Através da bíblia gênesis itamir Neves de Souza John Vernon McGee


O encontro e o casamento de Isaque e Rebeca



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O encontro e o casamento de Isaque e Rebeca

Gn 24.33-67

Antes de estudarmos a segunda parte do capítulo 24, vale a pena destacar que essa história é interpretada por muitos estudiosos de uma maneira simbólica, de uma forma alegórica. Isso quer dizer que os elementos que ela contém nos fazem lembrar de uma outra história ainda mais importante.

Esses estudiosos comparam Isaque com Jesus Cristo, Eliézer com o Espírito Santo e Rebeca com a Igreja. E assim como Isaque, Rebeca e Eliézer, Jesus, sendo o noivo, espera pela igreja, enquanto o Espírito Santo a prepara e a qualifica para o futuro encontro, para o futuro casamento. São símbolos interessantes através dos quais podemos fazer aplicações espirituais, mas certamente quando estudamos e meditamos na narrativa que envolve os personagens históricos, temos também lições importantes para as nossas vidas.

Na seqüência do texto, encontramos a gentil recepção da família de Rebeca a Eliézer. Eles lhe ofereceram um jantar reconfortante, mas a sua reação foi surpreendente. O servo não queria comer antes de expor o seu propósito. Ele estava preocupado com a sua missão, e a comida não podia ser saboreada devidamente, senão depois que expusesse tudo claramente diante da família de Betuel.

A presença de Eliézer ali tinha uma finalidade específica e ele não podia descansar enquanto não cumprisse sua tarefa. As palavras literais do verso 33 são: Não comerei enquanto não expuser o propósito a que venho. Labão o autorizou falar. Então, conforme dizem os versos 34 a 48, o servo narrou de forma bem completa qual tinha sido a tarefa que Abraão lhe havia designado.

Eliézer identificou-se sem dizer o seu nome. Disse que era servo de Abraão, demonstrando humildade e destacando a pessoa do seu senhor, a quem Deus abençoara com muitos bens, tornando-o um grande homem. Disse também que o Senhor tinha abençoado a Abraão e a Sara, mesmo já idosos, com o nascimento de Isaque, que agora era o herdeiro de todos aqueles bens. Ao descrever como Deus abençoara a Abraão, Eliézer demonstrou também clara consciência de que toda a boa dádiva que recebemos vem de Deus que é galardoador.

Eliézer descreveu ainda mais detalhadamente a sua missão a Betuel e a toda a família reunida. Disse como Abraão o fizera jurar que não escolheria uma moça cananita para Isaque, mas que, ao invés disso, iria procurar uma moça na casa do seu pai, pertencente à sua família. Contou que Abraão tinha fé que o Anjo seria enviado, fazendo com que essa tarefa tão importante fosse completada com êxito. Eliézer disse que se a moça escolhida não quisesse acompanhá-lo, ele ficaria desobrigado do juramento feito a Abraão. Falou sobre o que tinha acontecido depois que chegou ao poço e como Deus mostrou claramente quem seria a moça que se tornaria a esposa de Isaque.

Depois de narrar tudo minuciosamente, Eliézer concluiu seu relato com as palavras do verso 49: Agora, pois, se haveis de usar com benevolência e de verdade para com o meu senhor, fazei-mo saber; se não, declarai-mo, para que vá, ou para a direita ou para a esquerda. Eliézer queria uma definição porque desejava cumprir plenamente esta etapa da sua missão. Ele queria saber se deveria continuar procurando ou se havia encontrado a noiva certa para Isaque.

Betuel e Labão, diante da narrativa de Eliézer, não tiveram dúvidas sobre quanto a mão de Deus estava em tudo aquilo: Isto procede do Senhor, nada temos a dizer fora da sua verdade. Eis Rebeca na tua presença; toma-a e vai-te; seja ela a mulher do filho do teu senhor, segundo a palavra do Senhor (v. 50, 51). A missão de Eliézer estava sendo bem-sucedida, exatamente como acontece quando buscamos a vontade de Deus e andamos de acordo com a sua Palavra. Quando nos baseamos na Palavra de Deus sempre obtemos êxito.

E diante da possibilidade concreta do sucesso de sua missão, Eliézer mais uma vez foi grato a Deus. Pela terceira vez ele orou, prostrando-se em terra diante do Senhor Deus. O servo de Abraão não achou que o êxito de sua missão se devia aos seus métodos, a sua inteligência, ao sistema adotado ou ainda a sua diplomacia. Ele reconhecia que a vitória vinha do Senhor Deus.

