As formas elementares da vida religiosa émile Durkhein introduçÃo objeto da pesquisa sociologia religiosa e teoria do conhecimento



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CAPÍTULO II

AS PRINCIPAIS CONCEP Ç ÕES DA RELIGIÃO ELEMENTAR

I - O animismo

Munidos dessa definição, podemos sair em busca da religião elementar

que nos propomos alcançar.



As religiões, mesmo as mais grosseiras que a história e a etnografia

nos fazem conhecer, já são de uma complexidade que se ajusta mal à idéia

que algumas vezes se faz da mentalidade primitiva. Nelas encontramos não

apenas um sistema cerrado de crenças e de ritos, mas inclusive tal

pluralidade de princípios diferentes, tal riqueza de noções essenciais, que

pareceu impossível perceber nelas outra coisa que o produto tardio de uma

evolução bastante longa. Donde se concluiu que, para descobrir a forma

realmente original da vida religiosa, era necessário descer, através da

análise, mais abaixo dessas religiões observáveis, decompô-las em seus

elementos comuns e fundamentais, para descobrir se, entre estes últimos,

haveria algum do qual os outros derivaram.

O problema assim colocado, duas soluções contrárias foram propostas.

Não existe, por assim dizer, sistema religioso, antigo ou recente, no qual,.55

sob formas diversas, não se encontrem lado a lado como que duas

religiões, as quais, embora estreitamente unidas e até penetrando-se

mutuamente, não deixam de ser distintas. Uma dirige-se às coisas da

natureza, seja às grandes forças cósmicas, como os ventos, os rios, os

astros, o céu, etc., seja aos objetos de todo tipo que povoam a superfície da

terra, plantas, animais, pedras, etc.; por esse motivo lhe dão o nome de

naturissmo. A outra tem por objeto os seres espirituais, os espíritos, almas,

gênios, demônios, divindades propriamente ditas, agentes animados e

conscientes como o homem, mas que se distinguem dele pela natureza dos

poderes que lhes são atribuídos e, sobretudo, pela característica particular

de não afetarem os sentidos do mesmo modo: normalmente não são

perceptíveis a olhos humanos. Chama-se animismo essa religião dos

espíritos. Ora, para explicar a coexistência, por assim dizer universal,

dessas duas espécies de culto, duas teorias contraditórias foram propostas.

Para uns, o animismo seria a religião primitiva, da qual o naturismo seria

apenas uma forma secundária e derivada. Para outros, ao contrário, o culto

da natureza é que seria o ponto de partida da evolução religiosa, o culto

dos espíritos sendo apenas um caso particular dele.

Essas duas teorias são, até o presente, as únicas pelas quais se tentou

explicar racionalmente 1 as origens do pensamento religioso. Assim, o

problema capital que a ciência das religiões se coloca freqüentemente se

reduz a saber qual dessas duas soluções é preciso escolher, ou se não seria

melhor combiná-las, e, neste caso, que lugar deve-se atribuir a cada um

desses dois elementos 2 . Mesmo os estudiosos que não admitem nenhuma

dessas hipóteses em sua forma sistemática, não deixam de conservar esta

ou aquela das proposições sobre as quais elas repousam 3 . Há, portanto, um

certo número de noções acabadas e de aparentes evidências que é

necessário submeter à crítica antes de abordar, por nossa conta, o estudo

dos fatos..56

Comprender-se-á melhor que é indispensável tentar um novo

caminho, quando se tiver compreendido a insuficiência dessas concepções

tradicionais.

I

Foi Tylor quem constituiu, em seus traços essenciais a teoria



animista 4 . Spencer, que a retomou em seguida, não o fez, é verdade, sem

nela introduzir algumas modificações 5 . Mas, em suma, tanto para um

como para outro as questões se colocam nos mesmos termos, e as

soluções adotadas, com exceção de uma, são exatamente as mesmas.

Podemos portanto reunir essas duas doutrinas na exposição a seguir,

assinalando, porém, no momento oportuno, o ponto a partir do qual elas

divergem.

Para se ter o direito de ver nas crenças e práticas animistas a forma

primitiva da vida religiosa, cumpre satisfazer a um triplo desideratum: 1)

uma vez que, nessa hipótese, a idéia de alma é a noção cardinal da

religião, é preciso mostrar como ela se formou sem tomar nenhum de

seus elementos de uma religião anterior; 2) a seguir, é preciso ver de que

maneira as almas tornaram-se objeto de um culto e transformaram-se em

espíritos; 3) enfim, já que o culto dos espíritos não é tudo em nenhuma

religião, resta explicar como o culto da natureza derivou do primeiro.

A idéia de alma teria sido sugerida ao homem pelo espetáculo, mal

compreendido, da dupla vida que ele leva normalmente no estado de

vigília, de um lado, e durante o sono, de outro. Para o selvagem 6 , com

efeito, suas representações durante a vigília e aquelas que percebe no

sonho possuem, ao que se diz, o mesmo valor: ele objetiva as segundas.57

como as primeiras, ou seja, vê nelas a imagem de objetos exteriores cujo

aspecto elas reproduzem mais ou menos exatamente. Assim, quando

sonha que visitou um país distante, acredita ter estado realmente lá. Mas

ele só pode ter ido se existem dois seres nele: um, seu corpo, que

permaneceu deitado no chão e que ele reencontra ao despertar na mesma

posição; outro que, durante o mesmo tempo, moveu-se através do espaço.

Do mesmo modo, se, durante o sono, se vê conversando com um de seus

companheiros que ele sabe estar distante, conclui que também este

último é. composto de dois seres: um que dorme a uma certa distância, e

outro que veio manifestar-se por meio do sonho. Dessas experiências

repetidas desprende-se pouco a pouco a idéia de que existe em cada um

de nós um duplo, um outro, que, em determinadas condições, tem o

poder de deixar o organismo onde reside e sair a peregrinar ao longe.

Esse duplo reproduz naturalmente todos os traços essenciais do ser

sensível que lhe serve de invólucro exterior; mas, ao mesmo tempo,

distingue-se dele por várias características. É mais móvel, já que é capaz

de percorrer num instante vastas distâncias. É mais maleável, mais

plástico, pois, para sair do corpo, deve poder passar pelos orifícios do or-ganismo,

especialmente o nariz e a boca. É representado, portanto, como

feito de matéria, sem dúvida, mas de uma matéria muito mais sutil e

etérea do que todas aquelas que conhecemos empiricamente. Esse duplo

é a alma. E tudo indica que, num grande número de sociedades, a alma

foi concebida como uma imagem do corpo; acredita-se inclusive que ela

reproduz as deformações acidentais do corpo, como as resultantes de

ferimentos e mutilações. Certos australianos, após terem matado seu

inimigo, cortam-lhe o polegar direito a fim de que sua alma, privada

conseqüentemente do polegar, não possa atirar a lança e se vingar. Mas,

embora assemelhando-se ao corpo, ela já possui ao mesmo tempo algo de

semi-espiritual. Diz-se que "é a parte mais sutil e mais leve do corpo",.58

que "não tem carne, nem ossos, nem nervos"; que, quando se quer pegá-la,

nada se sente; que ela é "como um corpo purificado"7 .

