At 2, 1-11; 1Cor 12, 3b 12-13; Jo 20, 19-23



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Domingo de Pentecostes

         At 2, 1-11; 1Cor 12, 3b-7.12-13; Jo 20, 19-23

         30 de Maio de 2004.

     I- Pentecostes e Igreja 

     A Igreja nasce, instituída por Cristo, como obra contínua do Espírito no tempo.  Ele, derramado pelo Filho sobre os fiéis, plasma a comunhão do corpo eclesial na diversidade de seus membros.  A Igreja, então, torna-se acontecimento, evento dinâmico na história, anunciando a Palavra de Jesus e tornando-o presente, através dos sacramentos e do testemunho de vida.

     Cada cristão em particular também nasce no Espírito.  O batismo o introduz na vida divina e o faz ser membro vivo e participante da comunhão eclesial, enriquecendo-a com uma personalidade nova.  A crisma permite que assuma a missão batismal de ser testemunha do Senhor como os apóstolos, após Pentecostes.

     Completados os cinqüenta dias  após a Páscoa, a Igreja olha em três direções: para o Espírito, para si mesma e para o mundo.  Percebe, no entanto, que, olhando para si, encontra a presença atuante e misteriosa de um Outro, que se torna seu, para enviá-la.  De fato, a Igreja que é possuída por Cristo como seu Esposo e Cabeça, possui o Espírito como vida e força para a missão.  Aliás, já diziam os Santos Padres que o cristão é corpo, alma e Espírito Santo, o que vale a respeito de toda a Igreja.  Por isso, é impossível compreendê-la sem referência ao dom que possui  para animá-la em função da obra a ser realizada.

     Que hoje cada fiel de Cristo possa ser ajudado a reconhecer quem é o Espírito e qual a ação que produz no interior do batizado e no conjunto da Igreja em ordem ao apostolado.  Esta consciência pneumática justifica a pertinência pastoral da recepção do sacramento da crisma na celebração de Pentecostes.  Os crismandos acolhem o novo dom do Espírito como sendo Aquele que confirma e afirma a graça do batismo enquanto missão de testemunhar a Boa-Nova no mundo.  Os demais cristãos os acolhem como membros, atuantes e dinamizadores da obra comum, confirmados na graça do batismo.


 

    II- O conteúdo das mensagens bíblicas


 

    1- A primeira leitura é o relato do Pentecostes cristão (At 2,1-11).  O Pentecostes judaico tem sua origem remota na festa das colheitas, sinal de plenitude e de abundância:

 

Guardarás a festa da Messe, das primícias dos teus trabalhos

de semeadura nos campos, e a festa da Colheita, no fim do ano,

quando recolheres dos campos o fruto dos teus trabalhos  (Ex 23,16);

 

Guardarás a festa das Semanas: as primícias da colheita do trigo



e a festa da colheita na passagem de ano  (Ex 34,22).

 

    A data da festa foi fixada cinqüenta dias após a Páscoa:



 

                             Contarás sete semanas.  A partir do momento em que lançares a foice nasespigas,

                             começarás a contar sete semanas.  Celebrarás então a festa das Semanas em honra

de Iahweh, teu Deus  (Dt 16,9-10).

 

    Como os cálculos fixavam a festa no terceiro mês, aos poucos o sentido evoluiu para a celebração de um acontecimento histórico-salvífico relacionado ao deserto:



 

No terceiro mês depois da saída do país do Egito, naquele dia, os filhos

de Israel chegaram ao deserto do Sinai.  Partiram de Rafidim e,

chegaram ao deserto do Sinai, e acamparam no deserto.  Israel acampou

lá diante da montanha  (Ex 19,1-2).

 

    Entende-se por que vários autores judeus e, particularmente, os monges de Qumram, serviram-se da aproximação simbólica para tornar a festividade dos cinqüenta dias uma festa da Lei e da Assembléia no Sinai.  Nesta perspectiva, a solenidade da Páscoa celebra o fato da libertação do Egito e a solenidade de Pentecostes festeja a libertação de direito.  Desta maneira, Pentecostes é visto em sintonia com a Páscoa, realizando ou institucionalizando a libertação que a saída do Egito obtivera.  Ao se relacionar também com a antiga festa das Colheitas, torna-se, na nova roupagem simbólica, a festividade de colher dos frutos merecidos pela Páscoa.



     O Livro dos Jubileus compreende Pentecostes como sendo a celebração festiva da Aliança.  Por isso, fixa neste dia as alianças concluídas por Deus com Noé, Abraão e Moisés.  O Livro das Crônicas mostra a renovação da Aliança, por ocasião de Pentecostes: No terceiro mês do décimo quinto ano do reinado de Asa, eles se reuniram em Jerusalém.  ... comprometeram-se por uma aliança a buscar a Iahweh, Deus de seus pais, de todo o seu coração e de toda a sua alma.  (...) Prestaram juramento a Iahweh em alta voz e por aclamação...  (2Cr 15,10.12.14).

