As enfermeiras e a enfermagem na época vitoriana segundo a obra de Anne Perry The nurses and nursing in the Victorian era in the work of Anne Perry Las enfermeras y la enfermeria en la época vitoriana en la obra de Anne Perry



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As enfermeiras e a enfermagem na época vitoriana segundo a obra de Anne Perry

The nurses and nursing in the Victorian era in the work of Anne Perry

Las enfermeras y la enfermeria en la época vitoriana en la obra de Anne Perry

Título abreviado – As enfermeiras e a enfermagem na época vitoriana

Resumo

A literatura policial sempre se interessou por ficcionar a relação da sociedade com a enfermagem, em geral, e com as mulheres enfermeiras, em particular.

Este artigo tem como objetivo analisar as conceções da enfermeira e da enfermagem, no período da Inglaterra Vitoriana. Trata-se de um estudo qualitativo, que adotou a pesquisa documental (quatro livros policias da autoria de Anne Perry) como método de análise.

Os resultados obtidos revelam as tentativas que ocorreram para promoverem mudança nos hospitais e na atitude das enfermeiras, e onde os contributos e influências de Florence Nightingale são marcantes. Começa a afirmar-se, nesta época, uma conceção da enfermagem moderna pautada por sistema de princípios, um modelo de ensino e pela arte de cuidar” (1:807). Neste contexto, o impacto da reforma sanitária ocorrida na Inglaterra vitoriana parece ter sido decisivo para afirmar socialmente a utilidade da enfermagem.

Abstract
The literature police fiction always been interested in the relationship between society and nursing in general and women nurses in particular.
This article aims to analyze the conception nurse and nursing in the period of Victorian England. This is a qualitative study, which adopted the documentary research (police authored four books of Anne Perry) as a method of analysis.
The results show that there were attempts to promote change in hospitals and the attitude of the nurses, and where the contributions and influences of Florence Nightingale are striking. Begins to assert itself at this time, a conception of modern nursing system guided by principles, a model of teaching and the art of caring "(1:807). In this context, the impact of health reform that took place in Victorian England seems to have been decisive for socially affirming the utility of nursing.

Resumen
La policía ficción literatura siempre ha estado interesado en la relación entre la sociedad y la enfermería en general y las enfermeras de la mujer en particular.


Este artículo tiene como objetivo analizar la enfermera concepciones y de enfermería en el periodo de la Inglaterra victoriana. Se trata de un estudio cualitativo, que adoptó la investigación documental (policía autor de cuatro libros de Anne Perry) como método de análisis.
Los resultados muestran que hubo intentos de promover el cambio en los hospitales y la actitud de las enfermeras, y donde los aportes e influencias de Florence Nightingale son sorprendentes. Comienza a hacerse valer en este momento, una concepción de sistema de la enfermería moderna guiada por principios, un modelo de la enseñanza y el arte de cuidar "(1:807). En este contexto, el impacto de la reforma de salud que tuvo lugar en la Inglaterra victoriana parece haber sido decisivo para afirmar la utilidad social de la enfermería.

Palavras-chave: Enfermagem, História, Memória Coletiva

Keywords: Nursing, History, Collective Memory

Palabras-Clave: Enfermeria, Historia, Memoria Colectiva

Introdução

Historicamente os cuidados de enfermagem radicam na tradição feminina ancestral do cuidado aos doentes e necessitados. Esta tradição teve avanços e recuos devido às convulsões políticas, sociais e económicas da própria sociedade. Deste modo, os diferentes períodos históricos deram lugar a diferentes modos de exercer os cuidados.

