Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self Psicanálise Relacional



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AÇÃO TERAPÊUTICA


A ação terapêutica dentro do modelo relacional depende do estabelecimento de um ambiente seguro no qual paciente e analista trazem a contribuição de percepções singulares que têm de sua experiência compartilhada. À medida que os padrões relacionais do início da vida do paciente vão sendo re-encenados dentro do espaço analítico, os laços adesivos, patológicos, que o prendem a antigos objetos vão ser realçados e mantidos em rigoroso contraste com os relacionamentos novos e – espera-se – mais adaptativos e flexíveis que paciente e analista lutam para negociar no presente.

Imaginem as conseqüências de viver numa casa que tivesse uma única janela. Para todos os efeitos, a visão que se pode ter dessa única janela vai definir a realidade daquela pessoa. Só mesmo experienciando a vista que se pudesse ter de uma nova janela, construída, talvez, no outro lado da casa, é que aquele indivíduo gradativamente vai internalizar um grau de perspectiva e de relatividade, um sentido de que a visão e a significação envolvem escolha e atitude ativa. Por meio do processo de contrastar, integrar e apreciar os matizes de perspectivas e subjetividades alternativas, diferentes das nossas próprias, é que paciente e analista vão desenvolver representações de si mesmo e do outro mais ricamente texturadas e complexas. O paciente e o analista vão construir em conjunto uma visão compartilhada do mundo que existe além das paredes do self, a partir de duas perspectivas diferentes.

Manter uma tensão ótima [optimal] entre o passado recriado e o novo relacionamento analítico, negociado interpessoalmente, passa a ser uma das funções críticas do analista. De fato, esta é a reformulação que Greenberg (1991, op. cit.) fez da neutralidade analítica. Em seu comportamento, tanto quanto em sua atitude, o analista se esforça para criar uma atmosfera de neutralidade. Essencialmente, a neutralidade de um analista visa a comunicar uma postura de apoio sem expressar predileção por determinado aspecto da personalidade do paciente. Greenberg defendia a necessidade dessa tensão ótima conforme se reflete na experiência que o paciente tem do analista como sendo uma presença tanto segura quanto ameaçadora.

Num modelo terapêutico que enfatiza a re-encenação [reenactment] dos padrões interpessoais de inadaptação, a própria presença do analista com sua capacidade de proporcionar funções seguras de sustentação, tranqüilização e contenção, pode realçar os limites entre as experiências relacionais novas e antigas. A participação ativa e a observação clínica são igualmente instrumentos analíticos fundamentais. O analista observa e participa do mundo relacional do paciente, e o conhece “pelo avesso” (Bromberg, 1991, op. cit.). O analista deve entrar plenamente no mundo relacional do paciente de modo a envolver-se livremente nas re-encenações transferenciais e contratransferenciais, e então deve afastar-se o bastante para observar, conter, processar e interpretar com o paciente aquilo que terá ocorrido entre eles. A capacidade que o analista tenha para sustentar o ritmo de participação ativa e observação, tanto quanto sua capacidade de envolver-se e afastar-se da corrente subterrânea apaixonada da pressão contratransferencial, continuam sendo indispensáveis para o sucesso analítico.



VINHETA CLÍNICA


A vinheta clínica que se segue é uma versão modificada do caso apresentado por Mitchell e Black (1995, op. cit.). Harvey, um artista de considerável habilidade, porém que só alcançou realizações limitadas, procurou tratamento por uma variedade de problemas que envolviam inibições em sua capacidade de comprometer-se com o trabalho e com relacionamentos pessoais íntimos. Seu primeiro analista que, ao que parece, seguia a orientação da psicologia do ego, tinha-o atendido durante 5 anos, e depois se aposentou. Harvey precisou de um ano inteiro para fazer o luto dessa perda de seu terapeuta, e então se decidiu a procurar tratamento novamente. Uma vez que queria estar em análise várias vezes por semana, o que seria difícil para ele com um analista particular, Harvey inscreveu-se na clínica de um instituto de formação psicanalítica, onde seria atendido por um candidato em formação.

O candidato que começou a atendê-lo supôs que ele fosse um paciente ideal. Harvey estava profundamente comprometido com a psicanálise, e tinha idéias claras a propósito daquilo que esta lhe oferecera e poderia continuar a proporcionar-lhe no futuro. A primeira análise lhe dera insights quanto ao complexo relacionamento que ele tinha com sua mãe, uma mulher criativa, brilhante, que tinha uma história antiga de depressão. Em seguida ao nascimento do irmão logo acima de Harvey, ela ficara paralisada com a depressão, permanecendo internada em hospital durante vários anos em que ficava essencialmente imóvel e não falava. Ela então decidiu ter outro filho, e ficou novamente animada com isso, voltando finalmente para casa. Dar à luz Harvey e cuidar dele, era o foco central de sua existência. Quando criança Harvey não tinha conhecimento do segredo de família a propósito da história psiquiátrica e da longa hospitalização de sua mãe. Não obstante, ele sentia nela uma fragilidade extrema. Tornou-se um filho muito leal e dedicado, entregando-se aos cuidados angustiados e superprotetores dela.

