Atividade 1 – Enunciação e heterogeneidades discursivas



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Encontro01.08.2016
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Atividade 1 – Enunciação e heterogeneidades discursivas
Era uma vez
as heterogeneidades discursivas...

Nesta primeira atividade da nossa Agenda 2, vamos continuar pensando sobre as heterogeneidades discursivas. Desta vez, abordaremos algumas formas de heterogeneidades marcadas ou mostradas que, como o nome já indica, mostram de forma explícita a presença do outro no discurso.

Como você sabe, muitos estudos sobre as heterogeneidades ou não-coincidências do dizer têm sido realizados por Authier-Revuz (1998). Esta autora define a heterogeneidade mostrada como um conjunto de formas que inscrevem o outro na sequência do discurso, e que englobam o discurso direto e as palavras entre aspas, por exemplo. No caso da palavra entre aspas, ela é separada como aquilo que é do outro, diferentemente do restante do que é dito, que assumimos como um dizer nosso. O mesmo acontece com o discurso direto, por exemplo, em que também marcamos, geralmente com as aspas e/ou com o travessão, um dizer do outro.

O emprego do discurso direto e o uso das aspas, no entanto, não são as únicas formas de se marcar a presença do outro no discurso. Também são heterogeneidades mostradas a ironia, a paródia e o pastiche. Em comum, essas não-coincidências do dizer marcam um distanciamento entre as palavras, ou seja, aquilo que é dito, e o ponto de vista de quem enuncia, como afirma Maingueneau (1989), ao apresentar as várias formas de heterogeneidades mostradas.

Nesta atividade, vamos trabalhar com a paródia, uma forma de heterogeneidade discursiva que deixa explícita a relação do dizer com outros discursos, normalmente recorrendo ao humor e à ironia para isso. Como aponta o título desta atividade, pensaremos a paródia sobre os contos de fadas, muito comum no cinema, no últimos anos.

Uma da mais famosas paródias de contos de fadas no cinema é o filme “Shrek”. A animação norte-americana, lançada em 2001, que traz um Ogro como protagonista, tem em seu roteiro referências a vários contos de fadas, como Robin Hood, Pinóquio e Os três porquinhos. Em meio à voz que reconta as muitas versões de histórias em que princesas, trancadas no alto das torres dos castelos, são resgatas pelo seu príncipe encantado, o filme faz a paródia de produções cinematográficas, de obras de arte, dentre outras produções.

Em uma das cenas, a princesa Fiona mata um pássaro, ao cantar em um tom extremamente agudo, em uma paródia de uma das cenas do filme “Branca de Neve”. Em outra cena, em que a princesa luta com Robin Hood na floresta, os golpes usados por ela são registrados pela câmera como em uma das mais famosas cenas do filme “Matrix”, em que o personagem principal permanece parado no ar. Nesses casos, o dizer dos contos de fadas convive com os dizeres de produções recentes do cinema.

Cena do filme Shrek. Disponível em: <www.icicom.up.pt>.

Um outro filme recente, que parodia um conto de fadas, é a produção norte-americana “Deu a louca na Chapeuzinho”, uma animação do ano de 2005. O filme começa com o roubo de um livro de receitas; os suspeitos do crime são a própria Chapeuzinho, o Lobo e a Vovozinha. A mesma história é contada três vezes durante o filme, segundo o ponto de vista de cada um dos três personagens, em seus depoimentos à polícia.

Ao lado de elementos que recriam o dizer do conto de fadas “Chapeuzinho Vermelho”, como a presença de seus principais personagens, há o recurso à ironia, sobretudo por meio das expressões faciais e dos comentários irônicos de Chapeuzinho, e a sátira à atualidade, com a personagem Vovó tricotando e praticando esportes radicais ao mesmo tempo, por exemplo.


Cena do filme “Deu a louca na Chapeuzinho”. <www.viruma.zip.net>.


