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Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO

PSICOLOGIA & SOCIEDADE

volume 13 número 2 julho / dezembro 2001 ISSN 0102-7182


Índice
5 Nota do editor

7 Introdução

9 CARONE, I. "Teoria crítica e pesquisa empírica na psicologia"

18 CROCHÍK, J.L. "A resistência e o conformismo da mônada psicológica"

34 DUARTE, R. "À procura de uma indução especulativa - filosofia e

pesquisa empírica segundo Horkheimer e Adorno"

49 GAGNEBIN, J.M. "Pesquisa empírica da subjetividade e subjetividade da pesquisa empírica"

58 GIACÓIA JR., O. "Esquecimento, memória e repetição"

92 LEOMAAR, W. "Da subjetividade deformada à semiformação como sujeito"

142 MATOS, O. C. F. "Theodor Adorno. O filósofo do presente"

147 SAAS, O. "Teoria crítica e investigação empírica na psicologia"



  1. SEVERINO, A.J. "A contribuição da teoria crítica para a formação do individuo como sujeito"

Capa: Arte de Sylvio Ekman, a partir de quadro "O grito" (1893), de Edvard Munch (1863-1944) - Óleo, têmpera e pastel em cartão, 91 X 73,5 em, Galeria Nacional, Oslo.


PSICOLOGIA & SOCIEDADE

Vol. 13 número 2 julho/dezembro de 2001


ABRAPSO

PRESIDENTE: Neuza Maria de Fátima Guareschi

V ICE-PRESIDENTES: Altamir Aguiar, Andréa M. C. Guerra, Cecília de Mello e Souza, Helerina A. Novo, Omar Ardans Bonifacino, Kátia S. Ploner
CONSELHO EDITORIAL

Celso P. de Sá, César W. Góis, Clélia Schulze, Denise Jodelet, Elizabeth Bonfim, Fernando Rey, Frederic Munné, Karl Scheibe, Leôncio Camino, Luis Bonin, M. de Fátima Q. Freitas, M. do Carmo Guedes, Marília Machado, Mário Golder, Maritza Monteiro, Mary J. Spink, Pablo Christieb, Pedrinho Guareschi, Regina F. Campos, Robert Farr, Silvia Lane, Sylvia Leser Mello


EDITOR

Antonio da Costa Ciampa

EDITOR DESTE NÚMERO TEMÁTICO

José Leon Crochík


ASSISTENTES

Ângela Biazi Freire, Ari Fernando Maia, Conrado Ramos, Lisange Tucci, Luís Guilherme C. Molla, Marisa Feffermann e Sueli S. S. Batista


COMISSÃO EDITORIAL

Antonio da Costa Ciampa, Cecília P. Alves, Helena Kolyniak, J. Leon Crochik, Ornar Ardans, Salvador Sandoval, Suely Satow, Vanessa Louise Batista


ADMINISTRAÇÃO

Helena Marieta Rath Kolyniak


ARTE DE CAPA

Sylvio Ekman


IMPRESSÃO

Artcolor
JORNALISTA RESPONSÁVEL

Suely Harumi Satow (MTb 14.525)
CORRESPONDÊNCIA - REDAÇÃO

Rua Ministro de Godói, 969 – 4o andar - sala 4B-03 - CEP 05015

São Paulo SP fone/fax (0xx11) 3670-8520
E-mail para envio de artigos: artigos_psicologiaesociedade@hotmail.com

E-mail do Editor:acciampa@pucsp.br

E-mail da administração:kolyniak@uol.com.br

Aquisição: vide site www.psicologiaesociedade.com.br

© dos Autores
A revista Psicologia & Sociedade é editada pela

Associação Brasileira de Psicologia Social- ABRAPSO


PSICOLOGIA & SOCIEDADE volume 13 number 2 july / dezember 2001 ISSN 0102-7182

Summary
5 Note from the editor

7 Introduction

9 CARONE, I. "Critical Theory and empirical research in Psychology"

18 CROCHÍK, J.L "Resistence and conformism of psychological monad"

34 DUAR7E, R. "Seeking for a speculative induction - Philosophy and empirical research"

49 GAGNEBIN, J.M. "Empirical research of subjectivity and subjectivity in the empirical research"

58 GlACÓlA JR., O. "Forgettfulness, memmory and repetition"

92 LEOMAAR, W. "From the misformed subjectivity to the

semiformation as subject"

