Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística



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(Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística)

GT LITERATURAS ESTRANGEIRAS



Coordenadora: Giséle Manganelli Fernandes

Vice-coordenador: Bruno Gomide



RELATÓRIO DE ATIVIDADES BIÊNIO 2008-2010

No biênio 2008-2010, o Grupo de Trabalho de Literaturas Estrangeiras realizou três reuniões e o 3o. Seminário Literaturas Estrangeiras em Diálogo.

As reuniões ocorreram nos dias 10 de novembro de 2008, 30 de março e 19 de outubro de 2009, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Nessas reuniões, o grupo discutiu assuntos burocráticos e também relativos ao projeto de pesquisa biênio intitulado “Pós-colonialismos/Pós-nacionalismos”. Houve troca de bibliografia pertinente ao projeto e o grupo propôs um estudo do Pós-colonial/Pós-nacional com ênfase no nosso ponto de vista de brasileiros.

Houve também discussão a respeito do Congresso da ANPOLL ocorrido em agosto de 2009, com destaque para o Qualis periódicos.

O GT publicou a coletânea Criação e conflito, resultante do projeto de pesquisa do biênio anterior.

O 3o. Seminário Literaturas Estrangeiras em Diálogo foi realizado nos dias 10, 11 e 12 de maio na UNESP, Campus de São José do Rio Preto. A programação do evento foi a seguinte:



3º Seminário de Literaturas Estrangeiras em Diálogo

Para além dos pós-colonialismos e dos pós-nacionalismos”



10, 11 e 12 de maio de 2010

Local: IBILCE/UNESP – Câmpus de São José do Rio Preto – Auditório B


Programação
Segunda-Feira (10/05/2010)

9h00
Quando o ‘outro’ é um irmão: considerações sobre a representação contemporânea do ‘judeu oriental’ na literatura hebraica do século 21”

Profa. Dra. Nancy Rozenchan - USP
A singularização do conflito árabe-israelense em A mulher foge, de David Grossman”

Profa. Dra. Berta Waldman - USP
A história de Hirbet Hizha: 60 anos depois (1949 – 2009)”

Prof. Dr. Gabriel Steinberg - USP
O árabe-israelense na busca de uma nova identidade em Aravim Rokdim, de Sayed Kashua”

Doutoranda Juliana Portenoy Schlesinger - USP

Segunda-Feira (10/05/2010)

14h00
A literatura de vanguarda na Rússia e a expansão do império soviético”

Prof. Dr. Mário Ramos Francisco Júnior - USP
A dissolução da União Soviética e o mercado literário na Rússia”

Mestranda Deise de Oliveira - USP
Literatura pós-colonial nos Urais”

Doutoranda Denise Sales - USP
A literatura soviética não russa: Fazil Iskander entre duas culturas”

Mestranda Gabriela Soares da Silva - USP


Segunda-Feira (10/05/2010)

18h00
Lançamento do livro Criação e Conflito

Terça-Feira (11/05/2010)

9h00
O discurso dialógico de Margaret Atwood em /Negociando com os mortos/”
Profa. Dra. Sigrid Renaux - UFPR/UNIANDRADE


“Em busca de raízes geográficas e espirituais: o sujeito diaspórico no século XXI”

Profa. Dra. Mail Marques de Azevedo - UFPR/UNIANDRADE
Pós-nacionalismo na história compartilhada de Paradise (1997), de Toni Morrison”

Doutoranda Marcela de Araujo Pinto - UNESP/SJRP
“Pós-nacionalismos: A desestabilização de fronteiras originada pelos latinos nos Estados Unidos”

Profa. Dra. Giséle Manganelli Fernandes - UNESP/SJRP



Terça-Feira (11/05/2010)

14h00
Hugo Loetscher 1979: além do pós-colonialismo”

Profa. Dra. Celeste Ribeiro de Sousa - USP
Révolutions: a poética de um eterno exílio? Reflexões sobre Le Clezio”

Profa. Dra. Betina Cunha – UFU
No Pays d’Acadie: fragmentos de uma nação através da obra de Antonine Maillet”

Prof. Dr. Nelson Luís Ramos – UNESP/SJRP
A cena das línguas em Amour Bilingue, de Abdelkebir Khatibi: entre a herança da colonização e paixão pelas línguas”

Profa. Dra. Maria Angélica Deângeli
O descritivo pictural na obra de Assia Djebar”

Profa. Dra. Norma Wimmer – UNESP/SJRP

Quarta-feira (12/05/2010)

9h00
Discussão teórica do grupo, convidados e ouvintes:
- O estado da arte da problemática
- Sugestões para a reformulação dos textos do ENANPOLL a serem publicados


RESUMOS

3º Seminário de Literaturas Estrangeiras em Diálogo

Para além dos pós-colonialismos e dos pós-nacionalismos”




Segunda-Feira (10/05/2010)

9h00
Quando o ‘outro’ é um irmão: considerações sobre a representação contemporânea do ‘judeu oriental’ na literatura hebraica do século 21”

Profa. Dra. Nancy Rozenchan - USP
O conceito amplo de pós-colonialismo atingiu a cultura israelense com grande atraso. Quanto tal ocorreu, intelectuais que trataram do assunto conduziram as teorias que compuseram o pensamento de Saïd e outros para questões locais pontuais, quais sejam relações judeus/palestinos e relações da maioria judaica ashkenazita [européia] /judeus procedentes de países de fala árabe ou orientais, os mizrahim. Vivendo, em relação às classes então dominantes no país, desde a sua chegada na década de 1950, um relacionamento que pode ser considerado como de colonizado/colonizador, judeus mizrahim conseguiram se sobrepor, em grande parte, no final do século 20, a esta condição. Em contraste com décadas anteriores, a literatura hebraica dos últimos anos tem se enriquecido com um número crescente de obras em que mizrahim de segunda geração expressam sua situação contemporânea. Por meio de um dos mais destacados romances deste segmento, Shum gamadim lo iavou, de Sara Shilo [Nenhum duende vai aparecer] Tel Aviv, Am Oved, 2006, pretendo expor como o relacionamento colonizado/colonizador deixou as suas marcas nesta parcela da população israelense.