Tratando-se de uma profissão eminentemente feminina, a enfermagem foi desvalorizada justamente por ser feminina. As conceções históricas sobre a profissão são reveladoras não apenas do papel que algumas mulheres protagonizaram, no seu tempo, em termos do desenvolvimento da profissão, mas são também esclarecedoras da forma como a ficção literária foi mostrando/revelando a relação da sociedade com a enfermagem, em geral, e com as mulheres enfermeiras, em particular. “A relação da profissão com a sociedade é permeada pelos conceitos, preconceitos e estereótipos que se estabeleceram na sua trajetória histórica e que influenciam até hoje a conceção do que é a enfermagem” (6:332). Para “construir a memória da enfermagem e analisar criticamente a história das enfermeiras e da enfermagem” (6:327) é indispensável o “registo sistematizado da história da enfermagem nas suas diversas faces e fases” (6:327) para um melhor conhecimento dos enfermeiros e da sua identidade enquanto grupo profissional. Desde os primórdios da humanidade que a prática de cuidados expressa a organização social. Na sua evolução histórica a enfermagem percorreu um caminho tortuoso que radicou na consideração dos cuidados como extensão do trabalho doméstico de obrigação feminina e na moral duvidosa das mulheres que exerciam a enfermagem nos séculos XVI e XVII. Foi esta imagem que ao “longo da história traduziu as representações dos cuidados e das cuidadoras” (2:334). Aquilo que ficou consignado na literatura como anseios, dificuldades ou êxitos de quem quis tomar a enfermagem como modo de vida profissional é esclarecedor da situação da enfermagem na sociedade, ao longo da história.

Objetivo

Analisar as conceções da enfermeira e da enfermagem, no período da Inglaterra Vitoriana.



A obra de Anne Perry

Estamos em plena época vitoriana que é, simultaneamente, a época de Florence Nightingale, considerada por muitos como pioneira da enfermagem moderna. A análise desenvolvida, parte da leitura de várias obras da autora e pretende evidenciar o conjunto das representações que essa sociedade tinha quer em relação à profissão, quer às mulheres que pretendiam segui-la.

Anne Perry, pseudónimo de Juliet Hulme, nasceu em Londres em 1938, vive atualmente na Escócia. Foi uma escritora conceituada de romances policiais, cujas histórias decorrem justamente nessa Inglaterra vitoriana. Numa das séries da sua obra marca sempre presença uma enfermeira, Hester Laterly, discípula de Florence Nightingale. A presença desta personagem leva a autora a detalhadas descrições dos hospitais, dos cuidados aí praticados, da imagem social da enfermeira e das representações e estereótipos correntes sobre a enfermagem (7-8-9-10).

A obra de Anne Perry é muito vasta (engloba duas séries de livros policiais, uma dessas séries tem como personagens principais um detetive, Thomas Pitt, proveniente de uma classe social menos abastada e Charlotte, uma jovem que ao contrário de Pitt, provém da classe mais influente. A segunda série apresenta o detetive William Monk e uma enfermeira). Este trabalho assenta na leitura de quatro livros da autora, da segunda série, traduzidos para português pela editora Gótica, em que Hester Laterly, a enfermeira, é uma das personagens centrais, nomeadamente: “Um luto perigoso” (7); “Uma morte súbita e terrível” (8); “Os pecados do lobo” (9) e “Caim seu irmão” (10).

Cada uma destas obras desenvolve-se em torno de um homicídio e da consequente investigação em ordem a encontrar o assassino. O desenrolar da investigação criminal, exaustivamente relatado, faz emergir as condições de vida da época, ressaltando, simultaneamente, o modo de funcionamento dos hospitais londrinos e do papel que neles era reservado à enfermagem e às enfermeiras, entre as quais de destaca Hester Laterly.

Metodologia

Trata-se de um estudo qualitativo, que adotou a pesquisa documental como método para analisar a produção do conhecimento das conceções sócio históricas de enfermeira e enfermagem prevalentes na época vitoriana, em Inglaterra. As fontes foram quatro livros policiais da escritora Anne Perry: “Um luto perigoso” (7); “Uma morte súbita e terrível” (8); “Os pecados do lobo” (9) e “Caim seu irmão” (10). Em cada uma destas obras a enfermeira assume um papel central.

A análise dos referidos livros, na perspetiva do olhar da história sobre a memória coletiva da enfermeira e da enfermagem permitiu elencar 03 categorias (Impreparação e moral duvidosa; criadas dos médicos que mantinham a limpeza e a reforma dos hospitais e os princípios de Nightingale) para discussão, da imagem social da enfermeira e das conceções de enfermagem, na referida época, bem como a contribuição deste conhecimento para a consolidação e afirmação social da profissão.