Aliás, juntamente com esse dado fundamental do sonho, outros fatos

da experiência vinham naturalmente agrupar-se para inclinar os espíritos

no mesmo sentido: a síncope, a apoplexia, a catalepsia, o êxtase, em uma

palavra, todos os casos de insensibilidade temporária.' De fato, esses

casos se explicam muito bem a partir da hipótese de que o princípio da

vida e do sentimento pode deixar momentaneamente o corpo. Por outro

lado, era natural que esse princípio fosse confundido com o duplo, uma

vez que a ausência deste durante o sono tem cotidianamente por efeito

suspender a vida e o pensamento. Assim observações diversas pareciam

verificar-se mutuamente e confirmar a idéia da dualidade constitutiva do

homem 8 .

Mas a alma não é um espírito. Está presa a um corpo do qual só

excepcionalmente sai; e, enquanto não for nada, além disso, não é objeto

de nenhum culto. O espírito, ao contrário, embora tendo geralmente por

residência uma coisa determinada, é capaz de afastar-se dela à vontade e o

homem só pode entrar em relações com ele observando precauções rituais.

Portanto, a alma só podia tornar-se espírito com a condição de

transformar-se: a simples aplicação das idéias precedentes ao fato da

morte produziu naturalmente essa metamorfose. Para uma inteligência

rudimentar, com efeito, a morte não se distingue de um longo desmaio ou

de um sono prolongado; ela tem todas as aparências disso. Assim, parece

que também ela consiste numa separação da alma e do corpo, análoga à

que se produz toda noite; mas como, em semelhante caso, não se vê o

corpo reanimar-se, forma-se a idéia de uma separação sem limite de

tempo determinável. Inclusive, uma vez destruído o corpo - e os ritos

funerários têm em parte por objeto apressar essa destruição -, a separação

é tida necessariamente por definitiva. Eis, portanto, espíritos desligados de.59

todo organismo e soltos livremente pelo espaço. Como seu número

aumenta com o tempo, forma-se, ao lado da população viva, uma

população de almas. Essas almas de homens têm necessidades e paixões

de homens; procuram, portanto, misturar-se à vida de seus companheiros

de ontem, seja para ajudá-las, seja para prejudicá-las, conforme os

sentimentos que conservaram por eles. Ora, sua natureza faz delas,

conforme o caso, ou auxiliares muito preciosos, ou adversários muito

temidos. Essas almas podem, com efeito, graças à sua extrema fluidez,

penetrar nos corpos e causar todo tipo de desordens, ou então, ao

contrário, aumentar sua vitalidade. Assim, surge o hábito de atribuir-lhes

todos os acontecimentos da vida que fogem um pouco do comum: há

poucos desses acontecimentos que não possam explicar. Elas constituem,

portanto, uma espécie de arsenal de causas sempre disponíveis e que

jamais deixam em apuros o espírito em busca de explicações. Um homem

parece inspirado? Fala com veemência? Encontra-se como que acima de si

mesmo e do nível médio dos homens? É que uma alma benfazeja está

dentro dele e o anima. Um outro sofre um ataque de loucura? É que um

espírito mau introduziu-se em seu corpo e trouxe-lhe a perturbação. Não

há doença que não possa ser relacionada a alguma influência desse

gênero. Assim, o poder das almas cresce com tudo o que lhes é atribuído,

de tal maneira que o homem acaba por ver-se prisioneiro desse mundo

imaginário do qual, no entanto, é o autor e o modelo. Cai sob a

dependência dessas forças espirituais que criou com sua própria mão e à

sua própria imagem. Pois, se as almas determinam a tal ponto a saúde e a

enfermidade, os bens e os males, é prudente obter sua benevolência ou

apaziguá-las quando estão irritadas: daí as oferendas, os sacrifícios, as

preces, em suma, todo o conjunto das observâncias religiosas 9 .

Eis aí a alma transformada. De simples princípio vital, animando um

corpo de homem, tornou-se um espírito, um gênio, bom ou mau, uma.60

divindade inclusive, segundo a importância dos efeitos que lhe são

imputados. Mas, já que a morte é que teria operado essa apoteose, é aos

mortos, em última instância, às almas dos antepassados, que teria se

dirigido o primeiro culto da humanidade. Assim, os primeiros ritos teriam

sido ritos mortuários; os primeiros sacrifícios teriam sido oferendas

alimentares destinadas a satisfazer as necessidades dos defuntos; os

primeiros altares teriam sido túmulos 10 .

Mas, como esses espíritos eram de origem humana, eles só se

interessavam pela vida dos homens e agiam supostamente apenas sobre os

acontecimentos humanos. Resta explicar de que maneira outros espíritos

foram imaginados para explicar outros fenômenos do universo, e de que

maneira, portanto, ao lado do culto dos antepassados, constitui-se um

culto da natureza.

Para Tylor, essa extensão do animismo seria devida à mentalidade

particular do primitivo que, como a criança, não sabe distinguir o

animado do inanimado. Já que os primeiros seres dos quais a criança

começa a formar-se uma idéia são homens, isto é, ela própria e seus

próximos, é com base no modelo da natureza humana que ela tende a

conceber todas as coisas. Nos seus brinquedos, nos objetos de todo tipo

que afetam seus sentidos, ela vê seres vivos como ela. Ora, o primitivo

pensa como uma criança. Conseqüentemente, também ele está inclinado

a dotar as coisas, mesmo inanimadas, de uma natureza análoga à sua.

Tendo chegado, portanto, pelas razões expostas mais acima, à idéia de

que o homem é um corpo que um espírito anima, ele haveria

necessariamente de atribuir aos próprios corpos brutos uma dualidade

do mesmo gênero e almas semelhantes à sua. Todavia, a esfera de ação

de ambas não podia ser a mesma. Almas de homens só têm influência

direta sobre o mundo dos homens: elas têm pelo organismo humano

uma espécie de predileção mesmo quando a morte deu-lhes a liberdade..61

Ao contrário, as almas das coisas residem antes de tudo nas coisas e são

consideradas causas produtoras de tudo o que nela acontece. As

primeiras explicam a saúde ou a doença, habilidade ou a falta de jeito,

etc.; através das segundas explicam-se sobretudo os fenômenos do

mundo físico, a marcha dos rios ou dos astros, a geminação das plantas,

a proliferação dos animais, etc. Foi assim que a primeira filosofia do

homem, que está na base do culto dos antepassados, completou-se por

uma filosofia do mundo.

