Assunto: um catálogo de biblioteca



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Jornal A Tarde, sexta-feira, 19/09/1975

Assunto:


UM CATÁLOGO DE BIBLIOTECA


Estão sendo distribuídos desde há poucas semanas dois documentos que esclarecem e justificam decisões muito lucidamente tomadas, nos dois últimos anos, pela Universidade Federal da Bahia: o Catálogo da Biblioteca Frederico Edelweiss e o Regimento Interno do Centro de Estudos Baianos. A aquisição daquela biblioteca tem sido explicada pela excepcional qualidade de seu acervo, pelo seu caráter especializado e pelo número de seus volumes. O grande público, as autoridades de outras áreas, os estudantes e mesmo largos setores da Universidade - não tendo conhecimento direto da biblioteca - dificilmente fariam idéia da importância daquele ato e do interesse do mesmo para a própria U.F.Ba., mesmo sabendo da fama nacional e internacional e dos serviços já prestados à pesquisa pela coleção de livros, de revistas, de mapas e outros documentos. O Centro de Estudos Baianos, que tem esse material como seu patrimônio central, tomou a iniciativa de publicar um catálogo que é ao mesmo tempo um guia para os estudiosos e uma inicial prestação de contas da transação pela qual o acervo foi formalmente tornado um bem público para a Bahia e para quantos o saibam aproveitar. Era já de fato um bem público pela circunstância de que, dada a sua excepcional especialização, a biblioteca e a casa do velho mestre vinham sendo, por decênios, um autêntico instituto de pesquisa historiográfica e sociológica, dada a solicitude com que o seu erudito proprietário e criador facilitava ali a consulta, a busca e o exame dos seus livros sob sua orientação. O catálogo dá conta cabal, neste que é apenas seu 1º volume, da opulência de obras fundamentais e de referência reunidas durante meio século pelo esclarecido pesquisador e bibliófilo. Quis a Profa. Consuelo P. Sena, diretora do Centro de Estudos Baianos, abrir essa publicação, que é um meritório trabalho técnico e gráfico das bibliotecárias do órgão e da Gráfica Universitária, dirigida pelo Prof. Valentin Calderón, com uma breve nota biográfica e, muito oportunamente, com a bibliografia do Prof. Edelweiss. Por muito conceituado e conhecido que seja pela sua competência, pelo rigor dos seus estudos, pela segurança dos seus pareceres e pela clarividência com que tem orientado a tantos dos seus consulentes, esse erudito manteve sempre uma tal discrição, recusando honrarias e até se furtando a reunir em livros os seus ensaios, que poucos podiam fazer idéia da sua produção intelectual, embora uma parte da mesma se constitua de conferências pronunciadas na Bahia o noutros centros e de artigos publicados pela Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e por outros periódicos especializados ou de divulgação. São 64 ensaios, em que sobressaem a história, a crítica hístoriográfica, as biografias de homens públicos e de historiadores célebres e as suas indagações sobre a língua tupi, as únicas que consentiu enfeixar em três livros. Todas as demais restam dispersas e algumas inéditas, mas o Centro já tem no prelo, num preito ao Autor e num grande serviço à cultura, um volume com que inaugura a série de obras completas assim resenhadas. Também em homenagem a esse tupinólogo de elevado renome, sucessor e anotador de Teodoro Sampaio, de Plínio Ayrosa e outros, o catálogo abre com a luta de 232 obras raras e preciosas de estudos tuni-guaranís, invejável coleção de glossários, dicionários, catecismos, textos e ensaios interpretativos da “língua geral”. Além de uma secção dedicada a elementos fundamentais de escrita e paleografia, segue o catálogo com outra das maiores riquezas da coletânea: aquela constituída de bibliografias e catálogos gerais e especializados, do Brasil e de outros países, de periódicos científicos, de manuscritos, de órgãos da imprensa, de instituições, de legislação colonial e contemporânea, atinentes sobretudo a temas antropológicos, linguísticos, historiográficos, náuticos, geográficos, cartográficos e de viagens, todos a interessarem particularmente à investigação conscienciosa e completa do Brasil e do continente americano. São 151 volumes escolhidos e adquiridos através livreiros renomados no Brasil, na Inglaterra, na Alemanha, nos E. Unidos, na Holanda. As outras secções do catálogo fazem o levantamento sistemático e exato, indicando a importância e raridade de certas obras, de 1.800 títulos da sala em sue Edelweiss conserva com extremos de desvelo, seu material de referência, isto é de orientação para a busca de fontes, de obras monográficas, de artigos e avulsos. Esses títulos condensam entretanto 2.300 volumes, do total do cerca de 18.600 que contém toda a biblioteca. O restante do catálogo inclui ainda Religião História Religiosa, Ciências Sociais, que compreende Sociologia, Economia, Política, Direito, Legislação e Educação: mais Ciências Exatas, com Paleontologia, Arqueologia, Etnologia e ainda Literatura em diversos idiomas, Geografias, Viagens e Biografias, quase sempre com ênfase historiográfica. Como é característico de elencos dessa natureza, o catálogo reproduz vários frontespícios e capas de obras antigas e de difícil consulta.

Arguirido esse acervo, com cobiçado por outras instituições e colecionadores no País e no exterior mas cujo criador sempre desejou ficasse na Bahia, a Universidade teve a iniciativa de instituir, por proposta do Reitor Lafayette Pondé e ato do Conselho Universitário, um organismo autônomo destinado a tornar a notável livraria um núcleo de trabalhos de nível superior, aberto a todos os seus outros institutos e departamentos e aos investigadores brasileiros e de demais países. Isto veio a corporificar-se no Centro de Estudos Baianos, órgão suplementar da F. B., diretamente vinculado à sua Reitoria, que, para seus fins de ensino e pesquisa, tem a Biblioteca Frederico Edelweiss como acervo fundamental, íntegro e inalienável do seu patrimônio. O Regimento Interno desse novo ente universitário regulamenta e define as atividades e áreas de sua competência, a História, a Geografia, Ciências Sociais e Econômicas, as Letras, a Lingüística, as Artes e Arquitetura, a Biblioteca e Documentação, além dos setores que o desenvolvimento de sua atuação aconselhem e sejam devidamente autorizados. Aí a preciosa biblioteca não será guardada apenas, mas deverá expandir-se por aquisições que lhe assegurem a qualidade e especialização e que correspondam à inequívoca vocação - não a única, por certo - da nossa Universidade pelos estudos da história e da sociedade baianas e das expressões da cultura nacional que se relacionem com a Bahia e o Nordeste principalmente. Sua programação também não se limitará aos usos de um acervo bibliográfico mas compreende cursos, investigações, publicações seminários, conferências que o tornem útil à Bahia do presente e do futuro a exemplo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, da Fundação Casa de Ruy Barbosa e de algumas outras.



É claro que nem a excelente biblioteca nem o Centro bastarão ao muito que resta e se pode fazer nos campos a que se destinam. São, porém, algo invejável, de que só dispõem, quando muito, dois ou três outros Estados brasileiros, mas por isto mesmo convidam os nossos administradores e universitários a um esforço constante e inteligente por entrelaçar com aqueles e a lhes dar sempre melhores condições de instalação, organização, crescimento e funcionalidade, aos arquivos, as bibliotecas, aos museus.


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