As marcas da submissão em através da vida, de amélia bevilaqua



Baixar 31.95 Kb.
Encontro21.07.2016
Tamanho31.95 Kb.


AS MARCAS DA SUBMISSÃO EM ATRAVÉS DA VIDA, DE AMÉLIA BEVILAQUA

Algemira de Macedo Mendes

Professora de Literatura Brasileira e Teoria Literária -UESPI/UEMA; Doutoranda em Teoria Literária/PUCRS

O papel da mulher na literatura brasileira vem, nos últimos anos, despertando o interesse de vários pesquisadores da área de pós-graduação, quer se tratando da produção escrita por mulheres, quer na representação do espaço social da mulher nos movimentos reivindicatórios e reconhecimento da mulher no cânone. O presente trabalho, em consonância com outros já existentes, tem como objetivos: caracterizar a produção literária piauiense escrita por mulheres, no final do século XIX e limiar do século XX, e verificar o tratamento com relação ao gênero, do ponto de vista histórico e sócio-cultural, a partir da obra Através da Vida publicado em 1906 da escritora piauiense Amélia de Freitas Beviláqua á luz da crítica Feminista como Isabel Allegro (1995) e Heloísa Buarque de Holanda (1984). Nessa perspectiva, recorreu-se a diversas etapas e estratégias a fim de se concretizar o trabalho proposto.

Na obra em análise (Através da Vida; 1906) A personagem Maria Daluz, protagonista do romance Através da vida, apresentada pelo narrador em terceira pessoa, como menina pobre que chega do Ceará, após longos anos de seca. Instala-se em Olinda juntamente com seu irmão na casa de seus tios.

Daluz, criança injustiçada e angustiada, como todas as mulheres de sua época, que serviam apenas para realizar obrigações do lar, não conseguiu sequer ser matriculada na escola, mas aprendeu, através do seu próprio esforço, a escrever e a ler.

Seguindo um costume da sociedade da época, marcada pelo patriarcalismo, seu tio logo escolheu um homem para casar com ela. Daluz renuncia assim a todos os seus desejos e passa a viver em total sofrimento, estendido mesmo após a morte do marido, quando teve que trabalhar para o seu próprio sustento.

O narrador onisciente nos apresenta a trajetória da personagem principal, utilizando-se da técnica do monólogo interior. Descreve, analisa e comenta o que se passa na sua consciência, ou seja, funciona como um intérprete do seu interior, fazendo uso portanto do discurso indireto livre, que é caracterizado pela liberdade expressiva do narrador, que pormenoriza a vida da personagem e/ou a ela dá voz, para expor seus pensamentos, como se observa no fragmento:



(...) logo cedo, a menina sentava-se no estrado, na sala de jantar, e era obrigada a bater bilros o dia inteiro para acabar o papelão de rendas que lhe era ensinado. Os marmanjos tinham vida muito diferente. Quando chegavam do colégio empinavam papagaios pela rua, traquinavam, corriam, tudo faziam sem que se ralhassem. A menina era um corpo cansado, sempre encurvado na almofada. Não distraía o espírito, nem brincava, por que era menina e devia estar sempre quieta... (BEVILÁQUA, 1906: 08).

No fragmento acima, percebe-se, através da imagem da palavra grifada, o ser humilhado, no sentido dicionarizado. No texto, o termo também sugere a subserviência da personagem Maria Daluz diante das atitudes que lhe eram impostas, traduzindo a ideologia machista.

A sua submissão pode ser percebida ainda quando o narrador utiliza-se do discurso indireto, dando voz à personagem, como se vê abaixo:

Um dia a pequena ajoelhou-se defronte de uma grande estampa de Jesus que estava pendurada no seu quarto de dormir e disse em voz angustiosa ao meigo nazareno que olhava para o alto, com os olhos tão tristemente dolorosos, que pareciam indiferentes à prece que ela lhe fazia com tanto ardor: “Jesus, tu que és tão admiravelmente bom, que és o maior dentre todos os seres, fazei que eu possa abafar no meu peito todos os meus sentimentos, que os meus desejos não ultrapassem nunca o poder das minhas forças”. (BEVILÁQUA, 1906: 22).