Ante esses espíritos cósmicos, o homem viu-se num estado de

dependência ainda mais evidente do que face aos duplos errantes de

seus antepassados. Pois, com estes últimos, ainda podia manter um

comércio ideal e imaginário, ao passo que ele depende realmente das

coisas; para viver, tem necessidade delas; portanto, acreditou igual-mente

ter necessidade dos espíritos que supostamente animavam essas

coisas e determinavam suas manifestações diversas. Implorou sua

assistência, solicitou-a mediante oferendas, preces, e a religião do

homem completou-se numa religião da natureza.

Herbert Spencer objeta a essa explicação que a hipótese sobre a

qual repousa é contestada pelos fatos. Admite-se, diz ele, que houve um

momento em que o homem não percebia as diferenças que separam o

animado do inanimado. Ora, à medida que se sobe na escala animal, vê-se

aumentar a capacidade de fazer essa distinção. Os animais superiores

não confundem um objeto que se move por si mesmo e cujos

movimentos se ajustam a fins, com aqueles movidos de fora e

mecanicamente. "Quando um gato se entretém com um rato que pegou,

se ele o vê permanecer por muito tempo imóvel, toca-o com a ponta da

pata para fazê-lo correr. Evidentemente, o gato pensa que um ser vivo

que for incomodado procurará escapar."11 O homem, mesmo primitivo,

não poderia, no entanto, ter uma inteligência inferior à dos animais que o.62

precederam na evolução; assim, não pode ser por falta de discernimento

que ele passou do culto dos antepassados ao culto das coisas.

Segundo Spencer, que neste ponto, mas somente neste, afasta-se de

Tylor, essa passagem se deve de fato a uma confusão, mas de outra

espécie. Ela seria, pelo menos na maior parte, o resultado de uma série de

ambigüidades. Em muitas sociedades inferiores, é um costume sua

linguagem, é muito difícil ao primitivo distinguir uma metáfora da

realidade. Portanto, ele logo teria perdido de vista que essas denominações

eram apenas figuras e, tomando-as literalmente, teria acabado por acreditar

que um antepassado chamado Tigre ou Leão era realmente um tigre ou um

leão. Em conseqüência, o culto prestado até então a esse antepassado teria

se transferido para o animal com o qual doravante era confundido; e

operando-se a mesma substituição em relação às plantas, aos astros, a

todos os fenômenos naturais, a religião da natureza teria tomado o lugar da

velha religião dos mortos. Certamente, ao lado dessa confusão

fundamental, Spencer assinala outras que teriam, aqui ou ali, reforçado a

ação da primeira. Por exemplo, os animais que freqüentam os arredores

dos túmulos ou as casas dos homens teriam sido tomados como almas

reencarnadas, e é nessa qualidade que os teriam adorado l2 ; ou, então, a

montanha, que a tradição apontava como o lugar de origem da raça, teria

acabado por se transformar na origem mesma dessa raça; teriam acreditado

que os homens eram os descendentes dela porque os antepassados tinham

vindo de lá e, portanto, ela própria seria vista como antepassado l3 . Mas, co-mo

confessa Spencer, essas causas acessórias só teriam tido uma influência

secundária: o que teria principalmente determinado a instituição do

naturismo é "a interpretação literal dos nomes metafóricos"14 .

Precisávamos expor essa teoria a fim de que nossa apresentação do

animismo fosse completa; mas ela é muito inadequada aos fatos e está por

demais universalmente abandonada hoje para que haja motivos de deter-se.63

ainda mais nela. Para poder explicar por uma ilusão um fato tão geral

como a religião da natureza, seria preciso que a ilusão invocada se devesse

a causas de uma igual generalidade. Ora, ainda que enganos como os que

Spencer menciona com uns raros exemplos pudessem explicar, lá onde os

constatamos, a transformação do culto dos antepassados em culto da

natureza, não se percebe por que razão eles teriam se produzido com uma

espécie de universalidade. Nenhum mecanismo psíquico necessitava deles.

Claro que a palavra, por sua ambigüidade, podia favorecer o equívoco;

mas todas as lembranças pessoais deixadas pelo antepassado na memória

dos homens deviam opor-se à confusão. Por que a tradição que

representava o antepassado tal como havia sido, isto é, como um homem

que viveu uma vida de homem, teria por toda parte cedido ao prestígio da

palavra? Por outro lado, devia haver alguma dificuldade em admitir que os

homens pudessem nascer de uma montanha, de um astro, de um animal ou

de uma planta; a idéia de tal exceção às condições ordinárias da geração

não poderia deixar de levantar fortes resistências. Assim, longe de o erro

encontrar diante de si um caminho aberto, razões de toda ordem pareciam

dever defender os espíritos contra ele. Portanto, não se compreende como,

a despeito de tantos obstáculos, teria podido triunfar de uma maneira tão

geral.


II

Resta a teoria de Tylor, cuja autoridade é sempre grande. Suas

hipóteses sobre o sonho, sobre a gênese das idéias de alma e espírito, são

ainda clássicas. É importante, pois , testar seu valor.

Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que os teóricos do animismo

prestaram um importante serviço à ciência das religiões e mesmo à história

geral das idéias, ao submeterem a noção de alma à análise histórica. Ao.64

invés de a considerarem, como tantos filósofos, um dado simples e

imediato da consciência, viram nela, de maneira bem mais justa, um todo

complexo, um produto da história e da mitologia. Não cabe duvidar, com

efeito, que ela seja algo essencialmente religioso por sua natureza, suas

origens e suas funções. Foi da religião que os filósofos a receberam; assim,

não se pode compreender a forma.sob a qual ela se apresenta entre os

pensadores da Antiguidade, se não se levarem em conta os elementos

míticos que serviram para formá-la.

Mas se Tylor teve o mérito de colocar o problema, a solução que ele

oferece não deixa de levantar graves dificuldades.

Antes de mais nada, haveria reservas a fazer sobre o princípio

mesmo que está na base dessa teoria. Admite-se como uma evidência que

a alma é inteiramente distinta do corpo e que, dentro ou fora dele, ela vive

normalmente uma vida própria e autônoma. Ora, veremos 15 que essa

concepção não é a do primitivo; pelo menos, ela exprime apenas um

aspecto da idéia que se faz da alma. Para o primitivo, a alma, embora

independente, sob certos aspectos, do organismo que a anima, confunde-se

em parte com este último, ao ponto de não poder ser separada ra-dicalmente

dele: há órgãos que são, não apenas sua sede privilegiada, mas

sua forma exterior e sua manifestação material. A noção é, portanto, mais

complexa do que supõe a doutrina e, conseqüentemente, é duvidoso que as

experiências invocadas sejam suficientes para justificá-la, pois, mesmo se

permitissem compreender de que maneira o homem acreditou-se duplo,

elas não saberiam explicar como essa dualidade não exclui, mas, ao

contrário, implica, uma unidade profunda e uma penetração íntima dos

dois seres assim diferenciados.

