Assunto: de rainhas e outras pessoas



Baixar 9.49 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho9.49 Kb.
Jornal A Tarde, segunda-feira, 08/09/1969

Assunto:


DE RAINHAS E OUTRAS PESSOAS


As rainhas de quase todos os tempos, as lendárias rainhas de Babá e do Egito, as dos primeiros tempos da Idade moderna até às do século passado, mal puderam ser julgadas por suas personalidades, As intrigas das cortes, os interesses políticos, as lutas religiosas afogaram suas pessoas, não permitindo que estas fossem conhecidas e avaliadas por seus povos e muito menos pela famosa “voz da História”, a qual o nosso Pedro II confiou seu próprio julgamento. A Rainha Victória teve sorte mais favorável, talvez porque o seu papel histórico, por isto mesmo que foi ao mesmo tempo social e político, projetou juntas a grande mulher, a esposa sentimental, a mentora moral de uma época e a soberana de um Império em que o Sol nunca se punha! Coisa parecida, ainda que noutro cenário humano e institucional, parece acontecer à sua neta que agora habita Buckingham. Uma notícia destes dias lembra-me um juízo que da atual rainha Elisabeth II ouvi em Londres. Informam as agências que faleceu na capital da Commenwealth, - sombra do Império Britânico, a condessa de Seafield, considerada “a mulher mais rica da Grã Bretanha depois da Rainha”. Confirmando outras impressões de Elisabeth II, que os baianos conheceram em sua nobreza e fidalguia disse-me o ano atrasado um pequeno funcionário da Prefeitura de Londres: “Nós, ingleses, gostamos da Rainha porque ela, sendo a mulher mais rica da Inglaterra, não tem uma vida de ostentação”, o que Mr. Dobson queria significar era que a soberana é um modelo da mulher inglesa e britânica. Isto é da Inglaterra e de todas as terras em que os ingleses se multiplicam em suas tradições e em sua cultura, como foram sua avó e sua mãe, as duas rainhas consortes, muito mais que uma mandatária, uma governante, uma detentora de certo poder, colocada acima do seu povo. Isto permite à atual rainha, - herdeira do nome de uma ancestral que ficou envolvido pelo despotismo e pela vaidade, ser um exemplo de dignidade que não teme o contato com sua gente nem necessita esconder aspecto algum de sua vida, aos outros povos. Uma vez por outra, sem qualquer aparato de pompa ou de medidas ostensivas de segurança, ela surge na City para fazer compras ou para tomar parte num ato público, ao mesmo tempo que é alvo do entusiasmo dos seus súditos, muitos dos quais são confessos anti-aristocráticos, quando personifica a Nação em certas cerimônias. Lembro-me de que uma tarde de setembro, em 1967, voltava de um subúrbio de Londres na companhia de um universitário inglês, professor de história da América Latina na Academia Naval de Greenwich, o Dr. A. Eaglestone, que vivera quatro anos no Brasil como representante do Conselho Britânico, quando avistamos ao lado do nosso carro, entre os milhares de veículos que se comprimiam na estrada, um automóvel de modelo antigo, preto, com um emblema esculpido sobre a capota, no qual se viam diversas senhoras de vestidos claros. E aquele amigo do Brasil, de quem recebi gentilezas inexcedíveis explicou-me que ali viajava, pelo que lhe parecia, alguém da corte, democraticamente sujeitando-se aos sinais do tráfico e às advertências dos policiais, passando entre o povo sem despertar maior atenção. E não se pode dizer que a Monarquia e a Coroa tenham perdido sua função entre os britânicos. Hão ainda os símbolos e os catalisadores das tradições, tão ciosamente guardadas em meio a tudo quanto há de mais moderno e de mais liberal, de um povo que tem sabido ser um paradigma dos ideais de democracia, de liberdade de idéias, de respeito à pessoa, de senso de medida e de humour no auge do poder como em momentos das mais graves crises.

Assisti em junho de 1960, como professar visitante, a soleníssima formatura, o commenceme, isto é o passo para a vida profissional de dois mil e tantos bacharéis e de oitenta doutores da Universidade de Wisconsin, uma das maiores universidade norte-americanas. A cerimônia era presidida por uma antiga aluna, a Dra. Golda Meir, então Ministro do Exterior de Israel, que é hoje um dos chefes de Estado mais fortes de nossos dias, presidindo, em meio a uma guerra externa, um governo parlamentar, democrático e republicano. Uma solenidade impressionante, em pleno dia, num grande estádio ocupado apenas em parte pela massa de diplomandos e suas famílias, enquanto as “faculdades” ou congregações, as autoridades e os homenageados dispunham-se em cadeirais armados no gramado, respaldados por um baldaquim com as cores da Universidade. Falaram poucos oradores - o Reitor, o Governador do Estado que estadual é aquela Universidade, e poucos mais. Pronunciado o juramento comum, os novos diplomados, em sinal de mudança de sua condição, sacudiram da direita para a esquerda o pendão franjado que caía, em cores simbólicas, se suas borlas negras. Somente os doutores desfilaram, ladeados por seus paraninfos pessoais ante as congregações e receberam individualmente seus diplomas das mãos da já famosa antiga aluna que presidia a reunião. A entrada e a saída do estádio tiveram o caráter das imponentes procissões acadêmicas em que, como nas Universidades européias e norte-americanas, cada professor ostenta a beca da alma maior de seu doutoramento, borlas e capeles os mais variados como os que vi na abertura dos cursos de 1953 na Universidade Católica, em Washington, e noutras formaturas,



Mario Paraguassú, que outro dia foi sacrificado na desordem revoltante do tráfego, foi um dos primeiros no Brasil a empregarem o linguajar do vulgo, especialmente o dialeto caipira, na imprensa noticiosa, humorística e de critica de costumes. A sua Fôia de Rocêro não foi escrita em português errado mas num dialeto semelhante ao que o Barão de Itararé utilizava aproximadamente à mesma época na famosa A Manha e que o último e o já esquecido Juó Bananiéri criou, em São Paulo, para imitar o nosso Zé Povo e vários tipos de estrangeiros radicados no Brasil, o luso, o italiano, o alemão, o árabe... Não importam as diferenças de estilo, de cultura de interesse entre os que assim escreveram, nenhum superando a Catulo Cearense; aquela literatura tem um inegável interesse para o dialetologista e o lingüista, como para o observador dos costumes e das reações populares a uma variedade imensa de acontecimentos.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal