Atividades humanas e sua influência social o homem e o meio



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Atividades humanas e sua influência social

O homem e o meio

Especialidades cirúrgicas e recursos técnicos de integração social

Do livro “Filosofia da Cirurgia”

de Henrique Walter Pinotti

Dentre as inúmeras atividades desempenhadas pelo homem, algumas são de relevante importância pela contribuição ao progresso e bem-estar social.

Entre elas, a religião merece destaque, devido à forte influência social, praticamente, desde as origens do homem. Como se pôde deparar em capítulo anterior “Marcos históricos da medicina e cirurgia”, a medicina nasceu no seio da religião, os primeiros médicos, remotamente, eram sacerdotes. A religião foi também a origem do Direito, “a lei confundia-se com preceitos religiosos e baseava-se nos costumes” (Abrão, B. S., 1999).

“A religião é a mais alta e atraente das manifestações da natureza humana” acentua Ernest Renan (Challaye, F., 1962). Existe um sentimento profundo de que a existência limitada do ser finito depende de uma Realidade infinita. Na religião existe um vínculo estabelecido entre o finito e o Infinito.

Afirma F. Challaye (1962), no seu notável livro, que “o sentimento religioso é a mais complexa inclinação que se pode descobrir no fundo do coração humano”. As religiões exerceram influência boa ou má, feliz ou desagradável, sobre as diversas sociedades e civilizações.

A religião, quando bem praticada, tem favorecido a aproximação e o bem-estar de pessoas e sociedades e, infelizmente, quando desfocada da racionalidade e envolvida pelo radicalismo e fanatismo, tem promovido destruições.

Papel do Direito – desde a remota Antigüidade, a aglutinação do ser humano em sociedade obrigou a introdução de normas para possibilitar a sua convivência. Admite-se que nos primórdios a religião exercia o papel de impor regras nas relações pessoais. Com o decorrer do tempo, progressivamente, foi se consolidando o processo de organização de normas jurídicas, diferenciadas das de caráter religioso. A elas foram adicionadas medidas, baseadas nas novas circunstâncias sociais, políticas e econômicas. Deve-se realçar então a edição do Código de Justiça, com 282 leis, pelo rei Hammurabi (1728 – 1686 a.C.) da Babilônia, já referido, centrado nos princípios “os fortes não podem ofender os fracos; para proteger as viúvas e órfãos...; para mostrar a justiça na Terra...; para esclarecer todas as disputas e curar todos os sofrimentos...”.

Vários credos religiosos contribuíram para fundamentar o Direito, mas deve-se valorizar a consistente influência grega e romana para consolidá-lo.

O Direito, com toda a sua diversificação de ramos, tem oferecido uma grande contribuição ao homem, à família e à sociedade, reforçando os seus direitos de cidadania.

A educação, com as suas inúmeras formas, meios e infindável duração, inegavelmente, assume grande importância entre todas as atividades, pelo seu papel na formação, transformação e integração social. A educação, devido à multiplicidade de funções e de abrangência, é a maior força de edificação da sociedade.

A música é tida como uma das atividades que nasceram com o homem: “a sua emoção ou intenção expressiva sempre provoca variações na altura e timbre da sua voz”. Um Homo musicus emerge, lentamente, entre os ancestrais do Homo sapiens, 70.000 a 50.000 anos atrás. “Os fenômenos sonoros provocados se organizam de maneira sistemática, o canto se distingue claramente da linguagem falada, a dança e a música instrumental, da expressão gestual sonorizada. Cerca de 9.000 anos a.C. dá-se o nascimento das primeiras civilizações musicais” (Candé, R., 1994). Entende-se hoje o grande papel desempenhado pela música no meio social com influência no bem-estar, na felicidade interna, no lazer e na terapia, praticada por todos os povos, em todas as idades.

O esporte, quer de prática individual ou em equipe, presta um grande benefício como meio de manutenção ou aprimoramento da saúde. Pode ser exercido por indivíduos em qualquer idade, em qualquer espaço, também por deficientes físicos. É a atividade humana considerada a mais socializada e democratizada. A atividade esportiva realizada nas escolas, além de beneficiar a saúde das crianças e jovens, estimula o seu espírito associativo e o perfil moral, além de ampliar a sua rede de relações sociais. A prática do esporte era admitida pelas antigas civilizações como forma de aprimoramento do homem: a Grécia criou as Olimpíadas e os romanos atribuíram a ele qualificação especial ao cunhar a frase “mens sana in corpore sano” da máxima de Juvenal em Sátira X. Na atualidade, países com altos índices de desenvolvimento humano têm valorizado, totalmente, a prática esportiva comunitária nos seus programas de qualidade de vida. Quando realizada por profissionais, como no caso do futebol, tem forte repercussão social mobilizando as emoções das massas, às vezes, impactando, através da mídia globalizada, mais de um bilhão de espectadores, numa só partida de campeonato do Mundo. Toda a cadeia industrial, comercial e da mídia tem acionado fortunas incalculáveis no consumo de produtos e serviços esportivos.

