Assunto: murais e muralistas da cidade



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Jornal A Tarde, quarta-feira, 29/10/1969

Assunto:


MURAIS E MURALISTAS DA CIDADE


Começou na Bahia, há uns vinte e cinco anos, uma nova era para as artes plásticas, a era do modernismo que sucedia a um período que nos legou nomes extraordinários como Lopes Rodrigues, Presciliano, Valença Mendonça. A obra completa de Valença, que por sinal ainda continua pintando com a sua sensibilidade magnífica, dentro em pouso será exposta, numa iniciativa do Conselho Estadual de Cultura com a cooperação da U. F. da Bahia. Mas não havia como resistir às novas tendências. Favoreciam àquele movimento de atualização a mudança de atitudes e expectativas com os primeiros passos para superar o atraso e a rotina pelo planejamento econômico, a criação da Universidade com um forte espírito inovador, a quebra do isolamento acadêmico e cultural da Cidade, o clima político instaurado por uma nova fase democrática. E, acima de tudo a influência algo retardada do próprio modernismo que vinha do Sul com os poetas, os pintores, os escritores dos anos 20. Soprou então uma espécie de New Deal local, estimulando as artes, favorecendo a fixação de bons artistas e estimulando os novos. Nessa aurora foram despontando futuros expoentes nacionais e internacionais da escultura, da pintura, da gravura; vieram depois a crítica sisuda de José Valadares, os prêmios e os júris do Salão Baiano de Artes, o interesse de colecionadores, a ressonância na imprensa... Enfim, uma história que muitos outros contarão melhor como agora promete Carlos Eduardo, e para a qual já têm contribuído Carlos Valadares, Odorico Tavares, Godofredo Filho e outros. Um dos desenvolvimentos que as artes plásticas experimentaram em nossa Cidade, a partir de então, foi a arte mural, com a obra de Carlos Bastos no “Anjo Azul”, na companhia da madona de ferro da autoria de Mário Cravo, com a comissão dada por Afonso Teixeira a Mário, Jenner e Caribé para pintarem três grandes murais na Escola Parque, finalmente com a postura municipal obrigando a inclusão de murais no saguão dos novos edifícios de apartamentos e de escritórios. Tudo isto concorreu para uma série de empreendimentos e experiências em que certo número de artistas veio a pôr a marca de seu talento e inventiva. Alguns prédios comerciais outros residenciais foram sendo enriquecidos com uma variedade de obras que são ao mesmo tempo de expressão estética de virtuosidade artesanal de documentarão, a evocarem tradições e episódios ou fases da história regional, a retratarem tipos a heróis, a fixarem aspectos da natureza e da fisionomia arquitetônica da Cidade, a simbolizarem esperanças de progresso.

Não tendo embora o caráter revolucionário que assumiu no México, essa arte exerce uma função social e política em seus motivos e temas em seu incitamento das energias da nossa gente, em seus anúncios do futuro. Aí estão umas duas dezenas de obras notáveis em vestíbulos, em corredores, em salões e escritórios e até em fachadas de edifícios. Os bancos souberam, melhor que outras instituições e dando exemplo a ser seguido pelos poderes públicos, aproveitar-se desse gênero e comissionar muralistas para embelezarem suas sedes e oferecerem ao povo a contemplação de quadros que são das coisas de que a Bahia mais se deve orgulhar. O Banco da Bahia, a par de sua magnífica tela de Portinari fixando monumentalmente o desembarque do Príncipe Regente na Bahia e de sua coleção de Pancetti, tem sido o grande mecenas no particular. Em sua preciosa coleção destaca-se o largo painel em madeira esculpida, com aplicações de metal, conchas e outros materiais, que fez Caribé para representar e mesmo criar praticamente quase trinta diferentes orixás dos candomblés baianos em toda sua simbologia mítica e parafernália litúrgica, transformando a agência daquele estabelecimento em São Pedro numa galeria ao mesmo tempo de arte e etnografia. Aliás, está tardando o indispensável e condigno catálogo daquelas impressionantes figuras. Outros autores entre os maiores plásticos atuais da Bahia tem suas assinaturas em murais espalhados pela Cidade: Carlo Bastos, Mário Cravo, Jenner Augusto, Genaro com um dos mais antigos no Hotel da Bahia, Juarez, Hansen, Lênio com um delicioso conjunto folclórico na E. Rodoviária de Feira de Santana... Essas obras são dignas de ser vistas e admiradas por seus temas, sua fatura variada, seus materiais e pela originalidade de suas composições. Elas devem ser incluídas nos roteiros culturais e turísticos e nos programas de educação artística, como se faz com as igrejas barrocas, as coleções dos museus, a arquitetura moderna, a maravilhosa paisagem local. Não apenas mostradas, mas fazendo parte de catálogos das riquezas culturais baianas.



E quando uma dessas peças esteja ameaçada de estrago ou de desaparecimento, como acontece agora com o Navio negreiro, executado por Caribé no saguão do Edif. Castro Alves, na rua Carlos Gomes - Pictórica de Debret e Rugendas, será dever dos proprietários e síndicos, do órgãos da administração pública, dos artistas, da imprensa juntaram-se num esforço por preservá-lo. E esse não há de ser o único caso a merecer essa atenção, como trabalho feito para a apreciação do povo e testemunho do nosso adiantamento cultural.


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