Nessas paródias dos contos de fadas, famosas no cinema, observamos que o sentidos mobilizados pelo conto tradicional são, de alguma forma, deslocados. Ao lado do dizer já conhecido, outros dizeres são postos em funcionamento, são trazidos para o discurso. É o caso, por exemplo, da investigação policial no filme “Deu a louca na Chapeuzinho”, ou do Ogro como protagonista, em Shrek. São outras vozes, dizeres que ganham lugar junto à história já conhecida.

Ainda que pareçam tão inovadoras, ao recontar os contos de fadas, não podemos deixar de observar que essas produções também reafirmam sentidos vigentes. Em Shrek, a princesa Fiona não se casa com o príncipe. Mas o final da história, ainda que inusitado, repete o dizer dos contos de fadas: a princesa prefere assumir a sua maldição, transformando-se definitivamente em um Ogro, para viver o seu amor, no clássico “viveram felizes para sempre”.

Assim, a presença de várias vozes no dizer não é uma garantia de novos sentidos, de rupturas nos processos de significação. Mesmo porque, como afirma Eni Orlandi (2001), os sentidos são produzidos na relação permanente entre o mesmo e o diferente, entre a repetição e o deslocamento. Podemos afirmar que, ao marcar em seu discurso o que é do outro, o sujeito está marcando, de fato, o seu desejo de ser origem do seu dizer e, não necessariamente, uma originalidade de sentidos.

ATIVIDADE
Para pensarmos um pouco mais sobre a paródia e a ironia como formas de heterogeneidades mostradas, vamos assistir a dois vídeos disponíveis na internet, com cenas dos filmes “Shrek e “Deu a louca na Chapeuzinho”.
PARTE I - Vamos começar assistindo ao clipe em que Chapeuzinho encontra o Bode Japeth:

http://www.youtube.com/watch?v=NorfhBysE9k (Valor: 20 pontos)
No vídeo em que Chapeuzinho encontra o Bode Japeth, observamos o dizer do conto de fadas tradicional, confrontado o tempo todo com outros dizeres, outras vozes que são trazidas para o discurso.

Para esta primeira parte da atividade, separamos duas cenas do vídeo. Em cada uma delas, identifique ao menos dois elementos que apontam o dizer do conto de fadas e outros dois que marcam no vídeo dizeres outros, trazidos para a história.


Cena 1:

Deu a louca na Chapeuzinho. <www.curinga.org>.


Chapeuzinho: Olá! Olá. Estou procurando a casa da vovó Pupek.

Bode: Vovó Pupek (cantando).

Chapeuzinho: Será que dá para parar de cantar um minutinho?

Bode: Eu não consigo/ bem que eu gostaria/ Mas uma bruxa da montanha me enfeitiçou/ Há 37 anos atrás/ E se eu quiser falar/ tenho que cantar/

Chapeuzinho: Você só canta?

Bode: Isso mesmo.

Chapeuzinho: Você falou agora! Acabou de falar!

Bode: Falei? Falei/ falei/ falei/ falei/ falei/ falei/ falei.

(A cena finaliza com a expressão de Chapeuzinho de tédio...)



Cena 2:

Deu a louca na Chapeuzinho.



<http://noticias.recife.pe.gov.br/fotos_ noticias/lista/15_29837_01.jpg>.

Deu a louca na Chapeuzinho. <www.portalgirassol.blogspot.com>





Chapeuzinho: Seu bode, a minha avó está em perigo. Eu preciso achar um caminho rápido pela montanha.

Bode: Você veio ao bode certo.

Chapeuzinho: Ai, que maravilha, mais cantoria.

Bode: Há 37 anos um feitiço caiu em mim...

Chapeuzinho: Tá, eu sei...

Bode: agora quando eu falo, eu tenho que cantar...

Chapeuzinho: Isso é lindo, mas dá para me ajudar?

(O bode demonstra os usos de seus chifres e eles caem em uma montanha russa)



Bode: Fiquem com as mãos e os pés para dentro durante toda a viagem.