Podemos observar a impregnação religiosa da sociedade da época, sobretudo das mulheres, induzidas a seguir os preceitos. Em outra ocasião, a protagonista diz: “Jesus adorado, fazei com que voltem aqueles dias de outrora quando à tardinha, ouvindo o muralho das ondas, eu cosia ao lado de tia Mariana que me queria tanto” (BEVILÁQUA, 1906). Pode-se inferir aqui tanto a religiosidade da personagem, que recorre a Jesus nos seus momentos de aflição, como a postura da mulher temente aos princípios religiosos. A Igreja era um local freqüentado por elas que muitas vezes se dirigiam a este espaço como uma forma de fugir da dominação do marido, sair de perto do seu olhar ou do espaço doméstico que lhe era imposto como o seu mundo.


A mulher não percebia que na ânsia de fugir do espaço doméstico e de reagir à dominação do marido, caía em outro espaço que também buscava dominar, disciplinar seu comportamento sexual, impor uma moral, utilizando-se para isso de mecanismos fortíssimos para impor a ela uma disciplina rígida com relação a seus desejos e seus impulsos sexuais.

A Igreja e, em particular, o padre, quando assume o papel do confessor, de orientador espiritual, investe-se do poder de perdoar as falhas, os pecados e principalmente as fraquezas da carne.

Essas doutrinas eram totalmente absorvidas, principalmente pelas mulheres, levando em consideração que elas tinham pouca educação formal e eram cheias de crendices. Pode-se imaginar o que passava por sua cabeça com tais ameaças feitas pelo padre.

A personagem Daluz representa a mulher como um objeto a ser negociado. Segundo Pedro Vilarinho (1996) a instituição família tem como uma das suas funções principais a educação dos homens diferente da das mulheres, que deviam restringir-se somente ao espaço doméstico. As meninas, por sua vez, não devem passar o dia nas ruas brincando como os meninos, nem correr pelos matos atrás de ninhos dos passarinhos ou outros divertimentos de cunho masculino. Deviam ficar sempre perto do olhar vigilante dos pais, que atentavam para seu comportamento e reprimiam, quando necessário, o que eles entendiam como abuso que pudessem afetar a moral, a honra e os bons costumes das filhas.

O fragmento abaixo evidencia o tratamento da educação que era dada educação às meninas:

O pequeno lia, apontando com o dedo, numa impasse de grande sábio, tomando gestos e maneiras, pedantes. De quando em vez, comprazia-se em chasqueá-la, chamando-a de total. Realmente embasbacada defronte dessa grande sabedoria, a outra ficara completamente aterrada de ver tanta ciência em seu irmão pequenino, muito menor e mais moço do que ela! Estava humilhada, enrubescia e descorava ao mesmo tempo, desconfiada com um sorriso pálido a tremer-lhe nos lábios. O estudantinho convencido de sua real superioridade, não se compadecia da irmã. Muito cheio de si, todo orgulhoso e triunfante, olhava-a do alto com expressão de piedade. Depois abriu um novo livro, sempre com a mesma atitude sardônica soberba: também não entendes disto? Astronomia... disse ela vacilando, depois de ter olhado para o lombo do livro. Sim, o volume chama-se astronomia, porém sabes o que quer dizer este belo nome? A pobre criança, que apenas lia e escrevia muito mal, olhava trêmula e confusa para aquele menino Deus que lhe dizia tantas coisas novas e que, nessa hora de suprema angústia, lhe pareceu uma figura sobrenatural, e somente pode sacudir a cabeça negativamente. ... (BEVILÁQUA, 1906: 10).

Esse texto sugere uma espécie de justificativa da autora no tocante às suas posições antimachistas através da voz do narrador na expressão “estudantinho muito cheio de si”, olhava do alto com expressão de piedade. O termo em destaque confirma a indignação da autora diante da superioridade do homem. E o uso do diminutivo no substantivo estudante, apresenta uma forma pejorativa de a escritora qualificar a superioridade masculina.

No contexto da família Daluz deveria aprender as atividades que faziam parte da sua educação e que serviam como normas para o exercício de suas vivências futuras, passando também pelo papel da boa esposa.

