As imagens do homem negro nas revistas literárias da Belle Époque Carioca



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As imagens do homem negro nas revistas literárias da Belle Époque Carioca.

Carolina Vianna (mestrado- UFF)


Resumo: O objetivo da comunicação é analisar as imagens do 'homem negro' publicadas em um conjunto de revistas literárias na Belle Èpoque Carioca, enfatizando especificamente a Revista Kosmos (1904-1909). Destacaremos as imagens do homem negro distanciadas dos estereótipos clássicos de submissão, irracionalidade, inferioridade ou boçalidade. Seguiremos o seguinte trajeto: apresentaremos as características de alguns dos personagens e as funções desempenhadas por eles. Em seguida, destacaremos as imagens produzidas sobre o homem negro, escravo ou ex-escravo ou livre. Ao fim pretendemos apontar algumas questões relativas às implicações da produção de uma imagem do homem negro que expressava raiva, vingança, ódio, poder, esperteza e conflitos.

I


Diante de uma política editorial tímida e concentrada,1 o campo do impresso se caracterizou no pós-1900 por sua inserção em novas relações e padrões ditados pela adoção de novidades técnicas e pela busca do lucro. Em relação especificamente à proliferação das revistas literárias, culturais e ilustradas, é importante destacar o papel que as transformações advindas do processo de profissionalização do escritor tiveram nesse processo. Nesse momento as revistas eram “principalmente literárias, embora fossem também um pouco mundanas e, algumas, críticas.” 2

Uma das principais queixas dos literatos em relação ao jornalismo era que seu ritmo não seria compatível com a qualidade apurada da linguagem do estilo literário. As revistas acabaram sendo, nesse sentido, um espaço no qual o literato poderia se colocar literariamente, menos pressionado do que no jornal – com seu ritmo frenético e com seu tom noticiarista. No caso das revistas de periodicidade mensal, como a Kosmos, essa questão ampliava-se, posto que esse formato de periódico estava ainda menos ligado à rapidez das notícias.3

Não foi por acaso que no Brasil, em geral, a revista foi associada à publicação literária, pois esse era o modelo mais tradicional no país. Eram revistas mundanas, literárias e culturais como a d’A Avenida, Paratodos, Kosmos e a Renascença. Revistas de variedades como Fon Fon, Careta e Selecta, que atingiram sucesso mercadológico, embora seja difícil medir como e quanto. 4

A revista era objeto imprescindível para os grupos letrados daquela sociedade. Embora seja tarefa complicadíssima avaliar a dimensão do consumo dessas revistas, é possível imaginar através dos reclames que, em primeiro lugar, interessassem aos homens de letras, mas também aos os homens de negócios e comerciantes, às donas de casa, às crianças em fase escolar, às moçoilas românticas que gostavam de poesia, às damas interessadas no último figurino da moda, indivíduos em busca de orientações para seu gosto musical e literário, professores e etc. 5

Daí ser possível de afirmar sem exageros, “(...) que tanto quanto o jornal, porém mais que o livro – a revista era um instrumento eficaz de propagação de valores culturais (...),” difundindo e captando múltiplas vozes. As revistas se consagraram como um espaço importante de publicação de conteúdos variados. 6

Ilustrações, fotografias, caricaturas...semanais, quinzenais ou mensais, as revistas culturais e literárias ricamente ilustradas foram o produto mais sofisticado desse ‘novo jornalismo’ e assim tornaram-se “(...) a coqueluche da nova burguesia urbana (...) cria-se assim uma ‘opinião pública’ urbana, sequiosa do juízo e da orientação dos homens de letras que preenchiam as redações.” 7 Empreendimentos grandes ou pequenos as revistas emergiram na Belle Èpoque como veículos fundamentais do processo civilizatório corrente, materializando seu tempo cultural, seus projetos, contradições, antagonismos, paixões e utopias.

Bastante utilizada nos mais variados estudos sobre a Belle Époque no Rio de Janeiro, a Kosmos foi considerada a revista mais típica do “nosso 1900”.8 Tinha entre seus colaboradores os homens de letras de maior prestígio no momento, conjugando em suas páginas gerações diferentes, filiações estéticas e políticas diversas. Marcou época na história da imprensa brasileira, introduzindo e difundindo inovações técnicas e modelos editoriais.

