Assunto: as ameaças do cometa



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Jornal A Tarde, quinta-feira, 22/11/1973

Assunto:


AS AMEAÇAS DO COMETA


Dentro de duas semanas ou pouco menos, estaremos vendo pela madrugada, na linha do horizonte, a leste, o Cometa Kohoutek. No começo de Janeiro a sua cauda deverá estender-se brilhante por um sexto do firmamento, do lado oeste, ao entardecer. A sua luminosidade será muitas vezes maior do que a do cometa Haley que muitos viram em 1910, como eu aos seis anos de idade. Não me lembro quais as impressões que esse aparecimento causou naquela época teria sido para alguns, um anúncio do fim do mundo, um agouro que, evidentemente, não se cumpriu. Para outros foi um espetáculo maravilhoso que não causava medo nem mal-estar. E agora? Pelo que se espera, o astro deslumbrará pelo tamanho, pela extraordinária claridade projetada sobre a terra como um luar fora do comum. Em dado momento, durante um eclipse do sol, o Cometa iluminará o nosso planeta como cinco ou seis luas cheias ao mesmo tempo. Muito melhor que em 1910, será observando, fotografado e analisado por astrônomos e físicos situados na terra e por outros a bordo de aviões estratosféricos e de espaçonaves como essas que têm visitado, várias vezes, a Lua. Captar-se-ão suas ondas elétricas; transmitir-se-á sua imagem pela televisão, tomada acima da nossa espessa atmosfera: medir-se-ão suas radiações, em busca de mais completos conhecimentos da sua composição, dos meteoritos que arrasta, da poeira interestellar e dos gases que atrai na esperança de saber mais alguma coisa da galáxia de que somos parte e do universo que se estende pelo infinito. Além da beleza excepcional com que se apresentará, o Kohoutek oferecer-se-á ao estudo e às indagações avançadas da ciência. Os que vamos admirar o grande espetáculo da Criação só teremos que desejar que os conhecimentos novos, resultantes de observação desse imenso viajante do espaço sejam benéficos para o Homem, quer dizer, utilizados para o bem e não para a agressão, a discórdia, a injustiça.

Outros estarão temerosos de que o Cometa seja um “aviso” ou um prenúncio de males e calamidades, tanto mais que no fim de dezembro será visto ao mesmo tempo que Mercúrio e o Sol em eclipse (parcial em nosso hemisfério e total no hemisfério norte). Essa conjunção de astros é um mau presságio, segundo velhas crendices astrológicas. Pio Baroja, em famoso livro, nos fala dos terrores e do pânico dos povos antigos e dos medievos ante os fenômenos celestes, como os eclipses, os cometas, as chuvas de estrelas, as conjunções de astros: um largo período da história da humanidade foi perturbado por duendes, espíritos, bruxas, miasmas, eflúvios que se supunham desencadeados e soltos por ocasião daquelas ocorrências, além dos anjos vingadores e das divindades primitivas. Ao próprio Deus se atribuíram acessos de raiva naquelas ocasiões! Uma conspiração de “misteriosas forças” se abateria sobre os mortais, quando os astros modificam sua aparência. Essas abusões misturavam-se com velhíssimos conhecimentos da natureza que os astrônomos e matemáticos - os mais antigos cientistas - já ensinavam e de que se serviam para prever diversos daqueles fenômenos. Desde fins do século 18, começaram a esclarecer-se importantes questões relativas ao nosso sistema solar e ao mundo das galáxias, até desenvolver-se, nos dias de hoje, a astronáutica e tornar-se possível a comunicação com satélites artificiais lançados a fabulosas distâncias da terra, em busca de descobertas na órbita de outros planetas dos quais pouco se sabe ainda. Por tais processos, a astronomia visual vai sendo substituída ou, pelo menos, complementada e enriquecida pelas técnicas astrofísicas. Em conseqüência, seria de esperar que acontecimentos como eclipses e cometas fossem interpretados por toda a gente como normais e naturais. Num tempo de comunicações tão amplas, de difusão imediata de todas as novas descobertas e achados da ciência, não haveria lugar para certas superstições. Entretanto, não é isso o que ocorre, o Cometa Kohoutek é aguardado, por muitos, com ansiedade e temor, como algo que põe em risco a humanidade e a natureza. Esse um dos efeitos da onda de misticismo primitivo, de credulidade ingênua, de medos infantis, de abusões e pavores que ultimamente se espalhou pelo mundo atingindo de modo impressionante o nosso país. E que explica o sucesso, mesmo entre gente que, por seu nível de escolaridade, deveria ter uma noção objetiva dos fatos, - de quiromantes, de intérpretes de horóscopos, de adivinhos, de mágicos, de curadores e até de cirurgiões “espirituais”, de recebedores de mensagens “do Além” e de quantas crendices e superstições alarmam os predispostos aos chamados “medos cósmicos”. Essa, é uma das contradições dos tempos presentes: enquanto se acrescem os conhecimentos científicos e o domínio técnico do ambiente, o progresso moral é mínimo como se evidencia nas guerras, na violência, no egoísmo coletivo, nas restrições injustas da liberdade e dos direitos humanos e, por acréscimo, na interpretação de tudo quanto não pareça usual - as doenças mentais, as moléstias ainda incuráveis, acidentes e mortes, meteoros, abalos sísmicos, eclipses, cometas... O curioso é que, não apenas as populações tribais e as gentes simples, analfabetas, são atingidas por tais fábulas e ilusões, porém muitos que se têm como instruídos, esclarecidos, “pra frente”... Nada menos que a persistência e a inércia de arcaicos modos de pensar e sentir, que revivem por um incrível processo de recuo e regressão. Muito se acusou a Igreja de manter essas superstições ou de as tolerar de mistura com seus ensinamentos. Hoje, ao contrário, se faz à Igreja outra acusação, a de ter posto de lado os elementos místicos da sua doutrina. Realmente, o que parece ocorrer é que a indiferença e as dúvidas levantadas contra o Cristianismo, particularmente contra o Catolicismo, trouxeram os homens a uma crise avassaladora da fé e a uma baralhada confusão quanta aos verdadeiros dogmas e à ascése cristã que tantos desprezam sem conhecer conscienciosamente. Daí, procurarem os homens, para explicação de seus problemas, para respostas a suas questões transcendentes, velhas e desgastadas teoria e doutrinas misteriosas, ocultas, elementares, primitivas. Se é verdade que a ciência está longe de explicar muitos sumosos e muitos fenômenos, também é certo que há inúmeros prodígios que não desvendamos mas cujos enigmas não se clareiam nem aquelas abusões. Os limites entre o natural e o sobrenatural, entre o mistério e o temporal são os que a Revelação traçou e aos quais a fé esclarecida nos ajusta.


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