Através da bíblia gênesis itamir Neves de Souza John Vernon McGee


O nascimento de Isaque. Agar no deserto



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O nascimento de Isaque. Agar no deserto

Gn 21.1-34

Pelo menos três assuntos se destacam no capítulo 21 de Gênesis:

     1.     O nascimento de Isaque (v. 1-7).

     2.     A ida de Agar e Ismael para o deserto (v. 8-21).

     3.     A aliança estabelecida entre Abraão e Abimeleque (v. 22-34).

Devemos relembrar que tratamos a respeito da repetição do pecado da mentira na vida de Abraão e de Sara. Depois da última experiência diante do rei Abimeleque, provavelmente eles se dispuseram a abandonar a mentira e Deus, então, cumpriu a sua promessa e lhes deu o filho prometido.

Os sete primeiros versos deste capítulo dizem:

1. Visitou o Senhor a Sara, como lhe dissera, e o Senhor cumpriu o que lhe havia prometido.

2. Sara concebeu e deu à luz um filho a Abraão na sua velhice, no tempo determinado, de que Deus lhe falara.

3. Ao filho que lhe nasceu, que Sara lhe dera à luz, pôs Abraão o nome de Isaque.

4. Abraão circuncidou a seu filho Isaque, quando este era de oito dias, segundo Deus lhe havia ordenado.

5. Tinha Abraão cem anos, quando lhe nasceu Isaque, seu filho.

6. E disse Sara: Deus me deu motivo de riso; e todo aquele que ouvir isso vai rir-se juntamente comigo.

7. E acrescentou: Quem teria dito a Abraão que Sara amamentaria um filho? Pois na sua velhice lhe dei um filho.

Este é um relato bonito. Aprendemos com ele que quando abandonamos o nosso pecado Deus cumpre a sua promessa em nossa vida. O pecado é um grande obstáculo para as bênçãos do Senhor. A expressão “No tempo determinado, de que Deus lhe falara” é significativa porque em Gálatas 4.4 temos uma frase semelhante: Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho. Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho nascido da mulher e sob a lei.

Assim temos uma boa semelhança entre o nascimento de Isaque e o de Jesus. Ambos só vieram no tempo determinado por Deus, no tempo certo. Não há erros de cálculos ou de tempo em Deus. Ele marca as coisas e os eventos para o tempo e para o lugar certo. Ele é Senhor também do tempo. Ele nunca está atrasado ou adiantado. Sempre age na hora certa, apesar dos anseios, da pressa ou do atraso dos homens. Deus tem tempo para tudo e coloca os acontecimentos no tempo próprio. Isaque só veio no tempo determinado, apesar da pressa de Abraão e Sara durante mais de uma década depois da promessa divina.

O relato do nascimento de Isaque concluiu a história de esterilidade de Sara que havia começado em Gênesis 11.27-32. O cumprimento da aliança é destacado. Os três envolvidos agiram de acordo: Deus manteve sua promessa de dar um filho a Abraão, através de Sara; Abraão respondeu com obediência, dando o nome de Isaque ao filho, e logo o circuncidou; Sara agiu através da adoração, conforme os versos 6 e 7.

Vemos que Sara ficou maravilhada com o milagre que Deus fez na sua vida, pois o nascimento de um filho naquelas circunstâncias só poderia ser um milagre. Sara teve razão em pronunciar aquelas palavras. Quem soubesse, teria de rir. E ela mesma estava rindo de alegria. Foi algo surpreendente o que Deus lhe fez.

Abraão tinha cem anos e ela noventa. Não havia condições humanas para terem um filho. Paulo, em Romanos 4.19-22, fez referência ao fato como se tratando de uma intervenção direta de Deus, visto que humanamente não haveria nenhuma condição para isso. Porém, para Deus tudo é possível.

Ele não conhece limitações nas suas obras. Muitas vezes impedimos suas ações por falta de fé, pensando que Ele não pode fazer aquilo que não podemos. Medimos o seu poder com o poder humano. E é por isso que Deus não faz maiores maravilhas em nós e através de nós.

Mas o texto prossegue e temos, nos versos 8 a 21, o relato da expulsão de Agar e Ismael como complemento do capítulo 16, no qual todos os interessados tinham agido impulsivamente sem medir as conseqüências e foram obrigados a conviver com o resultado de seus atos por quatorze anos.

