Assunto: artes do tinhoso



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Jornal A Tarde, sexta-feira, 29/07/1977

Assunto:


ARTES DO TINHOSO


Não se repete a História, é certo, mas persistem as idéias-forças que determinam os sucessos. E persistem, por vezes, mais demoradamente e com maior vigência do que julgamos. A maneira como os homens e as coletividades reagem aos desafios da História, pela mesma razão, voltam constantemente a manifestar-se e a conduzir os fatos. Inda há pouco tive ocasião de verificar esse fenômeno ao ler nos jornais da época, mais representativos da imprensa do Rio Grande do Sul, para atender a uma solicitação de José Calasans, o noticiário, os editoriais, as interpretações da guerra de Canudos no ano em que terminou aquela carnificina. Esse material tem uma impressionante analogia com os de outras épocas, ao revelar a busca ansiosa, exaltada e fanática de uma explicação para os males da hora em áreas estranhas à realidade. E ao evidenciar a quantos excessos pode conduzir a irracionalidade das paixões. Canudos era vista, nada mais, nada menos, como uma perigosa e formidável conspiração monarquista, armada de abundante, novo e temível potencial bélico de origem estrangeira, a serviço de interesses políticos e partidários diabolicamente coordenados a nível nacional para restaurar a monarquia no Pais. Não se via outra coisa no mesquinho e lastimoso episódio de messianismo religioso e de reação instintiva contra o atraso, a pobreza, o abandono de alguns milhares de sertanejos. Mesmo quando fosse um surto de reação desesperada dos sertões largados à própria sorte, sem escola, sem justiça, sem meios de subsistência, aos olhos dos políticos republicanos e dos militares levados à luta nas caatingas baianas, o movimento de Antônio Conselheiro adquiria o vulto de uma tenebrosa ameaça às instituições estabelecidas pela República. E ai de quem, como o general Savaget, pusesse em dúvida tal interpretação.

No Rio Cirande duas circunstâncias contribuíam, nos anos 90 e tantos do século passado, para ampliar e obscurecer o sentido dos acontecimentos: o teor ideológico das lutas partidárias, próprio da história regional, e a influência do Positivismo sobre as idéias políticas sob o governo e a liderança de Júlio de Castilhos. Não atentavam os homens da época, particularmente os exaltados por certos mitos republicanos, na compreensível perturbação causada pela transição da Monarquia para a República, no impacto da doutrina federalista, na grave crise do encalhamento com a quebra da moeda e a conseqüente inflação, na vitória dos civis com Prudente de Moraes contra os militares e o regimen de força mantido até há pouco por Floriano Peixoto. Esses eram os problemas nacionais que perturbavam os políticos, atordoando-os a ponto de procurarem um bode expiatório no fantasma de um levante monarquista comandado por um “fanático” sertanejo.



Acresce que as idéias e doutrinas e mitos que mais fortemente dominavam a mente dos frustrados líderes republicanos particularmente a de certas facções, não podiam conformar-se com os rumos democráticos, civilistas e liberais que emergiam no momento. O Positivismo ensinava, com o Augusto Comte da fase místico-racionalista - que gerou a Religião da Humanidade e estabeleceu fervorosos núcleos do seu Apostolado no Rio, em Porto Alegre e alguns pontos outros, inclusive os meios militares - ensinava que o regímen político ideal para a França, a pátria e o modelo da nova mística e, por via de conseqüência para os países sob o influxo daquela pregação, seria a Ditadura Republicana em vez do parlamentarismo ou do presidencialismo norte-americano que contrabalançava os atributos do Executivo com os poderes do Legislativo e a vigilância do Judiciário, Segundo a teoria então apregoada pelos sacerdotes da Fé Racional, o Legislativo deveria reduzir-se a vigiar o cumprimento do orçamento nacional e a discutir e aprovar, no prazo de noventa dias, os projetos que lhe enviasse o Executivo. Este deveria precaver-se contra os resíduos da fase considerada metafísica dá inteligência corporificada nas universidades e, nas academias que não houvessem aceito a Filosofia Positiva ou as lições do Catecismo Positivista. O Estado deveria ainda manter e acentuar a separação da Igreja e ocupar na mentalidade popular o Catolicismo pela Religião da Humanidade. Essa era a lição de Comte, divulgada por Miguel Lemos, Teixeira Mendes e alguns outros sacerdotes e apóstolos da nova igreja. Ainda em 1937 o Apostolado, Positivista fazia circular no Brasil um longo texto do chileno Jorge Lagarrigue, com um anexo de Miguel Lemos, em defesa fervorosa da Ditadura Republicana e de outros princípios da militante ortodoxia comteana.

A incapacidade ou a recusa a identificar os verdadeiros motivos da crise nacional induziam os mais exacerbados republicanos e sua imprensa a projetarem sobre es acontecimentos a sombra sinistra de temíveis fantasmas, a nuvem tomada por Juno e os adeptos de outros pontos de vista qualificados e perseguidos como repulsivos e temíveis inimigos da Pátria, numa estranha inépcia a discernir entre o falso e o fantasioso. E sobretudo numa irresponsável inclinação a generalizar as suas suspeitas, como se tudo e todos fossem, indistintamente, manifestações intoleráveis do tinhoso.


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