Aspectos básicos da história e cultura dos vikings



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ASPECTOS BÁSICOS DA HISTÓRIA E CULTURA DOS VIKINGS

Prof. Dr. Johnni Langer (UNC, SC/UNICS, PR) johnnilanger@yahoo.com.br

SUMÁRIO:

Cap. 1: A origem e o contexto histórico dos Vikings, p. 1

Cap. 2: As classes sociais, p. 4

Cap. 3: Regras sociais, família, educação, p. 6

Cap. 4: As embarcações e a tecnologia náutica, p. 9

Cap. 5: O guerreiro e seu equipamento, p. 12

Cap. 6: Técnicas de batalha, p. 15

Cap. 7: Os mitos, p. 18

Cap. 8: Runas e símbolos, p. 20

Cap. 9: Os funerais e enterros, p. 23

Cap. 10: Os Poetas da Era Viking, p. 26

Cap. 11: As novas concepções sobre os Vikings, p. 30

BIBLIOGRAFIA, p. 33

Cap. 1: A origem e o contexto histórico dos Vikings:

Os Vikings constituem os mais famosos guerreiros da Idade Média. Seu nome está

associado a povos implacáveis e temíveis, sedentos por sangue e batalhas. Mas na

realidade, os nórdicos medievais foram muito mais do que apenas piratas e saqueadores.

Formaram uma civilização sofisticada e complexa, que interferiu com o rumo da História

européia e deixou marcas profundas no Ocidente.

Qual a origem desses guerreiros? A palavra Viking provém do nórdico antigo víkingr,

e era utilizado para designar os piratas, aventureiros e mercenários que navegavam para

outras regiões. Nenhum escandinavo chamava a si próprio de Viking. A partir do século

XVIII, o termo passou a ser sinônimo para todos os habitantes da Escandinávia medieval e

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hoje é utilizado pela maioria dos acadêmicos. Cronologicamente, os nórdicos que recebem



essa alcunha viveram entre 793 a 1066 d.C, a divisão clássica da Era Viking.

Os escandinavos pertencem aos chamados povos germânicos, uma classificação que

leva em conta a linguagem e certos aspectos culturais básicos, como a mitologia. E os

germanos fazem parte de uma grande leva migratória denominada de Indo-europeus (do

qual fazem parte também os celtas, eslavos e gregos).

O início do povoamento indo-europeu na Escandinávia se deu entre 8.000 a.C. Os

primitivos ocupantes a partir de 4.000 eram povos nômades, agricultores e criadores de

gado. A primeira grande revolução social se deu somente com a introdução do ferro na

Escandinávia, em meados do primeiro milênio antes de Cristo. Antes do advento da Era

Viking, houve um período conhecido como Vendel (séc. VII-VIII d.C.), que já atestava a

existência de ricos túmulos de reis e guerreiros, poderosas dinastias e imensas fortificações

como Danervike.

A Era Viking tradicionalmente começa com o célebre ataque ao mosteiro de

Lindisfarne, Inglaterra, em 793 d.C. A maioria das incursões dos escandinavos nesse

período era totalmente predatória, atos isolados de pirataria nas costas européias. Qual a

causa desses ataques? Porque os escandinavos a partir desse momento saíram de seu

isolamento? Os especialistas pensam em algumas hipóteses, indo desde a superpopulação (e

falta de alimento ou subsistência), divergências legais internas, diferenças sociais e

condições mercantis. Também temos que levar em conta que a tecnologia náutica dos

povos nórdicos, durante esse período, estava em seu auge, permitindo tanto as incursões

quanto ao processo de colonização em localidades distantes. Muitos líderes escandinavos

foram expulsos de suas comunidades. Disputas internas pelo poder, cada vez mais

centralizado (e que ocasionou a formação de impérios unificados no final da Era Viking),

ocasionaram graves conflitos armados, sugerindo outra possibilidade para explicar a

expansão Viking pelo mundo ocidental. Atualmente, o comércio é apontado como um fator

primordial da expansão dos nórdicos pelo mundo, somado às possibilidades de bons furtos

e fornecimento de provisões, todas possibilidades decorrentes de rotas específicas de

navegação abertas pelos primeiros piratas Vikings.

A Escandinávia do período era constituída por três reinos, ainda sem estrutura

centralizada. O da Dinamarca é o mais conhecido atualmente. Em 800 d.C., os Danis

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criaram um reinado que inclui a moderna Dinamarca, parte da Alemanha e as províncias de



Skåne e Halland. A maior preocupação dos Danis era se protegerem do expansionismo dos

Francos. No início da Era Viking, constituía-se politicamente no mais avançados dos povos

escandinavos. Mas durante o séc. IX, esse reino foi sucessivamente dividido e entrou em

colapso. A Noruega era fragmentada em pequenos reinos com identidade regionalizada. Na

Suécia viviam os Svíar e na região báltica os Götar. Entre 890, o rei Svíar possuía um reino

que se estendia da ilha de Gotland até o centro da Suécia.

A História dos povos nórdicos é dividida em duas Eras separadas. A primeira Era

Viking (séc. IX-X) teve início com os saques e incursões hostis, mas também povoações

foram criadas nas ilhas britânicas e Irlanda. O auge desse período foram a colonização da

Islândia (860), as primeiras incursões no Mediterrâneo (859) e o estabelecimento do

principado de Kiev (860). A Segunda Era Viking (séc. X-XI) foi inicialmente marcada pelo

fortalecimento das dinastias permanentes e poderosas na Escandinávia e a lenta aceitação

do cristianismo. O rei Cnut conquista a Inglaterra e consolida um império efêmero em todo

o mar norte (incluindo também a Dinamarca, Noruega e Suécia). No Oeste, houve a

colonização do Atlântico Norte, com colônias na Groelândia e Canadá. O fim do período

Viking em todo o mundo Ocidental coincide com a passagem do paganismo para o

cristianismo. Um escandinavo deixava de ser Viking quando tornava-se cristão. A

conversão definitiva da Islândia (1000) e a batalha de Hastings (1066), tornaram-se os

marcos principais do desfecho da mais empolgante fase da história nórdica.