Aprendemos através dessa narrativa que ao invés de nos gloriarmos devemos reconhecer as ações de Deus. Será que vemos sua mão em todos os momentos de sucesso? A gratidão a Deus e a alegria por aquilo que tem feito por nós deve nos levar a expressar isso em dádivas para o próximo. E foi assim que Eliézer se comportou: Tirou jóias de ouro e de prata, e vestidos e os deu a Rebeca; também deu ricos presentes a seu irmão e a sua mãe (v. 53).

Deve-se destacar a seriedade com que Eliézer cumpriu a sua missão. Só depois de tudo definido é que se sentaram para jantar. O verso 54 diz: Depois, comeram, e beberam, ele e os homens que estavam com ele, e passaram a noite. De madrugada, quando se levantaram, disse o servo: Permiti que eu volte ao meu senhor. Agora estava na hora de voltar. Eliézer tinha pressa após ter obtido tanto sucesso na sua missão.

Mas no verso 55, Labão e a mãe da moça disseram: Fique ela ainda conosco alguns dias, pelo menos dez; e depois irá. Ora, por razões muito justas, Eliézer não aceitou aquela sugestão. Disse que o Senhor Deus havia abençoado grandemente a sua viagem, encontrando aquela a quem viera buscar, e então, nada mais justo do que retornar rapidamente para o seu senhor com a noiva de seu filho. Se Deus o tinha dirigido até aquele momento, então, queria completar com urgência a sua missão.

Deus tinha em Eliézer um instrumento eficiente para a execução dos seus propósitos. Ele foi diplomata e generoso, mas também firme, decidido e corajoso. A sua missão não podia ser prejudicada pela intervenção de ninguém. Eliézer disse, no verso 56: Não me detenhais, pois o Senhor me tem levado a bom termo na jornada; permiti que eu volte ao meu senhor.

Quando Deus está dirigindo a nossa vida, devemos ter muito cuidado com a interferência das pessoas, mesmo que sejam parentes ou amigos. Temos de manter firmeza, embora com cautela, para não ferirmos a sensibilidade dos outros. Eliézer justificou-se bem, negando-se a aceitar a proposta de ficar mais dez dias na casa de Rebeca. Os pais tinham concordado com tudo. A moça já havia sido entregue, tendo eles reconhecido que se tratava da vontade de Deus. Então, por que demorar mais? Quem poderia garantir que um homem como Labão não mudaria posteriormente de pensamento e de sentimento, propondo algo diferente? Ele estava respondendo pela família, e pelo que sabemos, não era um homem confiável, como verificaremos no capítulo 29, quando enganou Jacó.

Não podemos ceder em nossos objetivos diante das propostas mais simples e aparentemente inocentes. Eliézer expôs fielmente o assunto e os esclarecimentos necessários foram dados. Deus operou por meio da sua exposição. Tudo foi convincente e claro. Todos se convenceram e concordaram. Eliézer, que era inteligente, fiel e cumpridor dos seus deveres, não se deixou levar por idéias sentimentalistas e por interesses humanos. Insistiu definitivamente.

Mas conforme sugeriram a mãe e o irmão, quem daria a última palavra, quem decidiria, seria a própria Rebeca. Apesar de se tratar de uma época tão antiga, a moça foi consultada: Disseram: Chamemos a moça e ouçamo-la pessoalmente. Chamaram, pois, a Rebeca e lhe perguntaram: Queres ir com este homem? Ela respondeu: Irei (v. 57, 58). Essa foi de fato uma palavra decisiva. Por isso e por todos os outros detalhes, Rebeca era, de fato, a noiva digna para Isaque. Ela era corajosa, decidida e romântica. Diante de todos os fatos percebeu que aquela era a vontade de Deus. Estava pronta para partir e estar ao lado de seu futuro esposo. Tinha o direito e a liberdade de decidir e, então, decidiu: “Irei!”.

Esta atitude de Rebeca nos lembra a prontidão que devemos ter ao sermos chamados por Cristo. A Igreja de Cristo é formada de pessoas decididas e intrépidas. No momento certo cada uma delas disse: “Irei”. Quando Jesus convidou os seus primeiros discípulos, vários eram pescadores, mas eles disseram: “Vamos”. Abandonaram as redes e os barcos e seguiram ao Mestre. Mateus, quando chamado, abandonou a coletoria e seguiu a Jesus imediatamente.