142 MATOS, O. C. F. "Theodor Adorno. The philosopher of the present"

147 SMS, O. "Critical theory and empirical research in Psychology"

160 SEVERINO, A.J. "The contribution of Critical Theory for the

constitution of the individual as subject"


NOTA DO EDITOR

A publicação deste número especial, dedicado à Teoria Crítica da Sociedade, é mais uma oportunidade para os psicólogos sociais refletirem sobre sérias questões que parecem permanecer em aberto, inconclusas, e que, cada vez mais, exigem de nós novos e aprofundados debates. Sem a pretensão de apresentá-las todas, mas apenas com o intuito de estimular discussões, parece o caso de citar algumas.

Como questão de fundo, talvez, poderíamos nos perguntar que diferença faz nos referirmos à nossa época como modernidade ou como pós-modernidade. Às vezes, parece tratar-se de mera datação cronológica, ou seja, questão sem maiores implicações.

Referindo-se à modernidade, contudo, há quem afirme que se trata de um projeto que se esgotou sem cumprir suas promessas; neste caso, emancipação e autonomia seriam meros engodos ou ilusões. Por outro lado, a referência à pós-modernidade, como despedida da modernidade, aparece como crítica radical à razão que, ao abandonar a razão, por vezes parece abandonar a crítica à razão, tomando difícil uma caracterização que integre diferentes expressões sob o mesmo rótulo, que pode incluir tanto niilismo como funcionalismo sistêmico.

Outras questões não deixam de ter alguma relação com isso - um exemplo seria a questão do "fim do sujeito" - mas talvez as mais complexas se refiram à relação entre o discurso filosófico e a pesquisa empírica, bem como à relação entre teoria e prática, que alguns confundem, de boa ou de má fé, como divergências entre idealismo e materialismo, sem perceber novos disfarces neopositivistas.

São questões bastante amplas, que acabam remetendo a outras questões mais específicas, que nem sempre são adequadamente analisadas no contexto da psicologia social, em particular a relação possível (ou não) entre os pensamentos marxiano e freudiano.

Um risco para a psicologia social hoje, menor que aceitar ou rejeitar a Teoria Crítica, é desconhecê-la.
Há que se registrar o atraso na publicação dos ensaios que compõem este número. Foram elaborados a partir de conferências feitas em en-

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contro realizado no final de 1999, como explica a Comissão Organizadora deste número especial, em sua apresentação feita a seguir.

Como um dos critérios para publicação de trabalhos em revistas nacionais implica em diversidade da origem geográfica dos autores - e como neste caso quase todos são de São Paulo - surgiu a dúvida quanto à adequação de sua publicação nesta revista. Cogitou-se, então, de ser este número especial lançado em 2001, em publicação de nível regional, o que não se concretizou. Face à excelente qualidade dos trabalhos elaborados, confirmada por pareceristas regularmente designados, bem como ao interesse em divulgá-los entre os psicólogos sociais brasileiros, a publicação dos referidos trabalhos retomou à pauta desta revista. Nesse meio tempo, foi eleita a nova diretoria nacional da Abrapso, que confirmou, como instância superior da Abrapso, o interesse da entidade na presente publicação, a despeito daquele critério de regionalidade.

Deste modo, este número especial, que já deveria ter sido publicado anteriormente, está sendo lançado como o primeiro do período correspondente à gestão da diretoria que iniciou seu mandato em novembro de 2001, com a aprovação da anterior e também da nova diretoria que assumiu a entidade a partir de então.