Impreparação e moral duvidosa

A enfermagem hospitalar da época é descrita como uma prática desorganizada, sem conhecimentos específicos e científicos e geradora de condutas reprováveis. Os excertos seguintes revelam claramente o imaginário social da profissão e daquelas que a praticavam:

Havia tanta coisa melhor para fazer, a começar pelas reformas propostas por Florence Nightingale e que Hester tão ardentemente desejava. Ali, em Inglaterra, a luz e o ar nas enfermarias eram considerados desnecessários, senão mesmo prejudiciais. A instituição médica era desesperadamente conservadora, ciosa do seu conhecimento e privilégios e refratária a qualquer mudança. Não havia lugar para as mulheres… (7:73).

…suponho que está a par da natureza das mulheres que se dedicam a este trabalho? Têm pouca ou nenhuma educação, e o tipo de moral que se esperaria de tal gente (7:126). O Dr. Moncrieff é um médico, um praticante da arte da medicina. Miss Latterley é uma enfermeira, uma servidora dos médicos nos cuidados que prestam aos pacientes, para enrolar ligaduras, fazer camas, ir levar e buscar coisas. Não diagnostica doenças, não receita medicamentos, não faz operações seja de que natureza for. Faz o que lhe mandam, e nada mais (7:309).

Salienta-se que a falta de qualificação e a negligência das enfermeiras em relação ao cumprimento dos seus deveres estão bastante documentadas em países como a Inglaterra (7-8).

Na obra um luto perigoso surge uma descrição das enfermarias da época onde os doentes se apinhavam em camas estreitas e a curta distância umas das outras. Estas enfermarias geralmente compridas e estreitas, quase sem janelas que nunca se abriam, eram aquecidas com salamandras cujos lumes eram ateados e mantidos pelas enfermeiras. Os hospitais eram negligenciados, depósitos insalubres para os doentes, onde homens, mulheres e crianças coabitavam, por vezes, em leitos colectivos. Os hospitais eram, na época, locais de horror por não haver ninguém habilitado para o cuidar. Esta situação ocorria desde que Henrique VIII, no século XVII, suprimiu todas as ordens religiosas e recrutou mulheres de todas as origens para aumentar o número/contingente de enfermeiras (10).

Na época, os médicos concebiam o trabalho das enfermeiras a partir de tarefas desqualificadas que se concretizavam no lavar, varrer, esfregar, enrolar, guardar e entregar ligaduras. Estes serviços eram prestados por mulheres de baixos padrões morais, nas palavras da autora, e não apresentavam atractivos para as mulheres de classes sociais elevadas. Quando uma mulher já não podia ganhar dinheiro com a “vida fácil” (prostituição) restava-lhe tornar-se enfermeira. As enfermeiras eram recrutadas entre antigas doentes, reclusas e nos estratos mais baixos da sociedade. Eram mal remuneradas e trabalhavam longas horas, aceitando subornos com frequência. As enfermeiras mais velhas (ou com mais anos de profissão) tinham ainda como obrigação manter a disciplina, especialmente a disciplina moral. A enfermagem não estava organizada e carecia de posição/estatuto social e assim, ninguém que pudesse ganhar a vida de outra forma desejava ser enfermeira. As enfermeiras não tinham voz na direcção dos hospitais nem na organização da profissão (7).

Segundo este romance, Hester (a personagem) havia regressado da Crimeia com a esperança, tal como outras mulheres, de ajudar a reformar a “mentalidade” retrógrada e tradicionalista que regia o funcionamento dos hospitais ingleses. No entanto, revelara-se mais difícil do que esperava, conseguir um emprego como enfermeira e ainda mais difícil exercer alguma influência de tipo reformador. Apesar do prestígio alcançado por Florence Nightingale, a instituição médica não estava preparada para receber jovens mulheres com ideias de reforma e Hester descobriu isso através de muitos confrontos e discussões, que se vieram a revelar completamente improdutivos. À época, as mulheres não podiam aceder ao curso de medicina porque este era entendido como uma questão de perícia, raciocínio e inteligência, obviamente qualidades e capacidades não acessíveis às mulheres. Apesar disso, Hester, desejava ver a enfermagem transformada numa profissão respeitada e condignamente remunerada, de modo a atrair mulheres de “carácter e inteligência” (8).

