As ciências humanas no ensino fundamental



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AS CIÊNCIAS HUMANAS NO ENSINO FUNDAMENTAL

Miriam Bianca Amaral Ribeiro-UFG

Angela Belem Mascarenhas-UFG

Simei Araújo Silva-UFG

As Ciências Humanas no Ensino Fundamental têm um papel importante no sentido de ajudar a descortinar o mundo aos olhos do educando, oferecendo instrumentos que possibilitem o desenvolvimento de sua capacidade de análise, interpretação e sistematização da realidade social. Não estamos diante de uma área de estudos com estatuto menor de cientificidade – os tradicionais estudos sociais – mas, sim, face a uma área de conhecimento que realiza a integração de um conjunto de ciências do homem e da sociedade que se distinguem das Ciências Físicas e Naturais.Distinguem-se pelo seu objeto e seu método de investigação. Diferentemente das ciências naturais, que abordam fatos no plano exterior, as ciências humanas estão diante de as realizadas conscientemente, portadoras de significação.Elas procuram compreender as ações dos homens, o que os moveram, que fins buscavam e o significado destas ações.

O trabalho do professor do Ensino Fundamental não pode prescindir de uma significativa formação na área de Ciências Humanas tanto para exercer sua tarefa em sala de aula, atuando diretamente com conceitos e conteúdos desta área junto aos seus alunos, quanto para compreender o universo das relações socais, econômicas, políticas, históricas e culturais que compõem o cotidiano escolar.

Goldmam (1986) chama-nos a atenção para o fato de que alem de sua significação consciente no pensamento e na intenção dos agentes, os fatos histórico – sociais têm uma significação objetiva.O cientista social não pode ignorar a intenção subjetiva nem a significação objetiva das ações humanas.Para ele, as ciências humanas constituem-se da análise da ação humana, sua estrutura, aspirações que a animam e alterações que sofre. O processo do conhecimento científico é ele próprio um fato humano, histórico e social. Isso implica estudar a vida humana, a identidade entre sujeito e objeto, o que se coloca diferente das ciências naturais.É preciso ligar o estudo dos fatos de consciência à sua localização histórica e à sua infra-estrutura econômica e social.

As considerações de Goldmam nos levam a refletir sobre a fundamentação teórico-metodológica das Ciências Humanas e seu papel no ensino fundamental, bem como na formação do professor.Não podemos exercitar um ensino qualificador das ciências humanas, desrespeitando o caráter interdisciplinar e complementar das mesmas, nem ignorar o significado da visão de mundo sustentada pelo professor em seu trabalho pedagógico.

Recorremos a concepção de homem onilateral destacada por Manacorda (1991) em sua discussão sobre Marx e a pedagogia moderna.O conceito de homem onilateral coloca a exigência de um desenvolvimento total, completo, multilateral, em todos os sentidos, das necessidades e da capacidade humana de satisfação. A onilateralidade é considerada objetivamente, o fim da educação.Dentro desta, o ensino das ciências humanas e a formação do professor como desenvolvimento da capacidade de compreensão e interpretação da realidade social tem uma grande contribuição a dar.

As Ciências Humanas, para representarem uma contribuição coerente e consistente na formação do educando, deve abarcar as noções básicas referentes às ciências que compõem essa área: História, Geografia, Ciência política, Antropologia, Sociologia.Isso pressupõe a formação do professor no que diz respeito aos conceitos básicos de cada uma destas ciências.Isso para realizar seus trabalhos em sala e para compreender as relações sociais em que está envolvido.A formação destes conceitos resulta de uma atividade complexa, em que todas as funções intelectuais básicas tomam parte.Segundo Vigotsky (1993), o desenvolvimento dos processos que finalmente resultam na formação do conceito, começa na fase mais precoce da infância, mas, as funções intelectuais que, numa combinação específica, formam a base psicológica no processo de formação dos conceitos, só amadurecem na puberdade.No entanto, se o ambiente não fizer novas exigências ao indivíduo e não estimular seu intelecto, proporcionando uma série de novos objetos, o seu raciocínio não conseguirá atingir estágios mais elevados ou só aos alcançará com grande atraso.

