Ascensão e integração do imigrante judaico no Brasil dos anos 20 e 30



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Rogério da Silva Bento

Ascensão e integração do imigrante judaico no Brasil dos anos 20 e 30.

Centro Universitário Augusto Motta
03/09/2004

rsilvabento@click21.com.br

As grandes imigrações transoceânicas dos séculos XIX e XX, surgem como solução, tanto para o Brasil como para Europa. Para os países europeus, é a forma de diminuir seu excedente demográfico nas cidades de homens e mulheres, que foram expulsos dos campos ou iludidos pela industrialização. Para o Brasil, o problema europeu torna-se a solução dos seus problemas, uma vez que, poderá conter as pressões dos fazendeiros, que preiteavam uma política de colonização em massa nas áreas desabitadas. Tais políticas viriam beneficiar alguns estados, como por exemplo, São Paulo, que estava com suas lavouras em expansão. No entanto, não foi levado em conta que tal política iria empurraria ribanceira abaixo uma parcela da sociedade, a força de trabalho nativa, que já vivia à margem da sociedade. Pois a mesma, não esta preparada para competir com a mão-de-obra imigrante. Esta mão-de-obra nativa é marginalizada pelo fluxo de imigrantes. Além da questão econômica e a necessidade da colonização de algumas áreas, há também um lado estético ou racial, pois se vê na imigração uma forma de tentar embranquecer a população brasileira e dar ao Brasil uma imagem européia. Desta forma, as portas estavam abertas a qualquer imigrante de aparência européia. É preciso ressaltar, que durante um breve período, 1908 a 1914, o governo paulista subsidiou a entrada de imigrantes japoneses.

A política de imigração iniciada na metade do século XIX e melhor estruturada no final do mesmo século, é de tamanha importância para o crescimento demográfico brasileiro, uma vez que, em 1890 a população brasileira é de 14.333.915 habitantes. Passados 30 anos, o aumento populacional brasileiro ultrapassa os 100%, chegando a 30.635.605 em 1920. É fato, não ter sido a imigração a única responsável pelo crescimento populacional brasileiro, mas com certeza foi um dos fatores de maior importância.

Além do ganho demográfico, a industrialização é imensamente influenciada pela imigração européia. Os imigrantes haviam sido habitantes de cidades ou tinham experiência de trabalho assalariado e eram sensíveis aos seus incentivos, dominavam também habilidades manuais e técnicas que raramente se encontravam no Brasil. Junto ao crescimento populacional, temos também o processo de urbanização. Até 1890, cerca de 75% da população brasileira encontrava-se na zona rural, e passados 40 anos, a concentração na zona rural ainda será muito alta, cerca de 70% da população. Diante destes números somos levados a concluir que, a concentração populacional nas zonas urbanas se dá, em parte, por uma parcela de imigrantes e seus descendentes. Em 1920, cerca de 60% dos estabelecimentos indústrias existentes no Estado de São Paulo são de imigrantes e aproximadamente dois terços dos habitantes desta cidade são formados por estrangeiros e seus descendentes. Nas outras capitais esta percentagem não é muito diferente. E tudo isso se dá à sombra do fortalecimento da economia agrário-exportadora.

O processo de urbanização é notório nas principais capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. As cidades crescem e a população também, e logo surge algo novo, algo que o Brasil desconhecia, que é o seu mercado consumidor. Este último fator é de tamanha importância para a implantação das primeiras indústrias nas cidades. Em um censo realizado em 1907, o primeiro censo geral completo das indústrias brasileiras, apesar de se constatar um erro de 25%, após uma autocrítica, onde se alegava que nem todas as cidades dos estados citados responderam ao censo, tal como São Paulo, que obtinha cerca de 183 Municípios e somente 44 responderam . Apesar dos erros, o censo esboça a situação industrial brasileira daquele período, onde 33% da produção cabia ao Distrito Federal; 16% a São Paulo e 15% ao Rio Grande do Sul. Nenhum outro Estado Alcança 5%. É necessário deixar claro que a maior parte do capital disponível, entre o período de 1905 a 1910, proveniente da produção agrícola não era aplicada na agricultura, seu caminho era as indústrias, pois os produtores temiam a recorrência da crise, pela super produção do produto, sendo assim, muitos daqueles lucros foram aplicados na indústria, que demonstrava um rápido desenvolvimento.

Este é o cenário encontrado pelo imigrante europeu, em especial o imigrante judaico, da década de 20.

A imigração da década de 20 é impulsionada pela crise do pós-guerra na Europa . Enquanto no Brasil a guerra causa expansão na indústria, devido à substituição da importação pela produção interna, na Europa , palco do conflito, a Guerra é responsável por crises econômicas, perseguições políticas e religiosas. Boa parte desta crise do pós-guerra se dá na Europa Central e Europa Oriental. Perante a crise que se encontra a Europa, muitos homens e mulheres vêm na imigração à solução para os seus problemas. Uma boa parcela desses homens e mulheres, semitas, como motivos triplicados. Pois as guerras civis, perseguições religiosas e ideológicas que se instauram nestas regiões, resultam na morte de 100.000 a 150 000 mil judeus. Os Estados Unidos, foram a primeira opção dos imigrantes, no entanto, em 1921 foram aprovadas leis que restringem a imigração. Reduzindo o número de imigrantes judeus a um escasso fluxo. Os imigrantes, sem muito sucesso, tentam a Argentina, mas nossos vizinhos seguem o exemplo norte-americano.