O relacionamento de Harvey com seu primeiro analista fora compreendido por ambos como envolvendo uma transferência paterna: muitas vezes ele se sentiu abandonado e negligenciado por seu analista na mesma maneira como tinha experienciado abandono e negligência com seu próprio pai, e algumas vezes se deleitava com fantasias de ser o paciente predileto do analista, posição de que nunca desfrutara junto a seu próprio pai. O relacionamento de Harvey com seu segundo analista também pareceu organizar-se em torno de um sentido do analista como figura paterna idealizada pela qual ansiara tanto e que experienciava ora como abandonando-o, ora como concedendo-lhe preciosa atenção.

Mais ou menos no 3º ano do tratamento, a segunda análise de Harvey sofreu uma reviravolta repentina e dramática, trazendo para o primeiro plano questões que tinham a ver diretamente com muitas das principais controvérsias a propósito da técnica analítica e da ação terapêutica. O analista começou a dar-se conta de que o sentimento de grande competência e sabedoria que de um modo geral ele experienciava quando estava trabalhando com Harvey, tinha muito a ver com a maneira como este funcionava nas sessões. À medida que ficou mais interessado nas sutilezas da interação deles, o analista começou a se aperceber de que havia um ritmo coerente e tranqüilizador na maneira como Harvey apresentava o material. Ele relatava um sonho e fornecia associações interessantes; depois, fazia uma pausa, dando ao analista a “deixa” de que era sua vez de responder. O que quer que o analista dissesse, era recebido com entusiasmo, e ele procurava trabalhar em cima disso. Compreensivelmente, o analista se sentia muito mais talentoso e competente com Harvey do que com seus outros pacientes.

Um dia, Harvey começou a falar de maneira angustiada, extremamente aflito. Era claro que alguma coisa dramática tinha acontecido, para mudar sua disposição de ânimo – ele parecia bastante assustado. O analista notou a mudança e perguntou o que tinha acontecido. Embora inicialmente negasse que qualquer coisa tivesse ocorrido, finalmente Harvey afirmou que de fato algo tinha acontecido, mas que não ia falar disso. Muitas semanas se passaram, até que eles dois tivessem examinado suficientemente os temores de Harvey, de modo que pudessem discutir com segurança suas angústias mais profundas. Finalmente o analista foi capaz de trazer à tona uma explicação.

Num dos seus rápidos comentários, o analista tinha empregado uma palavra que Harvey nunca usara anteriormente. Harvey tinha medo de que o analista tivesse inventado essa palavra (um neologismo “esquizofrênico”), que ela realmente não existia. Isso o deixou absolutamente aterrorizado, porque em particular Harvey havia bastante tempo nutria preocupações quanto à estabilidade emocional do analista. Sentindo-se muito responsável por proteger o analista, Harvey estava convencido de que este ficaria aterrorizado de que sua instabilidade pudesse ser visível ao seu paciente.

Harvey acreditava que o analista sofria de graves dificuldades emocionais, e que compensava isso ajudando outras pessoas. Ao mesmo tempo, Harvey estava certo de que era o paciente predileto de seu analista, aquele que o ajudava a sentir-se mais competente, mais profissional, menos louco. Isso, por sua vez, permitia que Harvey se sentisse especial. Ele era o único que conhecia o segredo do analista, e o próprio fato de que guardasse tal segredo era, em parte, como Harvey demonstrava seu amor e seu apoio ao analista. Acreditava que o que era mais importante de tudo para o analista, era a certeza de que seus problemas estavam ocultos e ele era percebido como competente e profissional.

Quando finalmente expressou essas percepções e convicções acerca dos mais profundos e sombrios segredos do analista, Harvey teve medo de que isso viesse a destruir o sentimento de segurança dele que partiria para a retaliação por meio do distanciamento emocional e do abandono físico.

À medida que os dois elaboravam essa crise terapêutica, Harvey continuou dizendo ao analista que toda essa história não devia ter nada a ver com ele, mas sim que era uma transferência baseada nas suas experiências vividas com sua mãe louca. Essa mãe era uma espécie de impostora como mãe, que usava seu papel de mãe-que-ajuda para manter-se organizada e coesiva. Através de sua profunda devoção a ela, e do terror que sentia do abandono, Harvey tinha contribuído para mantê-la íntegra ao ser seu filho leal. Todas essas idéias e esses sentimentos experienciados em relação ao analista deviam ser transferências da experiência que ele tinha de sua mãe.

