Assunto: bermudas e japonas



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Jornal A Tarde, quarta-feira, 04/12/1968

Assunto:


BERMUDAS E JAPONAS


Quando se fizer uma história ou uma sociologia da moda baiana, desenvolvendo cientificamente sugestões como as de Gilberto Freire no livro Ordem e Progresso ou como as de Vanderlei de Pinho em Salões e Damas do Segundo Império, há de registrar-se o episódio das bermudas: em fins de 1968 um estudante de Jornalismo lançou o uso daquelas calças curtas nas aulas da Universidade. As bermudas seriam uma exigência do clima e do conforto, além de uma forma de competição com as mini-saias. Num estudo daquele gênero, que não se deve considerar uma esquisitice ou uma preocupação fútil mas a avaliação de sinais de mudança ou de resistências à mudança nas idéias, nos valores, nos costumes, outros episódios marcariam o ritmo das inovações sociais. Agora mesmo, não é por acaso que os padres e frades passam rapidamente das anacrônicas sotainas pretas ou marrons para o clergyman e logo a seguir para a camisa-esporte e a gravata civil, de tal maneira que em determinadas circunstâncias já não se pode dizer que alguém “largou a batina”... É um dos sinais dos tempos, essa mudança do hábito eclesiástico, um resultado do oportuno aggiornamento da Igreja.

A substituição da roupa masculina de pano grosso e escuro, de casacos longos, de chapéus altos, que chamaram a atenção de calorentos visitantes estrangeiros por ternos e duques brancos e icigados, de linho inglês, por chapéus de palha ou “do Chile”, por sapatos em lugar de botinas, não se fez sem produzir espanto e escândalo, aí pelos anos 20 deste século. Essa alteração foi gradual e discreta, apesar de tudo: antes das roupas brancas, - o fraque e a sobrecasaca cederam lugar aos paletós “saco” e aos jaquetões abotoados dos profissionais liberais e dos doutores, e aos casacos pretos com calças brancas dos comerciantes. Essas modificações vinham com a modernização e o progresso nos transportes, nas comunicações, nos tratados de ruas, na iluminação, nas atividades econômicas, no ensino superior que marcaram o fim do século 19 e os começos do 20, período de cuja vida quotidiana elabora uma história, cheia de interesse, o historiador José Calasans. Faz mais ou menos que quarerenta anos que os homens mais sizudos da nossa alta sociedade saíam à rua com as primeiras roupas brancas, engomadas a capricho, para irem aos seus consultórios, escritórios e casas de negócio e até à Câmara e ao Senado estaduais. Conta Isaías Alves, em um dos seus livros, que o venerando Prof. Cassiano Gomes, mestre severo do Português no Ginásio da Bahia, ao sair de casa pela primeira vez, de branco, sentia-se envergonhado como se estivesse despido. Na verdade ainda não perdera o costume, que o tornara conhecido, de usar redingote e chapéu alto do tipo do tuyau-de-poêle em feltro. Pouco após eram dois jovens da sociedade que, mantendo o paletó, punham de parte a gravata e o chapéu, uma curiosa esquisitice, uma antecipação para o meio, que faziam os simpatizados irmãos Tôrres, admirados pelos espetaculares balões que soltavam por São João e pelas fantasias com que se, apresentavam, formando cordão, pelo Carnaval. Pegaram as roupas claras e mais ou menos leves, a cabeça ao vento e ao sol, a camisa-esporte nos dias de folga, que também se iam tornando moda noutras cidades e países. Mas a Bahia parece continuar mais formal em matéria, de vestuário masculino que outras grandes cidades brasileiras, nas quais, como Porto Alegre, a camisa com gola aberta nos dias de calor é quotidiana para muita gente “de respeito”.



A bermuda, por muito funcional que seja num clima como o nosso, como a xilapa norte-africana e árabe e o alabá nigeriano, encontra muitos óbices, a começar pelas de ordem estética: as nodosas batatas de perna, os disformes pilões peludos, os curvos gambitos glabros ou os tortos palitos lisos... que os moços terão de exibir as colegas de calças justas e minisaias. E os preconceitos contra estilos colonialistas, que os ingleses e outros europeus, introduziram ali e acolá: calças curtas que tomaram o nome das ilhas Bermudas, mangas acima dos cotovelos, chapéus brancos, de cortiça forrada de pano, “coloniais”, além de que é difícil interferir em certos costumes, alterando sensivelmente os moldes tradicionais. Um dos que estudaram a questão, analisando minudentemente o que ocorreu - em trezentos anos de moda feminina européia, o antropólogo A. Kroeber, concluiu que as inovações em modas parecem afetar apenas algumas tendências de um processo que se desenvolve a longo prazo sob a influência de muitos fatores sociais, estéticos, políticos, psicológicos. Isto foi, por si, um argumento daquele investigador para suas teorias sobre o caráter superorgânico da cultura, que outros como Georg Simmen, David Bidney, Edmund Leach e agora LevyStrauss colocaram também no centro de suas preocupações com a explicação dos comportamentos humanos. De qualquer modo é notório que o nosso vestuário masculino não se modificou substancialmente desde meados do século passado. Por outro lado, o uso de camisa esporte sem paletó em determinados momentos e roupa tradicional noutras ocasiões, segue também tendências mais gerais. Os próprios estilos de protesto, espécie de antimodas como as dos hippies, não conseguem libertar-se nem da condição de moda, de padrão convencional em momentos e grupos particulares, nem da influência de estilos já conhecidos: é o caso das belas japonas da era vitoriana e das barbas e suíças do mesmo período da imperial Inglaterra, que esses esquisitos exilados da civilização industrial misturaram com as extravagâncias que os Beatles vendiam em suas butiques de Londres. A originalidade no caso das bermudas é relativa, pois coincide, na mesma mocidade, com aquelas japonas hibernais e com grossos e espessos blusões, por vezes acolchoados, que são símbolos e utensílios de civilizações que não raro se detestam... Nem os adeptos das coisas da “tropicália” dispensam essas alfaias!


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