A singularização do conflito árabe-israelense em A mulher foge, de David Grossman”



Profa. Dra. Berta Waldman - USP
Pretendo apresentar uma leitura do romance de David Grossman Ishá borahat mibessorá (A mulher foge. Trad. George Schlesinger. São Paulo, Companhia das Letras, 2009), tentando analisar o modo como o conflito árabe-israelense é nele registrado. Como o texto não é político, nem filosófico, mas literário, o autor trata do tema através do processo de singularização, isto é, particularizando o conflito na rede de interação de membros de um núcleo familiar. O romance se constrói num clima de suspensão: algo vai ocorrer, pode ocorrer, mas não se sabe quando, como, o quê. A iminência contém ameaça (de guerra, de atentados) e é essa a atmosfera vivida pelas personagens sediadas em Jerusalém. A família interage com um motorista árabe israelense e o convívio oscila entre aproximação e exclusão. O árabe confunde-se com o israelense, porque assimilou a língua e o gosto do lugar. Essa forma de “colonização” faz que ele seja aceito, mas ela não se mantém estável e o personagem reage, retomando em alguns momentos o padrão do gosto e da fala árabe. Além disso, atua nessa relação a diferença de classe social e o desejo do mais forte de manutenção da ordem vigente. Mas, no nível do discurso, as formas de autoritarismo e de sobreposição se desfazem, pois o estilo do romance vai privilegiando, cada vez mais, o discurso indireto livre, em que a voz do “outro” tem lugar, apontando para um horizonte de solução possível do conflito por essa via.

A história de Hirbet Hizha: 60 anos depois (1949 – 2009)”



Prof. Dr. Gabriel Steinberg - USP
Após o surgimento do Estado de Israel, os israelenses nativos eram apresentados na literatura hebraica de então como seres sempre altivos, possuidores de uma auto-estima e de uma auto-segurança elevadas, portadores de uma nova ideologia. Um dos maiores representantes da geração de escritores de então é Izhar Smilansky mais conhecido como S. Izhar (1916 – 2006). As obras dos escritores de sua geração tem como papel central a figura do herói que tudo sacrifica em prol de seu país. O que se lê na obra de Smilansky não se prende integralmente a esta concepção, como se pode averiguar no longo conto Sipur Hirbet Hizha (A história de Hirbet Hizha), escrito em maio de 1949, nos últimos meses da Guerra da Independência de 1948 e publicado no livro Arbaá Sipurim (1ª edição em 1959, edição atual de 2006). À época de sua publicação, este conto causou rejeição e surpresa, tanto pelo tema abordado e enfoque utilizado, diverso dos de seus contemporâneos. Sipur Hirbet Hizha narra o ataque de um grupo de combatentes judeus a uma aldeia árabe e a fuga de seus moradores, temática que permaneceu como tabu em Israel até o final da década de 1980. A revisão do passado e da história, hoje fato corrente na cultura daquele país, a análise de posições consideradas como colonialistas, conduzem atualmente a um posicionamento que alguns classificam como pós-colonialista. O longo conto de Izhar, autor que foi, de certa forma, um pioneiro na exposição de posturas políticas que contestaram colocações anteriormente tidas como “oficiais”, é um dos mais importantes textos literários que se prestam à releitura dos relacionamentos inter e intra-populacionais de Israel.

O árabe-israelense na busca de uma nova identidade em Aravim Rokdim, de Sayed Kashua”



Doutoranda Juliana Portenoy Schlesinger – USP
As teorias pós-colonialistas, representadas pelos autores Homi K. Bhabha, Salman Rushdie e Stuart Hall, ocuparam-se, na última década, em analisar o comportamento de indivíduos ou grupo de indivíduos que, devido à sua condição minoritária numa determinada nação, têm que passar por transformações identitárias que os possibilitam integrar-se à realidade imposta. Eles deixam de ser o que eram e, ao mesmo tempo, não aceitam ser o que essa sociedade maior havia pré-estabelecido a eles. São seres revolucionários, que constantemente buscam novas identidades dentro de um contexto de repressão e, ao mesmo tempo, liberdade. Segundo a leitura a ser exposta, Sayed Kashua, autor israelense de origem muçulmana, captou esse movimento constante e muitas vezes doloroso da minoria árabe-israelense no seu primeiro romance escrito em hebraico Aravim Rokdim (2002) [Árabes dançam]. O protagonista, ser a quem não é dado nem nome nem sobrenome, sai de sua cidade natal, vilarejo árabe localizado no norte de Israel por um acaso da vida, e passa a ter contato intenso com a maioria judaica do seu país natal. Esse encontro, apesar de sofrido e penoso, o transforma constantemente num ser em busca de uma nova possibilidade identitária.