Percebemos, então, a importância de um ensino estimulante e significativo que possibilite o desabrochar da capacidade de elaboração e sistematização do educando, somente possível na medida em que o professor domine tais conceitos e seu processo de construção, bem como seu papel na formação do aluno.

Muito importante é se estabelecer à relação entre o desenvolvimento dos conceitos científicos e dos conceitos cotidianos ou espontâneos.Para Vigotsky (1983), portanto, é o desenvolvimento de ambos que se relacionam e se influenciam constantemente.Os mesmos têm caracterização específica, mas, fazem parte de um processo único. A conceito espontâneo refere-se a um confronto com uma situação concreta, sendo que um conceito científico refere-se a uma situação mediada com relação a seu objeto. São, portanto elementos distintos, mas que alimentam reciprocamente. Mais uma vez, a compreensão do professor em relação aos conceitos que fundamenta as ciências humanas e seu papel na formação do aluno, é decisiva.

O Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Ciências Humanas, vinculado ao NUFOP (Núcleo de Formação de Professores), da Faculdade de Educação da UFG, atua desde Janeiro de 2000, desenvolvendo pesquisa e extensão sobre o ensino das Ciências Humanas na Educação Básica.O grupo tem como objetivo desenvolver temáticas relativas à concepção e método das Ciências humanas e seu rebatimento sobre o processo pedagógico. Temos avançado na fundamentação e discussão de uma proposta que trabalhe a área de Ciências Humanas nas séries iniciais do Ensino Fundamental e na negação de sua visão compartimentada em apenas duas das ciências que compõem essa área: a História e a Geografia.Essa proposta é a que o MEC apresenta nos PCNs e que a nosso ver, não contribuem para a formação do professor, muito menos do aluno que se pretende.Essa discussão nos remeteu a leituras e a uma inevitável observação do cotidiano do ensino das ciências humanas. A pesquisa cujos resultados aqui apresentamos foi realizada entre Março de 2000 a junho de 2001, sem financiamento público.Ela compõe o processo de elaboração desta proposta de concepção e método para o ensino das ciências humanas que está em andamento nas atividades deste Grupo.O grupo conta com três professoras da área de Ciências Humanas da Faculdade de Educação da UFG e uma monitoria de graduação, além de quatro voluntárias.

A pesquisa em questão foi proposta para que se pudesse levantar dados relativos ao ensino das Ciências Humanas na Rede Municipal de Educação de Goiânia. Isso porque temos observado, no universo acadêmico e mesmo no âmbito das Secretarias de Educação, uma significativa e bem fundamentada discussão sobre o papel decisivo das Ciências Humanas na formação do sujeito. Já se tornou lugar-comum e por isso desprovido de significado, o chavão “formar o cidadão crítico”, presente em todo e qualquer discurso ou planejamento didático pedagógico.Queríamos saber a quantas anda a relação entre esse belo e necessário objetivo e o cotidiano das salas de aula de Ciências Humanas, notadamente, de história e geografia.Queríamos entender qual é a idéia de Ciências Humanas, concepção e método, presente na visão dos professores das séries iniciais do Ensino Fundamental, tendo como referencial os elementos apresentados nas linhas iniciais deste texto.O professor, ao fazer esse discurso que coloca como objetivo de seu trabalho, a formação do ”cidadão crítico”, tem fundamentado tal projeto numa sólida compreensão e domínio conceitual da base teórico-metodológica que torna isso realizável?

Escolhemos a rede municipal de Goiânia porque temos uma convivência próxima com a história da rede municipal e acompanhamos várias das experiências de formação continuada e de reformulação curricular desenvolvidas pela secretaria. Consideramos essa rede com um espaço já acostumado a essas discussões cuja repercussão no cotidiano escolar que pretendíamos levantar. Assim, temos a rede com um local onde as questões propostas, de longa data, têm sido objeto de eventos de formação dos professores.

A rede municipal de Goiânia, quando da realização da pesquisa, estava organizada parcialmente em ciclos de formação e parcialmente em regime seriado, em 170 escolas distribuídas em quatro núcleos regionais.Foram selecionadas 16 escolas, aleatoriamente, metade delas em regime de ciclo e metade em regime seriado, sendo quatro escolas selecionadas por região. A partir de intenção de levantar a base teórica relativa à área de Ciências Humanas que dá sustentação à prática pedagógica dos professores da rede e da observação das contradições, existentes ou não, entre os avanços teórico-metodológicos nesta área e a sobrevivência das interpretações não-científicas e/ou positivistas nesta mesma prática, elaboramos um questionário aplicado a todos os professores de 1ª à 4ª série e dos ciclos I e II.Foram entrevistados, posteriormente, professores escolhidos aleatoriamente entre os que responderam o questionário.