Todas as atividades que envolvem tecnologia, como as de engenharia, arquitetura, urbanismo, agronomia, veterinária, zootecnologia, igualmente, têm tido papel social marcante, melhorando a qualidade da vida humana. São elas as responsáveis pelas fontes de produção de alimentos, roupas, calçados e aparelhos de uso doméstico, pelas organizações das estruturas urbanas e rurais, compreendendo a grande diversidade das respectivas construções, habitações, escolas e oficinas de trabalho e pelo desenvolvimento dos meios de transporte terrestre, subterrâneo, aéreo e aquático.

Finalmente, as atividades em conjunto ligadas à saúde e bem-estar, medicina, biologia, genética, odontologia, farmácia, enfermagem, psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, educação física, desempenham importante papel nos cuidados preventivos e, quando as doenças são existentes, atuam na restauração da saúde com qualidade de vida. Na história da medicina, como se viu no antigo Egito, os médicos possuíam acentuada noção do efeito social das doenças, procurando o tratamento e a inserção comunitária dos incapacitados, inventando as lentes de cristal para os deficientes visuais e aparelhos feitos de chifres de animais para melhorar a audição.

As grandes conquistas científicas da medicina, após o século XIX, conferiram-lhe

condição de ciência, e o médico passou a ganhar reputação pública pelo seu domínio de conhecimento e pelos resultados práticos. Foi o momento das respeitáveis figuras de alto conceito no meio da sociedade pelo que eles realizaram em benefício da ciência e dos pacientes, como Lister em Londres, Von Bergmann em Berlim, Billroth em Vienna, Charcot e Claude Bernard em Paris (Entralgo, P.L., 1978). No capítulo “Os hospitais, suas transformações e propostas” ficou bem definido o extraordinário papel desempenhado pelos hospitais no benefício dos enfermos.

Nos tempos modernos, Rudolf Virchow (1821-1902) deu muita ênfase a essa questão, mostrando, em Berlim daqueles anos, a estreita relação entre miséria e doenças presentes. Em função da sua luta pelas causas sociais, fundou o primeiro partido social e democrata.

Todo o imenso trabalho havido para as conquistas médicas foi estimulado para suprimir ou aliviar o sofrimento humano imposto pelas doenças e o seu efeito social, conforme se viu no capítulo “Os períodos marcantes do progresso da cirurgia”.

Já no século XX, em plena era da industrialização, do capitalismo e do consumismo, os economistas da saúde passaram a dar ênfase ao desgaste econômico provocado pelas doenças passando a calcular: a) os custos diretos das horas e dias inativos; b) custos das consultas, dos meios diagnósticos e das operações; c) perdas inestimáveis, correspondentes ao que a empresa perde pela ausência do executivo ou funcionário especializado.

Com o evoluir do tempo, com o progresso em todos os campos, com melhor preparo de profissionais através do ensino médico e da sua formação mais bem estruturada, a medicina hoje tem grande abrangência de ação na sociedade.



Tem o privilégio de poder atender os cidadãos em todas as idades até mesmo antes de nascer, independente da sua condição social ou crença religiosa, vivendo na cidade ou no campo e exercendo qualquer tipo de profissão. A medicina lida com o ser humano, individualmente ou em massa, como no caso das medidas preventivas, incluindo-se vacinações. A medicina participa da vida do ser humano na saúde e na doença, tratando deficientes e necessitados. É a única atividade que interfere diretamente na vida; exige educação profissional contínua ao longo da profissão; respeito ético e humanismo; estabelece relação direta médico-paciente; coloca o interesse do paciente acima do interesse pessoal do profissional. Tem responsabilidades ilimitadas e enfrenta toda sorte de situações e conseqüências, desde as de uma extensa operação bem conduzida, até mesmo aquelas causadas por efeitos inesperados de um simples comprimido ingerido.
Continua...


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