Segunda-Feira (10/05/2010)

14h00
A literatura de vanguarda na Rússia e a expansão do império soviético”

Prof. Dr. Mário Ramos Francisco Júnior - USP
Durante as primeiras décadas do século XX surgiam por toda a Europa os movimentos de vanguarda, no âmbito da literaturas e das outras formas artísticas. No mesmo período, a Rússia vivia o clima de mudanças político-sociais que culminaria na Revolução Socialista de 1917. A maioria dos escritores envolvidos com as diferentes tendências de vanguarda naquele país acabou por engajar-se à revolução que propunha a utopia da reconstrução da nação sob os moldes do socialismo. No primeiro momento pós-revolução, o engajamento dos artistas deu-se de forma voluntária. Numa fase posterior, porém, o discurso oficial passou a ser imposto aos escritores e, com o passar do tempo, viria a gerar o chamado “realismo socialista”, principalmente no período stalinista da União Soviética.

Dentre os planos de reconstrução nacional havia a proposta de unificação das diversas repúblicas “satélite” da Rússia sob a bandeira da União Soviética e, em consequência disso, sob o controle político de Moscou. Nos primeiros anos após a revolução já surge o embrião deste programa de expansão do império soviético, que irá tomar forma nas mãos de Joseph Stálin e que se materializará nos cartazes de propaganda política em expressões como “amizade dos povos” ou “união dos povos”. Esta expansão colocou a cultura russa em contato com as culturas de repúblicas mais distantes e quase desconhecidas para a maioria da população russa (com a abrangência de países hoje independentes, como o Cazaquistão, o Uzbequistão, a Geórgia e tantos outros). Em seus anos iniciais, a política expansionista despertou grande interesse nos escritores russos, principalmente naqueles que apresentavam as características de inovação e abertura tão caras aos movimentos de vanguarda. A utopia de construção da nação socialista desdobrava-se na utopia da integração nacional e com este espírito a literatura de vanguarda via naquelas culturas distantes (e às vezes vistas como exóticas) material fértil para a criação literária e para o trabalho com a linguagem. Se por um lado o império soviético impunha a cultura e a língua russa de forma programática nos países agregados, por outro lado a poesia lírica de Vladimir Maiakóvski, os épicos modernos de Velimir Khliébnikov, os poemas experimentais de Aleksei Krutchônikh traziam para o seio dos movimentos de vanguarda a atmosfera e a linguagem dos povos do Cáucaso, do oriente próximo e até mesmo deixavam-se influenciar por culturas asiáticas mais longínquas. O caldeirão cultural adequava-se perfeitamente às estéticas de vanguarda e a literatura russa refletia, naqueles anos, todo o mosaico de povos que passaria a ser aspecto fundamental da União Soviética durante a maior parte do século XX.

A dissolução da União Soviética e o mercado literário na Rússia”

Mestranda Deise de Oliveira - USP
A ascensão de Gorbatchov ao poder marca o começo da desintegração do Estado soviético e do Partido Comunista. A implementação das duas célebres medidas políticas – glasnost e perestróica - marcou o começo da democratização das instituições soviéticas e também do nacionalismo e da xenofobia. Durante o período soviético, o conceito de nação era muito mais político do que étnico, já que várias etnias eram consideradas “soviéticas”. Com isso, podemos perceber que o conceito de identidade nesse período era o seu ponto mais fraco, já que não havia um único conceito de identidade. Com o fim da URSS, a necessidade de se construir uma identidade condizente à nova República trouxe algumas divergências sobre o que seria o indivíduo russo então. Para alguns, o sangue era o único fator classificatório, enquanto para outros – que eram contra a idéia de construir uma nação somente pela etnia – a idéia de uma nação rossískaia1, na qual, independentemente da etnia, todos faziam parte de uma mesma Federação era mais válida, já que dezoito por cento da população era formada de não-russos. Os russos se identificavam como soviéticos: a etnicidade russa era posta de escanteio. Tão logo houve a dissolução da URSS, os indivíduos, antes soviéticos, tiveram de se enxergar como russos de forma repentina2. Os russos não eram mais os protagonistas do bloco – em busca de uma nova nacionalidade e nação –, mas coadjuvantes dentro de um novo sistema capitalista. A antiga União dos Escritores não era mais garantia de conforto para os escritores que produziam obras a favor do Partido. Será com os ganhadores da premiação Russian Booker Prize que a literatura russa conseguirá aumentar consideravelmente o número de suas vendas no país. Vladimir Makanin - vencedor do prêmio de 1993 – afirma em uma entrevista que ele nunca havia conseguido uma publicação em um jornal e a censura não facilitou a publicação de seus livros. Após o prêmio, ele viu os seus livros traduzidos em diversos idiomas e finalmente, ele consegue viver só de literatura.3 Muitos livros estão sendo publicados com a temática anti-stalinista e sem o medo da censura. Contudo, a censura agora se dá pela necessidade mercadológica por parte das editoras. Ruben Gallego – em sua obra Branco sobre o negro - conseguiu escrever suas memórias de infância em um orfanato e hoje vive de literatura. Na tentativa desenfreada de correr atrás do tempo perdido, a literatura pós-moderna, como o nome já diz, traz para este tempo uma representação de um mundo novo. Antes, com o nome de literatura soviética, escritores de nações ligadas ao bloco galgavam o seu espaço junto ao meio literário russo. Hoje,escritores lutam para conseguir lutar com o mercado editorial.