Sara, que arquitetou o plano, teve que enfrentar o desprezo da serva. Agar, que não agiu corretamente, teve que enfrentar o ciúme e a dureza de sua senhora. Abraão, que não teve pulso e não creu em Deus, teve que experimentar a desarmonia no lar e as implicações de ter um filho fora do plano divino.

O texto dos versos 8-11 nos diz:



8. Isaque cresceu, e foi desmamado. Nesse dia em que o menino foi desmamado, deu Abraão um grande banquete.

9. Vendo Sara que o filho de Agar, a egípcia, o qual ela dera à luz a Abraão, caçoava de Isaque,

10. disse a Abraão: Rejeita essa escrava e seu filho; porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho.

11. Pareceu isso mui penoso aos olhos de Abraão, por causa de seu filho.

Aqui temos uma aplicação para a nossa vida espiritual. Vemos que enquanto Isaque não tinha nascido as pessoas se suportavam sem nenhum grande conflito. Mas após o seu nascimento a luta começou. Aqui temos bem exemplificado o problema das duas naturezas que Paulo descreve em Gálatas 4.21-31: a natural e a espiritual. Duas naturezas diferentes, juntas, geram conflitos.

Isto ilustra bem o que acontece com uma pessoa que se converte. Antes da sua conversão ela possui apenas a antiga natureza, a natureza adâmica. Depois da conversão, ao lado desta antiga natureza, surge a natureza espiritual, e então, a luta começa. As duas naturezas se digladiam porque são opostas entre si.

Cada crente sabe que esta é uma verdade na sua vida. O apóstolo, em Romanos 7.19 disse: Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Naturalmente o apóstolo está se referindo aqui ao tempo em que já era convertido, fazendo alusão à luta existente entre as duas naturezas. A nova natureza, a espiritual, é que deve dominar a nossa vida, e não a natureza antiga, a adâmica, inclinada ao pecado.

E Paulo ainda fala a respeito dessa batalha em Gálatas 5.16-20, advertindo que a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne. Ele diz: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. E é este o segredo da vida vitoriosa do crente: andar segundo o Espírito de Deus, e não segundo a carne.

Mas voltando novamente ao texto, vemos Abraão e Sara com um problema bem sério. Ismael caçoava, zombava do pequeno Isaque. Esta atitude para Sara era muito difícil, era impossível de suportar. Era mais uma das conseqüências do seu pecado, da sua incredulidade e da sua precipitação. Foi a própria Sara que propôs a vinda de Ismael para o seu lar, e Abraão, que era o líder de casa, aceitou sem discutir, sem pensar e sem refletir. Mas tratava-se de um pecado contra Deus, um pecado de falta de fé, de incredulidade; um erro que Deus nunca aprovou. Estavam colhendo os frutos ou as conseqüências da falta que haviam cometido.

Então, surge um novo plano, mais uma vez arquitetado por Sara: expulsar Agar juntamente com Ismael, um adolescente de 14 ou 15 anos. O texto diz que isso não agradou a Abraão, porque Ismael também era seu filho. Mas não havia condições dos dois viverem juntos. Eram duas naturezas diferentes. Era impossível a convivência dos dois na mesma casa.

As duas naturezas do crente, a carnal e a espiritual, jamais podem se harmonizar. O crente carnal é aquele que deseja agradar as duas ao mesmo tempo. Falando sobre a pessoa que possui duas vontades, Tiago 1.7-8 diz: Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos. O crente que alimenta as duas naturezas vive numa espécie de “esquizofrenia espiritual”. Crucificar a carne, a antiga natureza, é o segredo da normalidade cristã.

O verso 8 diz que Isaque foi desmamado e Abraão ofereceu um grande banquete. Isaque não precisava mais de leite ou de papinhas para se alimentar. Já podia ingerir alimentos sólidos. Esse pequeno detalhe também pode ser aplicado espiritualmente. Como tem sido o nosso desenvolvimento espiritual? Estamos nos alimentando somente de leite, como crianças, ou já estamos ingerindo alimentos sólidos que é o cardápio para os adultos, para os experimentados?

