo teístas, quem a procura nos contextos culturais variados onde ela assume uma fisionomia particular embora mantendo sempre uma perspectiva do universal.
Maçonaria é universalismo no melhor sentido do termo, que reúne diferenças étnicas, religiosas, sócio-culturais, idiossincrasias raciais e de ordem psicológica numa convivência criadora da tolerância, sua grande virtude. Daí que aceita grupos religiosos diferentes no seu seio, livros sagrados diversos conquanto que se mantenham um único postulado filosófico e também tornando dogma da instituição: a crença em Deus, seja elea sua forma cristã ou outra forma monoteística. Mantém um idiossincrasia contra o politeísmo e sustenta, por coerência, uma antítese, p. ex., com Marxismo histórico e dialético.
Ao pesquisarmos sobre origens da Maçonaria, a seguir, constatamos na diversidade dos pontos de vista a dificuldade de situar uma filosofia maçônica única.
É ela uma convergência de filosofias espiritualistas orientais, que admite a tolerância e que cultiva um humanismo universalista de objetivos não só transcendentais mas também imanentes no processo histórico traduzidos na solidariedade.
A Maçonaria é uma sociedade secreta, de origem antiga possuindo diferentes graus iniciáticos e rituais.
Exemplo desse tipo de sociedade, formando um hipersistema, é o Grande Oriente do Brasil, cuja constituição de 1977 tem por pressuposto a Constituição de Anderson, de 1723, da Inglaterra, sendo uma instituição de objetivo universalista.
Define-se então como "uma instituição maçônico federativa, simbólica, regular e legítima que preside os grandes Orientes estaduais e as Lojas Simbólicas" (cap. II-1). No seu artigo primeiro, define-se como "uma pessoa de direito privado, fundado em 17 de junho de 1822".
A definição filosófica da Maçonaria encontra-se no item I, Titulo I, cap. 1: "A Maçonaria é uma instituição essencialmente filosófica, educativa, filantrópica e progressista", que proclama a prevalência do espírito sobre a matéria, pugna pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade, por meio do cumprimento inflexível do dever, da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade", sendo "seus fins supremos a liberdade, a igualdade e a fraternidade".
Numa determinada fase histórica da maçonaria, ela respira a chamada atmosférica da época"- a do Iluminismo, ou racionalísmo dos "Enciclopedistas" , agindo como instituição social e política, comprometendo-se com as lutas sociais, como a independência dos povos, a luta contra a escravidão e o despotismo, e, aqui, assume uma forma de filosofia política que marcou a história dos povos. Define-se mais como Lojas básicas, mas não descubra, nos graus filosóficos, do cultivo de suas funções profundas secretas e religiosas enigmáticas.
As origens da Maçonaria Charles Bernardim (notas para servir à história da Maçonaria em Nancy, 1909) encontrou na sua pesquisa 39 opiniões diferentes sobre as origens da Maçonaria, as quais pode ser assim discriminadas (em número de vinte e duas, dentre as principais):
1. origem ao período gótico
2. origem na Inglaterra
3. origem nos partidários dos Stuart
4. origem da França
5. origem na Suécia
6. origem na China
7. origem no Japão
8. origem em Viena
9. origem em Veneza
10. origem nos jesuítas
11. origem nos antigos rosa-cruzes
12. origem nos templários
13. origem nos Druidas
14. origem no Egito
15. origem na Pérsia
16. origem em Zoroastro
17. origem nos magos
18. origem na Ordem dos Assassinos
19. origem nos maniqueus
20. origem nos pedreiros que construíram o Templo de Salomão
21. origem nos que construíram a Torre de Babel
22. origem nos sobreviventes do Dilúvio
A esse número pode-se acrescentar mais o seguinte:
23. origem em Jesus Cristo
24. origem na Índia antiga, etc.

O "Iluminismo" é um sistema de idéias cuja idéia nuclear é o primeiro da razão na interpretação dos fatos humanos.