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Cap. 2: As classes sociais:

A sociedade Viking era muito estratificada. Dentro de cada região da Escandinávia,

havia uma estrita hierarquia com um chefe ou rei no comando e uma aristocracia que servia

de apoio ao seu poder. Abaixo, estavam os fazendeiros, comerciantes e pescadores. No

estrato mais inferior, os escravos. Juridicamente, só existiam os homens livres e os nãolivres

(escravos), sendo que os primeiros eram protegidos pela lei e podiam participar das

Things (assembléias). A estrutura social não era rigida, assim, um escravo poderia adquirir

liberdade, assim como um fazendeiro poderia se tornar um nobre.

O rei (konungr) era basicamente um chefe militar, religioso e administrador que

garante a paz no seu território. Seguindo a velha tradição germânica, o rei era o primeiro

entre seus iguais. No início da Era Viking, quando toda a Escandinávia era dividida em

muitos clãs, um chefe local tornou-se rei apenas porque foi nomeado por outros chefes nas

assembléias. Nos últimos momentos da Era Viking, a monarquia se transforma em um

instrumento mais poderoso, unificador e centralizador, e a herança tornou-se regra, ao invés

da nomeação. Mas se o poder real era hereditário nesse momento, a sucessão de pai para

filho não era garantida. Assim, outro membro da família poderia disputar a sucessão,

originando violentos conflitos. Reis e rainhas eram enterrados com grande ostentação. A

fonte de toda essa riqueza, no início da Era Viking, era a posse das terras, nos produtos e

impostos pagos pelos trabalhadores. Com a crescente complexidade da sociedade, as

receitas reais começaram a ser adquiridas com impostos mercantis e alfandegários. A

cunhagem de moedas foi uma típica atividade demonstradora de poder político e

econômico, por parte da realeza nórdica.

A classe dos nobres (jarls), formava a base da aristocracia, que também era

hereditária. Todas as propriedades, família e bens legais passavam para o filho mais velho.

Esta classe exercia uma influência muito grande nas assembléias regionais. Eram os

constituidores do principal suporte militar de uma comunidade. Formavam a base dos

chamados chefes locais (lendrmadr, na Islândia eram chamados de godhar), que exerciam

autoridade em nome do rei. Em algumas regiões, como a Noruega, o poder dos jarls era tão

grande que dificultou a formação de um reino unificado. Os jarls exibiam sua condição

privilegiada através da qualidade superior de suas vestimentas, jóias e armas. Os homens

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usavam mantos finos de lã, presos aos ombros por sofisticados broches, cobrindo túnicas



muito belas. As espadas possuíam um fino acabamento nos punhos. Suas damas

ostentavam broches, colares e braceletes de prata e ouro. Os vestidos (vadmal) eram

tingidos por corantes caros, com motivos, plissadas e bordados muitos sofisticados. O

principal traje feminino era uma única túnica fina, comprida ou curta.

A classe mais numerosa da Escandinávia Viking era a dos karls, todos os nórdicos

que não eram escravos e nem nobres. Podiam possuir e usar armas, assistir e falar no Thing.

A maioria dos karls eram granjeiros ou fazendeiros, chamados de bóndis. Mas haviam

também os pescadores, comerciantes, construtores de navios, ferreiros, artífices,

carpinteiros, etc. Os bóndi podiam também ser muito ricos, devido à quantidade de terras,

escravos e ao controle total de suas propriedades, ao contrário do feudalismo reinante na

Europa da época. Outra forma de reafirmar seu prestígio eram as alianças com os jarls. A

classe dos karls servia como reserva de combatentes dos exércitos reais, convocados em

época de grandes conflitos ou invasões estrangeiras.

Os escravos tinham o nome de thrall e eram fundamentais para a economia.

Executavam os trabalhos menos valorizados e não possuíam mais direitos do que um

cavalo ou um cão, pois pela lei, eram propriedades. Seus donos tinham poder de vida e

morte sobre eles, e até o advento do cristianismo, matar um escravo não era considerado

crime, especialmente as mulheres (muitas das quais eram oferecidas a sacrifícios

religiosos). A escravidão podia ser uma pena imposta para pessoas capturadas em outros

países, punições para certos crimes, pagamento de dívidas ou, simplesmente, pessoas

nascidas em servidão, pois ela também era hereditária. Alguns homens livres podiam ser

convertidos em escravos por dívidas, e após o saldo desta, voltavam a ser livres novamente.

Praticamente em todas as propriedades escandinavas existiam servos e escravos. Os

escravos podiam comprar sua liberdade, mediante cultivo de lotes de terra concedidos por

seus proprietários. Não existem indícios arqueológicos de sepultamento de escravos.

Possivelmente, após a sua morte, o corpo do escravo era simplesmente desfeito sem

qualquer cerimônia. Um dos grandes entrepostos Vikings para vendas de escravos foi na

região do Volga, e eles serviam como mercadoria de troca para o comércio com o califado

abássida de Bagdá. A instituição da escravidão desapareceu da Escandinávia entre os

séculos 12 e 14 de nossa Era.

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Cap. 3: Regras sociais, família, educação:

A família era o núcleo social mais importante do mundo nórdico. Decisões familiares

muitas vezes eram mais importantes até do que as individuais. Também ocorriam com

frequência rivalidades entre famílias, algumas resolvidas no Thing, outras em duelos

combinados. Ou então, após o pagamento de uma multa pela parte culpada (pago em

público), ou o uso do ordálio (prova por meio da dor física, onde o resultado é considerado

de caráter sobrenatural). Todos os escandinavos dependiam de sua família para obter

alimentos, abrigo, companhia e principalmente, proteção e vinganças.

A noção de família (fjolskylda) era diferente da moderna: numa mesma casa,

moravam os avós, pai, mãe, irmãos e primos do pai, crianças e os escravos. Todas as

pessoas de uma família comiam, dormiam, trabalhavam e cozinhavam dentro das

residências, em um único aposento sem divisões. O ambiente interior das residências era

muito escuro e insalubre. Somente os ricos viviam em casas confortáveis.

Os filhos mantinham uma relação muito estreita com os pais, e mesmo após o

casamento continuavam a trabalhar na fazenda da família paterna. Os membros de uma

fjolskylda mantinham obrigações de suporte mútuo. Se a honra da família era maculada, os

membros deveriam defendê-la, mesmo em casos de assassinato ou injúria contra um

membro dela (no caso, a realização da vingança de sangue). A família era responsável pelo

suporte material de todos os membros, principalmente aqueles que pela idade ou doença,

não podiam trabalhar.

Como em muitas culturas, as crianças Vikings brincavam com miniaturas que

imitavam a vida adulta, como espadas e armas de madeira, além de jogos de tabuleiro e de

bola. A educação formal era desconhecida. O pai tomava toda a responsabilidade da

educação, e alguns skalds (poetas) complementavam com narrativas orais. Algumas

crianças eram tratadas com muita severidade, outras com mais tolerância. Desde muito

cedo, as crianças colaboravam diretamente nos trabalhos das fazendas, artesanato ou

negócios. Inicialmente, meninos e meninas são convocados para trabalhos simples.

Posteriormente, com o avanço da idade, são incumbidos de tarefas apropriadas para seu

sexo, como exemplo, fiação e tecelagem para as garotas e metalurgia para os garotos. Entre

os 13 e 19 anos, ocorre a passagem para a vida adulta. Na aristocracia e realeza, garotos são

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convocados para atuarem na política e guerra na metade da adolescência. Harald Hardrada



tinha somente 15 anos quando atuou na batalha de Stiklestad em 1030.

Nos tempos paganistas, o aborto e a exposição de recém-nascidos era permitido

(geralmente abandonados em bosques). O bebê deveria ser aceito pelo pai para poder viver.

Não conhecemos as concepções paganistas sobre a vida após a morte para elas. Como

também não existem vestígios de enterros em cemitérios e nem estelas ou memoriais para

crianças.

Após o casamento, a mulher não mantinha mais relações com sua família natal. Ela

tinha que cuidar das crianças pequenas, preparar e cozinhas o alimento, limpar a casa e

lavar a roupa. Era a mulher que cuidava dos feridos, doentes e idosos. Quando o homem

estava ausente, ela ficava encarregada da autoridade doméstica – seu símbolo era um molho

de chaves preso ao cinto. Desde menina, a mulher aprendia a ser quieta e obediente.

Geralmente eram os pais que escolhiam o marido para as filhas, mas elas não eram

obrigadas a casar. Nem a idade ou a falta de virgindade eram empecilhos para o casamento.

O casamento (kostr) era organizado em duas etapas: o noivado e o matrimônio (brullaup).

A iniciativa partia do noivo ou de seu pai, que realizava a proposta para o pai ou guardião

da noiva. Se este último ficasse satisfeito, o pretendente prometia pagar um preço pela

noiva (mundr). Enquanto solteira, a mulher ficava sob a guarda jurídica do pai ou irmão, e

com o casamento, essa responsabilidade passava para o marido. Os poderes do homem

sobre a esposa eram grandes: ele podia ter concubinas, matar a esposa adúltera e o amante e

mandar matar um bebê doente. Entretanto, as mulheres podiam pedir divórcio (entre os

motivos, por exemplo, a impotência), ter propriedades e bens legais. As viúvas podiam se

tornar poderosas com a herança do marido.

Não existem evidências da participação feminina em batalhas como guerreiras (a

exemplo do que ocorria com os Celtas), mas as mulheres nórdicas eram integrantes de

expedições colonizadoras e mesmo nas fazendas e propriedades, podiam participar na

defesa armada em casos de ataques. Um caso célebre envolvendo mulher em conflitos foi

com a filha de Erik, o vermelho, chamada de Freydis. No momento em que sua fazenda

(situada na América do Norte) estava sendo atacada pelos indígenas denominados de

Skraelings, ela mesmo estando grávida, desnuda seus seios e os ataca com seu machado. Os

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agressores, aturdidos por uma cena tão insólita – combatidos furiosamente por uma mulher



com cabelos de fogo e grávida - acabaram fugindo do local.

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Cap. 4: As embarcações e a tecnologia náutica:

Acima de tudo, os Vikings foram um povo construtor de navios e uma cultura

dedicada ao mar. A expansão de sua civilização e de suas conquistas se deve diretamente ao

seu conhecimento em tecnologia náutica, a mais sofisticada de toda a Idade Média.

Existiam vários tipos de embarcações no mundo escandinavo. Uma palavra muito

comum hoje em dia – drakkar (dragões), na realidade, foi criada pelos franceses e não tem

origem nórdica. O barco simples (bote) era chamado de batr e faering, e o navio

propriamente de skip. Existiam vários tipos de navios, sendo os mais comuns o langrskip

(navio longo, chamado também de herskip), utilizado para guerra, e o knorr, para fins

comerciais. Ocorriam navios mistos, como o karfi, utilizado para passeio, recreação ou

exibições oficiais da realeza. O tipo de embarcação mais numerosa nos tempos vikings

eram os botes, utilizados para pescaria, transporte de pessoas entre as cidades e o litoral e

comércio.

A construção das embarcações era uma verdadeira arte, transmitida de pai para filho,

sem nenhum desenho ou esboço como guia. A tradição oral e a experiência era as mestras.

O carpinteiro era chamado stenfsmior e era quem escolhia as melhores árvores a serem

utilizadas para a construção: para o casco, madeira de carvalho; para o convés e mastro, o

pinheiro. A construção do barco começa pela roda de proa, a parte da frente. Ela é talhada

em uma única peça de madeira. Após sua colocação, monta-se uma peça idêntica na popa e

entre as duas, a quilha. Para controle da direção, utilizava-se um leme feito de madeira

maciça, preso por um cabo e fixado na popa.

Estaleiros foram instalados nos portos. Muitos navios eram construídos e reformados

ao mesmo tempo, de acordo com a demanda. Em Paviken (Suécia Báltica), foi descoberto

uma “doca seca” , onde as embarcações podiam atracar enquanto se faziam as reparações.

Em Fribrodre (Dinamarca), também foram localizados fragmentos, que fizeram os

especialista concluírem que a madeira dos navios antigos era utilizada para reparar barcos

novos.


Utilizavam-se tanto a única vela de lã como os remos para movimentar as

embarcações, as vezes, as duas ao mesmo tempo. A lã tinha origem animal e era

impermeável. Os ataques relâmpagos eram possíveis graças à enorme rapidez e extrema

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maneabilidade das embarcações longas. O segredo da pirataria bem sucedida: navios ágeis



e velozes. Os maiores navios de guerra chegavam a ter 55 metros de comprimento. E a

média da velocidade de um navio longo era de 8 a 10 nós (18 km/h). Outra vantagem dos

navios de guerra era a possibilidade de serem transportados por terra seca. Para tanto,

baixavam o mastro, recolhiam os remos, suspendiam o leme e faziam a embarcação rolar

sobre troncos de árvores ou sobre rodas de madeira (construídas no próprio local de

transporte). Em alto mar, a vida a bordo dos navios não era fácil. Muitos morriam pelo frio

ou umidade, especialmente no Atlântico Norte. Seus corpos eram atirados ao oceano.

O costume de pendurar escudos nas amuradas dos langrskips era cerimonial, e para a

navegação propriamente dita eles eram retirados: num navio em movimento, cruzando os

mares, os escudos seriam varridos pela água. Somente os navios de batalha utilizavam

carrancas de animais (principalmente dragões) nas proas. Os cargueiros eram mais pesados,

redondos e sem remos, conforto ou enfeites. Todo o espaço era reservado para a carga e

dependiam totalmente do vento para navegação.

Para orientar a navegação em alto mar, os marinheiros utilizavam a experiência

geográfica, memória, observação das rotas das aves marinhas e peixes, variação da cor da

água, astronomia e o uso de equipamentos. Não existiam cartas náuticas e nem o

conhecimento da bússola magnética. A avaliação da posição baseada nos cálculos do rumo

seguido da velocidade era muito comum. Direções eram calculadas em relação ao Sol e Lua

(estão mais altos quando o navio ruma ao sul e mais baixos, quando navegam na direção

oposta), direção do vento e à ondulação. Existe a possibilidade dos Vikings utilizarem a

medida da estrela polar (indica o norte), como os árabes faziam.

O que se sabe de concreto, é que existiam bússolas solares: foram descobertos

vestígios de um disco de madeira e de esteatita triangular, ambos nas colônias nórdicas da

Groelândia. Esses objetos possuíam entalhes laterais, marcando as graduações da bússola.

No centro, possuíam um gnômon – uma haste vertical que projetava uma sombra do Sol.

Para verificar qual era o rumo da embarcação, girava-se esse disco até que o sombrado

gnômico toque a curva apropriada, para em seguida fazer a leitura dos entalhes laterais.

Marcações paralelas no disco, em relação à sombra do gnômon, indicavam a direção norte.

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Os navios Vikings mais famosos são os de Gokstad (Noruega, descoberto em 1880) e



Oseberg (Noruega, 1904) e Skuldelev (Dinamarca, 1956). Todos foram recuperados pela

arqueologia e hoje se encontram em museus náuticos.

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Cap. 5: O guerreiro e seu equipamento:

Todos os homens livres tinha o direito de usar armas nas sociedades nórdicas. Mas

nem todos recebiam um treinamento específico para a guerra, como no caso dos jarls.

A espada era a melhor de todas as armas, muito apreciada pelo seu poder de combate

e como símbolo de posição social: quanto maior o status do guerreiro, mais magnífica era a

espada. Muitas vezes o cabo era ricamente adornado e as lâminas com dois gumes, e um

comprimento de até 80 cm. Inclusive, alguns cabos possuíam adamasquinados em forma de

animal e detalhes artísticos impressionantes. O acabamento do punho era de madeira.

Algumas lâminas eram importadas dos Francos (Ulfberht), mas o restante da espada era

confeccionada na própria Escandinávia. As lâminas tinham que ser flexíveis e leves, mas

também fortes e afiadas. As espadas mais esplêndidas eram guardadas em bainhas

magnificamente adornadas com enfeites de bronze ou douradas e até mesmo runas e

detalhes artísticos. Muitos esqueletos recuperados mostram ferimentos causados por

espadas, mutilações feitas em combates sangrentos.

As facas curtas de combate, de um só gume, eram concebidas para serem espetadas

no inimigo, em combates corpo a corpo. As mais comuns tinham cabo de ossos, enquanto

as mais sofisticadas eram tão adornadas quanto as melhores espadas. Seu uso era cotidiano

para qualquer tipo de escandinavo, mesmo as mulheres, pois também era uma arma de

defesa, caça e pescaria.

Muitos tipos diferentes de lanças da Era Viking sobreviveram. Existiam as lanças e

dardos de arremesso, projetadas especialmente para obterem velocidade e penetrarem nas

linhas inimigas. Algumas eram semelhantes ao pilum romano, com formas muito finas e

compridas. As pontas terminavam em “barbas” ou arpões, para dificultar a retirada no

corpo do adversário. Com isso, não intencionavam recuperar esse tipo de armamento nas

batalhas. Em momentos ofensivos, utilizava-se principalmente o arremesso de lanças e

projéteis. Mesmo sendo muito usados machados e espadas, as lanças eram as peças

fundamentais das batalhas, e em muitas ocasiões, os conflitos foram resolvidos somente

com o uso deste tipo de armamento! Logo no início dos conflitos, no momento do

arremesso dos projéteis acima dos adversários, clamava-se o nome de Óðinn. As lanças

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ofensivas não eram fabricadas para arremesso, mas como armas de suporte. Eram ricamente



decoradas nas próprias lâminas, com desenhos e motivos geométricos.

Apesar da literatura nórdica marginalizar o uso dos arco e da flecha, em favor da

nobreza da espada e da lança, seu uso e importância nas batalhas reais foi decisivo. Era

tanto um armamento para treino em competições e caça, quanto uso estratégico em

formações de batalha. Eram inseparáveis das batalhas marinhas e ocorreram até casos de

arqueiros montados.

O machado é a arma mais associada aos guerreiros Vikings, mas seu uso era mais

frequente em atos de pirataria e incursões marítimas do que em frentes de batalhas. Eram

bem simples: feitos de um bloco de ferro cuja extremidade era encaixada um cabo de

madeira. A maioria não era adornada. Seu uso foi muito popular na primeira Era Viking,

pelo fato de ser tanto utilizado na agricultura quanto nas empreitadas predatórias (os

machados de “barba”), visto que a maioria da tripulação não tinha recursos para adquirir

espadas.

Todos os capacetes de combate dos escandinavos encontrados até hoje possuem

forma cônica, esférica e sem nenhuma protuberância. Alguns possuíam proteção nasal,

enquanto outros tinham adaptação para cotas de malha descendo sobre o pescoço. A famosa

imagem do elmo com chifres foi uma invenção fantasiosa de artistas do século XIX,

popularizada com a ópera, cinema e quadrinhos.

Os escudos eram feitos de madeira, com uma saliência de metal no meio, para

proteger as mãos. Possuíam forma redonda e protegiam o corpo desde o ombro até as

coxas, cerca de um metro de diâmetro. O canto dos escudos era reforçado com uma faixa de

ferro. O principal sistema defensivo em uma tropa era o “testudo”, uma formação compacta

feita com os escudos dos guerreiros, semelhante à “tartaruga” dos antigos romanos.

Muitas armas recebiam nomes de seus donos: “camisa de Óðinn” (cota de malhas); “o

alegre voador” (flechas); “lobo da ferida” (machado); “porco de guerra” (elmo); “víbora do

inimigo” (espada).

Os mais famosos de todos os guerreiros Vikings foram os berserkers (“peles de

urso”) e os ulfhednar (“peles de lobo”) uma verdadeira elite marcial, muito requisitados

para tropas de choque, assalto e até guarda de palácios. Devotos fanáticos por Óðinn,

lutavam como possessos e animais enraivecidos, urravam e mordiam os escudos e muitas

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vezes entravam nas batalhas sem nenhuma proteção, suportando a dor do ferro e do fogo.



Nas Sagas, são considerados portadores de poderes sobrenaturais. Existem estudos

modernos que demonstram que esse frenesi era ocasionado pelo uso de alucinógenos (como

o cogumelo Amanita muscaria) e bebidas alcóolicas. Um escritor do período os definiu:

“não são más pessoas para se conversar, contato que você não os perturbe”. A origem

desses guerreiros remonta à épocas mais antigas: os guerreiros germânicos Wolfhetan

(“pele de lobo”) do séc. VIII. Muito antes, Tácito já descrevia uma elite de guerreiros

fanáticos semelhantes aos berserkers.

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Cap. 6: Técnicas de batalha:

Os Vikings são muito famosos por seus atos de pirataria e como guerreiros

implacáveis. Mas muitas pessoas pensam que os chamados povos “bárbaros” não possuíam

qualquer noção de estratégia calculada no momento de realização de um conflito. Esse

pequeno ensaio procura justamente demonstrar que os nórdicos medievais eram muito

astutos e precavidos. A criação de táticas militares não é exclusividade do mundo moderno,

sendo apenas a sofisticação de experiências dos povos da antiguidade.



Os principais tipos de combates da Escandinávia Medieval:

Combate das Sagas:

Prática executada em pequena escala, geralmente nas disputas de sangue (vendetas)

entre as comunidades escandinavas. Na maior parte das vezes eram realizadas durante a

noite e se constituíam em duelos clandestinos (emboscadas, assassinatos semi-legalizados).

Uma técnica comum nesse tipo de combate era a queima da casa ou fortaleza do inimigo,

geralmente após a meia noite, com a finalidade de destruir e desorientar. Esse tipo de

violência armada era sempre submetida aos códigos de justiça das famílias e das vendetas.

Ação da casa real:

Atividade militar relacionada ao poder real pelo interior das comunidades. Uma tropa

definida mantém o controle político e territorial. Com isso, torna-se um tipo de controle

interno, no caso do uso de violência.

“Partindo como um Viking”:

Pequeno grupo armado que se desloca para regiões distantes da sua comunidade de

origem, utilizando basicamente técnicas de pirataria com ação rápida, fulminante e precisa,

com propósitos predatórios. Também podem ser expedições punitivas ou com objetivos

políticos.

Campanha do exército real:

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Forças militares de grande tamanho, deslocadas com propósitos definidos pelo rei,



geralmente ampliação do território ou conflitos externos. Porém, antes de tomar qualquer

tipo de ação, fazia-se todo um “ciclo” de decisões. Inicialmente, o rei enviava diplomatas

(mas normalmente espiões...) e aguardava seu retorno, incluindo ou não negociações com

os rivais. Consolidando as estratégias a serem decididas, incluindo as localizações precisas

do território a ser abordado, análise das táticas e monitoria dos movimentos inimigos,

realizava-se o engajamento final para a batalha. As principais estratégias desse tipo de

combate eram: assumir completamente o território do inimigo; queimar a capital; dispersar

o exército; modificar o governo; efetuar uma rendição incondicional e executar

publicamente o rei inimigo.

Com esse tipo de combate verificamos a total inexistência de uma guerra de modelo

“barbárico” entre os escandinavos. Ou seja, uma guerra onde a brutalidade e a força física

contam mais que a organização ou táticas previamente estabelecidas. Os Vikings, desta

maneira, constituíam uma cultura com um modelo sofisticado de marcialidade – dentro dos

padrões medievais da arte da guerra.



Princípios de estratégia e técnicas de batalha

Os guerreiros nórdicos eram regidos por alguns ideais militares: força e a coragem

inspirados em Thor, perícia em armas, senso e habilidade no manuseio de armas, pretensão

a nobreza. O principal ideal repousava no astuto e contraditório deus da guerra, morte e

poesia: Odin. A associação das qualidades marciais com a figura odínica era a doutrina de

base dos combates Vikings, que nem sempre precisavam da pressa irracional de um ataque

frontal. Inspirados na figura ambígua de Odin, os escandinavos trapaçeavam e “batiam o

inimigo onde ele não se encontra”, ou seja, evitavam confrontos diretos com forças mais

poderosas, preferindo ataques em pontos e situações desfavoráveis ao inimigo.

As táticas militares utilizadas normalmente em unidades pequenas (a exemplo da

técnica do “partindo como um viking”) previam o uso da oportunidade e detalhado

conhecimento sobre o inimigo. Um ataque bem sucedido requeria boa inteligência,

segurança e coragem. A estratégia da guerrilha, desta maneira, foi utilizada com eficiência

em situações que envolviam pequenos grupos. Segundo o historiador Paddy Griffith, as

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chaves do sucesso para operações nórdicas em pequenas unidades, seriam uma relação



entre as oportunidades que essa operação teria sucesso com poucos feridos no ataque;

inteligência; mobilidade e rapidez na sua execução; número de tropas atacantes;

armamento.

O principal sistema defensivo em uma tropa era o “testudo”, uma formação compacta

feita com os escudos de madeira dos guerreiros, semelhante à “tartaruga” dos antigos

romanos.


Em momentos ofensivos, utilizava-se principalmente o arremesso de lanças e

projéteis. Mesmo sendo necessários machados, espadas e punhais, as lanças eram as peças

fundamentais das grandes batalhas, e em muitas ocasiões, os conflitos foram resolvidos

somente com o uso de dardos de arremesso! E também, apesar da literatura nórdica

marginalizar o uso dos arcos e flechas em favor da nobreza da espada e da lança, seu uso e

importância nas batalhas reais foi muito decisivo. O tipo de combate em que o machado era

mais utilizado (advindo daí sua associação direta com a imagem dos guerreiros nórdicos)

era o “partindo como um Viking”.

Para ataques em fortalezas, cidades e postos fortificados – cujo objetivo era a

destruição/queima das mesmas, utilizavam-se frentes de batalha para todas as aberturas

desses locais (especialmente portas e portais). Locais sem defesa, como mosteiros e

abadias, utilizavam-se três frentes: a principal, que se concentrava na dianteira ou entrada

da construção; uma segunda formação de ataque, na lateral, para dissipar a área; e

finalmente, uma terceira na parte posterior do edifício, para impedir a fuga dos ocupantes...

Nas marchas de incursões, existia uma formação dianteira de batedores e guias,

dividida em três partes separadas: a mais numerosa e principal, localizada na parte

posterior; no meio, diversas tropas pequenas, para busca de comida, dinheiro e novidades; e

na frente da formação, guerreiros isolados (os líderes), guiando e observando o horizonte.

E nos confrontos de exércitos, as formações de batalha eram variáveis. Existiam duas

formações “idealizadas”: uma simples, em forma linear/horizontal, e outra, com a mesma

estrutura só que em forma dupla perpendicular. Na prática, o que ocorria eram formações

circulares em múltiplos e pequenos grupos, ou um grupo formando um círculo com flancos

bem defendidos.

18

Cap. 7: Os mitos:

Segundo a mitologia nórdica, no início dos tempos, existia um abismo chamado

Ginnungagap. Próximo dele, estendia-se duas regiões, uma gelada e nebulosa com o nome

de Niflheimr, e outra clara e resplandescente, denominada Múspell. Quando o gelo de

Niflheimr caiu no abismo e derreteu, formou um gigante, Ymir, e uma vaca, Auðumla, que

lambeu o gelo salgado. Conforme lambia, surgiam seres antropomórficas: os deuses Óðinn,



Vile e , que mataram o gigante Ymir. A partir deste cadáver, o trio de deuses formou toda

a estrutura do universo conhecido, desde a abóbada do cosmos até os homens.

O mais poderoso deus do panteão germânico era Óðinn, chamado pelos germanos

antigos de Wotan, e considerado o “pai dos deuses”. Ele era membro da família de deuses

chamados de Æsir (ases), marido de Frigg e pai dos deuses Baldr, Bali, Höðr, Þórr, Týr e

Váli. Óðinn era uma deidade assustadora, furiosa, violenta, cruel, cínica, enganadora, mas

ao mesmo tempo, também era o inspirador das poesias e da magia. Era ele que presidia as

batalhas, e do alto de seu trono (Hlíðskjálf) observava a tudo o que acontecia no universo.

Possuía dois corvos, Huginn (pensamento) e Munninn (memória), que informavam sobre os

acontecimentos do mundo. Possuía um caráter sacrificial: para beber na fonte de Mímir,

trocou um de seus olhos; para obter o segredo das runas, se deixou enforcar e ser

trespassado por uma lança. Óðinn cavalgava em um cavalo de oito patas (Sleipnir) e

portava uma lança mágica (Gungnir). Na batalha final (Ragnarök) foi devorado pelo

monstruoso lobo Fenrir.

A entidade mais popular da mitologia nórdica é Þórr, o deus do poder e da força, dos

juramentos, do raio e relâmpago, chuvas e do tempo. Utilizando seu martelo (Mjöllnir),

Þórr defende os humanos e os deuses dos poderes destrutivos dos gigantes. Também possui

um cinturão mágico, que duplica sua força, e um par de luvas de ferro. Ela viaja com uma

carruagem puxada por dois bodes. Casado com Sif, a deusa dos cabelos de ouro. Muitas das

façanhas de Þórr estão associadas com batalhas contra os gigantes ou monstros. Uma de

suas mais famosas aventuras, é o momento em que foi pescar a serpente do mundo

(Miðgardsormr), com ajuda do gigante Hymir. No momento em que o monstro fisgou a

isca, o gigante apavorado, corta a linha e o monstro é libertado. Durante o Ragnarök, Þórr

finalmente conseguirá matar Miðgardsormr, mas será fulminado pelo seu veneno.

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A deusa mais famosa da Escandinávia paganista é Freyja, regente do amor, prazer



sexual, casamento e fertilidade. Ela divide metade dos mortos com o deus Óðinn. Nos

mitos associados a ela, geralmente Freyja aparece com caraterísticas devassas. Para obter o

colar Brísingamen, ela dormiu com cada um dos anões que o fabricaram. Loki acusou

Freyja de ter dormido com quase todos os deuses, inculindo seu irmão Freyr. A deusa foi

casada com o misterioso Óðr, e durante as suas frequentes ausências, Freyja chora lágrimas

de ouro. Para viajar, utiliza uma carruagem puxada por gatos, ou se transforma em um

falcão.