Vale a pena notar que ainda bem novo, mas já desmamado, Isaque estava sendo confrontado pela zombaria e escárnio de Ismael. Esta rivalidade, que começou aí, ainda não terminou. Os descendentes de Isaque e de Ismael ainda estão se digladiando. Os descendentes de Ismael continuam antagonistas da nação de Israel, descendente de Isaque. Esta luta tem acompanhado os séculos. Deus disse que seria assim desde o princípio, desde o aparecimento de Ismael, e assim tem sido até agora e o será até a vinda de Cristo para reinar com o seu povo.

Nesse ponto, vale a pena destacar o que muitos estudiosos têm visto – os dez paralelos existentes entre o nascimento de Isaque e de Cristo:

     1.     Ambos foram prometidos. Isaque foi prometido aos seus pais e o cumprimento da promessa só veio 25 anos depois. Cristo foi prometido muitos séculos antes. Podemos dizer que Deus prometeu trazer Cristo ao mundo ainda no livro de Gênesis, no começo da história humana. Ele é a semente da mulher que esmaga a cabeça da serpente.

     2.     Ambos foram motivo de interrogação de suas mães. Deus precisou dizer a Sara, por meio do anjo, que nada é demasiadamente difícil para Ele. Maria disse também que era virgem, e que não conhecia nenhum homem. E o anjo lhe disse: Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas (Lc 1.37).

     3.     Ambos tiverem nomes indicados pelo próprio Deus antes de nascerem.

     4.     Ambos nasceram no tempo indicado ou determinado por Deus.

     5.     Os dois nascimentos foram milagrosos, embora de maneiras diferentes, pois só Jesus nasceu por obra exclusiva do Espírito Santo.

     6.     Ambos trouxeram muita alegria para suas mães. Isaque provocou riso em Sara e o seu próprio nome significa sorriso, alegria. Maria, no seu cântico, disse: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador (Lc 1.47-48).

     7.     Ambos foram sempre obedientes aos pais. Isaque, que era um homem de mais de trinta anos quando foi colocado como sacrifício, poderia ter discordado de Abraão, mas não o fez. Jesus, mesmo pedindo ao Pai que passasse dele aquele cálice, submeteu-se a sua vontade.

     8.     Ambos foram oferecidos por seus pais. Isaque foi entregue por Abraão a Deus, e Hebreus 11.17 diz que pela fé, Abraão, quando posto a prova, ofereceu Isaque… Jesus foi entregue pelo Pai como prova do grande amor de Deus pela humanidade.

     9.     Ambos foram ressuscitados dos mortos. Isaque, em sentido simbólico, mas com toda a força, … porque considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou (Hb 11.19). E, Jesus, de fato, ressuscitou (Mc 16.6-9).

     10. Ambos deram a seus pais a descendência desejada. Isaque gerou a Jacó e daí surgiu a nação israelita. Jesus, por sua vez, originou a nova humanidade, composta dos verdadeiros filhos de Deus.

Nos versos 12 a 21, diante do pesar de Abraão, Deus lhe esclareceu seus planos lembrando que Isaque, e não Ismael, era o filho da promessa. E, Deus prometeu fazer de Ismael uma grande nação por ser ele filho de Abraão, promessa que Deus cumpriu fielmente.

O texto continua e completa a narrativa mostrando que Agar e Ismael foram despedidos com água e pão e, já no deserto, quando acabaram os alimentos, levantaram a voz e choraram. Deus, ouvindo-os, enviou seu anjo com as palavras consoladoras dos versos 17 a 21:

17. … Não temas; porque Deus ouviu a voz do menino, daí onde está.

18. Ergue-te, levanta o rapaz, segura-o pela mão, porque eu farei dele um grande povo.

19. Abrindo-lhe Deus os olhos, viu ela um poço de água, e, indo a ele, encheu de água o odre, e deu de beber ao rapaz.

20. Deus estava com o rapaz, que cresceu, habitou no deserto, e se tornou flecheiro;

21. habitou no deserto de Parã, e sua mãe o casou com uma mulher da terra do Egito.

Agar era egípcia e Ismael se casou com uma egípcia. Os seus descendentes são os árabes, que continuam sendo antagônicos aos israelitas, descendentes de Isaque.