Admitamos, porém, que a idéia de alma seja redutível à idéia de

duplo e vejamos como teria se formado esta última. Ela teria sido sugerida

ao homem pela experiência do sonho. Para compreender de que maneira,.65

enquanto seu corpo permanecia deitado no chão, era capaz de ver durante

o sono lugares mais ou menos distantes, ele teria sido levado a conceber-se

como formado por dois seres: seu corpo, de um lado, e, de outro, um

segundo si mesmo, capaz de deixar o organismo no qual habita e de per-correr

o espaço. Mas, em primeiro lugar, para que essa hipótese de duplo

pudesse impor-se aos homens com uma espécie de necessidade, era preciso

que fosse a única possível ou, pelo menos, a mais econômica. Ora, em

realidade há hipóteses mais simples, cuja idéia, ao que parece, devia

apresentar-se também naturalmente aos espíritos. Por que, por exemplo, o

adormecido não teria imaginado que, durante o sono, era capaz de ver a

distância? Para atribuir-se um tal poder, o dispêndio de imaginação seria

menor do que para construir essa complexa noção de um duplo, feito de

uma substância etérea, semi-invisível, do qual a experiência direta não

oferecia nenhum exemplo. Em todo caso, supondo-se que certos sonhos

peçam naturalmente a explicação anirnista, há com certeza muitos outros

que são absolutamente refratários a ela. Com muita freqüência nossos

sonhos relacionam-se a acontecimentos passados; revemos o que vimos ou

fizemos durante a vigília, ontem, anteontem, em nossa juventude, etc.;

sonhos como esses são freqüentes e ocupam um lugar considerável em

nossa vida noturna. Ora, a idéia do duplo não é capaz de explicá-los. Se o

duplo pode transportar-se de um ponto a outro do espaço, não se

compreende como lhe seria possível remontar o curso do tempo. Como é

que o homem, por mais rudimentar que fosse sua inteligência, poderia

acreditar, uma vez desperto, que acabara de presenciar realmente ou de

tomar parte em acontecimentos que ele sabia terem se passado outrora?

Como poderia imaginar que tinha vivido durante o sono uma vida que ele

sabia ter há muito transcorrido? Era bem mais natural que visse nessas

imagens renovadas o que elas são realmente, isto é, lembranças, tais como

ele as tem durante o dia, mas de uma intensidade particular..66

Por outro lado, nas cenas em que somos atores e testemunhas

enquanto dormimos, acontece freqüentemente que um de nossos

contemporâneos desempenhe um papel ao mesmo tempo que nós:

acreditamos vê-lo e ouvi-lo ali onde nós mesmos nos vemos. Segundo o

animismo, o primitivo explicará esses fatos imaginando que seu duplo foi

visitado ou encontrado pelo duplo deste ou daquele de seus companheiros.

Mas será suficiente que os interrogue, ao despertar, para constatar que a

experiência deles não coincide com a sua. Durante o mesmo tempo,

também eles tiveram sonhos, mas diferentes. Não se viram participando da

mesma cena; acreditam ter visitado lugares bem diversos. E uma vez que,

em semelhante caso, tais contradições devem ser a regra, como elas não

levariam os homens a dizer-se que houve provavelmente erro, que eles

imaginaram, que foram vítimas de uma ilusão? Pois há um certo

simplismo na cega credulidade que se atribui ao primitivo. É improvável

que ele objetive necessariamente todas as suas sensações. Não deixará de

perceber que, mesmo no estado de vigília, seus sentidos o enganam às

vezes. Por que os acreditaria mais infalíveis à noite que durante o dia?

Muitas razões se opunham, portanto, a que tomasse facilmente seus sonhos

por realidades e os interpretasse como um desdobramento de seu ser.

Além do mais, mesmo que todo sonho se explicasse perfeitamente

pela hipótese do duplo e inclusive não pudesse explicar-se de outro modo,

faltaria dizer por que o homem buscou dar-lhe uma explicação.

Certamente, o sonho constitui a matéria de um problema possível. Mas

passamos constantemente ao largo de problemas que não nos colocamos,

que não suspeitamos sequer, enquanto alguma circunstância não nos fez

sentir a necessidade de colocá-los. Mesmo quando o gosto da pura

especulação é despertado, a reflexão está longe de levantar todas as

questões a que poderia eventualmente aplicar-se; somente a atraem as que

apresentam um interesse particular. Sobretudo quando se trata de fatos que.67

se reproduzem sempre da mesma maneira, o costume adormece facilmente

a curiosidade e sequer pensamos em nos interrogar. Para sacudir esse

torpor, é preciso que exigências práticas ou pelo menos, um interesse

teórico muito premente venham estimular nossa atenção e voltá-la para

esse lado. Eis aí como, a cada momento da história, há tantas coisas que

renunciamos a compreender, sem mesmo ter consciência de nossa

renúncia. Até épocas não muito distantes, acreditava-se que o sol tivesse

apenas alguns pés de diâmetro. Havia algo de incompreensível no fato de

um disco luminoso tão pequeno ser suficiente para iluminar a Terra; no

entanto, durante séculos, a humanidade não pensou em resolver essa

contradição. A hereditariedade é um fato há muito conhecido, mas só

recentemente procurou-se elaborar a sua teoria. Eram até aceitas certas

crenças que a tomavam inteiramente ininteligível: assim, para várias

sociedades australianas de que iremos falar, a criança não é

fisiologicamente o produto de seus pais 16 . Essa preguiça intelectual é

levada necessariamente ao máximo no primitivo. Esse ser frágil,

disputando com dificuldade sua vida contra todas as forças que o assaltam,

não tem tempo para o luxo em matéria de especulação. Só deve refletir

quando incitado a isso. Ora, é difícil perceber o que pode tê-lo levado a

fazer do sonho o tema de suas meditações. O que é o sonho em nossa vida?

Como é pequeno o espaço que nela ocupa! Sobretudo por causa das

impressões muito vagas que deixa na memória, da própria rapidez com que

se apaga da lembrança: E como é surpreendente, portanto, que um homem

de uma inteligência tão rudimentar tenha despendido tantos esforços para

encontrar sua explicação! De suas duas existências sucessivas, a diurna e a

noturna, é a primeira que devia interessá-lo mais. Não é estranho que a

segunda tenha cativado suficientemente sua atenção para que fizesse dela a

base de todo um sistema de idéias complicadas e destinadas a ter sobre seu

pensamento e sua conduta uma influência tão profunda?.68

Tudo tende a provar, portanto, que a teoria animista da alma, apesar do

crédito que ainda desfruta, deve ser revisada. Claro que, hoje, o próprio

primitivo atribui seus sonhos, ou alguns deles, às movimentações de seu

duplo. Mas isso não quer dizer que o sonho forneceu efetivamente os

elementos com os quais a idéia de duplo ou de alma foi construída; pois

ela pode ter sido aplicada posteriormente aos fenômenos do sonho, do

êxtase e da possessão, sem no entanto derivar deles. É freqüente que uma

idéia, uma vez constituída, seja empregada para coordenar ou esclarecer,

com uma luz às vezes mais aparente que real, fatos com os quais ela

primitivamente não se relacionava e que não podiam, por si próprios,

sugeri-Ia. Hoje, prova-se correntemente Deus e a imortalidade da alma

mostrando que essas crenças decorrem dos princípios fundamentais da

moral; em realidade, elas têm uma origem bem diferente. A história do

pensamento religioso poderia fornecer numerosos exemplos dessas

justificações retrospectivas que nada podem nos ensinar sobre a maneira

como se formaram as idéias nem sobre os elementos que as compõem.

Aliás, é provável que o primitivo distinga entre seus sonhos e não

explique todos da mesma forma... Em nossas sociedades européias, mesmo

as pessoas, muitas ainda, para quem o sono é uma espécie de estado

mágico-religioso, no qual o espírito, aliviado parcialmente do corpo, tem

uma acuidade de visão que não possui durante a vigília, não chegam ao

ponto de considerar todos os seus sonhos como intuições místicas: muito

pelo contrário, vêem na maior parte deles, como todo o mundo, apenas

estados profanos, jogos de imagens insignificantes, simples alucinações. É

possível supor que o primitivo sempre fez distinções análogas. Codrington

diz formalmente, dos melanésios, que eles não atribuem a migrações de

almas todos os seus sonhos indistintamente, mas apenas os que

impressionam fortemente sua imaginação 17 . Certamente devem-se

entender como tais aqueles em que o adormecido julga-se em contato com.69

seres religiosos, gênios benfeitores ou malignos, almas dos mortos, etc. Do

mesmo modo, os Dieri distinguem muito claramente os sonhos ordinários

e as visões noturnas em que se mostram a eles um amigo ou um parente

falecido. Dão nomes diferentes a esses dois tipos de estados. No primeiro,

vêem uma simples fantasia de sua imaginação; atribuem o segundo à ação

de um espírito maligno 18 . Todos os fatos que Howitt menciona a título de

exemplos para mostrar como o australiano atribui à alma o poder de

abandonar o corpo têm igualmente um caráter místico: o adormecido

julga-se transportado ao país dos mortos ou então conversa com um

companheiro defunto 19 . Esses sonhos são freqüentes entre os primitivos 20 .

Foi provavelmente em torno desses fatos que se formou a teoria. Para

explicá-los, admite-se que as almas dos mortos viessem reencontrar os

vivos durante seu sono, explicação tanto mais facilmente aceita porque

nenhum fato de experiência podia invalidá-la. Só que esses sonhos só eram

possíveis onde já houvesse a idéia de espíritos, de almas, de país dos

mortos, ou seja, onde a evolução religiosa estivesse relativamente avança-da.

Longe de poderem fornecer à religião a noção fundamental sobre a

qual repousa, tais sonhos supunham um sistema religioso já constituído e

do qual dependiam 21 .

III


Mas chegamos ao que constitui o núcleo mesmo da doutrina.

De onde quer que venha a idéia de um duplo, ela não basta, como

reconhecem 05 animistas, para explicar como se formou esse culto dos

antepassados do qual se quis fazer o modelo inicial de todas as religiões.

Para que o duplo se tomasse objeto de um culto, era preciso que deixasse

de ser uma simples réplica do indivíduo e adquirisse as características

necessárias para ser elevado à ordem dos seres sagrados. É a morte, dizem,.70

que operaria essa transformação. Mas de onde pode vir a virtude que lhe

atribuem? Ainda que a analogia do sono e da morte fosse suficiente para

fazer crer que a alma sobrevive ao corpo (e há reservas a emitir sobre esse

ponto), por que essa alma, pelo simples fato de estar agora desligada do

organismo, mudaria completamente de natureza? Se, em vida, não era

senão uma coisa profana, um princípio vital ambulante, de que maneira se

transformaria de repente numa coisa sagrada, objeto de sentimentos

religiosos? A morte não lhe acrescenta nada de essencial, salvo uma maior

liberdade de movimentos. Não estando mais ligada a uma residência

oficial, doravante ela pode fazer o tempo todo o que até então só fazia de

noite; mas a ação que é capaz de exercer é sempre da mesma natureza. Por

que então os vivos teriam visto nesse duplo desenraizado e vagabundo de

seu companheiro de ontem algo mais do que um semelhante? Tratava-se

de um semelhante cuja vizinhança podia ser incômoda; não se tratava de

uma divindade 22 .

Inclusive parece que a morte deveria ter por efeito debilitar as

energias vitais, ao invés de realçá-Ias. De fato, é uma crença muito

difundida nas sociedades inferiores que a alma participa intimamente da

vida do corpo. Se este é ferido, ela também o é, e no lugar correspondente.

Portanto ela deveria envelhecer juntamente com ele. Há povos em que não

se prestam deveres funerários aos homens chegados à senilidade; eles são

tratados como se também sua alma tivesse se tornado senil 23 . Acontece

mesmo que sejam regularmente mortas, antes de terem alcançado a

velhice, as personalidades privilegiadas, reis ou sacerdotes, tidas como

detentoras de um poderoso espírito cuja proteção a sociedade deve

conservar. Quer-se assim evitar que esse espírito seja atingido pela

decadência física dos que são seus depositários momentâneos; para tanto,

retiram-no do organismo em que reside antes que a idade possa

enfraquecê-lo e o transportam, enquanto nada perdeu ainda de seu vigor,.71

para um corpo mais jovem, no qual poderá conservar intacta sua

vitalidade24. Assim, quando a morte resulta da doença ou da velhice,

parece que a alma só pode conservar forças minguadas; e, uma vez

dissolvido definitivamente o corpo, não se percebe como ela poderia lhe

sobreviver, se é apenas seu duplo. A idéia de uma sobrevivência torna-se,

desse ponto de vista, dificilmente inteligível. Há, portanto, um hiato, um

vazio lógico e psicológico entre a idéia de um duplo em liberdade e a' de

um espírito ao qual se presta um culto.

Esse intervalo afigura-se mais considerável ainda quando se sabe o

abismo que separa o mundo sagrado do mundo profano, pois é evidente

que uma simples mudança de grau não poderia ser suficiente para fazer

passar uma coisa de uma categoria à outra. Os seres sagrados não se

distinguem apenas dos profanos pelas formas estranhas ou

desconcertantes que assumem ou pelos poderes mais amplos que

possuem; entre ambos, também não há medida comum. Ora, na noção de

duplo não há nada que possa explicar uma heterogeneidade tão radical.