Para nós, não se trata apenas de um movimento característico do século XVIII, podendo suas origens ser pesquisadas em Platão e na Bíblia.
O Primeiro, em TIMEU (69) fala do "O FOGO" do olho... fogo interior que brilha fora como se fosse um relâmpago", e, na REPÚBLICA (508) escreve que "A luz e a visão se parecem com o sol , a ciência da alma é como a luz para os olhos cegos". Também in "Carta 7ª" (341).
Na Bíblia (salmos, XXXVI, 9), está expresso: "Porque em ti está o manancial da vida: na tua luz veremos a luz".
Matheus (6,22) : "São os olhos a lâmpada do corpo".
Paulo (Ep. Ef., 6,9): "Porque o fruto da luz consiste em toda bondade e justiça e verdade".
Depois, em Santo Agostinho, aparece uma teoria da Iluminação. Nos "solilóquios" (P.L. XXXII, col, 877), compara Deus ao sol dos espíritos. A sabedoria seria um processo de iluminação ao Divino.
No "De Civitate dei" (415) surge o "verbo como a luz da alma".
Depare-se, portanto, uma "Ilustração" antiga e outra moderna. R. Jolivet (Deiu, Soleil des esprits) reúne os textos agostinianos sobre o problema, e F. Cayre ( Les sources de l’amour divin) caracteriza a iluminação como "Líntuition des primiéres idéias, en tant quélle est une participation à la lumiére de Dieu".
As idéias iluministas modernas apareceram na Alemanha através da "corrente" Sturm und Drang" (tempestade e assalto) com Goethe, Schiller, Lessing. E o Iluminismo moderno tenta "espancar as trevas medievais". Eis a chamada secularização, o laicismo moderno contra a sacralização da atitude anterior, manifesta com os Enciclopedistas, fonte da Declaração Universal dos Direitos do Homem, justificativa do individualismo. A teoria de Rousseau é uma explicação iluminista da realidade social.
O jusnaturalismo grociano opõe-se ao jusnaturalismo antigo porque é racionalista . E racionalista é a posição de Locke na Inglaterra, a de Locke e todos os "iluministas" ingleses e franceses.
O filósofo Inglês Locke é um dos grandes teóricos da LIBERDADE - adotado pela MAÇONARIA em sua filosofia política.
Baseando-se na chamada "Lei da Natureza" , diz que a liberdade está contida entre "os poderes humanos", ao lado do próprio corpo, a inquietude, o entendimento, a lei positiva, a sociabilidade.
E, nessa circunstância, a liberdade é não só meio mas condição da existência humana: condição e fundamento da verdadeira felicidade. Essa conclusão da ordem da filosofia política lockiana, adotada pelos filósofos enciclopedistas franceses, e, posteriormente, pelos positivistas é princípio político da Maçonaria, portanto princípio filosófico da Maçonaria universal.
Define o filósofo a liberdade do seguinte modo, numa DEFINIÇÃO que é psicológica e também política: "A liberdade é ... o poder do homem de realizar sua ação particular segundo sua própria vontade" ( Essay, cap. 21, arts, 14/27). É coerente sua teoria político-moral com sua teoria do conhecimento.
Conceitua, ademais, a liberdade como o fato moral, de modo idêntico a Kant, filósofo alemão.
Outra definição importante do autor é a lei, como meio para se atingir a felicidade. Daí que a liberdade pode coexistir com a lei - como exigências da natureza humana.
O homem realiza-se uma ordem ditada pela razão.
Se a liberdade é algo inerente à natureza humana que como tal deve ser respeitada, no entanto o filósofo fala também da imperfeição humana: "essas pobres criaturas finitas", pois o homem pela liberdade está sujeito ao bem e ao mal.
O conceito de felicidade em locke tem algo de estorrico. O homem terá sempre de construir ou reconstruir, para vender sua fragilidade.
Finalmente, o pensamento lockiano político social é racionalista cristão constitucionalista, a viga mestra dos sistemas jurídicos modernos, que se expressa em parte no Liberalismo, mas cuja conseqüência a nosso ver atingem a teoria social e atual superadora do próprio liberalismo econômico e político.
EM CONCLUSÃO : A Maçonaria esotérica (exterior), social, define, em termos de filosofia social e política como o Liberalismo e do ponto de vista esotérico (interior, profundo, secreto) como um Sincretismo religioso de religiões orientais mais antigas, todas deístas do tipo monoteísta, o que justifica um Sincretismo filosófico Universalista, verdadeiramente ecumênico, cujo único Dogma religioso e, também dogma jurídica, é a crença num Deus único.
A Maçonaria tem uma filosofia que se baseia em postulados morais e postulados religiosos.
No primeiro caso, ela defende a solidariedade, a lealdade e a fraternidade.
No segundo caso, ela propugna, a começar com o juramento da crença em Deus e no ato iniciatório, pelos atos esotéricos e litúrgicos de suas reuniões.
De forma que o sincretismo filosófico de diversas doutrinas Orientais, de fundo filosófico - religioso - característica de todas as religiões antigas - tende a conjurar-se na evolução em primeiro lugar das sociedades secretas em geral, e, particularmente, a marca definitivamente a Maçonaria - tornada instituições jurídica.
Definimos a Maçonaria como o principal modelo de Ecumenismo, muito antes que religiões o tenham pensado.
Em verdade, não encontramos outro fato histórico de verdadeiro Ecumenismo: indivíduos de diferentes religiões ingressam ou são iniciados. Na Maçonaria pronunciando o Juramento em Deus e conseguem viver em família - a família maçônica.
Poder-se-ia dizer talvez que a Maçonaria teria ocorrido, ao longo de sua história, principalmente neste século, algumas dissenções, sempre de caráter político ou administrativo, mas nunca de natureza doutrinária, a ponto de ferir seus postulados morais, religiosos e finalmente filosóficos. Dai dizermos com justa razão que a Maçonaria constitui em perfeito sistema ecumênico, onde não há diferenças doutrinarias, ou mesmo liturgias de importância.