Nesta altura já existiam enfermeiras graduadas que provinham de classes sociais elevadas e tinham recebido formação com Nightingale, na Guerra da Crimeia, e que mantinham uma disciplina rígida e “um moral elevado” sem, no entanto, terem o desejo de prestar cuidados ou tomar decisões. Considerava-se que as enfermeiras regressadas da Crimeia tinham uma opinião excessivamente elevada das suas capacidades e exerciam uma influência perturbadora e altamente indesejável para o desenvolvimento da enfermagem. Parte do problema residia naquilo que pensavam da enfermagem e da “natureza moral” das pessoas que deviam exercê-la. As enfermeiras eram mal remuneradas e muitos enfermeiros passavam a maior parte do tempo embriagados. O hospital fornecia-lhes comida, o que evitava que a roubassem aos doentes. Este dado, revela-nos as carências de todo o tipo que dominavam os homens e mulheres que eram atraídos pela profissão! A maior parte não sabia ler nem escrever. Em regra as enfermeiras laicas eram descritas como ignorantes, rudes, desconsiderados, imorais e alcoólicas. Neste romance é manifesta a opinião dos médicos sobre o trabalho das enfermeiras, acusando-as de tentativas de praticar uma arte para a qual não tinham treino nem mandato… “a senhora obedecerá às minhas instruções”(9), dominava a opinião dos médicos sobre o papel das enfermeiras.

Criadas dos médicos que mantinham a limpeza

O papel das enfermeiras era manter os pacientes limpos e frescos, ao abrigo de temperaturas excessivas. Aplicavam gelo segundo as indicações do médico e ministravam as bebidas prescritas. Iam buscar, transportavam e entregavam ligaduras e instrumentos conforme lhes era ordenado. Mantinham a enfermaria limpa e arrumada, espevitavam o lume e serviam as refeições. No fundo pretendia-se que mantivessem a ordem e a moral elevada nas enfermeiras, e era tudo (9). Não tinham, nem lhes eram reconhecidos, qualquer tipo de conhecimentos ou competências científicas, de medicina ou de outros domínios, e nunca, em circunstância alguma, atuavam com base nas suas próprias decisões. Paradoxalmente, nas escolas de Nightingale onde era exigida disciplina rigorosa e qualidades morais, as aulas eram ministradas por médicos, os mesmos que acusavam as enfermeiras de tentativas de praticar uma arte para a qual não tinham treino nem mandato… “a senhora obedecerá às minhas instruções”(9), o que de certa forma levava à reprodução de um modelo de cuidados e de supremacia do médico.

No livro, Uma morte súbita e terrível, fica evidenciado o desfasamento existente entre as expectativas desenvolvidas pelo grupo das enfermeiras que trabalhou junto de Florence Nightingale e que desenvolveu competências específicas ao nível dos cuidados, mas, também, ao nível da tomada de decisão, da autonomia, segundo um modelo que era em tudo diferente do contexto cultural da Inglaterra vitoriana. Através da personagem da enfermeira Hester deparamo-nos com uma Inglaterra (9)

onde não havia lugar para uma jovem inteligente e dotada de sentido crítico, sobre factos, coisas que não eram consideradas da sua esfera de atuação. Com cerca de 30 anos de idade, portanto demasiado velha para ser favoravelmente considerada para um eventual casamento e, por isso, condenada a continuar a trabalhar para se sustentar, ou ficar para sempre dependente da caridade de algum parente varão5:21, Hester conseguira, por pouco tempo, um emprego num hospital de Londres. Porém, o hábito de dar conselhos aos médicos, e finalmente, um ato de total insubordinação ao tratar/cuidar por sua conta e risco um doente tinham-lhe merecido o despedimento. O facto de ter quase a certeza de ter salvado a vida do doente só tornara o crime mais grave (8:21).

As enfermeiras serviam para lavar a enfermaria, despejar bacios, enrolar ligaduras e, de um modo geral, fazer o que lhes mandavam. A prática dos cuidados estava exclusivamente reservada aos médicos. Depois disso, Hester tem de se dedicar à enfermagem particular. Pelo seu espírito passam os sonhos e as ilusões que se desfazem em raiva, desespero e desalento. Havia tanta coisa para fazer, a começar pelas reformas propostas por Florence Nightingale e que Hester tão ardentemente desejava. Em Inglaterra, naquela época, a luz e o ar nas enfermarias eram considerados desnecessários, senão mesmo prejudiciais. A instituição médica era desesperadamente conservadora, e refratária a qualquer mudança. Não havia lugar para as mulheres a não ser como

burras de carga ou, em raras ocasiões, administrativas, como a governanta do hospital, ou ainda colaboradoras voluntárias, como era o caso de algumas senhoras da sociedade que trabalhavam no voluntariado, vigiando a moralidade dos outros ou usando as suas relações de poder para obter donativos em dinheiro (8:73).