Que preciosas lições também temos aqui! Deus não abandonou Agar e Ismael na hora da maior necessidade e cumpriu a palavra dada a Abraão, fazendo de Ismael uma grande nação.

Nos versos 22 a 34 é firmada a aliança de Abraão com Abimeleque, rei de Gerar, que havia sido enganado anteriormente por Abraão e Sara. Sem dúvida houve uma grande transformação na vida do casal depois daquele episódio de mentira e incredulidade. Foi esta mudança que possibilitou o cumprimento da promessa de Deus de dar-lhes Isaque.

Esta mudança foi notada por Abimeleque que querendo garantir que ele e suas futuras gerações não seriam mais enganados com mentiras procurou Abraão para propor-lhe uma aliança.

Abimeleque havia descoberto que Abraão era um homem abençoado por Deus e por isso disse: Deus é contigo em tudo que fazes… (v. 22). Eles estabeleceram a aliança e chamaram o local onde ela foi feita de Berseba, porque ali ambos juraram (v. 31). E diz ainda mais o texto sagrado: Plantou Abraão tamargueiras em Berseba e invocou ali o nome do Senhor, Deus eterno (v. 33). Mais uma vez vemos Abraão, apesar dos altos e baixos, priorizando e mantendo a comunhão com Deus.

Que nós possamos, apesar de nossas falhas, sermos vistos como pessoas que contam com Deus em tudo o que fazemos e que invoquemos continuamente o nome Dele para gozar de sua intimidade.

Deus prova Abraão pedindo Isaque

Gn 22.1-19

No capítulo 22 encontramos o teste mais desafiador a que Abraão foi submetido na sua vida. Ele foi testado em todas as suas forças. Deus ordenou que oferecesse no altar o seu querido filho Isaque, o filho da promessa. E Abraão, sem questionar, obedeceu.

Na verdade Abraão não chegou a sacrificar Isaque, porque no momento exato da execução Deus interveio e revogou a ordem. Mas ele foi fiel e agiu em obediência à Palavra de Deus e assim foi justificado. Diante desse fato surge em nossas mentes uma questão doutrinária importantíssima: somos salvos apenas pela fé?

Em referência a esse teste,Tiago 2.21-23 fala sobre a maneira pela qual Abraão foi justificado:



21. Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque?

22. Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou,

23. e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus.

Ainda usando o exemplo de Abraão num outro momento de sua vida, em Romanos 4.19-22 o apóstolo Paulo argumenta que Abraão: … sem enfraquecer na fé, … não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, … estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça.

A grande pergunta que podemos fazer aqui é: existe alguma divergência entre essas argumentações? Nenhuma. De modo algum! Tanto uma quanto a outra estão corretas. Enquanto Tiago estava se referindo as obras da fé, e não as obras da lei para a justificação, Paulo estava se referindo à justificação, destacando a necessidade e o valor da fé.

Os dois afirmam que ninguém pode ser justificado diante de Deus pelas obras da lei, mas pela fé, isto é, pela fé prática. Ninguém será considerado justificado apenas por uma declaração de fé. Por quê? Porque não conseguimos mostrar o que se passa em nosso interior. Lá os homens não vêem. Só Deus pode ver a nossa fé, só Ele conhece o nosso coração e, por isso, nos justifica.

Mas os homens podem nos considerar justificados somente pelas nossas obras de fé, porque é isso o que eles vêem. A nossa fé eles não enxergam, mas as nossas obras sim. Ao entregar Isaque e levantar o cutelo para sacrificá-lo, Abraão estava demonstrando essa obra da fé. Estava demonstrando obediência. A prova da fé se dá pela obediência. A prova do amor se dá através da obediência. Essa é a verdade a ser praticada!

Os versos 1 e 2 do capítulo 22 nos dizem:



1. Depois dessas coisas, pôs Deus Abraão à prova e lhe disse: Abraão! Este lhe respondeu: Eis-me aqui!

2. Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei.