2 - A Moral Teórica ou Perspectiva Filosófica da Moral


O conceito de Moral: O termo "moral" deriva-se do adjetivo latino "maralis" , e este, do substantivo "mos" = costume, tradução feita do grego por Cícero.
Na língua grega existiam duas formas "êthos" = conduta caráter; e "ethos" = costume. Essa polivalência do termo grego não encontra tradução na língua latina, sofrendo então em empobrecimento semântico, uma vez que persistiu apenas o segundo sentido, embora tenha havido sempre intuição do segundo sentido.
O conceito grego tem uma longa história com a conotação de "modo de ser", que se revela geral em nível dos sentimentos, como "pathos", no qual a vontade seria relevante. No sentido do costume estaria num nível mais elevado, e, finalmente no nível do "caráter"- algo conquistado na própria experiência pessoal.
Portanto: evolui do sentimento individual ao sentimento social, e desta, para o caráter.
Em Cícero, p.ex., a moral como "aentimentos" aparece do De Legibus( I, 26-27): "Natura... speciem formavit oris, ut in ea penitus reconditos mores effingeret.
E a conotação do caráter" in De Amicitia ( III,II ): "Qui dicam de moribus facilm’s? - que direi da doçura do seu caráter?
ARISTÓTOLES valoriza a moral de tal modo que lhe dedica três obras, onde seu conceito de ciência máxima moral" se torna o fundamento da política - "a ciência máxima ordenada".
Assim, tanto a moral quanto a política são ordenadores do supremo bem. Não havendo portanto distinção do objeto entre elas.
SANTO TOMÁS DE AQUINO (Suma Teológica, Ia , Iiae, q. 581) percebe claramente a diferença entre os termos gregos um grupo cultivando valores e padrões estratificados e considerados superados os injustos. Daí se justifica também o progresso da humanidade, indo de padrões rígidos ou limitados para novos padrões superiores de entendimento e de comportamento.
A consciência moral é um dado individual e ao mesmo tempo social, que marca um esforço para uma nova etapa ascensional da humanidade.
É o conflito e sua superação, entre o que Bergson chama de Moral "aberta "e moral "fechada".
Recaséns Siches (filosofia do Direito, 403) argumenta, por sua vez, que, "se a justiça e os demais valores jurídicos fossem meramente reais, do psiquismo, puras realidades psicológicas, resultaria com referência a uma questão determinada, cada um deles se fundaria no fato de sua própria consciência subjetiva; e como não houvesse uma estância superior a ela... haveria que reconhecer que cada uma deles estaria justificando uma opinião".
O Cardeal FRANCISCO ROBERTI, autor de um importante Dicionário de Teologia Moral (p. 243) afirma, coerente alias com esse ponto de vista, que "A consciência moral é susceptível de contínuo progresso, não menos que a razão da qual é expressão típica".
Os teólogos morais distinguem várias formas de consciência moral: perplexa, laxa, escrupulosa, certa e incerta.
Tão importante é a "consciência moral", que o maior Teólogo moral do nosso tempo que é BERNARD HAERING (A lei o Cristo, I, 201) diz que "A fé não suprime a consciência torna-se, ela própria, um foco de luz. São Paulo de um" testemunho da consciência no Espírito Santo (rom. 9.1)". Daí que "agir segundo a fé ou segundo a consciência é, para o cristão, a mesma coisa. Consciência e fé agem em íntima conexão: a fé aclara a consciência moral e a "boa consciência" protege a fé. O mistério da fé se encerra numa "consciência pura" ( 1 Tim. 3.9).

