Asav II- módulo cinema o primeiro cinema



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ASAV II- MÓDULO CINEMA
O PRIMEIRO CINEMA (+ ou - 1894 até 1915):
Designaremos por "primeiro cinema" as décadas inicias de produção cinematográfica que englobam:

Primeiro período>>1894 a 1906: um cinema não narrativo

Segundo período>>1906-1915: crescente narrativização que culmina com o lançamento do primeiro longa-metragem da história do cinema:"The Birth of a Nation", 190 min./D.W.Griffith)

Principais realizadores: Lumière, Zéca e Nouguet, Méliès, Casa Pathé, Williamson, Edison/Porter e outros.


>>O primeiro cinema é experimental, marginal, anárquico, minoritário e atípico (características que seriam enquadradas e domesticadas a partir da linearização da forma e do conteúdo da chamada decupagem clássica, principalmente a partir de Griffith, e que só seriam recuperadas a partir do cinema moderno).
>>O primeiro cinema reflete a percepção diante das características do início do século XX: velocidade; aceleração; urbanização, industrialização, ascensão do proletariado e da classe média, evolução dos transportes e sofisticação dos meios de comunicação. Por isso é um cinema que usa e abusa das tomadas de ou a partir de trens, bondes, barcos e navios.
>>Para a percepção do homem contemporâneo, o primeiro cinema é estranho e engraçado (em 1903, 30% dos filmes produzidos nos EUA eram comédias). Não tem moral definida, nem se preocupa em definir uma.
>>Atores dirigem-se ostensivamente à câmera, deixando claro que sabem da presença do espectador. Há uma clara ruptura do espaço DIEGÉTICO.
>>O primeiro cinema é SINCRÉTICO, ou seja, funde elementos culturais diferentes, ou até antagônicos. Nesse sentido, mistura ficção e realidade. Os primeiros documentários não hesitam em misturar ficção e realidade. Durante os seus dez ou quinze primeiros anos (portanto de 1895 a 1910 aproximadamente), o cinema estava ligado a formas mais antigas de espetáculos: participava como coadjuvante em atrações visuais populares, como os

panoramas e dioramas; mareoramas; stereoramas,

ou mesmo performances teatrais; estava ligado a várias modalidades de espetáculos populares de cultura, como o circo, feiras de atrações, espetáculos de magia, aberrações, o carnaval, a pantomima, a prestidigitacão, a lanterna mágica (mistura de palestras, conferências e projeções de fotos). Este mundo da cultura popular era um mundo paralelo ao da dita cultura oficial. Tratava-se de um universo extra-oficial, onde predominava o cinismo, as obscenidades, grossuras, ambiguidades:

baseava-se no princípio do riso e do prazer corporal.

Investia-se (assim como no carnaval) nas inversões: o baixo e o alto, o sagrado e o profano, o nobre e o plebeu, o masculino e o feminino, o uso e abuso das as máscaras e do realismo grotesco.

>>O primeiro cinema é NÃO LINEAR (enredos imprecisos e pouco narrativos). Em geral contavam com a presença de um narrador externo que tentava explicar os filmes.