Neste romance, a governanta hospitalar, Mrs Flaherry, uma mulher pequena e tensa que se ofendia com extrema facilidade e que nunca esquecia nem perdoava fosse a quem fosse, geria as enfermeiras com eficiência, forçava-as, pelo terror, a um grau notável de diligência e sobriedade, e tinha para com os doentes uma paciência que parecia ilimitada (8:74). “Era rígida nas suas convicções, na sua devoção aos médicos, e recusava intransigentemente ouvir falar de ideias novas e de quem as advogava. Nem o nome de Florence Nightingale encerrava para ela qualquer espécie de magia” (8:74).

Uma Morte súbita e Terrível relata o homicídio de uma enfermeira, que teria trinta e poucos anos, considerada excelente, “que servira com Nightingale na Crimeia, e que era, evidentemente, solteira” (8:104). Hester Latterly, a enfermeira, surge-nos neste livro como uma jovem independente que foi igualmente enfermeira na guerra da Crimeia e cuja profissão lhe proporciona a cobertura perfeita para arranjar trabalho no hospital, substituindo a enfermeira assassinada e simultaneamente ajudando o detetive a descobrir o assassino. A princípio parece não haver qualquer motivo para o assassínio, no entanto, este romance permite descobrir o amargo conflito resultante das práticas médicas (10).

No romance, Os pecados do lobo, surge de novo a personagem Hester a tentar implementar algumas das novas práticas de enfermagem que tão dolorosamente aprendera sobre higiene hospitalar, de acordo com as teorias de Nightingale e até, reformar as antigas ideias vigentes em Inglaterra. Os seus esforços, como já se disse, tinham-lhe valido ser despedida por teimosia e desobediência. Num curto espaço de tempo arranjara emprego como enfermeira particular, e quando o doente se restabelece, procura outro que necessite dos seus cuidados. Alguns destes trabalhos função remunerada, o que lhe garantia independência. Neste contexto respondeu a um anúncio de uma família que procurava uma jovem de bom nascimento e com alguma experiência de enfermagem para acompanhante de uma senhora doente em viagem. Salientava-se no anúncio que uma das companheiras de Nightingale teria preferência. Esta senhora morreu durante a viagem e Hester veio a ser acusada de negligência. Quando é informado da situação de Hester, o irmão diz não aprovar a profissão dela, “se é que se pode chamar profissão, mas considera que é mais do que competente na sua prática”7:124. No seguimento da acusação de que é alvo, a autora confronta o leitor com todos os preconceitos presentes na sociedade vitoriana sobre as enfermeiras. “Todos sabemos como são as enfermeiras. Bêbedas, porcas e desavergonhadas, a maior parte delas” (7:124). “Trata-se de uma das jovens que foram cuidar dos nossos homens na Crimeia… esteve com Nightingale” (7:124). É uma enfermeira,

uma servidora dos médicos nos cuidados que prestam aos doentes, para enrolar ligaduras, fazer camas, ir levar e buscar coisas. Não diagnostica doenças, não receita medicamentos, não faz operações seja de que natureza for. Faz o que lhe mandam e nada mais (7:309).

Corajosa, honesta, dedicada à sua vocação e capaz de compaixão sem sentimentalismo, “era obstinada, por vezes precipitada a julgar outros que considerava incompetentes” (7:312). “Trata-se de uma das jovens que foram cuidar dos nossos homens na Crimeia…Esteve com Miss Nightingale (7:139). “Fora enfermeira na Crimeia e agora regressara a uma Inglaterra onde não havia lugar para uma jovem altamente inteligente e ainda mais altamente opiniosa, apesar de ela já não ser assim tão jovem! Tinha, provavelmente, mais de trinta, demasiado velha para ser favoravelmente considerada para um eventual casamento, e por isso condenada a continuar a trabalhar para se sustentar” (9:21).