Antes de prosseguirmos com a leitura do texto, vamos ver o significado da palavra provar. O que ela quer dizer? Deus prova as pessoas? Sim, Deus prova nossa fé. Deus prova nosso amor. Deus nos prova de várias maneiras, mas não nos tenta. Tiago é muito claro, quando diz que Deus a ninguém tenta: Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta (Tg 1.13). Nós somos tentados pelos nossos próprios sentimentos de fraqueza. O inimigo das nossas almas nos tenta, porém Deus nos prova, nos testa.

Abraão foi provado por Deus, mas não tentado. A entrega do seu filho amado foi de fato uma prova, um teste que exigiu muito de Abraão. Era um teste muito grande para Abraão, mas Deus conhecia a sua capacidade de suportá-lo, por isso o testou assim. E por que o testou? Para que a sua fé crescesse ainda mais, como podemos ver no final desta narrativa.

Deus permite que sejamos testados para que a nossa fé seja desenvolvida, mas não permite que o limite que podemos suportar seja ultrapassado. Quando Ele nos prova, ou permite que sejamos testados, providencia logo os meios para alcançarmos a vitória. É isso que Paulo nos ensina em 1Coríntios 10.13: … juntamente com a tentação, [Deus] vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar].

A prova a que Abraão foi submetido foi singular: Deus ordenou que ele sacrificasse o filho no altar. Isaque deveria ter aproximadamente 30 anos, como vemos em 21.34 e 23.1, pois ele nasceu quando Sara tinha 90 anos, e sua morte se deu aos 127 anos… Isaque, então, era um homem. Deus disse a Abraão para entregar Isaque, seu único filho, a quem ele amava, para oferecê-lo em holocausto.

O local onde Abraão levantou o altar para sacrificar Isaque não é exatamente conhecido. Pode ter sido o mesmo lugar onde foi erguido o templo de Jerusalém, pois em 2Crônicas 3.1 é dado o nome de monte Moriá ao lugar onde Salomão edificou o templo.

Hoje, o “monte Moriá” é ocupado pela “Abóbada da Rocha”, uma grande mesquita muçulmana erguida em 691 d.C., onde existe uma grande saliência rochosa no seu interior. Nesse local, segundo a tradição, Abraão ofereceu Isaque.

Neste capítulo encontramos dois paralelos entre a vida de Isaque e a vida de Cristo:

     1.     Ambos são filhos únicos. Mas como pode ser isso? Abraão não tinha Ismael, como filho? É verdade, mas quando Ismael, junto com Agar, foi mandado embora, Isaque ficou como único filho. E de modo semelhante, quando o primeiro Adão perdeu a sua posição de filho de Deus, por causa do pecado, tornando-se apenas criatura de Deus, só Jesus se tornou o único filho de Deus.

     2.     Ambos foram amados por seus pais. Isaque era amado por Abraão, pois era o filho prometido, esperado tão ansiosamente. Jesus era amado pelo Pai, que se expressou assim: Tu és meu filho amado, em quem me alegro (Lc 3.22).

Entregar o único filho, o filho amado, foi um grande desafio para a fé de Abraão. Mas o texto dos versos 3 e 4 nos surpreende, pois diante de tantos altos e baixos que vimos em sua vida, poderíamos esperar mais uma falha, mais uma desconfiança. Porém, o texto relata:

3. Levantou-se, pois, Abraão de madrugada e, tendo preparado o seu jumento, tomou consigo dois dos seus servos e a Isaque, seu filho; rachou lenha para o holocausto e foi para o lugar que Deus lhe havia indicado.

4. Ao terceiro dia, erguendo Abraão os olhos, viu o lugar de longe.

A expressão “levantou-se de madrugada” demonstra a pronta obediência de Abraão ao chamado de Deus. Abraão ainda deu mais provas de uma fé consistente, pois preparou o jumento para o transporte, chamou os dois servos e Isaque (que por certo ainda dormia), e ainda rachou a lenha para o holocausto. Você pode imaginar isso? O que passava pela mente de Abraão logo após aquela ordem? Talvez estivesse fazendo as coisas sem pensar muito, ainda abalado pela ordem divina. Só reagiu em obediência. Foi trabalhando sem pensar.