>>A montagem das cenas não é linear, mas descontínua no tempo e no espaço. Não havia encadeamento lógico entre fragmentos de imagens (isto quando existia mais de um fragmento). Ou seja, ainda não existiam regras de continuidade.
>>Mais do que teatro filmado, o primeiro cinema é um VAUDEVILLE FILMADO (comédia leve e muito movimentada, que originariamente comportava cenas cantadas e passou, em seguida, a caracterizar-se pelos qüiproquós, e por situações imprevistas) definindo uma forte ligação com as formas antigas de representação, como o teatro popular e o carnaval: tudo é colocado de forma simultânea dentro do quadro; a câmera capta um único ponto de vista frontal para dar conta de toda a cena (filmava-se num só plano de conjunto (PC) ou plano geral (PG); só ocorriam cortes em caso de mudança do espaço cênico (LÓGICA DA REPRESENTAÇÃO DRAMÁTICA). Essa descontinuidade espaço/tempo estava apoiada pela lógica da representação dramática, da qual o público estava acostumado. Ações que demandariam pouco tempo demoram muito ou vice-versa
-Como havia um único ponto de vista frontal em relação à encenação, para captar a imagem de conjunto, a câmera se afastava e, assim sendo, não podiam ser vistas as feiçõs delineadas dos atores; dai a interpretação afetada e gestualmente exagerada dos atores, cujas faces não podiam ser vistas com clareza.
-Apesar de ser considerado primitivo, em muitos casos o chamado primeiro cinema já apresentava características metalingüísticas (como em Uncle Josh at the moving Picture Show (1902), de Edison/Porter).
-Do ponto de vista empresarial, o primeiro cinema garantia total autonomia aos realizadores (que acumulavam os cargos de produtores, diretores, roteiristas e, por vezes, atores, cenógrafos, músicos, além, é claro, de vendedores das próprias obras).
GEORGES MÉLIÈS (1861-1938):
Um dos espectadores da primeira sessão de cinema promovida por Lumière no Grand Café, foi Georges Méliès, artista multimídia por definição: caricaturista, prestidigitador e ilusionista, discípulo do grande mágico Robert Houdin.
Méliès ajudou a fornecer as bases para uma narrativa cinematográfica ficcional mágica e onírica, transformando o cinema, que em seu início era uma curiosidade científica e um instrumento de puro registro factual, em um meio de criação pura, introduzindo a ficção no cinema, com a utilização de enredo, atores, cenografia e, ainda, maquinaria para realizar truques que possibilitavam suas mágicas cinematográficas: introduziu os primeiros efeitos e trucagens no cinema:

FADE -OUT e FADE-IN, DISSOLVE, STOP MOTION, DUPLA EXPOSIÇÃO

Assim, tornou-se o primeiro diretor da história do cinema.

Méliès fez filmes de 1896 a 1913, formando uma notável filmografia: O Jogo de Cartas, O Caso Dreyfus, O Barba-Azul, Viagem à Lua, Joana D’Arc, Viagem Através do Impossível, As 400 Farsas do Diabo, A Conquista do Polo, O Cavaleiro das Neves, 200 Léguas Submarinas, O Túnel sob a Mancha, Fausto, O Barbeiro de Sevilla, Hamlet.


A diversificação era total, mas, contrastando com os temas da atualidade que lhe eram muito caros, especialmente por lhe permitir a abordagem satírica, havia certa predominância temática dirigida à ficção científica e ao sobrenatural. Transformava ou fazia aparecer ou desaparecer personagens; criava seres minúsculos ou gigantescos; levava coisas ou personagens a voar ou submergir, enfim, criava um mundo mágico onde tudo era permissível, sempre revestido por riquíssimas cenografias, procurando conduzir suas histórias com refinada fantasia e notável bom humor. Seus filmes eram poéticos e próximos ao surrealismo, que estava por nascer como teoria em seu próprio tempo, ali mesmo em Paris. Méliès escrevia, desenhava, produzia, dirigia e com freqüência, interpretava seus filmes. Até nossos dias pode ser considerado um dos maiores criadores da história do cinema. Teve enorme sucesso, muitos imitadores, e mostrou as possibilidades criativas dessa nova arte.

EDWIN PORTER (1869-1941):
-Cameraman de Edison; estabeleceu as primeiras regras de continuidade na edição (ainda que as relações de tempo e de espaço não estivessem codificadas p/ fornecer um ponto de vista naturalista). Influenciado fortemente por outros pioneiros ingleses, como Williamson (que tinha esboçado encadeamentos lógicos entre fragmentos de imagens).
-Porter percebe que a câmera pode tomar um mesmo acontecimento de vários pontos de vista, ainda que não soubesse construir uma noção de simultaneidade entre essas perspectivas diferentes .