Assim, podemos considerar a Kosmos como uma espécie de “emblema” da Belle Époque carioca e como tributária desse “novo jornalismo” que então se desenvolvia a partir de parâmetros comerciais e empresariais. Com um pé na aventura e outro na realidade de um país de maioria analfabeta, Kosmos reservou um espaço significativo para a literatura e para a crítica literária, tendo sempre o anúncio publicitário como suporte.

Lançada em janeiro de 1904 por Jorge Schmidt, tendo Mario Berhing como diretor, Kosmos totalizou sessenta e quatro números durante os seis anos em fora que publicada, de janeiro de 1904 a abril de 1909. Olavo Bilac cuidava da crônica de abertura. Nessa tarefa, foi substituído por Gil, Lima Campos e Gonzaga Duque quando viajou para Europa em 1906. De início, a matéria relativa ao teatro ficava a cargo de Arthur Azevedo, posteriormente substituído por João do Rio. Sem muita constância e fixidez de autores, a crítica literária ficou sob a pena de José Veríssimo. Gonzaga Duque publicou crítica literária e de arte e uma série de memórias.

O objetivo principal da revista destacado por seus responsáveis no editorial de lançamento era “(...) fazer das páginas de Kosmos um artístico álbum das nossas belezas naturais, dos primores dos nossos artistas, propagando o seu conhecimento a outros pontos do país e do estrangeiro.” Olavo Bilac, responsável pela crônica de estréia da revista, afirmou a sua cumplicidade com essa “fase de restauração do trabalho” pela qual passava o Brasil e, em particular, a Capital Federal. “Higiene, Beleza, Arte e Conforto” eram os paradigmas associados por Bilac à Kosmos. A “velha capital”, suja e feia, estava sendo transformada e a revista se propunha a acompanhar essa transformação da cidade de “lagarta em borboleta” convidando o público a auxilia-la nessa tarefa. 9

Na Kosmos havia uma multiplicidade muito grande reunindo republicamos como Olavo Bilac e Coelho Netto, monarquistas como Affonso Arinos e Anarquistas como Fábio Luz. No entanto, o que os unia era certamente a defesa de um projeto modernizador que buscava integrar o Brasil no “concerto das nações”. A França era o modelo cultural, os Estados Unidos o modelo político. Mas se o Brasil se colocasse no mesmo patamar cultural ou político que esses países não se destacaria. Era preciso buscar as originalidades do país, atualiza-las, civiliza-las de acordo com esses modelos. Aí sim o Brasil poderia se destacar através do que esses países não tinham.

Portanto, o fascínio por Paris e pelo mundanismo entre os literatos da Belle Époque não apagou suas preocupações com a questão nacional e com a construção de uma nação moderna. Da mesma forma, não foi preciso esperar a I Guerra Mundial para que a questão nacional viesse à tona, embora a guerra tenha trazido uma onda de nacionalismo que repercutiu no Brasil e contribuiu para o surgimento de novas questões e novos olhares sobre velhos problemas.

Curvelo de Mendonça10, em 1907, diagnosticou o momento e sintetizou algumas coordenadas que seriam depois retomadas pelos “modernistas de fato” nos anos 20:
(...) O Brasil todo se agita em um trabalho pujante de renovo e progresso. Não é só no Rio de Janeiro que a vida econômica e industrial se expande, como parece que acreditam alguns enclausurados da Rua do Ouvidor e da Avenida Central. A novidade das coisas reflete-se nos corações e nos espíritos. (...) O que hoje se ensaia, se esboça e já se faz, é alguma coisa de mais forte e grandioso do que essas tentativas de uma literatura em formação. É o Brasil que adquire a consciência de si mesmo e aborda as grandes correntes universais do pensamento moderno. Somos mais nacionais assim, isto é, sendo mais hábeis e mais originais na colaboração que prestamos ao movimento mundial. 11
Um pouco depois, em 1908, a revista ilustrada e semanal Fon Fondo mesmo dono da Kosmos - promoveu um concurso para eleger a melhor representação caricatural do brasileiro. Vários caricaturistas participaram enviando seus trabalhos. Logo de início uma polêmica foi instaurada com a publicação de uma carta de Deodato Maia recusando a figura do índio como a síntese do brasileiro. A imagem criada por Ângelo Agostini nos tempos da Monarquia não expressaria mais a civilização adequada para o momento. Deodato argumentava:
(...) não devemos mais atirar em meio a outras nações vestidas o nosso botocudo envergonhado e nu do passado, tendo a mão o arco e o tacape, enquanto os circunstantes se apresentam com aperfeiçoados Smith and Wesson ou canhão de tiro rápido (...) 12
Kalixto entrou no debate corroborando com a opinião de Deodato. Sugeriu, porém, que fosse feito um concurso público para a escolha de uma representação caricatural que expressasse o país.

