Assunto: um registro literário



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Jornal A Tarde, quinta-feira, 10/01/1974

Assunto:


UM REGISTRO LITERÁRIO


Um pouco com a sensação de sair do sério, para fora dos meus temas prosaicos, cedo à tentação de fazer um “registro literário”, o qual de literário tem somente a matéria, não a forma, o estilo, a avaliação, os juízos. Será um registro de impressões gratas, “as amargas, não”, como diria Álvaro Moreyra, exatamente por não se proporem a julgamento que exigem e supõem a percepção analítica, os critérios estilísticos, a própria experiência literária dos genuínos críticos, todo um método e uma atitude que poucos dominarei com talento. Impressões, não; essas pode externar, com as reservas indispensáveis, aquele que sente e frui a beleza e a riqueza intrínsecas de arte, da poesia, da prosa, conformado às limitações de outro tipo de vocação e de experiência, por isto mesmo esquivo a considerar-se “escritor” ou “intelectual”, apenas um técnico de certas idéias e conhecimentos. A esses saudosos da expressão estética, invejosos dos que têm melhores instrumentos para desentranhar da misteriosa criação literária o muito que esta pode oferecer, resta o prazer da boa leitura e ao menos o da simples expansão das suas sensações. E assim que, vindo dos últimos tempos da hoje malsinada formação clássica, que abria as veredas das “belas letras” a uns tantos privilegiados e a outros despertava para o mundo de significados que solicitam as inteligências mesmo quando ocupadas, absortas e reduzidas à busca imediata do pão de cada dia, - tenho as obras do espírito como o melhor bem de que se possa tirar proveito.

Vê o leitor que o risco de entrar por essas searas é o de querer teorizar o que, na circunstância, resulta pedante e desfrutável. Vamos ao registro, se me permitem. O de duas leituras do mesmo gênero. Duas memórias. Entretanto tão diferentes, a não se poderem comparar, suponho que sob nenhum critério, a não ser na ótica dos críticos e dos historiadores da literatura Na perspectiva dos leitores cada uma tem, no mínimo, um sabor intelectual diferente, como os vinhos que, por serem diferentes, não deve ser tomados como melhores ou piores. Bem o sabem os entendidos, por bebê-los com gosto ou por degustá-los de oficio. Assim devem ser as memórias. As de Eugênio Gomes. “O Mundo da Minha Infância” publicada, já há alguns anos, são uma coisa: as Pedro Nava, mais recentes, em “Baú de Ossos” e “Balão Cativo” são inteiramente diversas, se bem percebo.



Eugênio, de cuja obra não se podem ocupar os seus contemporâneos e antigos sem pensar na pessoa e na personalidade, que nele se encarnavam, recorda seus tempos, seus ambientes, suas aventuras de menino com uma ternura e uma delicadeza de modos, até de estilo e de linguagem, que o trazem novamente à vida naquelas suas maneiras modestas, comedidas, humanas em que o conhecemos. As suas reminiscências de infância, e de juventude por necessária extensão, não se marcam por datas ou períodos São notas afetivas que fixam instantes de uma vida interior profunda mas sem arroubos de extroversão, de uma vocação para as análises intelectuais escrupulosas e competentes, de uma sensibilidade delicada e penetrante, sobretudo capaz de sínteses admiravelmente expressivas e de perfis definitivos em pinceladas rápidas, inconfundíveis. Eugênio nos leva ao seu passado, suavemente, em comentários que têm algumas vezes o caráter de breves contas, de sutil concepção, completos em sua urdidura e acabados em seu fecho oportuno. As suas lembranças não se encadeiam como na autobiografia: fixam quase sempre episódios isolados sobre os quais reflete, antes revelando o temperamento e a alma do escritor do que contando uma história de vida ou fazendo a crônica de uma época ou de um lugar. Mas é sempre límpido, claro, apurado nos sentimentos, de uma invejável acuidade psicológica. E é assim que cria uma galeria de figuras humanas quase sem exceção simpáticas, generosas, cheias de dignidade e de inteligência, projetadas sobre um pano de fundo social esboçado com traços finos, apenas suficientes para darem idéia do meio em que se movimentam. Tudo brando, terno, recatado, lúcido, sereno como o menino que salta daquelas páginas como a explicar o Eugênio adulto, de olhos muito grande e suaves, de maneiras modestas e educadas, a ressaltarem o talento cuidadosamente cultivado, a alma cristalina.

Já em Pedro Nava, as coisas se passam inteiramente diversas. Surpreendentes, primeiro, para quem o sabe um cientista medido e objetivo - como o consultei em 1949 e nele me apoiei a respeito das origens da febre amarela no Brasil, depois imprevisto no desdobrar expansivo e buliçoso de suas recordações; por último, delicioso na sua indiscreção maliciosa e atilada. Se bem não faça um relato corrido, concatenado como numa “estória” voltada para a sucessão dos eventos, esse memorialista nos conduz, de qualquer modo, por tempos e lugares, nos apresenta pessoas, nos conta casos, nos explica e descreve acontecimentos mais à maneira de história de vida. Mas como o faz? De um modo todo seu, ao mesmo tempo erudito quanto aos fatos e quanto às reflexões oportunas, lúcidas e cultas, e despretensioso na maneira de contar, anedótico no estilo, conversador, provocante, em constante comunicação com o leitor, que tem a impressão de o ouvir, de o ver sorrir, de participar com ele das aventuras que relembra. Curiosamente, cheio de nomes e datas, de citações clássicas, de comentários e interpretações literárias, históricas, sociológicas, falando de gente que a gente não conhece e de uma vida que é tão sua e dos seus e dos que o rodeiam nos lugares por onde tem andado, Pedro Nava consegue levar em sua companhia, sem cansaço ou constrangimento, aqueles que o lêem; antes, os encanta e delicia e os faz a sua espantosa fantasia, paradoxal da realidade. E a surpresa está, para quem tem notícia das ocupações habituais do autor e não tem o privilégio do seu convívio, em descobrir o que nele existe de poético, de esteticamente criativo, de sutileza, de gosto, de gênio literário. Uma exuberante ideação, culta e brejeira, empresta ares de fábula ou de romance às coisas mais corriqueiras, sem lhes desmerecer a veracidade, umas vezes austera, grave, trágica, outras, hilariante, ridícula, mesquinha. Uma estonteante combinação de eloqüência, erudição, sarcasmo, graça, molecagem, verve... Talento, muito. Um amalgama espantoso de Euclides da Cunha com Jorge Amado, de Gilberto Freyre com Pedro Calmon e Garcia Marquez, tudo, entretanto, inconfundivelmente Nava ou “Nava, Naveta, Nava" conto no poema arrebatado de Fernando Peres. E no entanto, esses seus dois livros são autêntica história ou crônica histórica, em que tudo é preciso, é exato, é verídico e situa-se em adequados quadros cronológicos e ambientais e se documenta em fontes convencionais, em alfarrábios, inventários, cartas, testamentos, velhos papéis, lembranças de família. As memórias de sidudas e frias, de mortas e remotas, arrancam-se do passado para o presente como conversas, perdem o caráter de mera “realidade histórica” para se tornarem vida, novamente, nessas páginas de espanto e comoção.


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