Literatura pós-colonial nos Urais”



Doutoranda Denise Sales - USP
“Se no exterior entendem literatura pós-colonial como uma obra originária de países colonizados, em solo russo esse termo adquiriu outro significado. Historiadores e sociológicos chegaram à conclusão de que a Rússia colonizou a si mesma, conquistou o seu próprio povo. Assim a literatura pós-colonial é composta de obras sobre a história da conquista dos territórios que fazem parte da Rússia. É exatamente neste sentido, no modo como os escritores lançam luz sobre a conquista dos Urais, que se revela a formação de uma prosa do tipo pós-colonial.” Esta afirmação, feita pela pesquisadora Aliona Podlesnykh, da Universidade Federal dos Urais, despertou a nossa atenção para a especificidade do termo “literatura pós-colonial” na Rússia. Investigamos resenhas, críticas e artigos sobre o tema e relacionamos aspectos recorrentes. A literatura dos Urais, região geográfica que se estende entre as planícies do Leste Europeu e do Oeste Siberiano, praticamente de Norte a Sul da Rússia, é uma das mais citadas, sobretudo na voz dos escritores Dmitri Narkisovitch Mamin-Sibiriak (1852-1912), Pavel Petrovitch Bajov (1879-1950), and Aleksei Viktorovitch Ivanov (1969). Nesta comunicação, tratamos das especificidades do conceito de literatura pós-colonial na Rússia, analisando termos recorrentes em críticas e resenhas, como geopoética, regionalismo e análise espacial, e voltamos o foco, em especial, para a literatura dos Urais.

A literatura soviética não russa: Fazil Iskander entre duas culturas”



Mestranda Gabriela Soares da Silva - USP
Esta comunicação tem por objetivo apresentar algumas características da obra de Fazil Iskander. Será abordada a questão da origem do discurso e da identidade cultural na obra do escritor, buscando mostrar a justaposição entre o atrasado e o moderno, o periférico e o centro de poder político-econômico a partir da coexistência de dois mundos: um russo-soviético, ao qual o Iskander foi incorporado; e a Abkhazia, o local de origem. A partir disso, se faz necessária uma reflexão de como essas tensões entre as duas culturas são congregadas ao texto: na constituição do espaço, na linguagem e também na própria estrutura narrativa, levando esse conflito não somente para o nível temático, mas também composicional. Ao mesmo tempo, a utilização da sátira, do fantástico e do grotesco promovem um afastamento com as formas do realismo socialista, configurando-se numa recusa da imagem pré-estabelecida do que é a sociedade soviética. Por fim, impõe-se a questão da formação de várias consciências identitárias ao invés de uma única consciência predominante e artificial. O retorno freqüente às origens não necessariamente implica numa afirmação categórica da Abkhazia e a dissociação com a cultura russo-soviética, mas que ambas as identidades convergem para um universo literário complexo e único excedendo uma possível dicotomia.


Terça-Feira (11/05/2010)

9h00
O discurso dialógico de Margaret Atwood em Negociando com os mortos

Profa. Dra. Sigrid Renaux - UFPR/UNIANDRADE

Partindo de indagações como "para quem se escreve?", "por que se escreve?" e "de onde surge o ato de escrever?" Margaret Atwood discute, nos seis capítulos que compõem sua obra não ficcional Negociando com os mortos (2004), questões literárias e culturais abrangentes, tais como o discurso e a "consciência dupla" dos escritores, o conflito entre arte, comércio e poder, o triângulo escritor/ livro/ leitor e os caminhos labirínticos da narrativa. Todas essas questões e relações, polemizadas através de estratégias como a ótica paródica, a releitura e a reescrita, subvertem e desconstroem, entre outros, os conceitos fixos de eurocentrismo, de cânone literário e de essencialismo. Assim, aproximam-se as práticas do pós-modernismo - desenvolvidas por Atwood - com as do pós-colonialismo, ao ambas desenvolverem novos parâmetros de crítica literária e social, baseados na relativização e na pluralidade.



“Em busca de raízes geográficas e espirituais: o sujeito diaspórico no século XXI”

Profa. Dra. Mail Marques de Azevedo - UFPR/UNIANDRADE
As palavras proféticas de W.E.B. Du Bois - “O problema do século XX é o problema da linha da cor” - ressoam ainda mais fortes no século XXI. O lócus do romance de estréia da anglo-jamaicana Zadie Smith, Dentes brancos (2000), é o mundo multicolorido, multirracial e plurilingüístico do distrito londrino de Brent. O conto “Ayoluwa, a alegria do nosso povo”, de Conceição Evaristo, dá vida a uma comunidade negra mítica em que predominam as mulheres. Contrastes de extensão, de atmosfera e de estilo não escondem o eixo comum às duas narrativas: o profundo e inquietante sentimento de alienação do sujeito representado. Este trabalho examina na prosa “sassy” e humorística de Smith, - caracteristica de alguns escritores que exploram as relações entre culturas -, e no texto poético da escritora mineira, o papel da literatura como mediação. O termo designa na teoria pós-colonial o papel da literatura como comentário ou defesa de um determinado ponto de vista, bem como de crítica e resistência a problemas decorrentes do processo colonizador europeu: diáspora, deslocamento, perda de identidade, racismo, opressão econômica e desvalorização cultural, que atingem particularmente o homem de cor. Caryl Phillips, escritor diaspórico, engloba todos esses problemas no sentimento de “não pertença”: “Eu reconheço o lugar, sinto-me em casa, mas não pertenço. Eu sou e não sou deste lugar”. Em conclusão, espera-se restolhar os caminhos para a sobrevivência, semeados por duas escritoras tão diferentes, mas tão semelhantes em essência. .