Mas o teste ainda iria se complicar mais. Quando saiu não sabia para onde Deus o conduziria. Mas foram caminhando. Imagine a cena. Será que Abraão ficou calado? Será que foram conversando? Sobre qual assunto? O trajeto demorou três dias. Durante o percurso é que Abraão deve ter caído em si. Começou a pensar na ordem divina. Certamente lembrou-se da infância e do banquete que preparou quando Isaque foi desmamado. Certamente pensou na expulsão de Ismael. Será que fizera a coisa certa? De onde viria sua descendência? Você já imaginou quantas perguntas, quantas questões?

Nesses três dias Abraão foi testado. Se Deus lhe pedisse que entregasse Isaque, logo ali atrás de sua tenda, tudo acabaria rápido. Mas eles andaram por três dias. Dormiram por pelo menos duas noites. E sobre o que conversaram antes de dormir? Que teste!

Quando Abraão identificou o local que Deus apontou para o holocausto, deixou os dois servos esperando. Era um teste particular que envolveria ele e o seu único filho. Abraão deu a lenha para Isaque. Ele mesmo ficou com o fogo e o cutelo que representavam o julgamento e a execução, e prosseguiram.

Foi nesse momento que o teste ficou ainda mais intenso. No versos 7 Isaque dirigiu-se Abraão e disse: Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho! Perguntou Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?

Que pergunta difícil! Talvez, quando ouviu a pergunta, uma pequena lágrima tenha corrido de seus olhos, mas o seu coração estava firme. Ele estava confiante em Deus que poderia fazer qualquer coisa para reverter aquela situação. Tratava-se da sua descendência, prometida há tanto tempo, e que seria bênção para todas as famílias da terra.

Mas o que Abraão poderia responder? No verso 8, cheio de fé, Abraão respondeu: Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto; e seguiam ambos juntos.

O texto prossegue e os versos 9 e 10 relatam:

9. Chegaram ao lugar que Deus lhe havia designado; ali edificou Abraão um altar, sobre ele dispôs a lenha, amarrou Isaque, seu filho, e o deitou no altar, em cima da lenha;

10. e, estendendo a mão, tomou o cutelo para imolar o filho.

Qual foi o pensamento de Isaque? Será que ele questionou Abraão, ou de tão surpreendido ficou calado sem entender o que acontecia? E Abraão? Como se sentiu tendo que tomar aquelas atitudes? Abraão foi testado em todos os seus limites!

Não encontramos na Bíblia nenhum outro exemplo de sacrifício como este, a não ser o sacrifício do próprio Cristo. Nós sabemos que o sacrifício humano é errado. Os pagãos, no tempo de Abraão, tinham essa prática. Então, vemos Abraão sendo obrigado a fazer algo errado, moralmente falando, contra seu próprio filho.

Abraão estaria disposto a fazer aquilo que Deus estava mandando, algo tão sério mas aparentemente errado? Aparentemente, não! Totalmente errado! Moralmente errado! Tanto é que na lei, em Êxodo 20.13, o sexto mandamento foi claro em afirmar: “Não matarás”.

Como Abraão obedeceu a Deus num caso como esse sem questionar? Certamente ele pensou: “Eu sei que isso é moralmente errado, e ainda mais porque se trata de meu único e amado filho. Mas quem deu a ordem foi Deus, e sei que Ele sempre age certo, mesmo que no início me pareça errado. Faz tanto tempo que eu o sirvo, e até agora nada deu errado. Com Deus tudo sai sempre certo. Eu não entendo, não sei qual a razão dessa ordem divina, mas sei que tudo o que Ele faz, faz muito bem. Estou acostumado a ouvir a sua voz e a conversar com Ele. Por esta razão devo obedecê-lo, pois sei perfeitamente que pode até ressuscitar meu filho depois de morto”.

Diante da obediência completa de Abraão, o Anjo do Senhor lhe falou do céu: Abraão! Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui (v. 11). Deus interrompeu no momento certo! Deus sabe qual é o nosso limite.

Deus prova os seus filhos em qualquer tempo, das mais diferentes maneiras. Algumas dessas provações são grandes, profundas, mas todas têm o objetivo de aperfeiçoar a fé dos crentes. Somos grandemente beneficiados em nossa vida espiritual por meio dessas provas. Por meio destes testes, que vêm de Deus, vamos nos firmando em nossa vida com Deus. E é só na provação que a nossa fé se agiganta.

