Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self Psicanálise Relacional



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PILARES CONCEITUAIS DA SITUAÇÃO ANALÍTICA REVISITADOS


O desvio conceitual de uma abordagem de uma-pessoa para uma abordagem de campo, ou diádica, às operações mentais, tem imensas implicações para a compreensão da situação analítica. Muitos aspectos do processo psicanalítico têm sido reconceituados dentro da teoria do modelo relacional.

O modelo psicanalítico clássico baseia-se na premissa de que a psicanálise oferece ao paciente um tipo muito singular de experiência por meio do estabelecimento de uma situação analítica cuidadosamente controlada. O divã, a freqüência dos encontros quatro ou cinco vezes por semana, a regra fundamental da livre associação, o analista que fica em silêncio à maior parte do tempo e permanece encoberto pelo anonimato – esses fatores estruturais e técnicos possibilitam ao paciente passar por uma experiência que ativa as mais antigas recordações e paixões da infância. Conquanto sejam experienciados como dirigidos ao analista, na realidade esses intensos sentimentos são sentimentos e desejos edipianos do início da infância, sepultados há muito tempo (Freud, 1912; 1913; 1933).

O elemento central dessa visão é a premissa de que as experiências do paciente na análise derivam a partir de dentro do paciente, são experiências que se expandem no espaço analítico cuidadosamente planejado que a técnica clássica proporciona. Esta premissa é que torna o modelo clássico tão essencialmente uma perspectiva de uma-pessoa. O encontro analítico é como uma máquina do tempo, na qual o paciente, por meio dos deslocamentos temporais da transferência, retorna ao seu passado. O analista como pessoa não é particularmente importante. Ele exerce seu papel funcional de operador da máquina do tempo. Uma vez que seja competente, o analista vai proporcionar uma função genérica que dá ao paciente a capacidade de experienciar, examinar e compreender mais plenamente seu passado.

Transferência e contratransferência


No modelo clássico a transferência e a contratransferência são vistas como deslocamentos temporais. Na primeira o paciente experiencia alguma coisa do passado, deslocada para a pessoa do analista. Freud (1912, op. cit.; 1913, op. cit.) via os sentimentos transferenciais do paciente em direção ao analista como representando a emergência de sentimentos recalcados, dirigidos a figuras significativas da infância, deslocados para a pessoa do analista. Ele considerava a contratransferência como um obstáculo ou impedimento ao tratamento que o analista tinha que superar por meio da auto-análise ou de mais psicanálise. Autores mais recentes que seguem o modelo clássico, tais como Jacobs (1986; 1991; 1995) e Renik (1993a; 1993b) enfatizaram o valor terapêutico da contratransferência.

No modelo relacional, transferência e contratransferência definem a experiência interativa, global, do analisando e do analista, respectivamente. Presume-se que cada qual responda à participação real do outro, moldada pela dinâmica interior e pelo passado pessoal de ambos. Assim, nem a transferência nem a contratransferência precisam ser distorções. A transferência do paciente é uma expressão de seu esforço no sentido de alcançar o analista, de proteger-se e de regular suas interações com o analista. Inversamente, a contratransferência do analista é uma expressão de seus esforços no sentido da autoproteção, alcançando e regulando suas interações com o paciente.

Na psicanálise relacional transferência e contratransferência são consideradas como criações mútuas de paciente e analista. As reações transferenciais são reveladas na contratransferência do analista, e inevitavelmente a moldam. Hoffman (1983, op. cit.) acreditava que a transferência funciona como um “contador Geiger” com as experiências do passado, sensibilizando os pacientes no sentido de seletivamente prestarem atenção ou notarem significados que poderiam não ter importância para outras pessoas (ver também Mitchell, 1988, op. cit; 1993, op. cit; Fiscalini, 1995a; 1995b; Gabbard, 1995; Aron, 1996, op. cit).

As interações transferenciais/contratransferenciais constituem o foco principal do processo psicanalítico. A psicopatologia do paciente é vista em termos de ligações adesivas a antigos relacionamentos e a antigos padrões. Esses relacionamentos patológicos, incluídos os relacionamentos objetais internos, manifestam-se na interação com o analista. O analista é, inevitável e proveitosamente, puxado para dentro dos padrões repetitivos da experiência e da ação do paciente. Invariavelmente o analista vai se comportar conforme o projeto do paciente, e finalmente vai se tornar participante da transferência deste. Levenson (1972, op. cit.; 1983, op. cit.) afirmava que o terapeuta deve cair nessas ciladas, deve deixar-se imergir e participar plenamente do sistema, e depois trabalhar sua maneira de sair daí, fazendo com que cada vez mais o paciente se aperceba desses padrões de interação.



Resistência


No pensamento psicanalítico tradicional, a resistência ao processo analítico deriva da batalha interna entre os impulsos e as defesas do paciente (Greenson, 1967). No modelo relacional a resistência reflete a luta do paciente entre padrões relacionais antigos e novos, entre ligações adesivas a objetos insatisfatórios (reanimados nas integrações transferenciais/contratransferenciais com o analista) e a possibilidade de novas formas de relacionabilidade que paciente e analista lutam para descobrir. Uma vez que necessariamente o analista é profunda e conflituosamente responsivo às angústias transferenciais do paciente, sempre há no analista e no paciente uma contra-resistência complementar a encontrar novas maneiras de se envolverem mutuamente.

Conflito


As abordagens relacionais vêem a mente como inerentemente conflitada na natureza. O modelo relacional-conflito enfatiza que os problemas do viver são uma função da lealdade do paciente aos outros amados internalizados do passado, bem como de dificuldades em separar-se daquilo que é habitual e do que é próprio das ligações de família. Coerente com as observações clínicas de Fairbairn (1952, op. cit.), quanto mais essas figuras internalizadas do passado tenham privado o paciente, e quanto mais iníquos e prejudiciais tenham sido, tanto mais forte será a situação de aprisionamento ao passado. Por exemplo, muito freqüentemente o viver num ambiente de família de privação emocional leva a um maior temor de examinar e buscar novas experiências. Os pacientes são vistos como esforçando-se para conseguir experiências novas e enriquecedoras, e ao mesmo tempo repetindo padrões internalizados já conhecidos (Mitchell, 1988, op. cit.; Hirsch, 1994). Mitchell (1997) afirmou que os conflitos humanos fundamentais repousam sobre a “necessidade de dispor de uma base que pareça totalmente conhecida e previsível, uma ancoragem confiável, um arcabouço, ... e, por outro lado, um anseio de romper os padrões estabelecidos, passando por cima dos limites, indo ao encontro de algo que não seja previsível” (p. 28).

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