Diz se que, uma vez libertado do corpo, o duplo pode fazer aos vivos ou

muito bem ou muito mal, segundo a maneira pela qual os trata. Mas não é

suficiente que um ser cause inquietação no seu meio para que pareça de

uma natureza diferente daqueles cuja tranqüilidade ameaça. É verdade

que, no sentimento que o fiel experimenta pelas coisas que adora, entra

sempre alguma reserva e algum temor; mas é um temor sui generis, feito

de respeito mais que de pavor, no qual prevalece essa emoção muito

particular que a majestade inspira ao homem. A idéia de majestade é

essencialmente religiosa. Assim, pode-se dizer que nada se explicou da

religião enquanto não se tiver descoberto de onde vem essa idéia, a que

ela corresponde e o que pode tê-la despertado nas consciências. Simples

almas de homens não poderiam ser investidas desse caráter pelo simples

fato de terem desencarnado. ..72

É o que mostra claramente o exemplo da Melanésia. Os melanésios

crêem que o homem possui urna alma que abandona o corpo na morte;

ela muda então de nome e torna-se o que eles chamam um tindalo, um



natmat, etc. Por outro lado, existe entre eles um culto das almas dos

mortos: dirigem-lhes preces, invocações, fazem-lhes oferendas e

sacrifícios. Mas nem todo tindalo é objeto dessas práticas rituais;

somente têm essa honra os que emanam de homens aos quais a opinião

pública atribuía, em vida, uma virtude muito especial que os melanésios

chamam de mana. Mais adiante teremos de precisar a idéia que essa

palavra exprime; por ora, será suficiente dizer que é o caráter distintivo

de todo ser sagrado. O mana, diz Codrington, "é o que permite produzir

efeitos que estão fora do poder ordinário dos homens, fora dos processos

ordinários da natureza"25 . Um sacerdote, um feiticeiro, uma fórmula

ritual têm o mana, assim corno uma pedra sagrada ou um espírito.

Portanto, os únicos tindalo aos quais são prestadas homenagens religiosas

são aqueles que, quando seu proprietário era vivo, já eram por si mesmos

seres sagrados. Quanto às outras almas, as dos homens comuns, da

multidão dos profanos, elas são, diz o mesmo autor, "nada, tanto depois

como antes da morte"26 . A morte, portanto, espontaneamente e por si só,

não possui nenhuma virtude divinizadora. Como ela consuma, de urna

maneira mais completa e definitiva, a separação da alma em relação às

coisas profanas, pode muito bem reforçar o caráter sagrado da alma, se

esta já o possui, mas não o cria.

Aliás, se realmente, corno supõe a hipótese animista, os primeiros

seres sagrados foram as almas dos mortos e o primeiro culto o dos

antepassados, deveríamos constatar que, quanto mais as sociedades são

de um tipo inferior, tanto mais esse culto tem importância na vida

religiosa. Ora, é antes o contrário que se verifica. O culto ancestral só se

desenvolve e, inclusive, só se apresenta sob urna forma característica em.73

sociedades avançadas corno a China, o Egito, as cidades gregas e latinas;

ao contrário, está ausente nas sociedades australianas que representam,

corno veremos, a forma de organização social mais baixa e mais simples

que conhecemos. Nelas encontramos, certamente, ritos funerários e ritos

de luto; mas essas práticas não constituem um culto, ainda que às vezes

lhes tenha sido dado, erradamente, esse nome. Com efeito, um culto não

é simplesmente um conjunto de prescrições rituais que o homem é

obrigado a seguir em certas circunstâncias; é um sistema de ritos, de

festas, de cerimônias diversos que apresentam todos a característica de

retomarem periodicamente. Eles correspondem à necessidade que sente o

fiel de manter e fortalecer, a intervalos de tempo regulares, o vínculo com

os seres sagrados dos quais depende. Eis por que se fala de ritos nupciais,

e não de um culto nupcial; de ritos de nascimento, e não de um culto do

recém-nascido: é que os acontecimentos que ensejaram esses ritos não

implicam nenhuma periodicidade. Do mesmo modo, só há culto dos

antepassados quando sacrifícios são feitos de tempos em tempos sobre os

túmulos, quando libações neles são derramadas em datas mais ou menos

aproximadas, quando festas são regularmente celebradas em honra do

morto. Mas o australiano não mantém com seus mortos nenhum comércio

desse gênero. Claro que deve sepultar seus restos conforme o rito, chorá-los

durante o tempo prescrito e da maneira prescrita, vingá-los, se for o

caso 27 . Mas, uma vez quitados esses deveres piedosos, uma vez

dessecados os ossos, e tendo o prazo do luto terminado, tudo está dito e

os sobreviventes não têm mais obrigações para com seus parentes que

deixaram de existir. Há, é verdade, uma forma pela qual os mortos

continuam a conservar um lugar na vida de seus próximos, mesmo depois

que o luto terminou: com efeito, conservam-se seus cabelos ou alguns de

seus ossos 28 , por causa das virtudes especiais que lhes são atribuídas. Mas

nesse momento eles cessaram de existir como pessoas; reduzem-se à.74

categoria de amuletos anônimos e impessoais. Nesse estado, não são

objeto de nenhum culto; servem apenas a fins mágicos.

Há, no entanto, tribos australianas em que são perio dicamente

celebrados ritos em honra de antepassados fabulosos que a tradição

coloca na origem dos tempos. Essas cerimônias consistem geralmente em

representações dramáticas nas quais são imitadas as ações que os mitos

atribuem a esses heróis legendários 29 . Só que os personagens assim

colocados em cena não são homens que, após terem vivido uma vida de

homens, teriam sido transformados em espécies de deuses pelo fato da

morte. Supõe-se que, em vida, desfrutavam já de poderes sobre-humanos.

Atribuem-lhes tudo o que se fez de grande na história da tribo e mesmo

na história do mundo. Eles é que teriam feito em grande parte a terra tal

como ela é e os homens tais como eles são. A glória que continua a

cercá-los não lhes vem, portanto, apenas do fato de serem antepassados,

mas de um caráter divino que sempre lhes foi atribuído; para retomar a

expressão melanésia, eles são constitutivamente dotados de mana.

Portanto, não há nada aí que demonstre ter a morte o menor poder de

divinizar. Inclusive não se pode, sem impropriedade, dizer que esses ritos

constituam um culto dos antepassados, visto que não se dirigem aos

antepassados como tais. Para que possa haver um verdadeiro culto dos

mortos, cumpre que os antepassados reais, os parentes que os homens

perdem realmente todo dia, se tomem, quando mortos, objeto de um

culto; ora, uma vez mais, de um culto desse gênero não existem vestígios

na Austrália.

Assim, o culto que, segundo a hipótese, deveria ser preponderante

nas sociedades inferiores, em realidade inexiste nelas. Definitivamente, o

australiano só se ocupa de seus mortos no momento mesmo do

falecimento e imediatamente após. No entanto, esses mesmos povos

praticam, como veremos, em relação a seres sagrados de uma natureza.75

completamente diferente, um culto complexo, feito de cerimônias

múltiplas que ocupam às vezes semanas e até meses inteiros. E

inadmissível que os poucos ritos que o australiano cumpre ao perder um

parente tenham sido a origem desses cultos permanentes, que retornam

regularmente todos os anos e preenchem uma boa parte de sua existência.

