Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self Psicanálise Relacional



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PERSPECTIVA HISTÓRICA


Do mesmo modo como é verdade para todos os desenvolvimentos importantes na história das idéias, os modelos psicanalíticos surgem num contexto intelectual, cultural e social e são moldados no contexto da tensão dialética entre clínicos de orientações diferentes (Berman, 1996). O ponto de vista relacional emergiu das tensões dialéticas entre vários grupos de indivíduos inovadores, que incluíam o relacionamento Freud-Ferenczi; os trabalhos escritos interpessoais de Sullivan, Thompson, Fromm e Fromm-Reichmann (que se desenvolveram em resposta à psicanálise clássica e ao Pragmatismo norte-americano); as idéias de relações objetais de Fairbairn e Winnicott da escola britânica (que se desenvolveram em resposta às teorias kleinianas); e a psicologia do self de Kohut (que foi uma reação às limitações da psicologia do ego norte-americana).

A contribuição de Ferenczi para a teoria e a técnica


A obra inovadora de Ferenczi (1932;1933) interessava-se em larga medida pelo cerne da situação analítica: o relacionamento entre paciente e analista. Suas descobertas acerca do trauma, da transferência e da contratransferência se deram exatamente naquelas áreas que agora estão recebendo muita atenção entre teóricos e clínicos da psicanálise atual. Uma das contribuições mais importantes de Ferenczi foi a afirmação da inevitabilidade da repetição que o analista faz do trauma original do paciente, estando o analista agora no papel daquele que maltrata. Esta observação clínica antecipou a descoberta, cerca de 40 ou 50 anos depois, da probabilidade de que o analista atualize as expectativas transferenciais do paciente, uma vez que o paciente o empurra para esse lugar como participante nessa sua nova experiência de um trauma do início da vida, e depois disso o paciente percebe e reage a essa dinâmica.

Juntamente com a elucidação que fez do papel do trauma, foi por meio de sua compreensão e de seu manejo técnico da transferência que Ferenczi fez sua contribuição mais radical. A transferência foi vista como as expectativas inconscientes que o paciente tem em relação ao analista, enquanto a contratransferência foi vista como sendo as respostas emocionais do analista ao paciente. Desde muito cedo Ferenczi chamou atenção para o analista como pessoa real. O paciente se apercebe de matizes sutis do comportamento do analista, e reage a eles. Assim, a transferência do paciente não surge exclusivamente a partir de dentro dele: ela é influenciada pelos comportamentos e pelas intervenções do analista, e é criada em resposta a tudo isso. Em suma, a transferência é induzida conjuntamente pelo analista e pelo paciente.

Essa linha de pensamento foi a primeira conceituação da transferência como sendo criada conjuntamente entre paciente e analista. Ferenczi também insistiu na influência que os traços de caráter do analista têm na indução da transferência e da contratransferência. Ele foi o primeiro psicanalista a observar as maneiras pelas quais o paciente se torna o “intérprete” da experiência contratransferencial do analista (Hoffman, 1983; Aron, 1996, op. cit.). Ferenczi estimulava os pacientes a expressarem suas percepções a propósito das reações e dos conflitos transferenciais dele.

Foi, então, Ferenczi quem fez o primeiro e mais importante desvio que levou a teoria psicanalítica avançar a partir do modelo freudiano de desenvolvimento, de psicopatologia e tratamento de paciente, que era um modelo de uma-pessoa, para um modelo de duas-pessoas ou relacional. A transferência surge no contexto da contratransferência; a resistência emerge em resposta aos fracassos da empatia do analista; os sonhos e as atuações [acting out] são tentativas de comunicação. Para Ferenczi o intrapsíquico não era substituído pelo interpessoal; era essencialmente um conceito interpessoal (Aron & Harris, 1993).



O impacto da psicanálise relacional


A psicanálise relacional foi desenvolvida por Harry Stack Sullivan, Clara Thompson, Erich Fromm e Frieda Fromm-Reichmann em resposta à psicanálise clássica e a sua tradição intrapsíquica. No desenvolvimento e no aperfeiçoamento da teoria de instintos duais e do modelo estrutural, Freud (1923) afirmou que as pulsões surgem espontaneamente, forçam em busca de gratificação, tornam-se conflituosas, e subjazem a estruturas complexas do aparelho psíquico. Os primeiros interpersonalistas sentiram que essa tradição intrapsíquica não se dedicava suficientemente àquilo que achavam mais importante na psicopatologia: as interações reais com os outros significativos, passados e presentes.

O modelo interpessoal de Sullivan (1953) não foi talhado à volta de especulações a propósito daquilo que estivesse tendo lugar no psiquismo do paciente, mas antes a propósito de uma investigação minuciosa dos acontecimentos históricos e daquilo que estivesse ocorrendo presentemente nos relacionamentos do paciente com outras pessoas importantes, incluído o analista. Através dos trabalhos de Levenson (1972; 1983) e Wolstein (1983; 1988) a psicanálise enfatizou cada vez mais os aspectos aqui-e-agora da interação transferencial e contratransferencial.

Mas houve problemas com a abordagem interpessoal, tanto clínica quanto conceitualmente. Sullivan punha muita ênfase na linguagem – empregando palavras para fazer perguntas e empregando palavras para clarificar e compreender. Esta abordagem é útil com muitos pacientes, mas às vezes as palavras podem ser usadas defensivamente e podem afastar as experiências para mais longe. Ademais, trabalhar com a experiência presente – aqui-e-agora – dos pacientes, tipicamente leva a uma apreciação de seu apego adictivo a outros significativos do início da vida, bem como às suas identificações com estes. A psicanálise interpessoal não dispunha de nenhuma maneira satisfatória de descrever e explicar essas importantes identificações de self e objeto. O que é que serve de intermediário entre o passado e o presente? O paciente traz suas dinâmicas interpessoais para dentro do relacionamento analítico, e estas moldam esse relacionamento no aqui-e-agora. Mas como é que esses padrões ficam armazenados dentro do paciente? Que forma tomam? Como o paciente pode experienciá-los e ter acesso a eles? (Stern, 1995).




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