A LEI MORAL

KANT, na Crítica da Razão Prática (conclusão) estabelece a dicotomia leis naturais e leis morais, nesta bela construção estética:
"Duas coisas dão ao espírito crescente admiração e respeito, veneração sempre renovada quanto com "‘thos" e "êthos", esclarecendo que "Mos" pode significar duas coisas: costume e virtude moral, inclinação natural".
Propondo soluções, o autor diz que "a objeção é válida dando "mos" o significado de costume e que todo ato de virtude pode fazer-se por eleição e que finalmente o mover-se como por natureza a conformar-se com a razão é próprio das virtudes que radicam na parte apetitiva".
SUAREZ (De legibus ac Deo Legislatore, VI, 1) emprega o termo "mos" no sentido de prática, a qual ocorre nos atos livres, distinguidos o "costume de direito" do "costume de fato".
Quando os sociólogos, como DURKHEIM, começaram a enxergar na moral sua socialidade, houve grande oposição de parte de alguns que só admitiam como algo interior, para diferencia-lo do direito como algo exterior.
Mas em verdade a própria Bíblia já mostrava sua identificação com a caridade: algo que se exterioriza.
É que a "interioridade" e a "exterioridade" não apresentam caráter estático e sim dinâmico, o que pode facilitar a interpretação atualizante do problema moral.

A CONSCIÊNCIA MORAL

Há uma consciência moral, que se distingue da consciência psicológica.
A primeira capta valores e é normativa, teleológica, que - capaz de projetar-se na consciência social e tingir-se sob a forma de consciência jurídica. A consciência psicológica capta fatos. Aí estas diferenças.
Argumentando sobre a existência de uma "consciência moral, diríamos que aí está a presença de remorso - fato de conhecimento das religiões e também da psicologia, o sentimento de dignidade, a consciência e sua valorização de determinados, e evidente atos, e sua repulsa, mesmo que isso não seja a concordância com um padrão social.
A constatação de uma consciência moral é um fato evidente, que pode coincidir ou não com um padrão aceito pela consciência social. Daí é que se justifica a moral evangélica, p. ex., contrastando com a moral habitual e os preconceitos religiosos farisaicos.
Em muitos momentos históricos a consciência individual foi portadora da consciência moral opondo-se à consciência social de mais freqüência e aplicação delas se ocupa a razão: por sobre a minha cabeça, o céu estrelado; e dentro de mim, a lei moral, "(Zwi Dinge erfuellen das Gemuet mit immer nuer zunehmender Bewunderung und Ehrfurchr, je oefter zund anhaltender sich das Naahdenken damit deschaeting: der bestirrte Himmuel uebermir un das moralische Gesetb inmir" (p. 186).
A lei natural, a da natureza, é necessária. A lei moral, a da liberdade.
MARITAIN, J. - Neuf leçons sur les notions prémieres, de la phlosophie Morale" (9128) procura distinguir norma (lei humana) da lei natural, física):
Em sentido estrito, a noção de norma não inclui a de preceito ou mandamento. A norma ou regra, no sentido de regra que traça linha, na acepção de fio diretor, de medida, de forma protótipo, de norma piloto, é algo diferente da norma ou regra no sentido de lei, preceito ou mandamento".
No primeiro caso, procuramos interpretar. e temos as leis estéticas com essa conotação, tais como as gramáticas, as morais, as jurídicas.
SERTILLANGES - La Philosophi Morales de Saint Thomas d’Aquino (95), referindo-se as leis humanas, diz que elas são como referencia ao exterior, o que seria". A lei moral (no sentido de norma) é ao mesmo tempo imanente e transcendente, sendo efetivamente algo de minha natureza, algo que me foi dado com minha natureza".
O grande Teólogo moderno HAERING (A Lei Moral, 1, 297) define a lei moral desse modo: "Uma norma moral é ou não uma coação arbitrária contra a liberdade humana. É um apelo que, partindo do objeto, dirige-se à liberdade. É um convite imperioso no sentido de se preservar a liberdade". Fazemos desta definição genial a nossa opção.
A CERTEZA MORAL

A certeza moral não se caracteriza pelo rigor da certeza lógica, e nível de demonstração, mas supõe noutras fontes de convicção, como a intuição e a fé.


