Assunto: erros "DA" história E erros "DE" história



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Jornal A Tarde, quarta-feira, 11/12/1968

Assunto:


ERROS “DA” HISTÓRIA E ERROS “DE” HISTÓRIA


Tudo seria muito simples se a História pudesse fixar de maneira indiscutível as datas, os lugares, os nomes, os acontecimentos numa espécie de catálogo ou almanaque sem enganos. Sendo uma ciência, ainda que em sentido particular, a História é eminentemente especulativa e interpretativa. São sempre uma questão aberta o significado a importância, o relevo que atribui aos fatos e às pessoas. As ocorrências que se registram são, de certo modo, um absoluto que entretanto está isento de avaliações e interpretações diferentes; mas a posição no amplo quadro dos sucessos, as relações com outros eventos, a inserção em fluxos e correntes de tendências, as causações e motivos, a força com que se projetam estão permanentemente abertos a diversidades de apreciação que se apóiam em métodos, em doutrinas e em teorias as mais distinta. Isto é verdadeiramente a História. Apesar de tudo pode-se falar em erros “da” História, as omissões, as injustiças, os exageros que a paixão, os interesses, as conveniências introduzem no registro dos momentos e dos períodos da existência humana. E há os erros “de” história. - as inexatidões e inadvertências em torno do conhecido e estabelecido ou ao menos, do aceito. Referindo-se ao Brasil, Assis Cintra escreveu um conhecido livro sobre, “Erros da história”. Quando se procurava fixar a data provável da fundação da nossa Cidade estiveram em causa difíceis questões, derivadas da escassez de documentação e das divergentes estimativas de indícios que em memorável controvérsia marcaram o pensamento de Pedro Calmon, Frederico Edelweiss, Edgar C. Falcão e outros. A “revolução dos alfaiates” é outro episódio da vida baiana que tem sido avaliado de diferentes pontos de vista: a natureza social ou política do movimento e a inspiração ideológica dos conspiradores de 1798, apesar da documentação policial dos autos judiciais, das listas de livros e papéis encontrados nas casas dos acusados, ainda hoje inspiram interpretações como as que em breve publicará a competente investigadora Katia Matoso, enriquecendo a literatura historiográfica iniciada por Brás do Amaral e desenvolvida pela acuidade de Afonso Rui e Luis Henrique Dias Tavares. Mesmo nos limites de nossa província não faltariam outros temas polêmicos ou passíveis de debate de revisão de exame mais detido.

Sem colocar o caso em nenhuma das rubricas já mencionadas, as comemorações do quinto centenário de nascimento de Pedro Álvares Cabral, o capitão de esquadra que não foi almirante mas que abriu à história um verdadeiro continente, - aquelas celebrações oportunas e merecidas, feitas com solene dignidade oficial em terras da Bahia ocorreram sobre discretas discrepâncias de interpretação dos sucessos de 1500. E não vale a pena qualquer ruído em torno da questão que nada tem a ver propriamente nem com a glória do descobridor nem com os destinos do País imenso e imortal que a Portugal, - pioneiro das grandes descobertas e conquistas coube fazer como resultado da ciência de seus sabeios, da arte e da coragem de seus navegadores, da clarividência de seus soberanos. Não é absolutamente desprezível o parecer erudito dos que reivindicam para a Baía Cabrália o privilégio das comemorações, apesar do eminente papel histórico da enseada e da cidade de Porto Seguro. A ancoragem inicial, a primeira missa, a posse da terra, oficial e perpetuada na carta El Rei, e o cantamento do padrão naquela baía são razões que historiadores de autoridade invocam em favor de S. Cruz Cabrália, lugar da história do Brasil e da Bahia que é parte do chão e das glórias de Porto Seguro, outro sítio consagrado pelo próprio Cabral na descoberta e criação do Brasil. A discordância entre, o fato histórico e o programa comemorativo são a bem dizer, uma vicissitude da história. Acontece também, por ironia, que os índios patachó que há dias assistiam à missa memorial de Pedro Álvares, não descendem dos tupiniquins que saudaram os portugueses, afirma o etnólogo V. Calderón nem têm, lembra mestre Pedro Calmon, a formosura e a esplêndida robustez dos donos da terra que Caminha lhes gabou na carta famosa.



Outra coisa são e muito menos perdoáveis certas erros “de” história, que ocorrem aqui e ali por insciência ou descuido mas que não deixam de merecer reparo e emenda. É o que se verifica em belo folheto ilustrado, sob o título de “Bahia hoje” em que a Petrobrás expondo suas realizações seu progresso, sua contribuição para a economia regional e até defendendo, com muita oportunidade, a intocabilidade que todos a brasileiros lhe atribuem, - exalta igualmente o nosso estado e em particular a Cidade do Salvador. A rigor a história da descoberta e da exploração do petróleo brasileiro não é contada com suficiente clareza. Não parece justa os pioneiros baianos a afirmação, feita no folheto de que “Salvador, a capital, é uma das primeiras cidades: brasileiras e foi nas suas proximidades - em Lobato - que jorrou petróleo do primeiro poço brasileiro”. Milagre foi, por certo, haver jorrado ali o precioso e disputado óleo mas milagre da perspicácia e da tenacidade heróica de homens cujo nome, Oscar Cordeiro e Manoel Ignácio Bastos, não há como omitir, para não falar, em outros que antes haviam, como Teodoro Sampaio, apontado evidências cientificas da esplêndida realidade. O lindo prospecto, que valoriza cenas e figuras baianas e mostra, em mapa da região, a extensão dos campos em exploração, dedica espaço a uma cronologia de “467 anos de história” do Brasil e da Bahia. E começa, talvez por um erro tipográfico que seria suficiente para reter a distribuição do belo instrumento de promoção da nossa terra, por atribuir ao ano de 1501 o “primeiro contacto dos portugueses com as terras da Bahia”. O autor das efemérides esqueceu que o primeiro contacto dos descobridores em 1500, foi justamente com terras da Bahia – aquelas das comemorações de outro dia. O ano de 1501, esse sim, teria sido o do descobrimento da grande enseada a que se deu o nome de Todos os Santos porque achada ou penetrada a 1º de novembro daquele ano, por Américo Vespucci. Esse achamento, todavia, é matéria de dúvidas e conjeturas, que aqui não têm lugar. Outro equivoco, menos grave, é fixar em 1835 a ocorrência da “sabinada”, que na verdade se verificou dois anos depois. Em 35 o que ocorreu foi a insurreição dos escravos malês, cujos documentos “subversivos”, escritos em árabe, acabam de ser traduzidos, no Centro de Estudos Afro-Orientais da U. Federal da Bahia, pelo conceituado islamólogo Rolf Reichert, não passando de trechos do Alcorão, a Bíblia dos muçulmanos. Ainda uma nota: “Quando a Petrobrás foi instalada em 1954, recebeu, na Bahia, algumas jazidas de petróleo e a Refinaria Landulfo Alves, em Mataripe, que tinha uma capacidade de operar 5.000 barris diários”. Também esse prodígio não foi obra do acaso: o Conselho Nacional de Petróleo tem a seu crédito o trabalho desenvolvido na Bahia desde cerca de 1939 fazendo prospeção, perfurando poços, extraindo óleo e gás, instalando e operando a grande refinaria de Mataripe. Erros “de” história...


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