Antonio da Costa Ciampa,

Editor de Psicologia & Sociedade


INTRODUÇÃO

Nos dias 8 e 9 de novembro de 1999, ocorreu o I Encontro Teoria Crítica e Psicologia, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Os objetivos desse encontro foram o de apresentar e debater algumas das contribuições que a Teoria Crítica da Sociedade, através de alguns de seus expoentes, como Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse e Jurgen Habermas, trouxe para a Psicologia e a importância dessa disciplina para esses pensadores. Para essa discussão foram convidados profissionais de diversas áreas - Filosofia, Sociologia, Psicologia, Educação - que têm se dedicado ao estudo da Teoria Crítica da Sociedade.

Este número da revista Psicologia & Sociedade contém os ensaios elaborados a partir da apresentação das conferências proferidas naquele evento sobre temas previamente estabelecidos. Dessa forma, os ensaios de Antônio Joaquim Severino, Olgária Chaim F. Matos e Wolfgang Leo Maar dizem respeito ao tema Teoria Crítica e formação do indivíduo; os de Iray Carone e Odair Sass à temática Teoria crítica e investigação empírica na Psicologia; os de Rodrigo Duarte e Jeannie Marie Gagnebin referem-se ao tema Pesquisa empírica da subjetividade e subjetividade na pesquisa empírica; e os de Osvaldo Giacóia e José Leon Crochík refletem sobre a temática Psicologia como dominação e resistência.

Cabe ao leitor, a partir da leitura dos diversos ensaios, avaliar o quanto os objetivos do evento foram cumpridos e apreciar as consonâncias e dissonâncias presentes nos textos ora publicados.


Comissão organizadora: Angela Biazi Freire, Ari Fernando Maia, Conrado Ramos, José Leon Crochík, Lisange Tucci, Luis Guilherme Coelho Molla, Marisa Feffermann e Sueli Soares dos Santos Batista.

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TEORIA CRÍTICA E PESQUISA EMPÍRICA NA PSICOLOGIA *


Iray Carone


RESUMO: O artigo é uma interpelação aos métodos de A Personalidade Autoritária de Adorno & alii, sobre a psicologia social do fascismo: são eles métodos que representam um compromisso da teoria crítica da Escola de Frankfurt com o positivismo?


PALAVRAS-CHAVE: autoritarismo, psicologia social, técnicas operacionais, tipologia.

Pouca ênfase tem sido dada à complexa rede de relações entre a teoria crítica e a pesquisa empírica na obra dos frankfurteanos, especial­mente aquela derivada dos pensadores em exílio nos Estados Unidos, nas décadas de 30 a 50. Terá sido uma relação meramente contingencial? Ou teria sido resultado histórico da necessidade de atingir um público norte-americano marcado pelo positivismo?

Tomemos a título de exemplo duas obras da fase americana: A Personalidade Autoritária (1950) e a Dialética do Esclarecimento (1985), focalizando a questão do anti-semitismo. Em geral, os leitores dos fragmentos filosóficos da Dialética do Esclarecimento não fixam muito a atenção nos "Elementos do Anti-semitismo" aí contidos, a despeito destes marcarem o tom supinamente político dessa obra. Adorno e Horkheimer não parecem, em nenhum momento, fazer referência ou ressaltar alguma exigência de trato empírico na questão do anti-semitismo - ou melhor, o discurso filosófico parece ser independente de técnicas

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ou métodos especiais para atingir o cerne do problema. A Personalidade Autoritária, pelo contrário, quer pela sua compleição teórica que contrasta singularmente com os fragmentos da Dialética do Esclareci­mento, quer pela utilização de escalas de medição do anti-semitismo, etnocentrismo, conservadorismo político-econômico e do próprio fascismo, parece estar colocando diante dos nossos olhos a permanente exigência de ir aos fatos, testar os instrumentos, corroborar os resultados, reformar os testes, verificar correlações estatísticas, analisar quantitativa e qualitativamente os dados empíricos, variar as amostras, etc.

