Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self Psicanálise Relacional



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Encenação [enactment]


O termo encenação descrito por Jacobs (1986; 1991), visava a delinear os modos pelos quais analista e paciente verbal e não-verbalmente agem um sobre o outro. Jacobs via a encenação como uma forma de comunicação inconsciente contínua, de influência interpessoal e de persuasão, entre analista e paciente. As encenações são iniciadas pelos dois participantes. Renik (1993a, op. cit.; 1993b, op. cit.) afirmou que as encenações contratransferenciais sempre precedem a apercepção contratransferencial. Assim, os analistas vão encenar suas contratransferências antes que se apercebam dos significados específicos dessas ações.

Modelo da mente: visões acerca do trauma e da dissociação


O modelo relacional da mente vê o psiquismo como organizado no desenvolvimento. Baseia-se no pressuposto fundamental de que as unidades básicas da estrutura psíquica são compostas de experiências interativas do início da vida, à medida que vêm a formar um gabarito e um filtro perceptivo através dos quais toda a experiência ulterior é vista e é significativamente codificada e organizada. Assim, a mente é organizada à volta de representações de encenações diádicas mutuamente interativas, tanto satisfatórias quanto frustrantes. Dentro desses relacionamentos de influência mútua, o bebê aprende a regular por si mesmo intensos estados afetivos ao aprender a controlar e ajustar o comportamento dos outros significativos (Beebe, 1985; Beebe & Lachmann, 1991). Stern (1985) demonstrou como essas experiências diádicas vêm a ser mentalmente representadas e depois organizadas em categorias definidas de maneira mais ampla, exigindo uma determinada quantidade de generalização que atravessa acontecimentos distintos. Embora intimamente relacionadas à experiência vivida real, essas representações internas não são reconstruções verídicas na memória, mas sim modificadas por meio da generalização e da categorização. Essas lembranças codificadas vão ser moldadas e coloridas tanto por poderosas correntes afetivas cruzadas quanto pelos intensos sistemas mutuamente interativos de fantasia relacionada a objetos, que a situação interpessoal inspira.

Trauma


É freqüente que os analistas descubram que os esquemas interpessoais inconciliáveis são mantidos separadamente em subsistemas de impressões organizadas self/outro, subsistemas que coexistem em padrões psicodinâmicos de relativa clareza, intrincadamente organizados (Davies, 1996a). Um dos exemplos mais claros de tais subsistemas inconciliáveis de self e representação objetal é apreendido na organização mental de acontecimentos secundários a abuso parental grave. Davies e Frawley (1994) descrevem como a criança que sofreu maus-tratos é obrigada a integrar esquemas representacionais inacreditavelmente diferentes. Um sistema envolve organizar exemplos de self infantil mau, tóxico, vítima de abuso, com um genitor que maltrata, infantil ou sádico, fora-de-controle. Isso inclui intensas emoções de fúria, terror, vergonha e culpa organizados em torno de fantasias de destruição mútua, penetração, traição, sedução onipotente, superexcitação, etc. O outro sistema incorpora exemplos de self com outro em que a educação, o cuidado, a proteção, a afeição calorosa predominam, juntamente com momentos de relativa segurança, de sensações corporais de quietude e tranqüilização. Essas representações de self e outro são dramaticamente incompatíveis, tal como o são as intensas vinculações afetivas e as fantasias organizadoras que as unem. Não é que um sistema se torne consciente e o outro sistema seja inconsciente. Os dois subsistemas se alternam na consciência à medida que cada um deles é evocado por uma carga evocativa particular de um presente interpessoal (Davies, 1996a, op. cit.).

Dissociação


Segundo Bromberg (1994, op. cit.) e Davies (1996b), o trauma cria afeto e pensamentos que a vítima não consegue integrar. Bromberg afirmou que o mecanismo da dissociação é a defesa contra a angústia esmagadora que resultaria na fragmentação. Proporciona uma saída para situações em que emoções e percepções dramaticamente incompatíveis precisam ser cognitivamente processadas no mesmo relacionamento. A experiência traumática que causa a percepção e a emoção incompatíveis é afastada do sistema de processamento cognitivo e permanece num estado não-formulado e não-simbolizado (Van der Kolk, 1987). Bromberg (1994, op. cit.), Davies e Frawley (1994, op. cit.) e Stern (1996) enfatizaram que os estados do self dissociativos não podem ser diretamente postos em palavras, e só podem ser conhecidos por meio do impacto que exercem sobre a interação analista/paciente.

A TÉCNICA DO MODELO RELACIONAL


Há um problema básico na tentativa de estabelecer princípios técnicos dentro de uma perspectiva relacional. Se é suposto que cada díade analítica seja singular, se o significado das ações do analista não é determinado por aquilo que o analista pensa que é, mas sim por aquilo que analista e paciente juntos decidem que seja, e se o analista não consegue saber como ser o analista do paciente no início do processo, e só descobre isso na luta que emerge por meio dos padrões transferenciais/contratransferenciais – se se supõe tudo isso, como pode haver algum princípio técnico recomendado? Com base em que alguém poderia decidir que alguma intervenção específica é mais terapêutica do que qualquer outra? Alguma coisa vai funcionar?

De um ponto de vista relacional, o analista deveria tomar decisões clínicas baseado na auto-reflexão. As pessoas interagem mutuamente de muitas maneiras diferentes; diversas formas de interação diferem em termos dos tipos de constrangimentos que impõem à expressividade do outro. Com cada paciente o analista deveria descobrir um modo de participar que impusesse a esse paciente o mínimo de constrangimentos, permitindo-lhe a máxima liberdade para examinar sua própria experiência, passada e presente. Para alguns pacientes, um relativo silêncio por parte do analista concede-lhes a máxima liberdade. Para outros, o silêncio do analista é experienciado como malévolo e impeditivo. Para alguns o divã proporciona possibilidades de emancipação; para outros, é mortal. O significado da participação do analista é criado entre os dois participantes, e o analista deve tentar fazer a coisa certa – facilitar para o paciente o máximo possível de auto-expressão e autocompreensão.



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