As origens da moralidade



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As origens da moralidade

Falar sobre ética é um desafio que sempre se renova. Tantas são as perspectivas e possibilidades de abordagem que não há outra saída senão a de escolher um caminho e tentar enfrentá-lo, mesmo sabendo dos riscos de crítica que tal escolha implica.


Para enfrentar o desafio, começaremos pela perspectiva histórica do tema, com enfoque para a história da ética no Ocidente. Entendemos que, desse modo, serão fornecidos alguns subsídios interessantes para o futuro exame dos aspectos internos à ética, dentre eles: a estrutura da experiência ética, a natureza dos valores éticos, a fundamentação dos princípios éticos e suas aplicações a campos como o da pesquisa científica e da vida empresarial.
Antes disso, ainda, apresentaremos algumas teses sobre as origens da moral em geral, fundamento e base para qualquer discussão sobre a ética em geral.
Considerando as posições clássicas e os estudos atuais sobre o assunto, com as contribuições da biologia, da sociologia, da antropologia e da filosofia, podemos identificar três grandes linhas de interpretação sobre o tema das origens da moral. São elas: fundamento metafísico da moral, altruísmo biológico, evolucionismo cultural.

Fundamento metafísico da moral


O entendimento de que a moral tem fundamento metafísico, portanto, além da experiência e dos costumes locais ou de momento representa a mais longa tradição do pensamento filosófico e teológico do Ocidente.
Segundo esta linha de pensamento, todo ser humano traz em sua estrutura interior (alma, espírito, intelecto ou razão) noções ou conceitos dos valores morais. Tais conceitos são anteriores a qualquer experiência, individual ou coletiva.
Assim sendo, sem importar a cultura a que pertença ou o momento histórico em que viva, todo ser humano possui inscritos em sua natureza certos valores e, conseqüentemente, certos princípios ou leis morais. Por isso, nem todos os valores são criados pelo ser humano a partir de sua história pessoal ou do convívio social: alguns deles são eternos e imutáveis.
Fazem parte desta linha de pensamento autores como Sócrates, Platão e Aristóteles, entre os antigos; Agostinho, Pedro Abelardo e Tomás de Aquino entre os medievais; Descartes e Kant entre os modernos e Jacques Maritain, entre os contemporâneos.
De modo geral, o pensamento religioso alinha-se a esta interpretação das origens da moral.

Altruísmo biológico


A tese do altruísmo biológico como fonte da moral foi elaborada em tempos recentes, especialmente a partir dos grandes avanços da genética, da sociologia e da etologia1. Entre seus defensores estão, principalmente, neurocientistas, geneticistas e os filósofos pós-modernos, como é o caso de Baudrillard2.
A idéia de fundo desta vertente é a de que a moral se desenvolveu e se instalou desde quando seus efeitos se mostraram úteis à preservação da espécie.
Os animais em geral manifestam dois tipos de altruísmo: o altruísmo de parentesco e o altruísmo recíproco:


  • O altruísmo de parentesco ocorre no seio de um grupo de animais que compartilham os mesmos genes. Trata-se da proteção que parentes diretos ou indiretos dão aos membros de sua espécie. É o caso, por exemplo, do cuidado com a prole. Tal comportamento não é acompanhado da expectativa de recompensa. Trata-se de um determinismo genético; a formiga e a abelha, por exemplo, cumprem suas funções sem esperar recompensa.

  • O altruísmo recíproco ocorre no seio de um grupo de animais que não compartilham os mesmos genes. Por dependerem de laços de confiança entre os envolvidos, as relações deste tipo são mais frágeis do que as do altruísmo de parentesco. Ele se manifesta sob forma de cuidados com a limpeza, compartilhamento de alimentos, proteção aos companheiros etc. Neste caso, a cooperação está associada à expectativa de algum retorno. Ambas as formas de altruísmo estão presentes tanto nos seres humanos quanto nos demais animais.