Outro famoso caricaturista da época - J. Carlos -, da mesma forma que seus dois colegas de profissão, concordou que era preciso passar uma borracha no índio e propôs como representação única para todo o Brasil um calunga, com o cruzeiro do Sul na camisa, calças listradas de verde e amarelo e chapéu de palha.

Já Raul Pederneiras não rechaçou o índio de Agostini como representação simbólica e caricatural do Brasil, fazendo uma distinção entre o símbolo da nação - cujos exemplos seriam Britânia para a Grã-Bretanha e Mariana para a França – e a representação caricatural de um povo, exemplificando com as figuras do John Bill ou Tio Sam para os Estados Unidos, Zé Povinho para Portugal ou Braz Bocó para o Brasil, criado por Julião Machado. 13

Em 1908, foi a vez de João do Rio publicar na Gazeta de Notícias a desafiante crônica “Quando o brasileiro descobrirá o Brasil?”, na qual fez críticas aos brasileiros que desconheciam o seu próprio país, uma vez que a dependência e o interesse somente por tudo que fosse europeu estariam contribuindo para o profundo desconhecimento das “coisas da terra”.14

Logo, a discussão em torno da atualização cultural do Brasil esteve presente durante toda a existência da revista. Como tornar moderno um país marcado pela experiência tão recente da escravidão? A questão das “tradições culturais” foi o epicentro dessa discussão. O que era entendido como tradição? O que devia ser guardado do passado? Como articular essa “tradição” com a “modernidade” pretendida?

Assim, era preciso buscar e divisar um rosto para o brasileiro. Era possível ser moderno e original? A discussão se desdobrou em inúmeras outras questões relativas às “tradições populares” e às manifestações culturais das “ruas do Rio” e dos “sertões do Brasil”. Aqui destacaremos especificamente as tematizações que abordaram o “homem negro” no contexto da escravidão até a sua presença (e transformação) em “elemento nacional”. 15


II

Em 1905, Olavo Bilac, escreveu na Kosmos: “(...) o Brasil está cheio de gente preta ou mestiça que a grande lei de 13 maio veio integrar na comunidade brasileira”.16 Como lidar com o passado dessa “gente preta e mestiça” para integrá-la no presente era uma primeira questão. A segunda era definir e afirmar quais os critérios e características necessários para o ingresso na “comunidade brasileira”, moderna, civilizada e original que se pretendia construir.

Em todos os contos, crônicas e ensaios (sejam de ficção ou não) que tematizam o homem negro, ele próprio é o personagem ou o tema principal. Isso já evidencia centralidade da questão. Os clássicos estereótipos de boçalidade, barbarismo e irracionalidade, embora apareçam também, em grande parte dessa produção desaparecem. Um conto cujo personagem principal é um “pai joão”, com o sugestivo nome de Pai Quilombo, é exemplar desse tipo de abordagem - que registrou o sofrimento dos escravos, as hierarquias e as diferenças de poder entre eles e atitudes de crítica a essa desigualdade. Pai Ambrózio, escravo centenário e grande feiticeiro, longe de ser um boçal, detém o respeito de seus senhores, além de ser o líder da comunidade de escravos daquela fazenda. Seu saber como feiticeiro é respeitado pelo senhor e em nenhum momento é tomado de forma pejorativa. A ele, os escravos recorrem para aconselhamento e resolução de problemas.