O questionário foi composto de itens que discutiam aspectos como, concepção de ciências humanas e de ensino das ciências humanas, conteúdos trabalhados, metodologia utilizada, carga horária destinada à área de humanas, formas de avaliação, recursos didáticos adotados, participação dos alunos e da escola. Organizados e analisados os dados, constatamos o quadro que se segue.

Os professores pesquisados estão majoritariamente na faixa etária de 30 a 50 anos, sendo 43% portadores de diplomas de curso superior, 5% estão cursando o ensino superior, 19% possuem pós-graduação e 15% têm apenas o magistério.A maioria dos professores tem pelo menos seis anos de magistério.Assim, não estamos lidando com professores inexperientes nem leigos.

Esses professores apresentaram uma concepção de ciências humanas contraditória. Ao mesmo tempo manifestam objetivos como a construção de uma visão crítica, a contribuição para a formação da cidadania, a compreensão da realidade do aluno e do contexto histórico-social, apresentam uma percepção de ensino mecânico e descontextualizado, além da dificuldade de trabalhar interdisciplinarmente, inclusive na própria área de humanas. A idéia de cidadania não está circunscrita a um projeto de escola e sociedade, o que torna esse termo uma abstração, um lugar comum que acaba por não situar o conceito de cidadania nas contradições da sociedade capitalista.Isso é revelador da debilidade da formação do professor para o trabalho com os conteúdos constitutivos da área de humanas e de qualquer outra área de conhecimento.A desvalorização desta área de conhecimento e o distanciamento da realidade do aluno também são perceptíveis, embora o discurso do professor, abarque, freqüentemente, a defesa do papel desta área na formação do aluno como cidadão e em geral, o cidadão crítico.Todos esses elementos aparecem de maneira confusa e difusa na percepção do professor, indicando uma fragilidade na delimitação do objeto e método de estudos e a relação com seus objetivos.

Pudemos constatar que, na maioria, das vezes a carga horária da área não é especificada e pouco tempo é destinado ao trabalho com seus conteúdos, apesar de que na Rede Municipal de Educação de Goiânia, desde de 1998, existir a paridade entre as cargas horárias como um componente da implementação dos ciclos de formação. Nas séries iniciais essa situação é mais acentuada, visto que o processo de alfabetização quase se resume ao ensino de português e noções de matemática, não se percebendo o mesmo como um processo mais ampliado em que as ciências humanas têm uma grande contribuição a dar. Isso se faz mantendo-se o discurso sócio-interacionista, recheado de referências a Vigotsky, por exemplo, ao mesmo tempo em que se afirma a importância de todas as áreas de conhecimento para a formação do educando. Além disso, permanece a prática de considerar como parte da carga horária das disciplinas de Ciências Humanas, o tempo gasto com a preparação de festas, eventos e datas comemorativas realizadas pela escola no decorrer do ano letivo.

Quanto ao material didático utilizado, o professor não adota um livro especificamente.Quando isso acontece, o processo de escolha ocorre, de forma majoritária, entre os livros indicados pelo MEC. Muitas dificuldades são encontradas com relação ao material didático adequado ao trabalho com essa área de conhecimento. Neste item o professor registra a falta de opções, especialmente sobre os temas locais e regionais.Registra-se também uma contradição quando o professor se refere ao uso freqüente que afirma fazer de outros recursos como mapas, filmes, fotos, jornais, música, teatro, ao mesmo tempo em que reclamam da ausência de recursos. A indicação é que há uma intenção de usar tais recursos, mas, o cotidiano não registra essa prática, pelo menos na proporção que afirmam fazer.

