Assunto: ensaístas baianos em 82



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Jornal A Tarde, sexta-feira, 29/01/1982

Assunto:


ENSAÍSTAS BAIANOS EM 82

Registrei outro dia o feliz começo do ano cultural de 82, louvando os que ganharam títulos de reconhecimento da Bahia por suas contribuições. Hoje me volto para outra ordem de realizações que marcam também excelente começo, o lançamento de obras intelectuais de valor. A um cronista ou a um critico literário caberia um balanço da produção poética e de ficção que os últimos tempos nos têm proporcionado e que por seu vulto e suas revelações mereceria destaque. Ocupo-me, porém, de alguns ensaístas, tomando os derradeiros meses de 81 e os dias com que 82 se inicia.

Datado do ano findo e agora começando a melhor distribuir-se foram os dois volumes de Luís Henrique Dias Tavares sobre Manoel Vitorino: com essa obra enriqueceu-se, não há exagero algum em dizê-lo, o conjunto que o Senado tem editado sobre estadistas brasileiros, um de cujos últimos foi o baiano Miguel Calmon. Inestimável serviço acaba de prestar o autor, um comedido porque seguro e autorizado pesquisador, signatário ainda de poucos, mas excelentes estudos e trabalhador pertinaz, agora mesmo absorto em dificultosa investigação, no país, na Inglaterra, sobre a escravatura. A figura já prestigiosa de Manoel Vitorino, como homem publico, como vigoroso jornalista, como orador, como pessoa, surge nítida e inconfundível tanto no perfil que lhe traça o conceituado mestre da história baiana, quanto na numerosa, e por assim dizer inédita documentação que recolheu e ordenou para proveito dos historiadores da política e das idéias. Luís Viana Filho, que lhe cometeu o empreendimento - um dos ensaístas que surpreenderam Gilberto Freyre quando escreveu O Negro na Bahia nos idos de 1945 - alcançou plenamente o que esperava.

Tivemos outro dia mais u'a mostra da maestria e da assombrosa fecundidade intelectual de Pedro Calmon, quando lançou sua monografia sobre o baiano Franklin Dória. Essa edição da Biblioteca do Exército não apenas consagra seu fundador, como oferece a nosso mundo culto um modelo de ensaio biográfico e político de lavra incomum, além de levado a efeito com diligência de jovem que continua o consagrado mestre em seu claro espírito. Algum tempo antes saudara a Bahia a oportuna iniciativa de Ruy Santos, dando edição, como presidente do Conselho Estadual de Cultura, à coletânea de estudos sobre Otávio Mangabeira, de autores que escolheu com muita felicidade e que se desincumbiram com igual êxito.

Faz poucos dias deu-nos Pierre Verger suas Noticias da Bahia - 1850, devidas à baiana Editora Corrupio, que vem estreando muito bem. Verger é nome definitivamente feito, a princípio corno fotografo de extraordinária sensibilidade e técnica e etnólogo de conceito igualmente internacional com seus estados - sempre focalizando muito a Bahia - sobre cultos africanos que aqui persistem fiéis a suas matrizes e obras outras em que o artista patenteia o pesquisador, o observador, o intérprete da religiosidade baiana que universidades de vários países lhe reconhecem. O livro que dedicou agora a história, à cultura, ao caráter da nossa terra e sobretudo da nossa gente é de outro gênero: dir-se-à uma crônica histórica de sabor muito particular no sublinhar o que somos e temos sido e em revelar muito do que outros europeus como visitantes e principalmente como representantes diplomáticos de seus países, viram e sentiram das nossas coisas ao correr da primeira metade do século passado e suas imediações. Os que ainda o magistral ensaio sobre o comércio do tabaco entre a Bahia e o golfo do Benin, com que conquistou o doutorado em História na Sorbonne, admirar-se-ão do domínio que tem esse baiano pelo coração das técnicas historiográficas, da utilização de documentos que jaziam em reservados arquivos oficiais, do arranjo dos temas, dos episódios, das personalidades notáveis, curiosas ou estranhas E, mais uma vez, Luís Viana quem acerta em apresentar esse autor. Não é sem razão que se aguarda com impaciência a tradução de Flux et Reflux, de tanta significação para a Bahia, como a que sugiro, de uma coletânea de seus artigos sobre o candomblé, publicados em revistas científicas européias e africanas.



Em matéria de tradução também urge que apareça a de Etre Esclave au Brésil, o livro em que Kátia Mattoso mais uma vez - autora, por sinal, de autorizado estudo de nossa Cidade do Salvador e seu mercado no século XIX - ensina e analisa, com graça literária que emparelha com riqueza de documentação e originalidade de abordagem, o que foi o regime servil entre nós desde o século XVI. A obra sobre nossa capital foi, acertadamente, editada em convênio de nossa Prefeitura Municipal com a Ed. Hucitec, de São Paulo. Valho-me da ocasião para saudar a nova edição, da nossa Universidade, de Desenvolvimento, Planejamento e Expansão Demográfica, da pena autorizada e infatigável de Pinto de Aguiar, outro mestre da economia, da sociologia, da história - principalmente da nossa terra - é editor que, apoiado por Edgard Santos - prestou serviços inestimáveis à cultura, decênios atrás, lançando autores baianos e séries de clássicos indispensáveis aos estudantes e aos investigadores. Ilhéus celebrou recentemente seu centenário, entre outras iniciativas, com a Memória que lhe dedicou Fernando Sales, numa combinação de ensaio e crônica, em que ao sentimental ilheense associou-se o ensaísta arguto que reuniu o essencial da documentação histórica da amada comarca de São Jorge, exaltada na inspirada poética da sua Declaração de Bem-Querer.

Uma resenha do realizado na Bahia em 81 certamente faria justiça a diversos, outros autores. Este registro, incompleto embora, indica bastante do que se está fazendo e do muito que se espera para o ano corrente.


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