O contraste entre ambos é mesmo tal que há fundamento em perguntar se

não foram os primeiros que derivaram dos segundos, se as almas dos ho-mens,

longe de terem sido o modelo com base no qual se imaginaram os

deuses, não foram concebidas, desde a origem, como emanações da

divindade.

IV

A partir do momento em que o culto dos mortos não é primitivo, o



animismo carece de base. Poderia parecer inútil, portanto, discutir a

terceira tese do sistema, a que diz respeito à transformação do culto dos

mortos em culto da natureza. Mas, como o postulado sobre o qual ela re-pousa

aparece mesmo em historiadores que não admitem o animismo

propriamente dito, tais como Brinton 30 , Lang 31 , Réville 32 e o próprio

Robertson Smith 33 , é necessário fazer seu exame.

Essa extensão do culto dos mortos ao conjunto da natureza viria do

fato de tendermos instintivamente a representar todas as coisas à nossa

imagem, isto é, como seres vivos e pensantes. Já vimos que o próprio

Spencer contestava a realidade desse suposto instinto. Uma vez que o

animal distingue claramente os corpos vivos dos corpos brutos, parecia-lhe

impossível que o homem, herdeiro do animal, não tivesse, desde a origem,

a mesma faculdade de discernimento. Por mais certos, porém, que sejam

os fatos citados por Spencer, eles não têm, no ponto em questão, o valor.76

demonstrativo que lhes atribui. Seu raciocínio supõe, com efeito, que todas

as faculdades, os instintos e as aptidões dos animais passaram

integralmente ao homem; ora, muitos erros têm por origem esse princípio,

que se toma indevidamente como uma verdade óbvia. Por exemplo, do fato

de o ciúme sexual ser geralmente muito forte nos animais superiores,

concluiu-se que ele devia verificar-se no homem, desde o início da

história, com a mesma intensidade 34 . Ora, está constatado hoje que o ho-mem

pode praticar um comunismo sexual que seria impossível se esse

ciúme não fosse suscetível de atenuar-se mesmo desaparecer quando

necessário 35 . É que homem, com efeito, não é apenas o animal com

algumas qualidades a mais: é outra coisa. A natureza humana deveu-se a

uma espécie de remodelagem da natureza animal, e, ao longo das

operações complexas de que resultou essa remodelagem, ocorreram perdas

e ganhos ao mesmo tempo. Quantos instintos não perdemos! A razão disso

é que o homem não está apenas em relação com um meio físico, mas

também com um meio social infinitamente mais extenso, mais estável e

mais ativo que aquele que influencia os animais. Portanto, para viver, é

preciso que ele se adapte a esse meio. Ora, a sociedade, para poder manter-se,

requer com freqüência que vejamos as coisas sob um certo ângulo, que

as sintamos de um certo modo; conseqüentemente, modifica as idéias que

seríamos levados a ter dessas coisas, os sentimentos a que estaríamos

inclinados se obedecêssemos apenas à nossa natureza animal; ela os altera

ao ponto mesmo de substituí-los por sentimentos contrários. Acaso não

chega a fazer-nos considerar nossa própria vida algo de pouco valor,

quando ela é, para o animal, o bem por excelência36? Portanto, é enganoso

buscar inferir a constituição mental do homem primitivo tomando como

base a dos animais superiores.

Mas, se a objeção de Spencer não tem o alcance decisivo que lhe

atribuía seu autor, o postulado animista não poderia, em troca, tirar.77

nenhuma autoridade das confusões que as crianças parecem cometer.

Quando ouvimos uma criança xingar com cólera um objeto que a feriu,

concluímos que ela vê nesse objeto um ser consciente como ela; mas é

interpretar mal suas palavras e seus gestos. Em realidade, isso não

corresponde ao raciocínio complicado que lhe atribuímos. Se ela chuta a

mesa que lhe causou um ferimento, não é que a suponha animada e

inteligente, mas sim por ter-lhe causado um ferimento. A cólera,

provocada pela dor, tem necessidade de se extravasar; portanto, busca algo

sobre o que se descarregar e se dirige naturalmente para a coisa que a

provocou, embora esta não .tenha culpa. A conduta do adulto, em

semelhante caso, é muitas vezes igualmente pouco razoável. Quando

ficamos violentamente irritados, sentimos necessidade de invectivar, de

destruir, sem que por isso atribuamos aos objetos sobre os quais

despejamos nossa cólera uma espécie de má vontade consciente. Há tão

pouca confusão que, quando a emoção da criança se acalmou, ela sabe

muito bem distinguir uma cadeira de uma 'pessoa: não se comporta da

mesma forma com as duas. E uma razão análoga que explica sua tendência

a tratar seus brinquedos como se fossem seres vivos. É a intensa

necessidade de brincar que cria uma matéria apropriada para si, assim

como, no caso precedente, os sentimentos violentos que o sofrimento

desencadeara criavam a sua. Portanto, para poder brincar consciencio-samente

com seu polichinelo, a criança o imagina uma pessoa viva. Aliás,

a ilusão é ainda mais fácil na criança por ser a imaginação soberana; ela

quase só pensa por imagens, e sabe-se o quanto as imagens são coisas

flexíveis que se dobram facilmente a todas as exigências do desejo. Mas

ela não se ilude com sua própria ficção e seria a primeira a se espantar se,

de repente, esta virasse realidade e seu fantoche a mordesse 37 .

Deixemos de lado, portanto, essas duvidosas analo gias. Para saber se

o homem esteve primitivamente inclinado às confusões que lhe imputam,.78

não é o animal nem a criança de hoje que devemos considerar, mas as

próprias crenças primitivas. Se os espíritos e os deuses da natureza são

realmente construí dos à imagem da alma humana, eles devem trazer a

marca de sua origem e evocar os traços essenciais de seu modelo. A

característica por excelência da alma é ser concebida como o princípio

interior que anima o organismo; é ela que o move, que produz sua vida, de

modo que, quando dele se retira, a vida se detém ou é suspensa. É no corpo

que ela tem sua residência natural, pelo menos enquanto existe. Ora, não é

isso o que acontece com os espíritos atribuídos às diferentes coisas da

natureza. O deus do Sol não se encontra necessariamente no Sol, nem o

espírito desta pedra na pedra que lhe serve de hábitat principal. Claro que

um espírito mantém estreitas relações com o corpo ao qual está ligado; mas

emprega-se uma expressão inexata quando se diz que ele é a alma desse

corpo. "Na Melanésia, diz Codrington, não parece que se creia na

existência de espíritos que animam um objeto natural, como uma árvore,

uma queda d'água, uma tempestade ou uma rocha, de maneira que estejam

para esse objeto como a alma, supõe-se, está para o corpo humano. Os

europeus, é verdade, falam dos espíritos do mar, da tempestade ou da flo-resta;

mas a idéia dos indígenas, assim traduzida, é bem diferente. Estes

pensam que o espírito freqüenta a floresta ou o mar, e tem o poder de

provocar tempestades e fazer adoecer os viajantes."38 Enquanto a alma

encontra-se essencialmente no interior do corpo, o espírito passa a maior

parte de sua existência fora do objeto que lhe serve de substrato. Eis já

uma diferença que não parece testemunhar que a segunda idéia tenha vindo

da primeira.