Além disso, pai Ambrózio também demonstra um perspicaz entendimento das relações de poder em que estava inserido, não só em relação aos outros escravos, mas também em relação aos excessos e abusos praticados pelo filho do seu senhor contra ele e contra outros escravos de sua comunidade. Pai Ambrózio tem papel ativo na história, ainda que com resignação, ele responde e reage às agressões sofridas. Em uma das vezes em que foi insultado pelo filho do seu senhor na frente de outros escravos (e do seu próprio senhor), pai Ambrózio respondeu: “Deixa está, branco, vocês um dia há de pagá. Gente preta há de tingi e estragá gente de vocês. A arma da cobra há de entrá no cropo do passarinho...” 17

Nessa mesma linha, há também histórias de amor entre escravos e escravas que, impedidas pelo senhor, desencadeiam uma tomada de consciência dos envolvidos. O conto que narra a história de amor entre João Quilombo e Joaninha pode ser tomado como exemplo. O escravo João Quilombo, apaixonado pela mulata Joaninha - bela porém caracterizada sem a malícia e lascívia – lutam toda a história para ficaram juntos, fiéis um ao outro. Mas o senhor percebendo a beleza de Joaninha passa a assediá-la, despertando os ciúmes da senhora que passa maltratar terrivelmente Joaninha. João Quilombo, que tentava protege-la a todo custo, inclusive trabalhando e apanhando por ela, um dia não agüentou mais ver sua amada torturada daquela forma e fugiu para a serra. Logo depois voltou à fazenda e levou Joaninha consigo e assim os dois formaram um quilombo. Aterrorizados com o exemplo que poderia ser seguido por outros escravos os fazendeiros investiram contra o quilombo e aproveitando uma ocasião em que Joaninha estava só em casa atearam fogo na casa, matando-a. João Quilombo tomado de ódio pelos brancos - um ódio que não é só resultado de sua tragédia pessoal -vinga-se não só do seu ex-senhor, ateando fogo em sua fazenda, mas envereda-se pelo sertão ateando fogo em várias fazendas.

Assim, o narrador registra a reação de João Quilombo: “Estava vingado? Faltava ainda? O seu ódio era mais alto, não ficava apenas naqueles senhores, circunscrito naqueles domínios, era um ódio que vinha rugindo por séculos passados, o ódio do negro pelo branco, do escravo pelo senhor, da raça que sofre pela raça que faz sofrer.” 18 O homem negro, nesse caso, escravo, não é submisso, boçal, irracional ou bárbaro, pois conquista sua liberdade sem a ajuda de brancos, calculando seus passos, planejando e construindo sua própria sorte. Embora a solução do personagem para o conflito vivido seja individual, a sua vingança é coletiva, é em nome da raça que sofre.

Ainda em relação às imagens do homem negro nos tempos da escravidão vale chamar a atenção ainda para dois ensaios históricos que contam a trajetória de zumbi dos palmares de Chico rei. Ambos destacam a nobreza de caráter, a bravura e o espírito de luta desses homens.19 Embora contenham preconceitos essas abordagens apontam para versões do homem negro que se afastam dos estereótipos característicos da literatura pós-abolicionista apontados como passividade, submissão, amoralidade, violência irracional e instintos sexuais desenfreados.20 Afinal, esse “homem negro” também deveria integrar a nação brasileira moderna, civilizada e original.

Mas se, de fato, Zumbi e de Chico Rei são transformados em heróis negros, assim como pai Ambrózio, Pai Quilombo, Tio Cipriano, João Quilombo e outros são apresentados em versões que destacam sua nobreza de caráter, perspicácia, visões críticas das relações entre senhores e escravos e atitudes de protesto, eles pertenciam a um passado que se queria muito longínquo.

