Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self Psicanálise Relacional



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Os teóricos britânicos das relações objetais


Os teóricos de relações objetais da escola britânica ofereceram uma maneira de corrigir essas peças que faltavam, e um estimulante complemento para a tradição interpessoal norte-americana. Diferentemente de Freud, Fairbairn (1952) afirmou que tudo o que há de ser encontrado dentro da mente do paciente, realmente ocorreu entre a criança e os outros importantes. A teoria de Fairbairn não somente é compatível com a psicanálise interpessoal, ela estendeu as implicações da obra de Sullivan para dentro de áreas que este evitara.

Segundo Fairbairn (Ibid.), a motivação fundamental forçada aos seres humanos é a necessidade de buscar ligações com outros. Cada indivíduo molda seus relacionamentos conforme os padrões de relacionabilidade que traz internalizados desde os seus mais antigos relacionamentos importantes. Os modos de ligar-se com esses primeiros objetos tornam-se os modos preferenciais e esperados de relacionar-se com novas pessoas. Os novos objetos amorosos são escolhidos por sua similaridade aos objetos satisfatórios ou insatisfatórios do passado, e as interações com os novos parceiros desencadeiam os antigos comportamentos esperados. As novas experiências são processadas e interpretadas conforme as antigas expectativas. Na compreensão que Fairbairn ofereceu da interação analítica, o paciente experiencia o analista na transferência como um objeto antigo, potencialmente insatisfatório e, não obstante, espera obter daí um relacionamento novo e enriquecedor. Segundo Fairbairn, os pacientes não podem abandonar as ligações adictivas aos antigos objetos, a menos que acreditem e confiem que é possível desenvolver novos modos de relacionar-se, que de fato eles podem ser ouvidos e vistos. Ele definiu o progresso analítico como sendo o resultado de uma capacidade modificada de relacionar-se com os outros (Mitchell & Black, 1995).

Winnicott era pediatra antes de tornar-se psicanalista, e a compreensão dos tipos de maternagem que facilitam ou impedem o desenvolvimento saudável era um componente importante de suas teorias (Id., ibid.). No cerne da obra de Winnicott havia uma preocupação com a qualidade da experiência subjetiva. A importância do significado pessoal e a da imagem de si mesmo como centro distinto e criativo da experiência própria do indivíduo, eram temas nucleares. Winnicott (1969) via o paciente como poderosamente autocurativo, e como moldando e criando o relacionamento analítico para proporcionar as experiências ambientais que lhe faltaram na infância. A experiência do self na relação com o outro é o que há de mais restaurador, no final de contas. Winnicott considerava o paciente como um participante ativo na análise, aquele que recebe o que o analista tem para oferecer, e o remodela conforme suas próprias necessidades. Ele desviou radicalmente a visão do analista como ativo e como tendo o controle (como o intérprete), passando a uma outra visão em que o paciente cria ativamente e modela aquilo que o analista lhe proporciona a fim de que ele descubra um sentido de self mais autêntico. Winnicott estimulava os analistas a que tolerassem a incerteza e oferecessem responsividade emocional espontânea e autêntica em resposta às necessidades de dependência e cuidados que o paciente apresenta (Mitchell & Black, 1995, op. cit.; Aron, 1996, op. cit.).

Na Argentina, Racker (1968) integrou as idéias de Freud, Klein e Fairbairn num modelo de contratransferência. Racker via a contratransferência do analista como instrumento significativo e terapeuticamente inestimável que lhe proporciona acesso a aspectos inconscientes do mundo interior do paciente, inexplicáveis de outra maneira. Ele considerava a transferência e a contratransferência como entidades inseparáveis – o fato de se associarem e se entremesclarem dois diferentes sistemas internalizados de representações de self e de objeto. Numa reviravolta notavelmente contemporânea, Racker chegou até a incluir na transferência do paciente aspectos reais da personalidade do analista, percebidos com exatidão, e que podem ou não estar conscientemente disponíveis para o analista. Racker (ibid.) descrevia o analista como lutando com conflitos interiores semelhantes aos do paciente, e criticava o “mito” da situação analítica de que “análise é o encontro de uma pessoa doente com uma outra saudável” (Ibid., p. 132). Ele enfatizou que o analista estava continuamente engastado no processo analítico e que participava ativamente dele.

Dois analistas neo-kleinianos, Bion (1962) e Ogden (1979) fizeram importantes contribuições à psicanálise relacional ao interpersonalizarem o conceito kleiniano (1946) de identificação projetiva. Empregando uma psicologia de uma-pessoa, Klein via a identificação projetiva como uma fantasia na mente do bebê ou do paciente que era inconscientemente colocada dentro da mãe ou do analista. A identificação projetiva difere da projeção pura em que não apenas expele aspectos do self, mas também induz o objeto da projeção a experienciar aquilo que é projetado. Bion (1962, op. cit.) acreditava que as projeções do paciente são processadas por meio das angústias, dos conflitos e da dinâmica do próprio analista. Ogden (1979, op. cit.) transformou ainda mais o conceito num construto interacional ao descrever a identificação projetiva como um processo em que um grupo de fantasias e de representações de self que as acompanham são depositadas dentro do analista para serem devolvidas numa versão modificada e menos perigosa.

Contribuições intersubjetivas


Stolorow e Brandchaft (1994) descreveram o interjogo das realidades subjetivas do paciente e do analista dentro do encontro analítico. Ogden (1994) enfatizou a natureza dialética da intersubjetividade. Ele insistiu em que embora as díades mãe-bebê existam em unidade, mãe e bebê são entidades nitidamente separadas com suas próprias subjetividades física e psíquica. Os momentos de sincronia que ocorrem entre a mãe e o bebê, ou entre analista e paciente, constituem aquilo que Ogden referia como intersubjetividade, ao passo que suas realidades separadas representam suas subjetividades. Benjamin (1988, op. cit.) afirmou que um dos objetivos críticos da psicanálise relacional é que paciente e analista reconheçam mutuamente suas subjetividades distintas e seus centros de iniciativa separados.

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