A reforma dos hospitais e os princípios de Nightingale

Na Inglaterra do século XIX, o progresso das ciências e a sofisticação da técnica, com reflexos em todas os estratos sociais, criaram as condições para o surgir de um novo perfil feminino. Este processo evolutivo suscitou a necessidade de procurar um ponto de equilíbrio entre o público e o privado, numa base que reflectisse a solidez e estabilidade. Essa base era o lar representado por um guardião de moral e castidade. Assim nasceu o perfil da mulher vitoriana, sendo que a própria rainha atribuía o sucesso do seu reinado à moralidade existente na corte e à harmonia da vida doméstica (7-9).

No decurso do século XIX, segundo alguns autores, surge a designada enfermagem moderna com base nas ideias de Florence Nightingale. Estamos em plena época vitoriana que compreende a segunda metade do século XIX e a primeira década do século XX, representando uma certa estabilidade do Império britânico, governado pela Rainha Vitória. A revolução de Nightingale foi importante na história da enfermagem moderna e na reforma dos hospitais, nomeadamente quando observada no contexto das restrições sociais impostas às mulheres na época vitoriana. De relevo são os esforços desenvolvidos para reformar o sistema de cuidados de saúde e a elaboração de um programa de formação de enfermagem sólido e baseado em normas profissionais (7).

Assim, os cuidados que no século XVII e XVIII, eram prestados por ordens religiosas, tiveram no século XIX um retrocesso pela decadência dessas mesmas ordens resultante do espírito secularizante da época mas também porque as irmãs da caridade não estavam preparadas para satisfazer as novas necessidades que se impunham ao hospital (8). Embora tenham sido realizados alguns esforços para melhorar a qualidade dos cuidados de enfermagem, a situação não se alterou, no essencial, na primeira metade do século XIX. Existe contudo uma melhor compreensão humana dos problemas que tradicionalmente enfrentava a enfermagem, à qual não será alheio o efeito do exemplo de Nightingale (7).

Mas é nesta época e neste contexto que têm início as preocupações com o ambiente proporcionado ao doente, a necessidade de luz, ar fresco, silêncio e higiene relacionadas com a saúde. As enfermeiras (personagens) presentes nos livros de Anne Perry, da escola de Nightingale, revelam essas preocupações com o ambiente, diferindo do padronizado nos hospitais ingleses da época e conduzindo a diferendos e confrontos vários com a instituição médica que, não estava preparada para receber jovens mulheres com ideias de reforma (9) e Hester descobriu isso através de muitos confrontos estéreis.

Novamente a ideia de que o trabalho da enfermeira (o) era o de trabalho na esfera privada, associado às actividades domésticas, as enfermeiras serviam para lavar a enfermaria…de um modo geral fazer o que lhe mandavam (5). Por esta altura podia acontecer que algumas enfermeiras conseguissem trabalhar para famílias da alta sociedade, no entanto pela deficiente preparação e educação, os cuidados privados não eram melhores que os prestados nos hospitais públicos. “É uma enfermeira, uma servidora dos médicos nos cuidados que prestam aos doentes…faz o que lhe mandam e nada mais” (7:309).

Apesar dos esforços desenvolvidos para melhorar os cuidados de enfermagem, chegamos ao século XIX, considerando a enfermagem como profissão indigna para senhoras, “particularmente se a mulher em questão é bem-nascida e não tem a mínima necessidade de trabalhar para ganhar a vida” (5.125). “Era uma excelente enfermeira mas não médica, a diferença é enorme, um abismo intransponível (5:364). Sabia apenas o que tinha aprendido por experiência e observação…era boa enfermeira mas nunca poderia ter sido mais. “Nunca uma mulher estudou medicina…as mulheres não são adequadas, é uma profissão que exige a força intelectual e a resistência física de um homem…para não falar do equilíbrio emocional” (5:396). A maioria das enfermeiras, descritas nos romances de Anne Perry, corresponde igualmente ao retrato físico e psicológico descrito por Charles Dickens (1812-1870), romancista da época vitoriana que contribuiu para a introdução da crítica social na literatura. Dickens descreve o que uma enfermeira não deve ser através da personagem Sairy Gamps, como mulher leiga e transgressora de regras. A personagem de Sairy surge enganando os doentes, roubando a sua comida e haveres, exigindo que os doentes lhe pagassem os pequenos serviços adicionais e era deliberadamente cruéis com os doentes (8).