Vamos nos deter num ponto intrigante que é, sem dúvida, um divisor de águas que separa A Personalidade Autoritária da Dialética do Esclarecimento: as escalas de medição. Elas se baseiam em definições operacionais do fenômeno estudado - por exemplo, a ideologia anti­semítica - que, por sua vez, se baseiam em cláusulas de redução do elemento teórico ao empírico, de acordo com a seguinte fórmula:

(= x)(P1 x É (Tx o P2 x))
A cláusula de redução permite uma tradução empírica de um fenômeno T, em si não-observável, nos termos de P1 e P2 que podem ser considerados manifestações empíricas, observáveis e mensuráveis de T. No caso em questão, o anti-semitismo (T), que não pode ser reconheci­do senão através de manifestações verbais e não-verbais do sujeito (x), poderá ser revelado pela mediação das respostas P2 aos enunciados P1 na escala de medição do anti-semitismo.

O que é chocante, literalmente chocante, na passagem de uma obra para outra, é que, na Dialética do Esclarecimento, o anti-semitismo aparece no seu reverso anti-operacional, a tal ponto que não seria imaginável uma escala de anti-semitismo, na sua espantosa grosseria operativa, nesses fragmentos filosóficos.

Há quem pense A Personalidade Autoritária como uma obra menor e circunstancial do exílio americano de Theodor Adorno e Max Horkheimer, pelas suas características aparentadas ao positivismo que sacraliza fatos empíricos e expressões numéricas de suas relações. Uma obra composta, aliás, por múltiplos pesquisadores e articulistas com pouca familiaridade com a teoria crítica, mas cujo ponto de união estaria apenas e tão somente na aversão ao fascismo enquanto tendência antidemocrática latente ou aberta, das sociedades atuais, incluída a americana. Entre­tanto, Adorno e Horkheimer nunca ratificaram essa opinião e há indicações precisas, em vários pontos de suas obras, de que a crítica à ideologia fascista estava a exigir uma psicologia social do fascismo- ou seja:

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um estudo da psique aberta para a adesão ao apelo à irracionalidade, ao festim diabólico do século XX.

Num artigo escrito em 1951, intitulado "Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista", Adorno (1982) recompôs os argumentos que legitimaram a exigência de uma pesquisa empírica sobre a psique do sujeito potencialmente respondente à propaganda fascista pela própria inutilidade ou falta de eficácia de uma crítica ideológica processada ao modo clássico, ou seja, como negação determina­da que pressupõe a pretensão de verdade imanente ao discurso ideológico. Ora, o discurso fascista, famoso pela repetição monótona de um repertório pobre de idéias e pela uniformidade na boca dos seus líderes, é, de fato, a expressão de uma "ideologia involuntariamente sincera" ou de uma "mentira transparente" que insinua o recurso à força bruta e a promessa a uma parte do saque. De que adianta, pois, provar pela crítica ideológica a sua falsidade se o discurso não se pretende verdadeiro?

No entanto, restam algumas questões: se o discurso fascista é tão oco quanto aparenta ser, qual é a ratio de sua potência mobilizadora? Se ele é tão falso quanto deseja ser, como é que atinge até mesmo aqueles que estariam aptos a refutá-lo?

Poder-se-ia aventar, às pressas, que o anti-semitismo fascista possui raízes psicológicas e que os agitadores fascistas tinham e têm conheci­mento dos mecanismos psicológicos de persuasão das massas. Mas,

"parece impossível que o conhecimento teórico de Hitler sobre psicologia de grupo fosse além das observações mais triviais de um Le Bon popularizado, Nem se pode sustentar a opinião de que Goebbels fosse um cérebro da propaganda plenamente ciente das descobertas mais avançadas da moderna psicologia profunda. A leitura dos seus discursos e seleções de seus diários recentemente publicados dão a impressão de uma pessoa suficientemente astuta para entrar no jogo do poder político mas completamente ingênua e superficial nos slogans e editoriais jornalísticos. A idéia de um Goebbels intelectualizado e "radical" sofisticado é parte da lenda perversa associada ao seu nome, alimentada por um jornalismo ávido, uma lenda que necessita, ela mesma, de uma explicação psicanalítica". (Adorno 1982, p. 132)
Assim, continua Adorno, temos de buscar as fontes explicativas do fenômeno fascista naquilo que Freud já apontara, intuitivamente, no seu estudo sobre a psicologia das massas:

