Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self Psicanálise Relacional



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Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self



Psicanálise Relacional

Robert M. Gordon, com Lewis Aron,

Stephen Mitchell e Jody Messler Davies


Publicado em LANGS, R. (Ed.) Current Theories of Psychoanalysis. New York: International Universities Press, 1998

A psicanálise relacional é uma escola inconfundível da psicanálise contemporânea. Desenvolveu-se a partir da convergência de diversas correntes importantes da teoria psicanalítica, incluindo a escola britânica das relações objetais, a psicanálise interpessoal norte-americana, a psicologia do self e a pesquisa do desenvolvimento de bebês (Mitchell, 1988). O termo relacional, tão abrangente, inclui interações entre o indivíduo e o mundo social, relações interpessoais internas e externas, tanto quanto auto-regulação e regulação mútua, construindo dessa maneira a ponte entre os territórios interpessoal e intrapsíquico (Aron, 1996). A psicanálise relacional também realça as interações entre processos inerentes, físicos, motivacionais e psicológicos, enfatizando o contexto e o significado (Ghent, 1992).

O modelo relacional vê as operações da mente como sendo fundamentalmente diádicas e interativas em sua natureza. A experiência emerge num campo interativo entre pessoas. A situação analítica é compreendida, na psicanálise relacional, como sendo moldada pela participação contínua do analisando e do analista, bem como pela construção mútua do significado, da autenticidade e das novas experiências relacionais. Inevitavelmente os antigos padrões relacionais se repetem, porém espera-se que cada díade analista/paciente consiga descobrir modos singulares de avançar além dessa situação de estar engastado no passado, e que construam e negociem maneiras novas e criativas de estar um com o outro. A análise relacional sugere que o que analista e paciente buscam é menos a verdade objetiva do que o significado que mutuamente eles possam construir.

IMPORTANTES CONTRIBUIÇÕES À PSICANÁLISE RELACIONAL CONTEMPORÂNEA


Os pontos de vista contemporâneos da psicanálise relacional têm sido influenciados pelos trabalhos escritos de Aron, Benjamin, Bromberg, Davies, Frawley, Greenberg, Hoffman e Mitchell, cujas idéias serão descritas de maneira mais aprofundada no decorrer deste capítulo. Observa-se aí um tema que envolve as contribuições mútuas do analista tanto quanto as do paciente para todo fenômeno clínico.

Em 1983 Greenberg e Mitchell publicaram Object relations in psychoanalytic theory, um marco no delineamento da psicanálise relacional que teve impacto dramático em toda a teorização subseqüente nesse campo. Relações objetais “referem-se a interações de indivíduos com outras pessoas externas e internas (reais e imaginadas), e ao relacionamento entre seus mundos internos e objetais” (Greenberg & Mitchell, 1983, p. 13-14). Os autores delinearam dois modelos da mente mutuamente excludentes: o modelo de pulsão/estrutura e o modelo relacional/estrutural. O modelo da pulsão, desenvolvido originalmente por Freud (1915), afirmava que as relações com outros significativos – as chamadas relações objetais – e as representações internas que os indivíduos têm dessas relações, são vicissitudes das próprias pulsões. Freud compreendia o papel dos objetos (isto é, dos outros) em larga medida em relação à descarga das pulsões: os objetos facilitam ou inibem a descarga. A teoria das pulsões deriva de uma filosofia que vê os seres humanos como sendo essencialmente individualistas. Os objetivos e os desejos humanos são considerados como sendo predominantemente pessoais em sua natureza.

O segundo método de compreensão das relações objetais sustenta que as relações com os outros, sendo opostas às pulsões internas, constituem a força motivacional fundamental do comportamento humano. Esse modelo relacional considera homens e mulheres como indivíduos sociais, com satisfações humanas realizáveis dentro do bordado de relacionamentos, passados e presentes.

Durante a década passada houve proliferação de livros e artigos sobre psicanálise relacional, refletindo igualmente a interpersonalização de muitos construtos teóricos e um desvio de uma perspectiva de uma-pessoa para outra de duas-pessoas acerca da situação psicanalítica (Ghent, 1989). Num livro ulterior, Mitchell (1988) cristalizou uma tendência relacional nítida, descrevendo a aplicação clínica do modelo relacional/conflito. Num trabalho mais recente (Mitchell, 1993) ele articulou os desejos, as necessidades e os temores mútuos do analista e do paciente à medida que entram num novo relacionamento. Outros autores enfatizaram a importância de experienciar os outros como tendo seu próprio mundo subjetivo interior e seus centros de iniciativa distintos, a importância de alcançar-se o reconhecimento mútuo como sendo um aspecto vital da saúde (Benjamin, 1988) e a importância dos aperfeiçoamentos do conceito de neutralidade analítica (Greenberg, 1991).

A psicanálise relacional também tem sido fortemente influenciada pelos trabalhos escritos de Hoffman acerca do modelo social/construtivista (1991, 1992a, 1993, 1994), que enfatizaram a inevitável e contínua participação do analista na criação da transferência. O modelo construtivista afirma que o observador representa papel crítico na moldagem, na construção e na organização daquilo que está sendo observado. Estendendo esta idéia, o modelo relacional reforça a ambigüidade da realidade: cada indivíduo tem seu ponto de vista plausível; todo conhecimento tem como base uma perspectiva; e há outras perspectivas e outros centros de subjetividade além dos nossos próprios (Aron, 1996, op. cit.).

Os trabalhos escritos de Bromberg (1991; 1993; 1994; 1996) refletiram um visível desvio a propósito da compreensão da mente humana e dos processos inconscientes. Ele considerava o self como sendo múltiplo e carente de coesão. A importância clínica de sua perspectiva acerca da dissociação e do self foi mais desenvolvida por Davies & Frawley (1994) que consideram a dissociação como resultado da necessidade de integrar a angústia esmagadora, e da necessidade de integrar imagens contraditórias de outros significativos.

Mais recentemente Aron (1996, op. cit.) ofereceu minuciosa descrição das implicações de um modelo relacional, que inclui a consideração da transferência, da contratransferência, da resistência e da interpretação num contexto intersubjetivo. A intersubjetividade se refere à capacidade de reconhecer os outros como tendo um centro de iniciativa separado e sentimentos distintos, e com quem os estados de sentimentos podem ser compartilhados. Ele via analista e paciente como construindo mutuamente seu relacionamento e mutuamente regulando sua interação, bem como as experiências que cada qual tem dessa interação.

Essas contribuições ao campo contemporâneo da psicanálise relacional enfatizam coerentemente que o analista precisa estar sensivelmente ciente de que seu próprio caráter e sua subjetividade é que moldam os valores e as convicções teóricas, e que formam a base para as intervenções clínicas, e precisa aceitar essa responsabilidade (Id., ibid.).






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