A evolução destas duas formas de altruísmo, de base genética, resultou no estabelecimento de padrões morais, também de fundo genético. Com isso, fixaram-se padrões que em nada dependem da liberdade de escolha, mas, exclusivamente, da condição genética em que se encontra a espécie humana num determinado momento de sua evolução.



Evolucionismo cultural


A tese do evolucionismo cultural pode ser considerada como meio termo entre as interpretações de fundo metafísico e biologista acima citadas.
Um de seus principais defensores é o pensador hispano-americano Francisco Ayala3.
Este autor reconhece a existência de certas predisposições de fundo biológico que, ao longo do processo evolutivo, interferiram na formação da autoconsciência e do pensamento abstrato em geral. Contudo, ainda que essas faculdades tenham recebido forte determinação biológica, isso não significa que tenham a força de impor a escolha de valores morais e de produzir normas morais. Normas morais como, por exemplo, as de que “não se deve furtar” ou “não se deve desejar a mulher do próximo” só podem ser estabelecidas a partir de uma experiência cultural, na qual interfere, também, a capacidade de escolha livre do homem.
Antecipar as conseqüências das ações e escolher entre as alternativas mais adequadas para a preservação da espécie é tudo que o biológico pode contribuir na esfera da moral.
A capacidade de percepção e escolha dos valores é de outra ordem, da ordem da cultura4. Além da influência dos fatores biológicos, a evolução cultural também envolve, de algum modo, a contribuição da vontade humana. Assim, o cultural se vincula ao biológico no momento da construção da moral.
A autonomia da vontade humana em relação à genética pode ser muito claramente observada nos casos em que as decisões tomadas são contrárias aos instintos de sobrevivência e de reprodução. Vejam-se os exemplos do martírio religioso ou do jejum com fins estéticos.
Fonte

HRYNIEWICZ, Severo. As origens da moralidade. Rio de Janeiro: FGV Online, 2008.



1 Vinculada à zoologia, a Etologia é uma disciplina que estuda padrões de comportamento próprios de cada espécie animal. Tais estudos são feitos, preferencialmente, no ambiente natural, já que certas especificidades do comportamento animal somente são observáveis no contato estreito e continuado com espécies particulares que se encontram livres em seu habitat.

2


 O sociólogo e filósofo Jean Baudrillard nasceu em Reims, na França, em 1929, e faleceu em março de 2007. Foi professor de Sociologia na Universidade de Nanterre e um dos fundadores da revista "Utopie", tendo publicado mais de 50 livros ao longo de sua carreira, dentre os quais "O Sistema dos Objetos" (1968), "A Sociedade de Consumo" (1970), "Simulacros e Simulações" (1981) e "América" (1997). Refutou o pensamento científico tradicional e baseou sua filosofia no conceito de virtualidade do mundo aparente. Além de crítico mordaz da sociedade de consumo – considerava as massas como cúmplices de seus males – também desenvolveu uma crítica radical aos meios de comunicação de massa, considerando-os fortes instrumentos de anulação da consciência crítica.

3 Nascido em Madri (1934), radicado nos EUA desde 1961 e cidadão americano desde 1971, Francisco J. Ayala é geneticista e um dos mais renomados filósofos da ciência de nossos tempos. Enquanto biólogo e filósofo, dedicou-se à investigação das relações entre as modernas descobertas da biologia e os diversos sistemas éticos.

Professor de Ciências Biológicas junto à Escola Donald Bren (Califórnia) e de Filosofia junto à Universidade da Califórnia, e autor de mais de uma dezena de livros e de cerca de 750 artigos publicados nos mais diversos órgãos especializados, Francisco Ayala é membro da Sociedade Filosófica Americana, da Academia Americana de Artes e Ciências e da Academia Nacional de Ciências (EUA), dentre outras.

4 A Cultura engloba todo e qualquer produto da ação humana diante da natureza: a ela se vinculam todos os atos humanos, com maior ou menor grau de consciência.



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