 
Pós-nacionalismo na história compartilhada de Paradise (1997), de Toni Morrison”



Doutoranda Marcela de Araujo Pinto – UNESP/SJRP
Em Paradise (1997), a recontextualização, em um cenário norte-americano, de um incidente pertencente à história oral brasileira, apresenta o conceito de nação a partir de diferentes categorias baseadas não só em distinções nacionais usualmente consideradas, como ancestralidade e espaço geográfico e político, mas também em uma ideia de história compartilhada, desenvolvida pela própria Toni Morrison. O episódio ocorre, no romance, em razão do encontro e confronto entre diversas personagens envolvidas na busca por localizar e estabelecer um lar. A grande quantidade de figuras híbridas buscando lugares para morar em espaços inconstantes, em escopos temporais seculares, são fundamentais para o processo de reavaliação do conceito histórico de nação. O objetivo deste trabalho é apresentar como a narrativa de Morrison, em Paradise, elabora, no espaço ficcional, o conceito de história compartilhada.

“Pós-nacionalismos: A desestabilização de fronteiras originada pelos latinos nos Estados Unidos”



Profa. Dra. Giséle Manganelli Fernandes - UNESP/SJRP
Este estudo discute produções literárias de artistas latinos nos Estados Unidos, com o objetivo de mostrar como seus trabalhos revelam questionamentos no tocante a problemas de identidade. Por meio da análise de textos de Alberto Ríos, Esmeralda Santiago e Gloria Anzaldúa,, verifica-se o quão difícil é para os imigrantes latinos, de forma geral, a tarefa de romper com as tradições de seus ancestrais. As experimentações artísticas realizadas por esses escritores mostram o que significa viver em uma mistura de culturas, idéias e valores. A importância da língua é também debatida, pois a mescla de Inglês e Espanhol, bem como de prosa e poesia, carrega a luta contra as estruturas estabelecidas e desafia a linha limítrofe entre gêneros literários. A comparação entre as abordagens empreendidas pelos autores em foco permite constatar a relevância de suas vozes no contexto da pós-modernidade americana, colocando em evidência um mundo pós-fronteiras nacionais.

Terça-Feira (11/05/2010)

14h00
Hugo Loetscher 1979: além do pós-colonialismo”

Profa. Dra. Celeste Ribeiro de Sousa - USP
De fato só em 1986 Homi Bhabha, no âmbito dos pós-colonialismos, relativiza as relações colonizador/colonizado (The location of culture) e só em 1999 Gayatri Spivak sugere a desconstrução dessas relações (A critique of postcolonial reason). Em 1979, quando o suíço Hugo Loetscher publica o romance Wunderwelt. Eine brasilianische Begegnung (Mundo maravilhoso. Um encontro brasileiro), as posturas de Edward Said ainda empolgam os estudiosos de literatura (Orientalism - 1978). Porém, analisar a obra de Loetscher à luz dessas teorias levanta questões acerca da natureza do próprio conceito de pós-colonialismo: trata-se, no caso, de um suíço que escreve o que se considera uma obra do pós-colonialismo de língua alemã, embora o romance seja sobre o Brasil, e o que seria pós-colonial no mundo de idioma alemão, talvez seja neo-colonialismo para os brasileiros.

Révolutions: a poética de um eterno exílio? Reflexões sobre Le Clezio”



Profa. Dra. Betina Cunha - UFU
Révolutions, obra de Le Clézio escrita em 2003, apresenta uma nova versão da escritura poética do autor. Compartilhando com seu leitor uma perspectiva memorialística-ficcional do seu percurso pessoal de escritor - alimentado de aventuras e buscas ancestrais - o autor revolve sombras, supostas intimidades e lembranças, em um processo contínuo de deslocamento, presença, ausência e acomodações existenciais. Os vivos e os mortos, os continentes e ilhas, mares e oceanos, ontem e hoje, noite e dia, transformam-se em material de um quebra-cabeças enigmático, cuja grande lição é a busca de uma identidade reconhecida a partir dos acréscimos e lacunas desenhadas pelas heranças multi-étnicas e renovadas por uma individualidade sempre apaziguada pela lucidez e sensibilidade. Partindo desses componentes ficcionais, este estudo pretende investigar as questões sócio-ideológicas-culturais que traduzem o discurso e a dimensão identitária do sujeito-herói, oriundo deste emaranhado tecido multi referencial e pos-colonialista. Para tanto, serão utilizadas as indicações teórico-críticas de BABHA, Homi. (O local da cultura); FANON, Franz (Les damnés de la terre); SAID, Edward (Orientalismos); TODOROV, Tzetan (O homem desenraizado) dentre outros que pensam as questões cruciais do movimento de construção das identidades na pós-modernidade.

“No Pays d’Acadie: fragmentos de uma nação através da obra de Antonine Maillet”

Prof. Dr. Nelson Luís Ramos
Colonizada por franceses a quem deve o nome, colonizada em seguida pelos invasores ingleses, desmantelada, dispersada e reconstruída, a Acádia (Acadie, em francês) sobrevive e tenta se afirmar. Originalmente estabelecida em parte do território que é hoje a província canadense de Nova Brunswick, o povo que compreende a Acádia de hoje espalha-se por outras províncias canadenses, embora se concentrem em sua maioria na terra de origem. Antonine Maillet, escritora acadiana e de língua francesa, é uma de suas porta-vozes mais ferrenhas: através de suas obras, ela recupera e reconstrói as tradições, os costumes, a história de seu povo, com livros que ganharam o mundo, reconhecimento e prêmios. Sua voz é a voz de um povo separado, sofrido, mas que soube manter sua própria identidade. O espaço de seus romances é o próprio espaço do país acadiano, com fronteiras facilmente identificáveis, no seu francês bastante particular, na paisagem típica daquelas localidades, na convivência com os vizinhos de língua inglesa. O espaço do passado é o espaço do hoje, cuja memória permanece viva, oferecendo às novas gerações acadianas a identidade real de uma nação. Através de sua obra literária, procuraremos mostrar como se dá a convivência com a nova realidade acadiana, produto de colonizações que tanto a marcaram e que a tornaram singular.