Mediante a barreiras e ao anti-semitismo que se espalha por toda Europa, os judeus brasileiros apagam seu desejo de regressar à Europa e mandam buscar seus parentes para aqui se radicarem. Entre o período de 1920 a 1930 são ininterruptas as levas de imigrantes judeus vindos da Europa Oriental. A década de 20 e 30 são os períodos em que as instituições judaicas estão mais presentes. As primeiras instituições judaicas são criadas por judeus já estabelecidos para suprir suas necessidades de vida comunitária e assistir aos novos imigrantes. Ao compararmos a imigração judaica com qualquer outra que seja, a coletividade e suas instituições são os principais diferenciadores. Por mais que se encontre alguma instituição referente a uma determinada nacionalidade, dificilmente ela terá o mesmo alcance ou importância que teve as instituições judaicas. Fica fácil percebermos esta diferença ao analisarmos a quantidade de instituições, sociedades beneficentes e cooperativas. Num determinado momento, a estrutura criada pela coletividade judaica durante o segundo decênio do século XX, terá um único objetivo, o amparo e o estabelecimento dos imigrantes. A variedade de Sociedades e Cooperativas era tão grande quanto a de imigrantes. Em 1912, surge no Rio de Janeiro a “Sociedade de Ajuda Fraternal” Achiezer, em 1913 surge a Organização Sionista Tifert Zion e em 1916 é criado o Comitê em Prol das Vítimas da Guerra. Esse processo se dá em todo país, cada um com uma característica diferente. Estas estruturas de amparo, abrangem diversos setores, indo de escolas a cemitérios. O maior exemplo disso é a Jewish Colonization Association (JCA), que foi a responsável pela criação de várias colônias de imigrantes em todo mundo, inclusive no Brasil. Além das colônias, a JCA criou 27 escolas entre os anos de 1910 a 1930. A maior preocupação dos imigrantes após garantir a alimentação de sua família é com os estudos de seus filhos. Daí entende-se a preocupação desta Instituição, JCA, em criar escolas.

As décadas de 20 e 30 são ricas em variedades de Cooperativas e Sociedades. Essas sociedades e cooperativas visam à emancipação financeira dos imigrantes. O maior exemplo disso é o surgimento, em 1928, da Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada “Laie-Spar Case”, no Bairro do Bom Retiro, conhecido como bairro Judeu. Segundo Nachman Falbel, a finalidade desta cooperativa era proporcionar pequenos empréstimos a juros baixos aos seus associados, constituídos em boa parte de imigrantes recém-chegados ao país, permitindo-lhes desenvolver suas atividades profissionais e econômicas, que os leva a se integrar na sociedade brasileira. A Sociedade de Vendedores Ambulantes é outro bom exemplo, seus associados visam se emancipar da tutela dos comerciantes já estabelecidos. Esses homens vêem no cooperativismo a forma mais adequada de solucionar seus problemas. Em suma, a maioria dos imigrantes, judeus, da década de 20, é comerciantes ou artesãos. Os artesões que não abrem sua oficina, facilmente são absorvidos pela indústria brasileira em expansão, uma vez que mão-de-obra nativa ainda é inferior a mão-de-obra estrangeira. A maior prova da absorção da mão-de-obra judaica durante a década de 20 são as acusações feitas por nacionalistas e xenófobas, onde os mesmos acusam os imigrantes de roubarem seus lugares no mercado de trabalho. Esta diferença é maior ainda a partir da década de 30, com a chegada dos imigrantes alemãs. Mas também há uma grande resistência do governo brasileiro perante a entrada de imigrantes, principalmente o imigrante judeu. Não bastando às barreiras impostas pelo governo, a coletividade judaica também tem problemas como a Ação Integralista Brasileira, partido que até 1938 mantém relações muito estreitas com o Governo Federal. È preciso ressaltar que as sociedades e cooperativas da década de 20 continuam a existir nos anos 30, e mais forte que antes, pois será nos momentos mais difíceis que a unidade judaica será mais forte e mais presente.

Apesar das perseguições que se dão durante este período, muitos imigrantes ainda entram em território brasileiro. Na década de 30 a mão-de-obra judaica também é facilmente absorvida, já não são mais artesões e sim advogados, médicos, professores empresários bem-sucedidos. O Brasil cresce e cada vez mais passa a necessitar de trabalhadores especializados e capitais. A educação é o principal empecilho do trabalhador brasileiro, devido a um sistema educacional ainda precário ou em construção, no entanto é o principal trunfo do trabalhador estrangeiro da década de 30. Fica fácil entendermos porque tamanha diferença quando analisamos a história educacional brasileira. Em 1930, somente 30% da população em idade escolar, estavam matriculados. Logo percebe-se, que o número de pessoas que conseguem se especializar é infinitamente mais modesta que esses 30%. É neste mesmo ano que se começa a estruturar uma reforma educacional para o país. E enquanto a política educacional não surte efeito, os imigrantes e seus descendentes penetram em diversos setores da sociedade brasileira, esses homens e mulheres retribuem com o melhor dos seus talentos, estão no campo do comércio, das indústrias, das finanças, das artes, da política e das ciências engrandecendo a vida do país.
Conclusão
Os judeus encontraram em solo brasileiro um espaço precioso de convivência que nem os fatos isolados de intolerância, conseguiram ofuscar.

A História da imigração e integração judaica, não deve ser vista como uma história isolada de um povo, e nem com menos importância a qualquer outro imigrante. Deve ser vista sim, como a história de homens e mulheres que tiveram grande importância na edificação da nação brasileira.


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