A vigilância do comportamento das mulheres não se restringia somente ao pai, mas estendia-se a toda a família. Isso fica evidente no fragmento citado a seguir, quando o tio da protagonista arranja-lhe um casamento, pois a preocupação do pai ou familiar responsável pela guarda das mulheres tem essa finalidade, como bem se percebe no fragmento abaixo:



O tio Paulino tinha a cabeça baixa, a tia Mariana olhava-a esmo, muito triunfante. Essa indiferença pareceu-lhe o supra-sumo da crueldade. Teve vontade doida de gritar bem alto para todos os convidados que ela estava ali coagida, que não queria absolutamente casar-se. Mas um suor frio correu-lhe pelo corpo, um véu escuro passou-lhe pela vista, e ela, vacilando, sem firmeza, foi lentamente caminhando com os convidados para junto do altar. Não sei se os assistentes compreenderam instintivamente alguma coisa desse drama penoso que se desenvolvia, o que é certo, é que muitos tinham dificuldade de impedir as lágrimas diante daquela cena. À medida que o padre falava, sua voz se tornava fúnebre e as palavras ressoavam no salão como se ele abençoasse uma sepultura que ia se fechar. No momento psicológico da cerimônia, quando o sacerdote unia as mãos do casal, a noiva parecia quase desfalecer. Voltou repentinamente os olhos para seu amigo, e olhou-o pela última vez, como se quisesse guardar alguma coisa do seu ser, uma derradeira sensação. Não havia também, nenhuma exprobração. Unicamente traduzia uma grande dor que lhe esvoaçava pelo semblante, muda e triste, como uma vida que se acaba; traduzia ao mesmo tempo uma terna submissão diante da fatalidade das coisas. ... (BEVILÁQUA, 1906: 103).

Como demonstrado, a mulher não tinha opção na escolha do marido, cabia-lhe a aceitação da escolha feita pelos familiares mesmo que fosse a contra gosto, tinha muitas vezes que suportar a companhia de um homem que não era do seu agrado.

Para casar, geralmente era costume da época buscar os homens de um bom nível cultural e econômico, que pudesse assegurar um futuro tranqüilo e satisfatório para as filhas. Os homens que não preenchessem esses requisitos, mesmo que fossem do interesse das mulheres, não eram aceitos pelos pais. O noivo de Daluz, Francisco, pertencia a uma família abastada, seus pais possuíam terras e gado:

Ainda tomavam o café, quando entrou o Francisco com um presente muito rico para oferecer a noiva e mais uma doação de dez contos de reis, produto do seu gado que o pai acabara de vender a seu pedido. ... (BEVILÁQUA, 1906: 100).

Antônio Cândido (1975) afirma que o casamento nos tempos coloniais era contraído visando principalmente a interesses econômicos e políticos – ficando reservada importância apenas secundária a aspectos como afeto e atração sexual. Na segunda metade do século XIX, não eram os sentimentos existentes entre os noivos que decidiam sobre sua ligação. Assim, uma união assentada nas bases de então devia ter elevada probabilidade de apresentar problemas no que toca à sexualidade – inclusive relegada em grande número de casos a um plano secundário em relação ao objetivo primordial da procriação de filhos legítimos:



Antes de se acabar o verão desse ano que tinha sido muito alegre em Olinda, a Daluz aceitou finalmente o casamento com o Francisco. Era um sacrifício horroroso, porem não sabia mais resistir; todos queriam a sua desgraça. Que havia de fazer? Pensava num precipício medonho do qual pelejava para sair, mas as mãos dos outros a impeliam cada vez mais fortemente até arrojá-la de uma só vez. Não havia outro meio de conciliar-se com a família. Devia tanto aos tios... (BEVILÁQUA, 1906:73).

A mulher, depois de casada, passava aos cuidados do marido e recebia a autorização da sociedade para manter relações sexuais, porém, única e exclusivamente com seu marido. As mulheres que assim agissem eram consideradas dignas de respeito; tinham passagem livre na sociedade, pois possuíam respaldo moral, por terem vencido todas as tentações e permanecerem puras até o casamento. Depois de casadas, honravam os seus maridos que na realidade tornavam-se seus legítimos donos. Legítimos donos de seu corpo, não importava os sentimentos nem os sofrimentos dela. Isso pode ser observado na personagem Daluz, que sofre calada o desprezo e os maus tratos do marido, tinha somente a solidão como companheira.

Na situação final do romance, a personagem se conscientiza que mais do que ter acesso à educação, precisava de alguém que ela amasse, pois quando da morte do marido, sentia-se aliviada por sair daquela vida bizarra sem amor e sem carinho:

O doente olhou-a um instante. As pupilas embaciadas fulguraram de repente afogando-se nas lágrimas que desciam pelas faces e a fala se arrastando enternecida, gaguejou e baixou: ‘Adeus Maria Daluz, perdoa...’ ela estendeu-lhe a mão silenciosa, e sentiu que mesmo defronte desse torpor de morte não poderia absolutamente perdoar a afronta que acabava de receber. Não o odiava, apenas ele deixava de existir completamente no íntimo de seu ser, e não sentia mais por essa criatura moribunda, senão desprezo e desgosto. (BEVILÁQUA, 1906: 08).