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"O líder consegue adivinhar os desejos e as necessidades das pessoas suscetíveis à sua propaganda porque se assemelha psicologicamente a elas embora se distinguia pela capacidade de expressar sem inibições o que nelas é latente e não por alguma superioridade intrínseca. Os líderes são, de modo geral, caracteres orais com uma compulsão a falar incessantemente e a ludibriar os outros. A famosa atração que exercem sobre os seus seguidores parece depender em grande parte de sua oralidade: a própria linguagem, esvaziada de sua significação racional, funciona de um modo mágico e fomenta aquelas regressões arcaicas que reduzem os indivíduos a membros de multidões". (Adorno, 1982, p. 132)
Em suma, a eficácia do discurso fascista é ela própria uma função da psicologia ou das disposições inconscientes de sua audiência - o agita­dor simplesmente põe o seu inconsciente para fora, da mesma maneira que um ator ou um certo tipo de jornalista que ao fazer uso racional de sua própria irracional idade, promove o "acting out" sem censuras da audiência. Certo é que essa comunicação subterrânea entre inconscientes, não-independente do estilo da propaganda fascista, não seria assim tão certa, simples e fácil se não fosse o peso real das tendências objetivas (sociais, políticas, culturais, históricas e econômicas) que de ante­mão forjaram configurações psicológicas virtualmente necessitadas de reagir aos estímulos da vociferação racista.

Eis aí, então, o desenho do telas de A Personalidade Autoritária: buscar o conhecimento das configurações psicológicas, também chamadas de tipos ou síndromes, que podem responder ao chamado fascista. Não se trata, entretanto, de reduzir o fascismo à sua dimensão psicológica ou de psicologizar uma questão eminentemente política do nosso século. Se há imanência do todo social na particularidade psíquica, caberá ao método manter a mediação entre ambos, para não reduzir a tensão dialética universal/particular.

Essa obra resultou de um projeto de pesquisa anterior, elaborado por Adorno, que pretendia combinar as pesquisas históricas, psicológicas e econômicas com. estudos experimentais sobre o anti-semitismo. A idéia do projeto era a de dar "um tratamento científico" à questão do anti­semitismo, mesmo correndo o risco de não agradar até mesmo aos judeus, por razões táticas:
"Uma objeção importante pode ser levantada contra um tratamento científico rigoroso do anti-semitismo. Ao examinar os mecanismos mais profundos do anti-semitismo não se pode evitar a menção de coisas que não serão inteiramente agradáveis aos judeus (...) Pode ser levantada a questão de que os propagan-

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distas do anti-semitismo poderão fazer um uso errado deste e de outros resulta­dos de nossa pesquisa (...) O medo de que a verdade possa ser mal utilizada nunca deverá paralisar a energia necessária para descobri-la em sua inteireza, especialmente em tais problemas vitais. O hábito cultivado de suprimir elementos importantes da verdade por razões chamadas táticas está assumindo traços cada vez mais perigosos". (Adorno 1994, p. 136)
O projeto foi dividido em partes que mostraram a preocupação de Adorno em "cobrir" cientificamente a questão do anti-semitismo, como se pode verificar pelos títulos: (1) as teorias correntes sobre o anti­semitismo; (2) o anti-semitismo e os movimentos de massa (história); o anti-semitismo no humanismo moderno (do iluminismo francês e alemão à novela francesa); (4) tipos de anti-semitas, nos dias de hoje; (5) os judeus na sociedade, ou seja, as funções particulares que têm desempenhado e as conseqüências de suas atividades econômicas; (6) fundamentos do anti-semitismo nacional-socialista; (7) estudos experimentais sobre o anti-semitismo.