     Temos, portanto, as razões por que Lucas alude à Aliança e à assembléia do deserto durante seu relato do Pentecostes cristão.  Ele o faz, primeiramente, relacionado a Ascensão com Pentecostes ou à necessidade do Cristo subir para o Espírito descer:

 

Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis,

minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, e até os                

confins da terra. Dito isto, foi elevado à vista deles e uma nuvem o ocultou a

seus olhos  (At 1,8-9; cf. Lc 24, 49-51);

 

Portanto, exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o



Espírito Santo prometido e o derramou, e é isto o que vedes

e ouvis  (At 2,33).

 

    Esta relação entre subida e descida estava presente também na liturgia judaica de Pentecostes,  através da salmodia: Subistes para o alto, capturando cativos, recebendo homens em tributos, mesmo os rebeldes, para que Iahweh-Deus tivesse uma residência (Sl 68 [67],19); e nos Targuns, que aplicavam o texto a Moisés que subiu ao Sinai para que a Lei e a Aliança descessem.  Entretanto, há outros elementos que relacionam o relato de Pentecostes à Aliança e à Assembléia do deserto: o ruído vindo do céu que invade a casa, o vento com sua impetuosidade (v.2) e até mesmo as línguas de fogo (v.3).  Com efeito, a teofania do Deus da Aliança é descrita com trovões, relâmpagos, uma espessa nuvem sobre a montanha e um clamor muito forte de trombeta (Ex 19,16); toda a montanha do Sinai fumegava porque Iahweh descera sobre ela no fogo, a sua fumaça subiu como a fumaça de uma fornalha, e toda a montanha tremia violentamente (Ex 19,18).  Vários Targuns também afirmavam que a voz do Sinai se dividia em sete ou setenta línguas para revelar o universalismo da mensagem javista.  Assim sendo, explica-se a dimensão universalista da mensagem do Pentecostes cristão, ao menos em parte, relacionando-o à  Aliança sinaítica: Do céu ele fez com que ouvisses a sua voz para te instruir; ele te fez ver o seu grande fogo sobre a terra e ouviste suas palavras do meio do fogo (Dt 4,36).  Por isso, na perspectiva lucana, o evento de Pentecostes é a inauguração da nova Aliança e a promulgação da Lei, não mais gravada na pedra, mas no espírito e na liberdade: porei no seu íntimo um  espírito novo (Ez 11,19;36,26).  Desta maneira, Deus não dá apenas uma lei, ainda que renovada como era de se esperar (Jr 31,33) mas oferece algo absolutamente novo: seu próprio Espírito (Jl 3,1; At 2,17).



     O Pentecostes cristão é marcado pelo carisma da glossolalia (vv.4-13) como efeito imediato da presença do Espírito Santo.  Em outras passagens do Novo Testamento, inclusive nos Atos dos Apóstolos, o dom das línguas se distingue da profecia, servindo menos para instruir e mais para enaltecer a Deus:

 

... ouviam-nos falar  em línguas e engrandecer a Deus  (At 10, 46) ;

 

... o Espírito Santo veio sobre eles: puseram-se então a falar em línguas e a profetizar

(A t 19,6);

 

Aquele que fala em línguas, não fala aos homens, mas a Deus. Ninguém o entende,

pois ele, em espírito, enuncia coisas mistériosas.  Mas aquele que profetiza  fala aos

homens: edifica, exorta, consola.  Aquele que fala em línguas edifica a si mesmo,

ao passo que aquele que profetiza edifica a assembléia  (1Cor 14,2-4).

 

    Entretanto, para Lucas, o falar em outras línguas (v.4) em Pentecostes adquire uma conotação diversa.  Trata-se, sobretudo, de um dom profético e por isso inteligível:



 

Como é, pois, que os ouvimos falar, cada um de nós,

no próprio idioma em que nascemos?  (v.8);

 

Nós os ouvimos apregoar em nossas próprias línguas as maravilhas de Deus! (v.11) 

 

    Torna-se, então, evidente que Pentecostes tem uma dimensão querigmática, acentuada pelo fato de Pedro dirigir-se imediatamente à multidão para esclarecer-lhe o fenômeno (vv.15-16):



 

Derramarei do meu espírito sobre toda a carne,

vossos filhos e vossas filhas profetizarão  (v.17; cf. Jl 3,1).