A cena das línguas em Amour Bilingue, de Abdelkebir Khatibi: entre a herança da colonização e paixão pelas línguas”



Profa. Dra. Maria Angélica Deângeli
Amour Bilingue (1983/1992), do escritor marroquino, Abdelkebir Khatibi, é um romance que trata da problemática relação entre as línguas, mais especificamente, no contexto a partir do qual fala Khatibi, entre o francês e o árabe. Por meio de uma narrativa consagrada à figura dos duplos: dupla língua, dupla herança histórica e cultural, Khatibi interroga os limites e os desafios de uma escrita genealogicamente híbrida, fruto de rupturas e de imposições coloniais, mas também elaborada no rastro de uma paixão incondicional pela língua, pelo que ele designa conceitualmente como bi-língua. O objetivo desta comunicação é mostrar como se constrói a cena dos duplos (como cena dedicada à celebração da bi-língua), que perpassa toda a narrativa, e interrogar, como o faz Khatibi, as implicações teóricas (e retóricas) de um discurso que implica o próprio e o impróprio, o estrangeiro e o familiar, o traduzível e o intraduzível da(s) línguas, questionar, enfim, a história da colonização francesa no Magrebe e a herança de um passado colonial que passa sobretudo pela história da(s) língua(s).

O descritivo pictural na obra de Assia Djebar”



Profa. Dra. Norma Wimmer (UNESP/SJRP)

Assia Djebar (1936), romancista argelina, escreve, em língua francesa, uma série de romances cuja temática remete a sua autobiografia, à história da Argélia e à das mulheres daquele país. Em seus textos, ela revê as difíceis relações com a França da época da colonização, isto é, dos anos 1830 até a independência, em 1962. Para fazê-lo, ela escolhe a língua do dominador, mas ao mesmo tempo, a língua da comunicação com o Ocidente, transgredindo-a -  bem como a forma literária do romance ( ou a do cinema). Ela se apropria, portanto, daquilo que lhe foi imposto como "a" cultura, para desvendar "sua" cultura. Neste sentido, Assia Djebar traz, em seus textos, passagens descritivas que recordam  a pintura e a escrita de Delacroix e de Fromentin. O objetivo do trabalho a ser apresentado será, assim, o de  identificar, nos romances de caráter autobiogràfico da autora, imagens tomadas aos dois pintores franceses.



RELATÓRIO DO EVENTO

O 3o. Seminário de Literaturas Estrangeiras em Diálogo foi realizado no período de 10 a 12 de maio de 2010, no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista, Câmpus de São José do Rio Preto. O evento recebeu auxílios da FUNDUNESP, da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UNESP, da VUNESP, da Direção do IBILCE e do Programa de Pós-Graduação em Letras do IBILCE.

O Seminário contou com apresentações de especialistas das áreas de Alemão, Francês, Hebraico, Inglês e Russo. O público participante foi composto por docentes e alunos de graduação do IBILCE e de pós-graduação do IBILCE e da FCL/Araraquara.

A mesa composta por docentes da área de Hebraico teve a presença dos seguintes pesquisadores da Universidade de São Paulo: Profa. Dra. Nancy Rozenchan, Profa. Dra. Berta Waldman, Prof. Dr. Gabriel Steinberg, Doutoranda Juliana Portenoy Schlesinger.

Em sua apresentação, a Profa. Dra. Nancy Rozenchan partiu do conceito de “judeu oriental”, que designa os judeus provenientes de países árabes. Hoje os judeus orientais e seus descendentes constituem praticamente a metade da população de Israel e a produção literária realizada por eles e sobre eles tornou-se um dos segmentos mais importantes da Literatura Hebraica contemporânea. Estudos sobre os judeus orientais têm sido produzidos, em Israel, em várias áreas do saber, a eles remetendo questões a respeito do pós-colonialismo, conforme as teorias de Homi Bhabha, Edward Said e Gayatri Spivak. Por meio da análise do romance Shum gamadim lo iavou[Nenhum duende vai aparecer], de Sara Shilo, a Professora Nancy apresentou uma leitura da israelidade oriental reproduzida por escritores contemporâneos que reconstituem/reelaboram a identidade desta grande parcela da população sufocada pela sua própria história de vida em Israel.

A Professora Berta Waldman discutiu a questão do conflito árabe-isralense a partir do estudo da obra A mulher foge, de David Grossman. A docente abordou a sua investigação a respeito dos judeus-árabes, da tradição bíblica, dos termos da aliança com Deus, do drama de uma região em que os árabes-israelenses não podem contribuir para a existência da formação do Estado de Israel. Várias identidades culturais estão em jogo no romance. O texto apresenta a realidade da violência, da explosão, do atentado, da barbárie. O autor incorpora esse cenário de massacre como o cenário natural do israelense contemporâneo. O romance encontra-se na área instável do cruzamento entre ficção e verdade, apresentando múltiplas perspectivas para os fatos. A literatura passa a ser encarada, assim, como um instrumento que permite diálogos entre os seres humanos, indo além das diferenças que separam uns e outros. Os múltiplos caminhos do romance são fundamentais para uma compreensão mais abrangente sobre o conflito árabe-israelense.