Um dos grandes autores sobre o assunto é o filósofo francês Ollé-Laprune (De la certitude Morale, 1980), que admite que a crença e a convicção integram a certeza moral.
DESCARTES (Principes, par. 205) conceitua a certeza moral do seguinte modo: "Mas néanmoins, a fim que se ne fasse point de tort à la vérite, en la supposant moins certaine qu’elle n’est, je distinguerai ici deux sortes de certitudes, La prémiére est appelée morale, c’est-àdire suffisante est pour régler nos moeurs, ou aussi grande que celle des choses dont nous n’avos point coutume de douter touchan la conduite de la vie, que nous sachions qu’il se peut faire, absolument parlant, qu’elles soient fausses" (oavres, Pléiade, 949).
Portanto, a certeza moral - a que regula os costumes, a conduta humana.
KANT aceita a certeza moral com fundamento na "razão prática" (praktischen Vermunft) é na fé (Glaube).
Leibiniz (Nouveax Essais, IV, 16) fala de uma "principium cettitudinis moralis".
No dicionário de teologia moral, do cardeal Francesco Roberti deparamos uma definição extensa e descritiva: "A certeza moral fundamenta-se na persuasão firme e racional acerca da existência de um fato contigente, conhecido por testemunho dos homens"(p. 193).
O grande teólogo Ataual Bernhard Haering (A Lei de Cristo, vol. I, Editora Herder, trad. S. Paulo, 1064) aborda os graus de certeza e da incerteza, dizendo a respeito da "certeza moral" que ela "exclui toda dúvida razoável" e que "basta para uma decisão prática e dissipa toda dúvida, mas não exclui completamente a hipótese prudente de um erro". (p. 233).
Em matéria de teologia moral, Haering parece-nos a maior figura.
E outro alemão do gênio, o filósofo Peter Wust (Incerteza e risco estabelece uma hierarquia da certeza, que vai da certeza matemática, passando pela certeza moral, para chegar à certeza matemática.
Fala dois "espinhos da certeza", do vulcão que estremece as comodidades do racionalíssimo ingênuo e as pretensões da ciência absoluta.
Porque o "espinho" é de toda a certeza, e não apenas da certeza moral.

3 - A MORAL SOCIAL OU PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA DA MORAL

MORAL E MORALIDADE

A conceituação clássica da moral foi realizada sob o crivo puramente filosófico, ou teológico, de Aristóteles até o umbral do pensamento moderno.


A colocação do problema moral sob uma perspectiva social já se insinua entretanto em Kant, que, na Cristica da Razão Prática, quando na Metafísica dos Costumes, investiga o conceito da moralidade como fundamento da legalidade.
A idéia nuclear da moralidade é a liberdade.
E a moralidade, fundamento do direito. Em termos Kantianos, a "Moralitaet" ou "Sittilichkeit" é justificadora da "Legalitaet", ou "Gesetzlichkeit".
A diferença entre moralidade e eticidade vai surgir em Hegel, ao definir o "espírito objetivo".
CONCEITO DE DURKHEIM
O sociólogo francês, no seu livro L’Education morale - resultado de suas aulas na Sorbonne, nos anos de 1902/1903 - seria o autor de uma pesquisa pioneira e sistemática cientifica coerente e original sobre a moral numa perspectiva social e especificamente sociológica, da natureza empírica, ou seja com base nos dados da experiência, refugindo àquela posição dedutivista abstrata que marcou a tradição de estudo do problema moral.
Durkheim inaugura assim a sociologia empírica, escolhendo o grande tema da moral.
A religiosidade, a moral e o direito são vistos na sua obra numa perspectiva cientifica rigorosa, a mais rigorosa e sistemática de seu tempo, numa coerência metodológica relevante.
Nota-se no autor um equilíbrio entre o positivismo e a tradição, orientando-se sempre a visão do fato puro, sem as deformações criadas por idéias preconcebidas.
A moral, no ângulo social, é pela primeira vez examinada em profundidade e de modo fecundo, gerando uma nova disciplina: a sociologia moral.
Distinguindo uma moral aplicada, social, concreta, da mora teórica, diz que aquela é "a lei que se encontra nas principais combinações e circunstâncias da vida".
A moral teórica ou a lei geral da moralidade vale como esquematização mais ou menos aproximativa da realidade, mas não é a realidade mesma, pois "jamais um código, uma consciência moral foi reconhecida ou sancionada, nem imperativo moral de Kant, nem a lei do útil formulada por Betham ou Spencer" (op. Cit. p. 22).
A moral aplicada é o que se chama de moralidade, para distinguir simplesmente da moral, que é a teórica.
E na moralidade é onde situam os elementos como o espírito de disciplina (regularidade e autoridade), a solidariedade e a autonomia da vontade.
A moralidade seria "a congregação das regras morais, o conjunto das regras morais, constituindo uma espécie de barreira ideal, ao pé da qual a onda das paixões humanas vem morrer" (p.36).
Não nos parece, como a outros, que o sociólogo francês incidida propriamente no sociologismo, uma vez que declara que "o domínio da moral começa ai onde começa o domínio social".
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