Na versão original da história, a chapeuzinho é mandada pela mãe para a casa da vovó, para levar uma cesta de frutas. A mãe recomenda que a menina vá por um caminho, ela se distrai e toma outra direção. Perdida acaba encontrando com o lobo, infringe a ordem dada pela mãe, de não conversar com estranhos e aceita as orientações do personagem para achar a casa da vovó.


Em “ Deu a louca no Chapeuzinho” ,especificamente no trecho apresentado nesta atividade, inúmeros são os dizeres acrescidos na história. Ao assistirmos o vídeo, encontramos muitos outros além daqueles encontrados no diálogo recortado.
Da versão tradicional, o único dizer, neste trecho do filme, que se mantêm é o fato da chapeuzinho estar perdida, procurando a casa da vovó e pedindo ajuda para encontra-la.
A partir desse dizer, muitos outros são acrescidos à história.
Encontramos dois personagens que não existem na história original, ou seja, o Bode e a Bruxa que lhe lançou um feitiço. O próprio feitiço é algo novo e dá muita graça ao filme, quando o bode se vê forçado a cantar ao invés de falar.
Assistindo o trecho do filme, é inédito também o fato da chapeuzinho falar com a vovó por telefone, o que representa um novo dizer, a inclusão da tecnologia à história, assim como em determinada cena, aparecer uma televisão ligada.
Inovador também nesta versão, é o aparecimento de um mapa, que indica túneis e possíveis caminhos, além da inclusão da montanha russa na história.
A vovó aconselhar a chapeuzinho vermelho a usar o seu capuz como paraquedas, é outra fala que atravessa a tradicional, além do personagem aparecer falando sem estar literalmente presente à cena, ainda observamos a inclusão e apresentação de um esporte ao filme.

PARTE II – Agora vamos assistir a mais um vídeo, o clip da música Halleluya, que é parte do filme Shrek:

http://www.youtube.com/watch?v=TIIjsYjuNNY (Valor: 10 pontos)





www.gatocomvertigens.blogs.sapo.pt



www.ohumbertoexplica.blogspot.com



www.imotion.com.br


Não é apenas no verbal que se mostram as outras vozes, o discurso do outro. No clipe da música Halleluya, que é apresentado quase no final do filme Shrek, quando a princesa Fiona está prestes a se casar com o príncipe, e Shrek retorna sozinho à sua casa no pântano, as cenas apontam a relação entre o discurso do conto de fadas e outros dizeres que perpassam esse discurso. Aponte ao menos duas imagens que trazem o discurso dos contos de fadas e outras duas que apontam a presença de outras vozes no discurso.


È preciso aqui, refletir sobre qual é o discurso dos contos de fadas. A mocinha ou mocinho que se apaixona e vê essa paixão se transformar em amor impossível. O que torna a relação impossível pode ser, por exemplo, preconceitos raciais, sociais, religiosos.

Penso que esse amor, transformado em impossível, é um dos discursos encontrados na cena , que compõe o conto de fadas tradicional. Outra imagem que reflete o conto de fadas tradicional é a imagem da linda porém triste princesa.

Quanto a imagens que apontam a presença de outras vozes no discurso, está a tristeza do ambiente, que parece sem vida e dos animais. Nesta cena específica, quando um deles aparece chorando e o outro se solidariza , fica muito explícita a superação de diferenças e união de personagens que compartilham da mesma tristeza.

A casa desarrumada, as flores murchas e até mesmo a relação que a princesa nutre com os noivinhos do bolo, apontam para uma outra silenciosa voz no discurso.

A cena onde os personagens aparecem em suas casas, à mesa, também aponta para a voz que justifica a impossibilidade desse amor, a diferença social entre eles e a solidão de cada um.

É conveniente ressaltar que as heterogeneidades e não coincidências marcadas, muitas vezes são feitas pelas expressões do personagem e da composição da cena. Durante todo o trecho recortado, observamos um diálogo entre os personagens que mesmo distantes, se vêem o tempo todo e conversam sobre sua tristeza.



Em determinado momento da cena, quando aparece o reflexo da princesa em vários espelhos, também é possível perceber a fala de outro conto de fadas


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