Por outro lado, se de fato o homem tivesse tido necessidade de

projetar sua imagem nas coisas, os primeiros seres sagrados teriam sido

concebidos à sua semelhança. Ora, o antropomorfismo, longe de ser

primitivo, é antes a marca de uma civilização relativamente avançada. Na.79

origem, os seres sagrados são concebidos sob uma forma animal ou vegetal

da qual a forma humana só lentamente se desvencilhou. Veremos adiante

de que maneira, na Austrália, animais e plantas situam-se no primeiro

plano das coisas sagradas. Mesmo entre os índios da América do Norte, as

grandes divindades cósmicas, que começam ali a ser objeto de um culto,

são com muita freqüência representados sob espécies animais 39 . "A

diferença entre o animal, o homem e o ser divino, diz Réville, que constata

o fato não sem surpresa, não é sentida nesse estado de espírito e, na

maioria das vezes, dir-se-ia que é a forma animal a forma fundamental."40 .

Para encontrar um deus construído inteiramente com elementos humanos, é

preciso chegar quase até o cristianismo. Aqui o Deus é um homem, não

somente pelo aspecto físico sob o qual manifestou-se temporariamente,

mas também pelas idéias e os sentimentos que exprime. Mas mesmo em

Roma e na Grécia, embora os deuses fossem geralmente representados

com traços humanos, vários personagens míticos traziam ainda a marca de

uma origem animal: é Dioniso, que vemos seguidamente sob a forma de

um touro ou pelo menos com os chifres de touro; é Deméter, representada

com uma crina de cavalo, é Pã, é Sileno, são os Faunos, etc.41 Faltava

muito, portanto, para que o homem estivesse inclinado a impor sua forma

às coisas. E mais: ele próprio começou por conceber-se como participando

intimamente da natureza animal. Com efeito, é uma crença quase universal

na Austrália, também muito difundida entre os índios da América do

Norte, que os antepassados dos homens foram animais ou plantas, ou, pelo

menos, que os primeiros homens tinham, na totalidade ou em parte, os

caracteres distintivos de certas espécies animais ou vegetais. Assim, longe

de ver em toda parte apenas seres semelhantes a ele, o homem começou

por pensar a si próprio à imagem de seres dos quais especificamente se

diferenciava..80

V

A teoria animista implica, aliás, uma conseqüência que é talvez sua



melhor refutação. Se fosse verdadeira, seria preciso admitir que as crenças

religiosas não passam de representações alucinatórias sem nenhum

fundamento objetivo. Supõe-se, com efeito, que todas sejam derivadas da

noção de alma, já que não se vêem nos espíritos e nos deuses nada mais

que almas sublimadas. Mas a noção de alma, esta, é inteiramente

construída, segundo Taylor e seus discípulos, com as vagas e inconstantes

imagens que ocupam nossos espíritos durante o sono, pois a alma é o

duplo, e o duplo não é senão o homem tal como aparece a si mesmo

enquanto dorme. Desse ponto de vista, os seres sagrados seriam, portanto,

apenas concepções imaginárias que o homem teria produzido numa

espécie de delírio que dele se apodera regularmente todo dia, sem que se

possa perceber para que fins úteis elas servem ou a que correspondem na

realidade. Se o homem reza, se faz sacrifícios e oferendas, se se submete às

privações múltiplas que o rito lhe prescreve, é que uma espécie de

aberração constitutiva o fez tomar os sonhos por percepções, a morte por

um sono prolongado, os corpos brutos por seres vivos e pensantes. Assim,

não apenas, como muitos tendem a admitir, a forma sob a qual as forças

religiosas são ou foram representadas não as exprimiria exatamente; não

apenas os símbolos através dos quais elas foram pensadas mascarariam

parcialmente sua verdadeira natureza, mas também, por trás dessas

imagens e dessas figuras, não haveria outra coisa senão pesadelos de

espíritos incultos. A religião seria apenas, em última instância, um sonho

sistematizado e vivido, mas sem fundamento no real 42 . Eis por que os

teóricos do animismo, quando buscam as origens do pensamento religioso,

se contentam, em suma, com muito pouco. Quando julgam ter conseguido.81

explicar de que maneira o homem pôde ser induzido a imaginar seres com

formas estranhas, vaporosas, como os que vemos em sonho, o problema

lhes parece resolvido.

Em realidade, ele não foi sequer abordado. É inadmissível, com

efeito, que sistemas de idéias como as religiões, que ocuparam na história

um lugar tão considerável, nos quais os povos de todas as épocas vieram

buscar a energia necessária para viver, sejam apenas tecidos de ilusões.

Todos reconhecem hoje que o direito, a moral, o próprio pensamento

científico nasceram na religião, durante muito tempo confundiram-se com

ela e permaneceram penetrados de seu espírito. Como é que uma vã

fantasmagoria teria podido modelar tão fortemente e de maneira tão

duradoura as consciências humanas? Seguramente, deve ser um princípio,

para a ciência das religiões, que a religião não exprime nada que não esteja

na natureza; pois só existe ciência de fenômenos naturais. Toda a questão

está em saber a que reino da natureza pertencem essas realidades e o que

pôde levar os homens a concebê-las sob essa forma singular que é própria

do pensamento religioso. Mas, para que essa questão possa ser colocada, é

necessário começar por admitir que são coisas reais que são assim

representadas. Quando os filósofos do século XVIII faziam da religião um

vasto erro imaginado pelos padres, eles podiam ao menos explicar sua per-sistência

pelo interesse da casta sacerdotal em enganar as multidões. Mas

se os próprios povos foram fabricantes desses sistemas de idéias errôneas

e, ao mesmo tempo, vítimas deles, como é que esse logro extraordinário

pôde perpetuar-se ao longo de toda a história?

Deve-se mesmo perguntar se, nessas condições, o termo ciência das

religiões pode ser empregado sem impropriedade. Uma ciência é uma

disciplina que, não importa como seja concebida, se aplica sempre a uma

realidade dada. A física e a química são ciências, porque os fenômenos

físico-químicos são reais e de uma realidade que não depende das verdades.82

que elas demonstram. Há uma ciência psicológica porque há realmente

consciências cujo direito à existência não depende dos psicólogos. Ao

contrário, a religião não poderia sobreviver à teoria animista, a partir do

momento em que esta fosse reconhecida como verdadeira por todos os

homens, pois estes necessariamente abandonariam os erros cuja natureza e

origem lhes seriam assim reveladas. Que ciência seria essa, cuja principal

descoberta consistiria em fazer desaparecer o objeto mesmo de que trata?

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