Pode-se mostrar através do fragmento acima todas as agruras que a personagem passou ao longo da narrativa, e mesmo no final não houve uma redenção, mas a confirmação de uma visão determinista em que é sugerida a predestinação do ser.

Observou-se portanto que por intermédio, da obra estudada pode-se conhecer o papel da mulher numa sociedade marcada por convenções do modo de vida provinciano do final do século XIX e limiar do século XX, onde se evidenciaram fortes indícios de discriminação da mulher, sendo esta podada até mesmo de se legitimar como um ser pensante, como sujeito. Reconhece-se também, que esta obra reflete a problemática da estigmatização vivenciada pela mulher dentro de uma sociedade, onde a palavra homem não é entendida dentro da jurisprudência a que o termo suscita. Entende-se que um estudo mais sistematizado dessa escritora, que se encontra hoje no esquecimento, vai contribuir para a divulgação da crítica atual, fortalecendo o processo de construção da história da mulher no Brasil e resgate de suas obras que até então não obtiveram reconhecimentoo da crítica.

R

EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BEVILÁQUA, Amélia. Através da vida. Rio de Janeiro, 1906.

________. Academia brasileira de letras. Ed. Bernard Fleres. Rio de Janeiro, 1930.

BRANCO, Pedro Vilarinho Castelo. Mulheres plurais: a condição feminina em Teresina na primeira República. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1996.

FALCI, Miridan Knox. Mulheres do sertão nordestino. In: PRIORE, Mary del (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000. p. 241-277.

FALCI, Miridan Knox. Mulheres do sertão nordestino. Cadernos de Teresina. Teresina, Fundação Cultural Monsenhor Chaves, maio-agosto, 1997. p. 29-39.: a educação dos sentidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Parking on a tow-away zone: women’s literary in Brazil. BRASIL/BRAZIL. 1991, N. 06, P. 5-19.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org). Tendências e impasses. O Feminino como critica da cultura. Rio de Janeiro: ROCCO, 1994.

HAHNER, June E. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas. 1850-1937. São Paulo: Brasiliense, 1981.

LAJOLO, Marisa, ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1998.

MAGALHÃES, Isabel Allegro de. O sexo dos textos. Lisboa: Caminho, 1995. leitura e crítica literária (1900-1930). Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1998.

MALUF, Marina, MOTT, Maria Lucia. Recônditos do mundo feminino. In: NOVAIS, Fernando A. História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 367-422.

PRIORE, Del Mary. História das Mulheres no Brasil no século XIX. São Paulo: Contexto, 1997.

PRIORE, Mary Del (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: UNESP, 2000.

________. A Mulher na História do Brasil. São Paulo: Contexto, 1989.

ROCHA-COUTINHO, Maria Lúcia. Tecendo por trás dos panos. A mulher brasileira nas relações familiares. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p.66-75.

SIQUEIRA, Elizabeth Angélica Santos et al. Um discurso feminino possível – Pioneiras da Imprensa em Pernambuco (1830-1910). Recife: Editora Universitária da UFPE, 1995.



STEIN, Ingrid. Figuras femininas em Machado de Assis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.


Catálogo: arquivo-morto -> edicoes anteriores -> anais14 -> Sem03
Sem03 -> Livro, leituras e leitores em braile
Sem03 -> Otávio Cândido da Silva Júnior Analistas de Desenvolvimento Agrário Formação e Capacitação, da Fundação Itesp
Sem03 -> Faces múltiplas de uma docente: a presença de júlia medeiros
Sem03 -> Ema bovary, leitora de romances
Sem03 -> Leitura, interdisciplinaridade e inserçÃo social: o ensino em ciências e saúde em foco
Sem03 -> Entre a leitora e a historiadora : um olhar à revista seleçÕes do reader’s digest1
Sem03 -> Denise Fujihara Piccoli Maria Rosa Rodrigues Martins de Camargo Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – unesp
Sem03 -> Escola e cultura: as representaçÕes dos professores sobre o erro na leitura
Sem03 -> A imagem da mulher no romance contemporâneo: uma leitura de a república dos sonhos, de nélida piñON
Sem03 -> Pequenos leitores: ler para quê e para quem?


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal