Aspectos históricos e ficcionais no romance Cunhataí



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Aspectos históricos e ficcionais no romance Cunhataí
ADRIELLY NAIANY MARTINS¹ (PIBIC/UEMS)

JOSÉ ANTÔNIO DE SOUZA² (ORIENTADOR)

UEMS – UNIDADE UNIVERSITÁRIA DE CASSILÂNDIA. RODOVIA MS 306 - KM 6,4

Em setembro de 1864, o Brasil interveio no Uruguai para derrubar seu presidente Atanásio Cruz Aguirre, em apoio a Venâncio Flores. A ocupação de Montividéu pelo Brasil com a participação da Argentina e a cumplicidade da Inglaterra atingiu diretamente o Paraguai, pelo fechamento dos rios da Platina. Por o Paraguai ter ficado isolado, fez com que Solano López declarasse guerra ao Brasil. A guerra iniciou-se quando Solano López seqüestrou o navio brasileiro Marquês de Olinda que transportava o futuro governador da província de Mato Grosso, Frederico Carneiro de Campos. De acordo com CHIAVENATO (1996), em seguida o governo paraguaio invadiu a província matogrossense, região que atualmente é o estado de Mato Grosso do Sul, o que serviu para demonstrar o erro que estava acontecendo com o governo imperial, pois haviam deixado as fronteiras totalmente isoladas, sem que houvesse qualquer proteção contra invasões.

Essa invasão Paraguaia durou por cerca de dois anos nas regiões de Nioac, Miranda, Dourados, Bela Vista e Coxim. Sendo os confrontos mais marcantes: Tomada do Forte de Coimbra, Tomada da Colônia de Dourados e a Retomada de Corumbá.

Brasil e Argentina em período antecedente à guerra encontravam-se falidos. E enquanto isto o Paraguai estava se desenvolvendo de maneira satisfatória, então a Inglaterra veio a interferir-se na guerra, ajudando os países ‘falidos’. A Inglaterra, então, foi de grande importância, sendo ela uma grande potência econômica, patrocinando assim a formação da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Inglaterra).

Sendo esta a guerra mais sangrenta que o Brasil participou, durou ela seis anos, em que todos os países envolvidos foram prejudicados. No entanto, quem teve maiores danos foi o país paraguaio que teve parte de sua população massacrada, e quase se extinguiu do mapa, perdendo território tanto para o Brasil, quanto para a Argentina.

Para que não haja o esquecimento deste massacre, alguns autores usam a ficção para que os fatos importantes ocorridos nesta violenta guerra fiquem registrados e conseqüentemente lembrados, pois a literatura neste caso tem o dever de mostrar a realidade de um passado não muito distante. Um dos primeiros autores a se preocupar em registrar esses acontecimentos foi Visconde de Taunay, ao publicar Retirada da Laguna, transcrevendo aquilo que ele mesmo viveu no conflito. No romance Cunhataí, de Maria Filomena Boussou Lepecki, vemos episódios desta sangrenta batalha, mesclando personagens fictícios e reais, em que podemos ver no desenlace da história a importância feminina no acontecimento dramático desta guerra, eternizando os personagens.


Análise
Na obra Cunhataí, vemos a presença da força feminina que se contrasta com os perigos vividos na guerra. A literatura alia-se com a história, o falso torna-se real para mostrar a nós o que de fato aconteceu nesta guerra. Umberto Eco apóia-se a força do falso, uma vez que diz que sempre há uma força que predomina sobre outrem. Ressalta, então que a idéia do mito sempre existiu para comprovar a história, algo que pudesse convencer que não deixasse com que dúvidas pairem na cabeça dos leitores. Podemos ver que sempre os indivíduos se apóiam em crenças, seres mitológicos para solucionar todas as suas indagações.
Se sustentássemos que todos os mitos, todas as revelações de qualquer religião nada mais são que mentiras, uma vez que a crença nos deuses, de todos os tipos moveu a história humana, não restaria senão concluir que vivemos há milênios sob o império do falso. (UMBERTO ECO, p.252)
Na obra de Maria Filomena podemos ver este contraste, ou mesmo essa união, que faz do mito, uma realidade, e reforça aquilo que de fato é real. Também podemos notar a importância da presença feminina, ressaltando a força e coragem das personagens, principalmente de Micaela, moça que vai à guerra, enfrenta todos os perigos. Há também a existência de personagens reais, tais como: Visconde de Taunay, Antônio Carlos Lopez, Francisco Solano Lopez, Elisa Alisia Lynch, guia Lopes, dentre outros personagens reais, que tornaram personagens de uma obra literária.

No trecho abaixo podemos ver a mescla que há entre personagens fictícios e reais. Os fictícios ressaltam a importância e a existência daqueles que de fato existiram, como podemos ver neste trecho de Cunhataí:


Continuaram a falar, trocando idéias sobre a guerra e os caminhos do dia seguinte. Não fossem a fome mal abrandada, o frio, as circusntâncias, poderia dizer-se que estavam numa reunião social. A conversa foi bruscamente interrompida pela chegada do capitão Santa Cruz. O homem não chegava, impunha sua presença. O capitão Taunay empertigou-se. Micaela corou-se. Era a primeira vez que via o capitão desde a batalha, desde que... (p.349)
A obra de Maria Filomena é dividida em três grandes partes, sendo: o Caminho, o Território e a Guerra. Cada parte é fundamental para que se possa compreender o acontecimento da Grande Guerra. Cada período é narrado de forma que podemos entender verdadeiramente todos os caminhos percorridos, todos os perigos enfrentados, e quão sofrida foi essa caminhada a procura do desconhecido. Nesta obra podemos ver a importância feminina, mostrada principalmente pela personagem principal Micaela, a qual casa sem saber com um espião paraguaio infiltrado no exército brasileiro. Sem saber que seu sangue era paraguaio, seguiu-se com seu marido nesta longa jornada, sem saber se para casa retornaria.

De esposa de um soldado brasileiro, tornou-se Micaela uma curandeira, sendo sua atribuição na guerra mais marcante do que se esperava. Guerreou também contra o exército inimigo, mostrando a valentia feminina em um conflito. Cunhataí mostra o quanto às mulheres foram essenciais, e ao mesmo tempo exploradas, agredida, e os abusos que sofreram enquanto seguiam com o exército. No trecho a seguir veremos a valentia de nossa heroína:


Um dos soldados brasileiros caiu ferido no ombro, e se contorcia de dor. Um cavaleiro paraguaio aproximou-se com uma lança comprida na mão direita, pronto para acertar mais um caçador e romper o cerco. Foi abatido pelo tiro de Micaela, que acabara de apropriar-se de um fuzil. (p.309)
Micaela foi à representação feminina. Mostrou-nos a força, a coragem criada para defender não somente o seu país, mas também seus irmãos brasileiros. Micaela foi a mulher enganada, que chorou pela morte do marido brasileiro, e sofreu ao saber que ele não havia morrido, e que lutava contra o Brasil, era paraguaio. Sofreu abusos sexuais, viu a morte próxima, viu companheiros sendo mortos. Acompanhou a história da Guerra em uma perspectiva feminina, ajudou a curar os doentes, usou não somente as técnicas aprendidas, mas usou a representação da vida, das experiências vividas representando todas as mulheres que viveram este dilema de querer acompanhar os homens neste tão sofrido caminho.
Pense, Micaela, pense! De nada adiantava ser somente corajosa naquele momento. Unicamente inteligente ou forte. Deter conhecimento ou ser apenas valente. Era preciso obstinação! Tentar de tudo[...]Tudo se resumia em viver e morrer. (p.383-385)
Micaela com sua inteligência e experiência, consegue salvar a vida do capitão Santa Cruz, que neste momento estava com a doença que assolava o exército brasileiro, escorbuto. Depois o capitão acabou tornando seu marido, para que o espião paraguaio Ângelo fosse de vez esquecido. As curas feitas por Micaela ajudou o exército brasileiro a permanecer na guerra, e aqui podemos ver que mais uma vez há a mescla entre história e ficção, com a personagem Micaela representando as mulheres que fizeram o que ela fez.

O que percebemos nesta narrativa é a importância da literatura na história, pois uma complementa a outra, e assim a história não é deixada no esquecimento. É sempre preciso que haja um mito, algo fictício, para que o real seja percebido. E também podemos notar o quão significante foi a participação feminina na guerra. Maria Filomena consegue levar o leitor ao entendimento de todos os acontecimentos registrados em sua obra. Finalmente, vemos que há muito mais a ser explorado ao que aqui foi abordado, para que haja uma continuidade.



Referencias Bibliográficas

ABELAIRA, A. A propósito de literatura e história. In: Sobre as Naus da Iniciação: estudos portugueses de Literatura e História. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.

CHIAVENATO, J. J. A guerra contra o Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1996.

ECO, U. Sobre a Literatura. Rio de Janeiro: Record, 2003.

GRESSLER, L. A. e VASCONCELOS, L. M. Mato Grosso do Sul: Aspectos históricos e geográficos. Dourados/MS, 2005.

JOBIM, J.L. Literaturas, Artes, Saberes. In: Literatura e história. São Paulo: Abralic,2008.

LEPECKI, M.F.B. Cunhataí: um romance da guerra do paraguai. São Paulo: Talento, 2003

PERNIDJI, J. E. & PERNIDJI, M. E. Homens e mulheres na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: IMAGO, 2003.



POMER, L. Paraguai: nossa guerra contra esse soldado. São Paulo: Global, 2001.

SEIXAS, Cid. Léguas & Meia: Revista de literatura e diversidade cultura. In : A construção do real como papel da cultura. Feira de Santana: UEFS, 2002


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