O cerne da ação terapêutica teve lugar por meio da análise da matriz transferencial/contratransferencial. Transferência e contratransferência foram vistas como criações mútuas, mais do que como iniciadas exclusivamente pelo paciente ou pelo analista. Harvey foi estimulado a expressar suas percepções da fragilidade e da loucura do analista, bem como sua compreensão dos conflitos centrais deste. Como Harvey, muitos pacientes crescem convencidos do perigo de expressar percepções negativas, o que resulta em sentimentos de mistificação e passividade. Neste caso, o analista e o paciente examinaram o impacto do jeito protetor de Harvey para com o analista. E foram adiante examinando os benefícios que esse comportamento trazia para Harvey, bem como o custo psicológico que isso tinha para ele.

Na supervisão o analista elaborou sua contribuição particular para esse impasse no tratamento. Ele se concentrou nos benefícios narcísicos que auferia ao ver-se idealizado, e que lhe permitiam inibir as reações negativas e a agressão do paciente. Para Harvey era um bocado difícil imaginar a si mesmo como sendo importante para o analista, a não ser como sendo aquele que protege e resgata. Se não precisasse de Harvey para tais finalidades, que importância este poderia ter para seu analista? Durante o prolongado período de investigação, algumas vezes o analista chegou a sentir-se bastante emocionado com a dedicação de Harvey, e manifestou isso para ele. Achou comovente que Harvey quisesse ajudá-lo até o ponto de sacrificar seu próprio futuro, contanto que isso permitisse que o analista se sentisse competente e saudável. De fato, Harvey se ressentia profundamente desse papel de protetor, mas acreditava que não tinha alternativa. Mais tarde na análise, Harvey sugeriu que havia algo de fortalecedor e libertador nisso de saber do impacto emocional e da importância que ele tinha para o analista. Isso lhe permitiu elevar o nível de confiança, esperança e segurança quanto a renegociar o relacionamento entre ele e seu analista de modo a permitir menos fusão e mais autonomia e espontaneidade.

De acordo com o ponto de vista relacional, foi crucial que o analista de Harvey endossasse as observações deste, a propósito de suas ansiedades e de sua depressão, como fundadas na realidade. Se tivessem sido rotuladas de distorções transferenciais, o sentido de realidade do paciente teria sido solapado. Este poderia, uma vez mais, ter abandonado seu próprio ponto de vista e complacentemente ter-se submetido à visão supostamente superior do analista. O modelo relacional também supõe que Harvey tinha desenvolvido sensibilidades particulares que lhe permitiam perceber nos outros, inclusive no analista, qualidades que esses outros poderiam não ver. Se o analista insistisse, ou mesmo concordasse com Harvey quanto a que a experiência que este tinha dele como louco era uma distorção, deslocada da experiência que tinha tido de sua mãe, ironicamente esse teria sido um modo de comportar-se muito como aquela mãe. Isso comunicaria uma atitude fechada em relação às percepções e preocupações de Harvey. A relutância do analista quanto a explorar essas reações pode ter confirmado as desconfianças de Harvey de que o analista de fato era frágil e precisava de cuidadosa proteção. Finalmente o paciente ficou sabendo que o analista não estava livre da loucura, mas qualquer que fosse a loucura que o analista experienciasse, era diferente da da mãe de Harvey e não exigia o sacrifício – ao mesmo tempo amoroso e odioso – da experiência de autenticidade do próprio Harvey, para poder manter a conexão.



A análise relacional acredita que o fator mais crucial para o processo terapêutico é dar ao paciente a capacidade de ter uma nova experiência radicada num novo relacionamento. É inevitável que os antigos padrões relacionais se repitam. Espera-se, não obstante, que o paciente e o analista possam arranjar novos modos mais flexíveis de avançar além dessas repetições, de modo a liberar seu relacionamento, e a construir e negociar novas maneiras de estar um com o outro (Pizer, 1992; 1996). Greenberg (1991, op. cit.) afirmou que o analista precisa conseguir um equilíbrio dialético entre ser extremamente semelhante aos objetos originais e ser radicalmente diferente deles. Hoffman (1992b) indicou que aquilo que parece ser parte de alguma coisa antiga (repetição) pode realmente revelar-se ser parte de uma nova experiência e aquilo que parece ser uma nova experiência pode resultar que seja uma repetição de um velho padrão. Mesmo quando o analista está re-encenando com o paciente um aspecto de um antigo padrão relacional, a repetição, com toda a probabilidade, não é réplica exata da antiga experiência; muito provavelmente é apenas análoga àquela, em vez disso. Por outro lado, quando o analista é um objeto novo, proporcionando ao analisando uma “experiência emocional corretiva”, não é provável que o analista seja literalmente o oposto do objeto antigo; mais do que isso, é provável que o analista esteja proporcionando uma variação saudável da antiga experiência.

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