O Prof. Dr. Gabriel Steinberg analisou o conto Sipur Hirbet Hizha (“A história de Hirbet Hizra), de autoria de Izhar Smilsnsky, escrito em maio de 1949 e publicado em 1959. Este conto, segundo o professor, é uma releitura dos relacionamentos intra e extra-Israel, apresentado a partir do ataque de um grupo de combatentes judeus a uma aldeia árabe e a conseqüente fuga de seus moradores. Atualmente, na cultura israelense, há um processo de revisão do passado e da história daquele país e posições consideradas colonialistas estão sendo consideradas, por alguns, pós-colonialistas. O conto de Izhar, que causou surpresa quando de sua publicação e se presta a uma postura de contestação de versões antes tidas como oficiais, mostra questões morais que se perpetuam até hoje.

Baseando-se em teorias de Homi Bhabha, Salman Rushdie e Stuat Hall, a Doutoranda Juliana Portenoy Schlesinger discutiu o romance Aravim Rokdim [Árabes dançam], publicado em 2002, por Sayed Kashua, autor israelense de origem muçulmana. Em sua apresentação, a pesquisadora mostra o problema identitário enfrentado pela minoria árabe-israelense, isso é, pelos árabes nascidos em Israel que passam a ter contato com a maioria judaica em seu país natal, por meio da trajetória do protagonista do romance. Verifica-se aqui a idéia de hibridização, de fronteiras, de identidades culturais. Há um encontro não pacífico do protagonista com a sociedade judaica. Ele tenta insistentemente se tornar um judeu; não quer ser um árabe dentro daquela sociedade. O romance mostra a questão de ser árabe-isralense, com um hífen.

A mesa da área de Russo contou com as presenças do Prof. Dr. Mário Ramos Francisco Júnior, da Doutoranda Denise Sales e das Mestrandas Deise de Oliveira e Gabriela Soares da Silva, da Universidade de São Paulo.

O Prof. Dr. Mário Ramos Francisco Júnior apresentou sua pesquisa a respeito das mudanças sociais ocorridas na Rússia, no início do século XX, culminando com a Revolução Socialista de 1917. A maioria dos escritores envolvidos com a vanguarda engajou-se na utopia da reconstrução da nação, na união das diversas repúblicas “satélite”da Rússia, passando pelas utopias da integração nacional e de uma língua comum. A expansão soviética impunha a língua e a cultura russas aos países agregados, mas a poesia lírica de Vladimir Maiakóvski, os épicos modernos de Velimir Khliénbikov, os poemas experimentais de Aleksei Krutchônikh incorporavam a linguagem dos povos do Cáucaso e de outras regiões, revelando o mosaico de povos que compunha a União Soviética. Esses autores foram perseguidos pelo regime de Stálin. Hoje há uma retomada do nacionalismo soviético na literatura russa.

A Mestranda Deise de Oliveira realizou uma explanação sobre o mercado literário na Rússia contemporânea. Com o desmantelamento da União Soviética, o sonho socialista tornou-se ultrapassado. Os russos passaram a ser coadjuvantes dentro do sistema capitalista e não mais o centro de um sistema. A antiga União dos Escritores não mais garantia a publicação para quem escrevia a favor do Partido. Atualmente, a censura ocorre pela necessidade mercadológica das editoras. A pesquisadora menciona a obra Branco sobre o negro, de Ruben Gallego. O autor escreveu suas memórias e hoje vive de literatura. A literatura pós-moderna traz representações de um mundo novo. O mercado editorial não está mais dominado pela ideologia, e é um negócio que tende a ser lucrativo.

A Doutoranda Denise Sales explicou que a literatura pós-colonial russa é diferente da de outros países. Para a pesquisadora Aliona Podlesnykh, “a Rússia colonizou a si mesma, conquistou o seu próprio povo”. Assim, as obras pós-coloniais são aquelas que retratam a conquista dos Urais, com destaque para os escritores Dmitri Narkisovitch, Mamin-Sibiriak, Pavel Bakov e Aleksei Ivanov. Esses autores abordam o geopanorama da cultura russa, a crueldade dos exércitos czaristas, o esmagamento de pequenas etnias.

A Mestranda Gabriela Soares da Silva apresentou uma comunicação a respeito da obra de Fazil Iskander, La constellation du Chevraurochs, destacando questões de identidade (se realmente haveria uma identidade soviética), de linguagem, de utilização do fantástico, do grotesco, mostrando a justaposição entre o periférico e o centro do poder.

A mesa da área de Inglês contou com a presença das Profas. Dras. Sigrid Renaux (UFPR/UNIANDRADE), Mail Marques de Azevedo (UFPR/UNIANDRADE), Giséle Manganelli Fernandes (IBILCE/UNESP) e da Doutoranda Marcela de Araújo Pinto (IBILCE/UNESP).

A Professora Sigrid Renaux analisou a obra Negociando com os mortos, de Margaret Atwood, tomando por base teorias de Linda Hutcheon relativas ao pós-modernismo e ao pós-colonialismo. A pesquisadora partiu de indagações como “para quem se escreve?”, “por que se escreve?”, para mostrar como Atwood faz uma releitura da situação colonial do Canadá, questionando o cânone literário e as noções de centro-margem; afinal, centro é onde a pessoa acontece estar e não um centro hegemônico. Para Sigrid Renaux, Atwood redimensiona o centro do arcabouço cultural europeu e mostra um cruzamento cultural por meio da utilização da intertextualidade.