O líder da família de deuses Vanires é Freyr, filho de Njörðr, associado com a boa



fertilidade, controle do sol e chuva e o frutificar da Terra. Ele é invocado para as boas

colheitas e a paz. O simbolismo de seu caráter de fertilidade pode ser observado na história

mítica de seu casamento com a gigante Gerðr (Terra). A dinastia sueca Yngling dizia-se

descendente desta união. Possuía um barco mágico (Skíðblaðnir), que podia ficar de

pequeno tamanho.

Týr é uma divindade associada com a guerra. Entre povos germânicos anteriores aos

vikings, como os Saxões, o deus Týr (Tiwaz) era a principal divindade das batalhas, mas

essa característica acabou sendo suplantada por Óðinn, durante a Era Viking. Na mitologia,

era o mais bravo dos guerreiros: no momento que os ases tentaram prender o lobo Fenrir,

chamaram Týr para que colocar seu braço direito na boca do monstro como garantia. Logo

que percebeu a armadilha, Fenrir devorou o membro.

Baldr era o deus escandinavo identificado ao Sol, filho de Óðinn e Frigg. Em

Ásgarðr, era reverenciado como um deus bondoso, formoso e muito popular. Na versão do

mito registrada por Saxo Grammaticus, Baldr é morto por seu irmão Höðr, devido à

rivalidade pela conquista de Nanna.

O mais enigmático dos deuses Aesires é Loki. Filho do gigante Fárbauti e de sua

esposa Laufeia, era um deus inteligente, humorado, malicioso, enganador e completamente

amoral.


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Cap. 8: Runas e símbolos:

As runas são os alfabetos dos povos germânicos, inventados a partir de 200 d.C. no

norte da europa. Inicialmente eram apenas textos simples e curtos. Somente com o advento

da Era Viking, as runas foram empregadas para textos longos, geralmente talhadas em

suportes pétreos (estelas, monumentos funerários), madeira, ossos e couro. A partir da

forma padrão do rúnico germânico (futhark antigo, com 24 sinais alfabéticos), os Vikings

inventaram duas variações: as de rama longa (futhark dinamarquês) e o rama curta (futhark

sueco), ambos de 16 sinais.

As runas eram empregadas para uso jurídico, comemorativo, genealógico e em

algumas ocasiões, finalidades mágico-religiosas. Mas somente as pessoas ricas podiam

pagar para que os mestres das runas erigissem, gravassem e muitas vezes, adornassem

artisticamente as estelas rúnicas. A mais longa inscrição rúnica conhecida dos Vikings, é a



runestone (estela com runas) de Rök, Suécia, com 4 metros de comprimento e 1.5m de

altura. Possui cerca de 750 caracteres, escritos no século 9, em memória do filho de Varin.

Em alguns locais de grande influência nórdica, inexplicavelmente não ocorrrem registros

rúnicos, como a Islândia e a Normandia.

O especialista britânico em epigrafia rúnica, Raymond Ian Page, recentemente

problematizou algumas questões interessantes sobre a prática do mestre das runas

(especialista na magia rúnica) e do gravador de runas: não sabemos como e em que

circunstâncias eles eram treinados na escrita e na magia rúnica; quais as relações entre eles

e o texto gravado nas pedras? Eles participavam da composição dos textos ou apenas eram

pagos para gravar algo previamente estabelecido? Os pesquisadores ainda não tem

respostas.

O significado da palavra (rúnar) já percebemos: saber secreto, segredos. Em muitos

rituais, as runas eram gravadas enquanto eram recitadas fórmulas mágicas (galdr) e eram

pintadas com o sangue de animais sacrificados (blóts). Segundo a mitologia nórdica, Óðinn

teria descoberto as runas, durante seu auto-sacrifício na árvore Yggdrasill. Como Óðinn

também está associado à poesia e a magia, as runas acabaram tendo uma relação estreita

com esses dois. As runas para adivinhação eram gravadas em pedaços de madeira (desde os

tempos de Tácito), ossos e pedaços de pedra. Runas para proteção ou vitória em batalhas

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eram gravadas em espadas, como o sinal rúnico do deus Týr. Para uso profano e cotidinao,



existiam até runas para obter os favores de alguma mulher, fertilidade e nascimento.

Vários símbolos não-rúnicos estavam relacionados com o pensamento religioso dos

nórdicos. O mais importante de todos era o martelo de Þórr (mjöllnir: triturador), utilizado

como símbolo de proteção, fertilidade, consagração de casamentos e nascimentos. Também

era muito usado em forma de pingente-colar e símbolos de boa sorte. Muitas runestones

apresentam gravações do desenho de mjöllnir, especialmente na Dinamarca.

Outro símbolo muito importante era a suástica (fylfot: muitos pés). Comum em várias

culturas do mundo inteiro, surgiu na pré-história e se tornou tradicional no mundo

germânico. Foi resgatado pelo nazismo no século XX, tornando-se um signo moderno

relacionado com destruição e intolerância. No mundo Viking, era associado com o

relâmpago e o movimento do martelo de Þórr, mas também de caráter solar, quando

integrante de estelas funerárias.

O triskelion (conhecido no mundo escandinavo como trifot: três pés), é semelhante à

suástica, mas de forma mais simples. Possui origem Celta e é relacionado com o Sol. Na

Escandinávia medieval, era intimamente ligado aos cultos odínicos e a magia. Existem

variações morfológicas, como em estelas da ilha de Gotland, onde o trifot aparece em

forma de três animais entrelaçados, ou ainda, na união de três cornos de bebida. Foi muito

comum na Ilha de Man.

Outos símbolos odínicos também possuem forma trina entrelaçada. O valknut (nó dos

mortos) é o principal deles: um conjunto de três triângulos, utilizado em representações de

sacrifícios humanos de sangue, aos rituais de morte e a simbolismos do Örlog (destino). A

triqueta, de forma semelhante ao valknut, porém de traços circulares, é outros símbolo

Viking de origem céltica. Aparece representada em runestones ao lado de Óðinn e gravada

em trenós funerários. Os nórdicos o denominaram de Hrungnis hjarta (coração de

Hrungnir). Segundo Régis Boyer, está relacionado com a batalha de Þórr e o gigante

Hrungnir, narrada por Snorri Sturlusson, e representaria rituais específicos para a passagem

da morte.