Muitas pessoas dizem que as árvores de lugares susceptíveis a tempestades e vendavais têm suas raízes muito mais profundas que as de outras regiões. Por quê? Porque o instinto natural de defesa da árvore é descer mais profundamente e com suas raízes bem firmadas escapar das diversidades provocadas pelas tempestades. Assim também é a fé em Deus. Nas adversidades, ela se aprofunda mais na Palavra de Deus. Ela cresce, ela se fortalece, ela se agiganta diante das tempestades e perigos da vida.

A fé de Abraão se agigantou depois dessa prova suprema. E não nos consta que depois desta experiência ele tenha sido provado dessa maneira, com essa intensidade, uma outra vez. Certamente Abraão deve ter enfrentado outras provas, porque o crescimento da fé continua no crente enquanto ele vive, mas não com essa intensidade. Nunca devemos ignorar ou estranhar a presença de problemas e contrariedades em nossas vidas, porque eles vêm para o fortalecimento de nossa fé.

O texto ainda continua e salienta que Deus revelou finalmente o seu propósito com essa experiência. O verso 12 diz assim: Então, lhe disse: Não estendas a mão sobre o rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho. Embora Deus já soubesse, por ser onisciente, queria ver até onde poderia contar com Abraão. Queria mostrar que contava com ele para iniciar um plano concreto de trazer o homem novamente para perto de si. E isso aconteceria através da nação de Israel e, posteriormente, através de Jesus Cristo, filho de Davi, bendito, que vinha em nome do Senhor! Para que tudo isso acontecesse, Abraão foi experimentado ao máximo.

Deus já tinha providenciado o carneiro para o holocausto, e Abraão agora o vê preso pelos chifres num arbusto. O verso diz: … tomou Abraão o carneiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho.

O texto de 1Coríntios 10.13, que já mencionamos, diz que junto com a provação Deus nos dá também o escape. Assim, o holocausto foi feito e no verso. 14 vemos que Abraão colocou o nome daquele lugar de Jehovah-jireh, que significa “O Senhor proverá”.

O relato desse sacrifício termina de maneira mais tranqüila, trazendo mais confiança a Abraão, assim como a todos nós. Nos versos 15 a 18, em resposta a obediência de Abraão, isto é, em resposta à fé prática dele, Deus novamente renova a sua promessa àquele que chamou. Jurando por si mesmo, pois não existe alguém superior a Ele, garantiu a Abraão que sua descendência seria como as estrelas dos céus e como a areia da praia do mar. Por quê? No final do verso 18 encontramos a resposta: … Porquanto obedeceste à minha voz.

Você percebe o valor da obediência? Que cada um de nós seja obediente, demonstrando assim a nossa fé em Deus!

Mas alguém poderá perguntar: “Por que Deus exigiu isso de Abraão?”. E a resposta só pode ser esta: Deus não somente quis provar a fé daquele que seria o pai da fé de todos os cristãos, mas mostrar em Isaque um tipo de Jesus Cristo que foi oferecido no altar da cruz.

Houve uma provisão para Isaque que foi substituído no altar, mas para Jesus não houve nenhuma substituição. Jesus foi oferecido na cruz do Calvário. Era por meio de Cristo que Abraão podia ser uma bênção para muitas nações. E Abraão cria nisso. Em Isaque, pela fé, o próprio Abraão via o seu Salvador. Isaque era apenas um tipo de Cristo, porque o Salvador só veio séculos depois. Mas por meio daquele sacrifício de Isaque, Deus estava revelando a Abraão e a todos os seus filhos, da época do Antigo Testamento, o que iria acontecer com Jesus Cristo na cruz.

O próprio Senhor Jesus disse em João 8.56 que Abraão se alegrou ao ver o seu dia, ao compreender o plano salvífico de Deus e por fazer parte dele. Deus pregou o evangelho a Abraão por meio de Isaque. E todos os homens, antes e depois da cruz, são salvos apenas em Cristo, por meio de Cristo.

Jesus Cristo na cruz sempre foi a única maneira de Deus salvar o homem. Enquanto nós olhamos para a cruz no passado, Abraão e os demais crentes do Antigo Testamento olhavam para Cristo na cruz no futuro. Mas todos somos salvos somente por Cristo.





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