A Profa. Mail Azevedo apresentou um trabalho em que discutiu o romance Dentes brancos de autoria de Zadie Smith, e o texto “Ayoluwa, a alegria do nosso povo”, de Conceição Evaristo, em uma investigação comparativa, a fim de mostrar como duas escritoras tão diferentes são semelhantes, em essência, na tentativa de valorizar um mundo multicultural. Baseando-se na obra The Empire Writes Back (1989), de Ashcroft, Griffith, Tiffin, e em textos de Said, Spivak e Bhabha, a docente abordou a maneira como questões relativas à diáspora, à perda de identidade, à ancestralidade, ao sujeito colonial e pós-colonial, ao racismo estão presentes nas produções literárias em apreço.

A Doutoranda Marcela de Araújo Pinto apresentou uma discussão sobre o romance Paradise, no qual, a autora Toni Morrison re-contextualiza, no cenário americano, um incidente da história oral brasileira. Nesta obra, Morrison reavalia o conceito de nação e como a questão de estabelecer um lar é importante para as personagens. A Doutoranda também explorou a noção de história compartilhada elaborada pela escritora americana.

A Profa. Giséle Manganelli Fernandes abordou os textos When I Was Puerto Rican: A Memoir, de Esmeralda Santiago, Borderlands/La Frontera: The New Mestiza, de Gloria Anzaldúa e o poema “Madre Sofia”, de Alberto Rios, para debater como esses escritores mostram o que significa viver em uma mistura de culturas, idéias e valores. Santiago, Anzaldúa e Ríos apresentam mundos diferentes em contato, rompendo fronteiras lingüísticas, culturais e. principalmente, no caso de Anzaldúa, de gêneros literários. Tomando por base teorias de Hugo Achugar, Néstor Garcia Canclini e Frederick Luis Aldama, a docente mostrou como a comparação entre as abordagens empreendidas pelos autores em foco revela a luta contra estruturas pré-estabelecidas, colocando suas vozes no contexto da pós-modernidade nos Estados Unidos, em um mundo pós-fronteiras nacionais.

A última mesa de apresentações de trabalhos teve a participação da Professora Doutora Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa, da área de alemão da USP, e dos Professores Doutores Nelson Luis Ramos, Maria Angélica Deângeli e Norma Wimmer, da área de francês do IBILCE/UNESP.

A Professora Celeste Ribeiro de Sousa examinou o romance Wunderwelt. Eine brasilianische Begegnung (Mundo maravilhoso. Um encontro brasileiro), de Hugo Loetscher. Baseando-se em teorias de Homi Bhabha, Gayatri Spivak e Edward Said, a docente analisou o olhar do escritor suíço sobre o Nordeste brasileiro. A comunicação da Professora Celeste questionou o conceito de pós-colonialismo no mundo de idioma alemão, uma vez que isso pode ser considerado neocolonialismo no Brasil.

A Profa. Betina Cunha não pôde comparecer ao evento.

O Professor Nelson Luis Ramos discutiu o projeto literário da canadense Antonine Maillet, escritora acadiana e de língua francesa, debatendo questões sobre a delimitação do espaço da Acádia (originalmente estabelecida em New Brunswick), e sobre a maneira como a autora recupera e reconstrói as tradições, os costumes, a história de seu povo, por meio da utilização de um francês bastante particular. Maillet debate-se com histórias contraditórias e mostra as inúmeras disputas na luta contra os ingleses, tentando desembaraçar o fio da história.

A Professora Maria Angélica Deângeli explanou sua pesquisa a respeito da obra Amour Bilingue, do escritor marroquino Abdelkebir Khatibi, destacando a problemática situação dos falantes de línguas francesa e árabe. Revisitando aspectos como a amizade entre Khatibi e Derrida (que nunca pôde chamar o francês de língua materna), questões referentes à discussão sobre a língua francesa, sobre o bilingüismo, sobre a dupla herança cultural, a docente mostra como Khatibi constrói um discurso que coloca em xeque a história da colonização francesa no Magrebe.

A Professora Norma Wimmer apresentou um trabalho no qual examina a conexão entre as descrições inseridas nos textos da escritora Assia Djebar, romancista argelina, e as pinturas de Delacroix e de Frometin. A autora reavalia as tumultuadas relações com a França na época da colonização e transgride a língua do opressor ao utilizá-la em sua produção literária. A docente mostra como Djebar desvenda sua cultura em oposição à cultura do colonizador e identifica imagens tomadas aos pintores franceses, a fim de repensar a história da Argélia, notadamente, das mulheres argelinas.

No dia 12 de maio, houve uma reunião do Grupo de Trabalho em que se discutiu solicitações de entrada de novos membros no GT, a distribuição do livro Criação e conflito, composto por capítulos escritos por membros do GT bem como a programação para o ENANPOLL 2010.

O Seminário foi bastante produtivo, contribuindo para o fortalecimento do GT e de seu projeto de pesquisa.


XXV ENANPOLL


Durante o XXV ENANPOLL, o grupo deverá discutir o formato da coletânea do biênio, por meio da discussão dos textos apresentados no evento, discutir em conjunto a introdução da coletânea e realizar uma reunião burocrática com vistas à inclusão ou à exclusão de membros, e outros assuntos relativos a futuras ações do GT.

1 A semântica de tal palavra não traz a idéia somente da nacionalidade russa, mas também de um sentido político.

2 Vemos aqui que a idéia bakhtiniana de que as fronteiras são importantes para a constituição de uma dada cultura é verdadeira, pois é a partir dela que o indivíduo é constituído.

3 FIEDOROV W. G. – “Vladimir Makanin” – South Central Review, vol. 12, 3/4, The Johns Hopkins University Press, 1995.


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