Esta imagem da enfermeira descrita por Dickens e, posteriormente por Perry revela uma representação contrária àquela que foi criada relativamente a Nightingale e às enfermeiras que estiveram com ela na guerra da Crimeia. Não raras vezes a vemos descrita como a dama da lâmpada, simbolizando alguém que zela, dia e noite, pelo bem-estar dos doentes. Radica aqui o conceito mais ou menos estereotipado da enfermeira como anjo da guarda e de santa o que de algum modo é vertido na cor dos uniformes usados pelas enfermeiras.

A visibilidade social que advém da representação social da enfermeira nas obras de autores, como Charles Dickens no século XIX, e Anne Perry, no século XX mas reportando-se à sociedade da época, frequentemente assume carácter depreciativo porque revela as mulheres privadas de educação e exercendo actividades diversas, nos hospitais, em longas jornadas de trabalho ou por oposição a mulher enfermeira como submissa, caridosa e piedosa.

Esta outra representação da enfermeira construída a partir da imagem do anjo da guarda à cabeceira do doente será uma construção social do romantismo e da sociedade vitoriana, apoiada em Florence Nightingale. Na segunda metade do século XIX, Florence Nightingale procurou profissionalizar os cuidados e adotar princípios rígidos de moralidade na seleção das enfermeiras, dando assim à enfermagem o estatuto socioprofissional que lhe faltava (2:334).

Com o período do romantismo e ainda sob influência de Nightingale10, a literatura passa a popularizar o conceito de enfermeira à cabeceira do doente, ainda e sempre um papel destinado à mulher, no domínio da prestação de cuidados no domicílio.

Considerações Finais

A imagem que a enfermeira teve ao longo do tempo foi sempre determinada por representações sociais e estereótipos que incluem figuras como santas, prostitutas, feiticeiras ou heroínas e relacionam-se com a função de auxiliar do médico e com a ausência de vida social. O autoconceito das enfermeiras assim como a imagem social do seu trabalho eram negativas o que historicamente contribuía para um baixo grau de realização pessoal e para um imaginário estereotipado da profissão e destas profissionais.

As representações das enfermeiras construídas a partir do imaginário social da época expressam-se em dois polos opostos, a que correspondem estereótipos associados à identidade profissional das enfermeiras e à sua classe social de origem.

De um lado, temos as imagens da enfermagem construídas através da história da profissão, essencialmente a religiosa e a servil, dando origem aos estereótipos da enfermagem que apontam para a enfermeira como dama de caridade, ajudante do médico, executora de técnicas, cuidadora de doentes ou administradora.

Do outro, uma imagem da enfermagem consubstanciada nas teorias emergentes de Florence Nightingale que visavam produzir alterações na forma como se prestavam os cuidados, mas onde a dominação do modelo médico nunca era questionada. Nas escolas de Nightingale onde era exigida disciplina rigorosa e qualidades morais, as aulas eram ministradas por médicos, os mesmos que acusavam as enfermeiras de tentativas de praticar uma arte para a qual não tinham treino nem mandato 9. Aqui reproduzia-se um modelo de cuidados onde imperava a supremacia médica.

Na obra analisada de Anne Perry a Representação social da enfermeira é bem representativa da época. Mulheres sem acesso à medicina, deviam viver na dependência do pai, marido ou familiar varão para se poderem sustentar e apesar de possuírem inteligência, discernimento e coragem eram mulheres e por consequência deviam submeter-se às ordens do médico (homem).

A representação social da enfermeira ancora-se na obediência, humildade, respeito pela hierarquia e no trabalho como maior prioridade pessoal. Também, o facto de os cuidados ao doente serem maioritariamente manuais concorreu para uma desvalorização da profissão, dado que as actividades práticas são normalmente consideradas como menores relativamente ao trabalho intelectual, sempre associado ao médico. Historicamente, a falta de prestígio atribuído à profissão e a invisibilidade do trabalho realizado conduziram, por vezes, as enfermeiras quer a delegar as suas atividades noutros profissionais (auxiliares), quer investindo em atividades socialmente mais reconhecidas (do domínio médico), tentando assim, supostamente, alcançar maior visibilidade e reconhecimento social da profissão.

Na sociedade atual, embora a profissão de enfermagem tenha evoluído, a representação da enfermeira ainda expressa alguns dos estereótipos associados às representações sociais da época vitoriana.

Referências bibliográficas

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