Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self Psicanálise Relacional



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CONTROVÉRSIAS ATUAIS NA PSICANÁLISE RELACIONAL


As principais controvérsias na técnica psicanalítica relacional incluem o emprego terapêutico da auto-revelação, enquanto as principais perspectivas de novidade no nível conceitual estão dentro da compreensão de self e de gênero.

A auto-revelação


A questão do grau e da natureza da auto-revelação deliberada e intencional do analista é uma das mais controversas na psicanálise relacional contemporânea. A auto-revelação pode se dividir em acontecimentos inevitáveis e não-intencionais, e atos mais intencionais e deliberados. A auto-exposição intencional inclui o compartilhamento das reações contratransferenciais e a revelação de pensamentos e sentimentos a propósito de alguma interação entre analista e paciente (Aron, 1996, op. cit.). Os argumentos contra a auto-exposição deliberada incluem: isso complica desnecessariamente o tratamento; desvia a atenção da experiência subjetiva do paciente; obscurece a natureza da transferência do paciente; e pode fornecer uma grande quantidade de informações acerca do analista, o que pode impedir o aperfeiçoamento das fantasias que o paciente tenha sobre ele. Em contraste com isso, Goskin (1987) sugeriu que a revelação cuidadosa das reações contratransferenciais pode ter o efeito terapêutico positivo de estabelecer a honestidade e a autenticidade do terapeuta; de confirmar o sentimento que o paciente tenha de que o analista é similar a ele próprio e que tem conflitos e transferências; de esclarecer a natureza do impacto interpessoal que o paciente tenha sobre o analista e sobre os outros em geral; e de romper impasses profundamente arraigados no tratamento. O compartilhamento seletivo de reações contratransferenciais facilita as interações afetivas interpessoais mais intensas (Aron, 1996, op. cit.). Ehrenberg (1995) sugeriu que a auto-revelação cuidadosamente considerada estimula o paciente a colaborar profundamente na exploração mútua do encontro analítico imediato, aqui-e-agora. Jacobs (1995, op. cit) afirmou que às vezes a auto-revelação permite ao paciente experienciar como mais autêntica e pessoal a comunicação do analista, resultando num impacto mais intenso sobre ele.

Não há normas de orientação técnica quanto a saber quais auto-revelações sejam corretas, independentemente da relação analista/paciente particular, ou do estágio do tratamento, ou do caráter do analista e do paciente. É necessário examinar minuciosamente o significado que a auto-revelação possa ter para o paciente e para o analista (Aron, 1996, op. cit.). Cooper (1996) defendia um maior foco clínico no exame daquilo que tenha lugar depois que se faça uma auto-revelação.



Visões do self: singularidade versus multiplicidade


São perceptíveis as diferenças nas descrições do self dadas pelos psicanalistas relacionais. O self é uma entidade integrada, internamente coerente, ou é uma configuração de estados de consciência fluidos, descontínuos, não-lineares? (Bromberg, 1994, op. cit.; Davies, 1996b, op. cit.).

Aqueles que propõem uma visão múltipla do self acreditam que a saúde psíquica ocorre quando o indivíduo é capaz de experienciar seu próprio sentido de multiplicidade e integridade, levando em consideração um sentido de coerência interna e continuidade, ao mesmo tempo permanecendo receptivo a novas experiências, contradições e ambigüidades (Aron, 1996, op. cit.; Mitchell, 1993, op. cit.). Uma perspectiva múltipla acerca do self enfatiza que os indivíduos apresentam selves distintos e singulares em diferentes contextos sociais. Em contraste, os psicólogos do self promovem uma visão do self como um foco singular do esforço do indivíduo em busca de um sentido integrado de self. Lachmann (1996) articulou que as vantagens alegadas da visão do self como múltiplo são totalmente coerentes com um modelo de processo de um self singular. Ele considera que as principais funções do self são iniciar, organizar e integrar experiências.



Gênero


Um dos tópicos mais controvertidos e discutidos na psicanálise relacional é saber se o gênero, definido como a experiência que a pessoa tem de ser homem ou mulher, é uma realização do desenvolvimento fixa e unitária ou se é, mais do que isso, um conceito fluido sujeito a modificações à medida que o tempo passa. Sweetnam (1996) argumentou que a natureza complexa e dialética do gênero é uma experiência que às vezes parece coerente e fixa, outras vezes é mais receptiva a fluxo e modificação. Ela incorporou as formulações dialéticas das posições psicológicas descritas por Klein (1940; 1946) e Ogden (1986; 1994) para conceituar o gênero como tendo qualidade ou fixa ou fluida, dependendo da posição psicológica que esteja contextualizando a experiência. Cada posição fornece um contexto específico com angústias particulares, qualidade peculiar de relacionamento interpessoal, capacidade simbólica e flexibilidade imaginativa que têm impacto significativo sobre a maneira como masculinidade e feminilidade são experienciadas.

CONCLUSÃO


A história e o desenvolvimento da psicanálise relacional realça que “a tradição psicanalítica ... é mais bem servida por uma estrutura que equilibre continuidades e descontinuidades, preservação e mudança, gratidão com abertura para avançar” (Mitchell, 1993, op. cit., p. 8).


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Texto traduzido para uso exclusivo de Membros da ABEPPS

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Rio de Janeiro

Julho de 2007


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