Se no passado esse homem negro, dotado de características positivas, tinha lugar garantido, o mesmo não se dava quando os homens de letras abordavam o presente e o futuro da nação. No presente, a “colaboração da raça negra” é tida como positiva, mas por ter contribuído “(...) na vida moral brasileira pela afetiva e submissa dedicação e na vida econômica pelo enriquecimento nacional com o trabalho rude e extenuador de três séculos (...)” 21. Se no passado atitudes de rebeldia e protesto eram valorizadas, no presente a submissão dos africanos e seus descendentes é afirmada como sendo o maior legado da “raça negra” para o Brasil.

Por outro lado, o mestiço é o presente, é o resultado positivo “(...) da dolorosa tragédia da escravidão, da sucessão violenta de cenas inacreditáveis (...)”. Possível depositário da originalidade brasileira, o mestiço foi destacado com portador de “(...) um traço iniludível” como “(...) o leve dourado da face, a insurreição mal refreada dos cabelos, o olhar insinuante e elástico (..).” Assim, a mestiçagem formaria pela mistura de tantos elementos esse mestiço ao mesmo tempo herdeiro da “raça negra”, mas distante dela. O “tipo definitivo da nossa nacionalidade” é o mestiço materializado na “vivacidade inteligente do homem e na beleza faceira da mulher”. O mestiço é o presente e o futuro.

Dessa forma, passado e presente, tradição e modernidade poderiam ser conjugados nas comemorações de duas grandes datas cívicas: o dia do trabalho (1º de maio) e o dia da abolição (13 de maio). Essa fusão marcaria dois processos fundamentais: um que diria respeito ao fato de que, na avaliação do autor, “( ...) o operariado no Brasil (...) era “(...) cada vez mais sensivelmente o nacional (...)” e o outro se relacionava à constatação complementar de que esse nacional “(...) é, na sua grande maioria, caracteristicamente, o mestiço.” 22

Logo, o dia do trabalho e o dia da abolição deveriam ser comemorações cívicas “identificadas na mesma representação” pois se deveria louvar tanto o trabalhador nacional-mestiço quanto “colaboração da raça negra no Brasil” e o tanto que “ nos deu em trabalho e dedicação, mentalidades e heróis”. Assim, nem mais se falaria na data da abolição, mas sim na “Conquista Libertadora”, pois assim se destacaria a “derrota do cativeiro” e não a escravidão “para não de dizer que houve um dia essa miséria no Brasil”. 23

Portanto, os aspectos raciais do mestiço desaparecem da mesma forma que a sua ligação direta com o passado da escravidão e a origem africana são apagados. Porém, os aspectos culturais, ou melhor, determinados aspectos culturais diretamente associados pelos homens de letras aos “negros”, como no caso da música, da poesia oral e das “tradições populares” permaneceram sendo destacados positivamente como “brasileiro”. Afinal, o Brasil quanto mais original fosse, mais nacional seria e essa era a operação que poderia lhe garantir um lugar no concerto das nações modernas. Mas essa “originalidade” deveria ser “civilizada”. Foi isso o que fizeram, ou tentaram fazer, os homens de letras reunidos em torno de revistas como a Kosmos. No entanto,

o sucesso desta operação é certamente discutível. De qualquer forma, se não conseguiu criar o país ou o povo de seus sonhos, certamente foi eficiente em relegar ao silêncio os significados e diversidades inerentes a este universo cultural. Desde então, tudo o que se produziu nesta área tinha como objetivo, grosso modo, definir a legitimidade ou ilegitimidade da “cultura popular”, recortar entre suas manifestações quais mereciam o título de autenticidade atribuído pela “ciência” do folclore - ou atribuir a este conjunto de práticas (danças, formas musicais, festas, poesia de cordel, etc.) o poder de expressar a essência da Nação, ou a capacidade de “resistência” das classes populares às tentativas de domesticação e controle. 24


* * *

Recordar é viver”, afirmava o cronista Gil na Kosmos, em 1904, para logo em seguida emendar: “e nós só devemos viver a vida sadia. Rememoremos apenas o que nos veio de grande: o resto passará vagamente pela memória das gentes mais antigas, como recordação distinta de um pesadelo desfeito.” 25 Afinal, as tradições são constantemente construídas e reconstruídas em conexão com o processo que abarca tanto o enfrentamento de uma “nova modernidade” quanto, diante dela, a necessidade de afirmar certas continuidades com o passado.26