Como já dissemos, A Personalidade Autoritária foi um desenvolvimento de partes desse grande projeto, sobretudo da tipologia anti-semítica e dos estudos experimentais sobre o anti-semitismo. Muitos equívocos sobre o anti-semitismo têm as suas raízes na confusão sobre os seus tipos diferentes. "O sucesso de qualquer tentativa de combater o anti­semitismo depende em grande parte do conhecimento da gênese social e psicológica de suas várias espécies, com freqüência indiscerníveis na vida cotidiana" (Adorno 1994, p. 147).

Nos chamados "estudos experimentais", Adorno propunha a criação de várias situações experimentais próximas às contingências da vida cotidiana, nas quais fosse possível visualizar o mecanismo das reações anti-semíticas dos sujeitos. Uma dessas situações dar-se-ia pelo uso de certos filmes nos quais judeus e não-judeus fossem introduzidos como dramatis personae. As reações dos sujeitos seriam obtidas por meio de observações de comportamento durante a exibição, por entrevistas e por relatos escritos de suas impressões. As situações experimentais, nas quais haveria uma provocação das respostas dos sujeitos "as motivações secretas aparecerão claramente no julgamento influenciado pelo inconsciente" (Adorno 1994, p. 160). O uso exclusivo de entrevistas e questionários, sem as situações experimentais, não teria o mesmo poder de provocar reações projetivas, porque as pessoas tenderiam defensivamente a respondê-los de modo a negar que tivessem algo contra os judeus.

Do grande projeto sobre o anti-semitismo à elaboração de A Perso-

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nalidade Autoritária houve mudanças substantivas que precisam ser anotadas. O objeto de estudo passou a ser denominado "fascismo potencial" ou "pré-fascismo". Ao longo da pesquisa, no entanto, essas expressões foram substituídas por "autoritarismo" para identificar os sujeitos com alta pontuação nas escalas de fascismo (F) e etnocentrismo (E). O anti-semitismo deixou de ser, portanto, o objeto exclusivo de estudo e o autoritarismo tomou o seu lugar para identificar tendências anti-democráticas ou tendências ao fascismo que convocavam o sujeito não apenas a ter preconceitos contra os judeus, mas contra "os outros", os exogrupos escolhidos para serem os bodes expiatórios da humanidade.

As escalas, embora diferentes entre si quanto ao conteúdo dos enunciados, foram construídas pelo mesmo sistema formal das definições operacionais e das cláusulas de redução que traduzem empiricamente conceitos (ou preconceitos) tais como anti-semitismo, etnocentrismo, conservadorismo e fascismo. Ao ler os vários artigos de A Personalidade Autoritária, verificamos que a construção das escalas de medição recebeu uma variada consideração técnica, mas nunca se fez qualquer alusão ao procedimento redutor enquanto tal.

Por quê?

Na interpretação de A Personalidade Autoritária, é impossível separar os procedimentos e técnicas de mensuração dos resultados finais da pesquisa: uma seleção de tipos nos quais foram enquadrados os sujeitos com alta e baixa pontuações em autoritarismo. Esses resultados não causam menos surpresa e desencanto do que aqueles já provocados pelos instrumentos de mensuração. É bom lembrar, também, que o "abuso" instrumental não parou nas escalas; as próprias entrevistas de modelo clínico, realizadas para dar elementos de corroboração aos resultados obtidos nas escalas, foram submetidas à mensuração.

Poderíamos dizer, então, que Adorno usou e permitiu que os investigadores de A Personalidade Autoritária abusassem de instrumentos redutores para facilitar a mensuração dos resultados, sem se preocupar com a retificação ou a conversão dos sujeitos em objetos sob medida da pesquisa? E mais, não teria a tipologia acabado por dar seqüência ao mesmo estilo dos procedimentos, classificando indivíduos em tipos ou síndromes - ou seja, reduzindo a redução já operada?

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