Sobre os conteúdos trabalhados, encontramos o elemento mais problemático quanto ao ensino das ciências humanas na rede municipal de educação de Goiânia.Por esse item pudemos constatar que não existe, para os professores, uma definição clara do objeto de estudo.Nas respostas apresentadas percebemos que não existe uma delimitação do objeto das ciências humanas, e o que é pior, uma grande confusão entre o objeto da área de humanas e o objeto das ciências naturais.Não há um fio condutor que garanta a ordenação e a coerência dos conteúdos a serem trabalhados.Não há uma opção teórico-conceitual reconhecida e assumida, promovendo a idéia de que não há diferenças substanciais no trato dos conteúdos a partir de uma ou outra concepção. Isso dá espaço para a reprodução quase hegemônica do positivismo, considerado senso comum ou obviedade no trabalho com a área de humanas.

Foram citados desde o conteúdo de história e geografia até o corpo humano, higiene, cadeia alimentar, animais vertebrados e invertebrados, plantas, solo, estados da água e as indefectíveis datas comemorativas. Assim, nem mesmo a distinção entre ciências humanas e naturais é realizada. Isso demonstra o grau de indefinição do objeto das ciências humanas, comprometendo obviamente o uso de uma metodologia adequada e conseqüente.

Ficou evidenciado que as maiores referências para o ensino das Ciências Humanas são o currículo proposto pelo livro didático. Os PCN são citados, mas concretamente não se transformaram em um referencial concreto para a seleção de conteúdos a serem trabalhados no cotidiano da sala de aula.

Em relação à avaliação, consta-se que os professores descrevem recursos avaliativos que não correspondem à fragilidade e à incoerência encontradas na delimitação do objeto e do método. Citam majoritariamente um processo avaliativo contínuo, diagnóstico, formativo e participativo, quando as condições de ensino encontradas não possibilitam tais procedimentos.

A partir da análise dos dados realizada, concluímos que um dos maiores problemas relativos ao ensino das ciências humanas no campo observado é, ainda, a falta da delimitação do objeto e oi método das ciências humanas e da metodologia própria desta área de conhecimento. Essa situação traz sérias conseqüências, pois não há definição do objeto e dos métodos de estudos, levando ao um trabalho fragmentado, desconexo que não contribui significativamente para a formação e desenvolvimento do projeto do homem onillateral. Isso ocorrendo numa rede considerada com um exemplo de formação continuada explicita a distancia entre intenção e gesto, entre o exercício teórico, muitas vezes realizado no âmbito acadêmico e distante do cotidiano escolar.

De maneira geral, essa fragilidade teórica se apresenta, exemplarmente na freqüência dos chavões do tipo: formação para cidadania, compreensão da realidade do aluno, a construção de uma visão crítica.Não é objeto de questionamento do professor o conceito de cidadania, por exemplo, cuja diversidade de abordagens, como se sabe, decorre da diversidade de concepções de sociedade e de relações sociais.

Os resultados deste trabalho foram apresentados no I Seminário Educação e Ciências Humanas, realizado no auditório da Faculdade de Educação da UFG, contando com a presença de representantes oficiais da rede municipal e da rede estadual de educação, representante da rede particular e representante do Centro de Estudos e Pesquisas Aplicadas à Educação de UFG, antigo Colégio de Aplicação.


Derivado da pesquisa, como próxima tarefa do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Ciências Humanas, além de um novo projeto de pesquisa já em andamento, estamos produzindo um livro que tratará das discussões teórico-metodológicas da área de Ciências Humanas. Esta obra se destinará à formação do professor das séries iniciais do Ensino Fundamental e está sendo produzido pelos membros do Grupo de Estudos.A intenção é que ele aborde as principais lacunas detectadas pela pesquisa, na formação do professor.


BIBLIOGRAFIA

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GOMES, C.A. A Educação em Perspectiva Sociológica.SP.EPU. 1985.

GRAMCI, A. Os Intelectuais e a Organização da Cultura.RJ.Civilização Brasileira. 1991.

MANACORDA, M. Marx e a Pedagogia Moderna. SP.Cortez. 1991.

MARCELINO, N.C. (org.) Introdução às Ciências Sociais.SP. Papirus. 1989.

MARX, K. Contribuição à Crítica da Economia Política.SP.Martins Fontes. 1983.

VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. SP.Martins Fontes. 1993.



______________ A Formação Social da Mente.SP.Martins Fontes. 1989.




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