1 Na virada do século 19 para o 20 as principais editoras no Rio eram os Laemmerts, o Garnier, Francisco Alves, o Jacinto o Quaresma. Brito BROCA. . A vida literária no Brasil – 1900. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1960 p. 143

2 Ana Luiza Martins. Revistas em Revista. Imprensa e Práticas Culturais em Tempos de República.São Paulo (1890-1922) São Paulo, Imprensa Oficial/FAPESP, 2001.p. 340

3 Idem. p. 140-141

4 Somente nos anos de 1940 os periódicos se enquadrariam em um esquema de projetos definidos visando à segmentação do público. Ana Luiza Martins. Op. Cit. p. 71

5 Idem. Op. Cit. p. 97

6 Idem. p. 27

7 Nicolau Sevcenko. Literatura como missão. São Paulo, Cia das Letras, 2003. p. 119.

8 Brito Broca. Op. Cit. p. 229

9 Olavo Bilac. Kosmos. Janeiro de 1904 (crônica de estréia da revista)

10 Com o grupo de intelectuais anarquistas, entre os quais Domingos Ribeiro, Fábio Luz, Curvelo de Mendonça, Elísio de Carvalho, Lima Barreto lançou a revista Floreal em 1907. Ver Brito BROCA. Op. Cit.

11 Curvelo de Mendonça. IN: João do Rio. Momento Literário. Op. Cit p. 145-146.

12 Deodato Maia. Fon Fon , ano 2, n. 46, 22/2/1908 Apud. Elias Thomé SALIBA. A dimensão cômica da vida privada na República IN: IN: Fernando A Novaes (coord.) História da Vida Privada. São Paulo, Cia das Letras, vol 3. p. 307

13 Elias Thomé Saliba. Op. Cit. p. 308

14 João do Rio. Gazeta de Notícias, 06.08.1908. Essa crônica foi posteriormente publicada no livro Cinematógrafo, em 1909. João do Rio. Cinematógrafo. Porto, Lello e Irmão, 1909.

15 Essa comunicação é fruto de algumas reflexões da dissertação de mestrado que tem como base documental um conjunto de revistas literárias de periodicidade mensal e anual: Kosmos (1904-1909), Renascença (1904-1908), Revista da Academia Brasileira de Letras (1910-1913; 1919-1920), Almanaque Brasileiro Garnier (1910-1914). Além dessas, também pesquisamos, mas com menos sistematicidade Fon Fon e Careta. Portanto, a argumentação acima desenvolvida tem como base essas revistas.

16 Olavo Bilac. (crônica de abertura) Kosmos. Ano 2, nº 5, Maio de 1905.

17 Escragnolle Doria. Pae Quilombo. IN: Renascença. Ano 2, n. 14, abril de 1905. Sobre história de pai João ver: Martha Abreu. Outras histórias de Pai João: conflito racial, protesto escravo e irreverência sexual na poesia popular. 1880-1950 (texto)


18 Viriato Corrêa. João Quilombo. IN: Kosmos. Ano 5, n. 7, julho 1908.

19 Mario Behring. Chico Rei. IN: Kosmos. Ano 3, n. 6, julho de 1906; Mario Behring. A morte do Zumbi. Ano 3, n. 8, agosto de 1906.

20 David Brookshaw. Raça e cor na literatura brasileira. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1983. p. 48-76

21 Gil. Crônica Recordar é viver. IN: Kosmos. ano 1, n. 5, maio de 1904

22 Idem.

23 Idem.

24 Projeto de Pesquisa Coletivo: Cultura e diversidade no Brasil: para além da história da identidade nacional (séculos XIX e XX). Coordenador Prof. Dr. Sidney Chalhoub. CECULT/UNICAMP. http://www.unicamp.br/cecult/pesquisas.html#pronex Capturado em 14.04.2004.

25 Gil. Op. Cit

26 Eric HOBSBAWM e Terence RANGER. A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984. Ver também Martha ABREU. História da Música popular brasileira. Op. Cit.



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