 

    Contudo, além desta relação Espírito-Palavra, Pentecostes-Anúncio, o hagiógrafo quer realçar também o aspecto universalista do evento cristão e sua mensagem.  A própria referência à multidão (v.6)  nos remete a Abraão, pai das nações (Gn 17,4-5; Dt 26,5).  Estas estão presentes, de modo simbólico e indireto, através dos judeus, de origem ou não (v.11), que, por virem da Diáspora, representam parte do mundo de então (vv.9-11).  A Igreja que adquire sua plena identidade em Pentecostes reconhece-se  católica e missionária, graças ao Espírito Santo que lhe foi dado.



 

    2- A segunda leitura dá critérios de discernimento dos espíritos e aponta para a dialétrica da diversidade e unidade dos carismas eclesiais (1Cor 12,3b-7,12-13).  A cidade portuária de Corinto, centro de cultura grega, convivia com o pluralismo filosófico, ético e religioso.  Então, Paulo ajuda a discernir, de acordo com a mensagem cristã, o sincretismo de idéias (1Cor 1,17-31), de costumes (6,1-19) e de religiões (12,1-11) que invade a comunidade dos crentes.  Neste sentido, o trecho que se lê hoje aborda o fenômeno de experiências religiosas, semelhantes aos transes e êxtases das religiões mistéricas.  Daí, a preocupação paulina de diferenciar os carismas do Espírito Santo (v.1) do culto aos ídolos mudos (v.2).  Com efeito, havia o perigo de se confundir o conhecimento pela fé do verdadeiro Deus com os sinais externamente semelhantes ao culto dos gentios.  O Apóstolo possibilita, então, buscar elementos para o necessário discernimento.  A autenticidade da experiência cristã não está fundamentada no fenômeno religioso expressivo, isto é, as manifestações sensíveis, hoje, em muito caso, denominadas paranormais.

     A vivência cristã se identifica, sobretudo, pelo conteúdo do seu discurso: a fé explícita em Jesus como Senhor (v.3).  Quem define a autenticidade do cristianismo é o próprio Cristo e, existencialmente falando, isto ocorre na acolhida pessoal, do seu senhorio absoluto.  Portanto, um carisma autêntico sempre contribuirá para reforçar a fé em Cristo Senhor.

     Outro critério de discernimento se verifica  na colaboração entre os diversos carismas,  ministérios e modos de ação (vv.4-6), demonstrando que o mesmo Deus, uno e trino, realiza tudo em todos (v.6).  Enquanto no politeísmo pagão a variedade de dons era conferida por deuses diferentes, na Igreja tudo se unifica pela atuação da Santíssima Trindade, Mistério de unidade e comunhão das Pessoas Divinas: o mesmo Deus (v.6), o mesmo Espírito (v.4.8-11), o mesmo Senhor (v.5).

     O último critério para o discernimento dos espíritos em relação aos carismas consiste na capacidade de servir ao bem comum (v.7) e à vitalidade do corpo eclesial (vv.12-26).

     Neste domingo de Pentecostes em que a Igreja redescobre a beleza de sua identidade, importa ver a dimensão carismática e, portanto, pneumática de sua estrutura.  Ela é o corpo de Cristo (vv.12-27) porque todos foram batizados num só Espírito (v.13) e seus membros unidos entre si e à Cabeça, na diversidade de ministérios ou serviços (v.5), exercem seus dons e carismas para a utilidade comum (vv.7-10).



    3- O Evangelho nos apresenta a aparição do Ressuscitado, comunicando o Espírito Santo, à tarde do domingo de Páscoa (Jo 20,19-23).  O relato relaciona a Páscoa com Pentecostes, pois o sopro do Ressuscitado é que comunica a vida nova do Espírito Criador (v.22).  O Ressuscitado reproduz o sopro da criação (Gn 2,7) e da revitalização (Ez 37,9) como acontecimento pascal na vida dos fiéis.  Para isso, a Igreja partilha do poder vivificador do Espírito ao receber de quem venceu a morte e o pecado o dom de perdoar (v.23), carisma sacramental instituído para recriar a vida nova nas consciências.

     Jesus ressuscitado também envia a Igreja ao mundo como Ele próprio foi enviado pelo Pai (v.21).  Compete, pois, à comunidade eclesial a missão apostólica de continuar a obra que Cristo iniciou e realizou.  Deste modo, nos faz olhar para o futuro do mundo e das pessoas a serem atingindos pelo anúncio da salvação.  No gesto do envio confirma, sobretudo, a missão querigmática eclesial como um dos elementos que, juntamente com a economia sacramental (v.23), prolongam sua atividade no mundo e na história, tudo isto graças ao Espírito Santo que nos deu (v.22).  É, pois, o Espírito a alma vital tanto do apostolado quanto da estrutura sacramental da Igreja  Católica.


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