Assim, é um dos introdutores da chamada MONTAGEM ALTERNADA (Intercutting), utilizada no filme "The life of an american fireman" (1902): técnica de edição pela qual duas sequências de ações são alternadas para sugerir simultaneidade. Elemento importante dentro da contexto da narrativa fílmica, permitindo manipular o tempo da ação (retardando-o ou acelerando-o).

Obs: em Porter há ainda muitas sobreposições de tempo, elipses abruptas e jump-cuts; além do que ainda não estamos falando da mudança de pontos de vista da câmera num mesmo e único cenário.


-Começou a utilizar cortes em cenas de suspense.
-Experimentou alguns closeups, além das primeiras panorâmicas (panning shots).

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QUANDO TERMINA O CHAMADO PRIMEIRO CINEMA?
-De um lado as histórias começavam a ficar cada vez mais complexas tornando problemática a simultaneidade de situações, ações e informações no mesmo quadro. De outro a ascensão de um público pequeno-burguês e "ilustrado", que segundo Arlindo Machado é incapaz de perceber qualquer "coerênca" na "confusão" do quadro primitivo, aliado à tradição linear da linguagem escrita forçaram uma LINEARIZAÇÃO, HOMOGENEIZAÇÃO, CODIFICAÇÃO E MASSIFICAÇÃO da linguagem cinematográfica.
>>A domesticação do primeiro cinema é uma tentativa de "ESCREVER" a simultaneidade, da mesma maneira como a linguagem verbal. Os elementos da ação serão desmembrados em fragmentos simples: os PLANOS (fragmento de uma ação em que apenas um dado essencial é colocado de cada vez).

Constata-se que:

-uma cena não precisa ser filmada numa única tomada.

-ela pode ganhar inteligibilidade se for desmembrada em fragmentos que vão guiar os olhos do espectador: o quadro começa a ser recortado, a câmera se desloca e os ângulos da câmera mudam.


-A partir de Griffith, (1908 em diante), a câmera começa a ficar mais próxima dos objetos. Ele traz a solução do Plano Americano (corte na altura dos joelhos, enfocando no máximo três ou quatro personagens, além do resto da cena). O ator passa a ser flagrado com mais intimidade e o espectador começa a identificar suas expressões, seus gestos. É claro que este recurso nasce paralelamente à necessidade de dar carga dramática à cena e às expressões do personagem, aproximando-as do espectador.
-Além disso Griffith joga com diferentes aberturas de quadro e diferentes posições da câmera para tornar certos dramas mais expressivos. Salta de Planos médio p/ primeiro plano e deste para plano americano com desenvoltura.
-Começa a utilizar cortes no ápice da ação, além de investir cada vez mais na continuidade do tempo e na homogeneidade do espaço (que encontraram a sua definição maior em INTOLERÂNCIA, de 1916) principalmente através da noção de campo e contracampo.
-A desmarginalizacão do cinema o torna mais compreensivo. O cinema começa a se integrar à cultura dominante (cultura oficial e não cultura popular). É a transição dos VAUDEVILLES p/ os chamados Nickelodeons. Começa a prevalecer o "bom senso" e o "senso comum" da classe média burguesa, ao mesmo tempo em que muda a estrutura de produção do filme que passa de artesanal p/ industrial (especialização, fim da parceria na produção, ascensão dos grandes estúdios)

O primeiro cinema é experimental, minoritário, atípico, marginal, anárquico, características que serão esmagadas pela industrialização da producão cinematográfica posterior, assim como o estabelecimento da narrativa cinematográfica que enquadraria a linguagem fílmica dentro de certos limites de forma e conteúdo (decupagem clássica: diminui a extensão da cada parte do filme, a duração de cada plano; uso psicológico do primeiro plano, grandes finais marcados pela convergência de tensões e a combinação de recursos até então dispersos (shot/reaction-shot, câmera subjetiva, campo/contra/campo). Entretanto, o caráter marginal do primeiro cinema seria recuperado depois pelo próprio cinema moderno (onde a convivência do espetacular e o narrativo, segundo o historiador Tom Gunning, é a herança que o primeiro cinema legou, por exemplo a Spilberg-Lucas-Coppola).


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