Um símbolo particularmente temido era o Ægishjálmarr (capacete de Aegir).

Utilizado para magia de poder e vitória, principalmente em batalhas. Aparece também em



ogamstones (pedras de Ogam) da Irlanda e em vários países do norte europeu. Em uma

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passagem da Völsunga Saga, este símbolo confere especial poder de vitória para o dragão



Fáfnir.

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Cap. 9: Os funerais e enterros:

Na Escandinávia pré-cristã, existiam duas formas básicas de enterro: os de cremação

e os de inumação (sepultamento do corpo). O primeiro tipo abundava principalmente na

Noruega, Suécia e Finlândia. As inumações eram mais frequentes na Dinamarca e na ilha

sueca de Gotland. Nos dois tipos de enterro, os corpos eram conservados com a roupa do

uso cotidiano, e estavam providos com pertences e utensílios. As práticas funerárias, assim

como os rituais religiosos, variavam conforme a classe social e a região da Escandinávia.

Quanto mais rico o indivíduo, mais elaborado o funeral e maior a quantidade e qualidade

dos objetos depositados no jazigo mortuário.

Nas cremações, o corpo que ia ser incinerado era vestido e adornado com jóias e os

objetos. A queima era feita em uma grande pira. Os ossos incinerados e as jóias fundidas

eram recolhidos. Em outras regiões, as cinzas eram simplesmente espalhadas pelo buraco

ou chão. Na Suécia, os restos queimados eram separados e colocados em um recipiente de

cerâmica, que era enterrado num buraco e cobertos com um montículo ou demarcados com

pedras. Alguns desses alinhamentos pétreos tinham a forma de navios, como em Lindholm

Høje (Dinamarca).

A inumação eram praticadas principalmente pelas classes superiores da sociedade e

pelos estrangeiros (vindos do Leste europeu). Algumas inumações utilizavam câmaras:

escavava-se um buraco no solo e escorava-se o mesmo com madeira. Até cavalos eram

enterrados nestas câmaras, junto a objetos cotidianos, alimentos (ovos e pães pequenos) e o

defunto. Era crença popular que o morto continuava a viver no seu túmulo. Muitas câmaras

foram orientadas no sentido Leste-Oeste. Também foram encontrados ataúdes dentro da

terra ou corpos envolvidos numa mortalha de casca de álamo.

A mais famosa das inumações Vikings é a embarcação de Oseberg (Noruega). No

convés do navio, foi instalada a câmara mortuária, com o corpo de duas mulheres, sendo a

mais velha considerada rainha pelo contexto das riquezas encontradas, mas nada se sabe

sobre sua identidade. Recentes análises de DNA comprovaram que tratava-se de mãe e

filha. Espalhados pelo convés, haviam maçãs, animais sacrificados – cães, cavalos e bois,

alguns decapitados. A embarcação encontrava-se com remos, âncora e foi enterrada com

pedras e lacrada com musgos. Em Birka, também foi encontrado numa câmera funerária

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com o corpo de duas mulheres, uma ricamente vestida. Pela posição de uma delas (uma



escrava, estranhamente retorcida), o arqueólogo Holger Arbman concluiu que ela tinha sido

enterrada viva, numa espécie de sacrifício. Um cronista árabe do período viking, chamado

Ibn Rustah, confirmou o costume de enterrar a esposa favorita ainda viva junto ao corpo

morto do guerreiro.

Os enterros com embarcações também foram comuns fora da Escandinávia, como

atestam vestígios na Ilhas de Man e Groix, Escócia, Finlândia e Rússia. A exemplo de

muitas culturas, o uso de embarcações nos funerais Vikings está associado ao culto dos

mortos e o simbolismo da jornada da alma no além. Também pode estar relacionado aos

cultos de Njord e Freyr. E ser um indicador de elevação social, poder e prestígio dentro da

comunidade de origem.

Em sepulturas encontradas recentemente na ilha sueca de Gotland, alguns objetos

incomuns foram encontrados. Nas câmaras mortuárias femininas, foram depositados fósseis

animais (geralmente cabeças de peixes), interpretadas como amuletos de fertilidade e

feminilidade. Nas sepulturas masculinas, abundavam machados feitos de âmbar.

Quando um guerreiro Viking morria, realizava-se o ritual do nábjargir: fechava-se os

olhos e bocas e as narinas tampadas. Uma anciã, conhecida como o “anjo da morte”, lavava

as mãos e o rosto do defunto, penteava seus cabelos e o vestia com suas melhores roupas.

Uma das mais famosas descrições de funerais dos escandinavos foi fornecida por outro

explorador árabe, Ibn Fadlan (em 922). Quando ele chegou no lugar que ia ser enterrado

um chefe dos Rus (Vikings da área do Volga, atual Rússia), viu um formoso navio que

havia sido preparado, cercado por uma fogueira. A embarcação estava repleta de armas,

cadeiras e camas de madeira trabalhada. O corpo do rei (que estava sendo preparado há 10

dias) foi levado para o interior do navio e colocado num belo leito. Depois, um grande

número de cavalos, cães e vacas foram sacrificadas e seus corpos esquartejados foram

jogados dentro do navio. A família pergunta às escravas e servos quem deseja se unir ao

morto, e uma mulher aceita. Ela é preparada e lavada e participa de festas e bebidas. Em

uma tenda armada próxima ao funeral, a escrava escolhida teve relações sexuais com vários

guerreiros presentes. No navio, ela é estrangulada por dois homens, enquanto a mulher

conhecida por “anjo da morte” fura suas costelas com uma adaga. Um parente do morto sai

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da multidão e ateia fogo na madeira, incendiando todo o conjunto fúnebre. Após tudo ter se



tornado cinza, uma estaca com inscrições rúnicas escreve o nome do homem morto.

Com a entrada do cristianismo na Escandinávia, cessaram as incinerações e o enterro

com bens valiosos junto ao corpo. As crenças paganistas, em parte, deixaram de existir

oficialmente.

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