A decisão de Rebeca foi tomada diante de fatos bem significativos. Ela não se prendeu aos pais ou ao lugar onde viveu. Ele queria ir para Canaã, onde Isaque, o seu amado, morava. Rebeca não seria digna de Isaque se preferisse ficar com os seus familiares. Mas estava decidida a chegar logo ao lado dele, e por isso aceitou partir sem nenhum adiamento. É necessário que haja em nós este mesmo interesse, esta mesma prontidão para seguirmos a Cristo. Há muita gente que quer seguir a Jesus, mas fica adiando, deixando para amanhã, deixando para depois. Há um ditado que diz que o adiamento é o ladrão do tempo e o ladrão do tempo é o assassino da oportunidade.

Mas, voltando ao texto, lemos nos versos 59 a 61:



59. Então, despediram a Rebeca, sua irmã, e a sua ama, e ao servo de Abraão, e a seus homens.

60. Abençoaram a Rebeca e lhe disseram: És nossa irmã; sê tu a mãe de milhares de milhares, e que a tua descendência possua a porta dos seus inimigos.

61. Então, se levantou Rebeca com suas moças e, montando os camelos, seguiram o homem. O servo tomou a Rebeca e partiu.

A partir desse momento uma longa caminhada foi iniciada. A viagem era em lombo de camelos, e isso era desconfortável. Mas certamente o tempo foi passando rapidamente enquanto Eliézer contava detalhes da vida de Isaque para Rebeca. Provavelmente ela ficou sabendo sobre o seu nascimento milagroso e as dificuldades que tinha com Ismael. Certamente ouviu com muito interesse sobre a experiência no monte Moriá, quando ele foi oferecido por Abraão em holocausto a Deus.

Assim Rebeca foi reconhecendo que Isaque era parte de um plano especial do Senhor. E agora Deus tinha um plano para a vida dos dois. Eles seriam pais de muitas nações, seriam pais de multidões. O casamento deles não seria como outro qualquer, mas estava ligado às promessas de Deus e a grandes acontecimentos futuros. Cada detalhe se revestia de suma importância.

Então, conforme dizem os versos 62 a 65, já na terra de Canaã, a expectativa da moça chegou ao fim. Num determinado momento ela viu um jovem, ao longe, e perguntou quem era ele. Eliézer respondeu que era Isaque. Ela desceu do camelo e se cobriu com o véu. Aquele era um momento emocionante para ela. Finalmente estava ali o jovem que havia dominado o seu pensamento e o coração durante os últimos dias.

A expectativa era grande, mas no seu interior Rebeca sabia que não iria desagradar a Isaque, pois era formosa, simpática, amigável, serviçal, e tinha todos os pendores de uma esposa ideal. Além de tudo, Deus a tinha conduzido até ali. O texto não entra em detalhes sobre este encontro, mas o capítulo finaliza com essas palavras: O servo contou a Isaque todas as coisas que havia feito. Isaque conduziu-a até à tenda de Sara, mãe dele, e tomou a Rebeca, e esta lhe foi por mulher. Ele a amou; assim, foi Isaque consolado depois da morte de sua mãe (v. 66, 67).

Realmente essa é uma história muito bonita. Ela nos lembra, como alguns interpretam, o encontro que Cristo terá com a sua Igreja nas nuvens, quando Ele voltar. A Igreja está sendo cuidada pelo Espírito Santo e se preparando para esse precioso encontro. É importante que saibamos se pertencemos ou não a igreja de Cristo. Temos que ter certeza de que um dia nos encontraremos com Jesus.

Oremos e nos dediquemos para que a Igreja esteja devidamente preparada, que se apresente sem mácula, sem ruga, sem defeito, para que seja digna de um noivo como Cristo. O Espírito de Deus que a está preparando para aquele encontro maravilhoso necessita ter liberdade em nossas vidas. E, assim, que Ele esteja nos preparando individualmente para esse precioso momento!

A morte de Abraão e os seus descendentes

Gn 25.1-34

O capítulo 25 de Gênesis pode ser dividido em cinco parágrafos:

     Primeiro –      Os descendentes de Abraão, através de Quetura (v. 1-6).

     Segundo –      A morte de Abraão, o primeiro patriarca (v. 7-11).

     Terceiro –      Os descendentes de Ismael (v. 12-18).

     Quarto –      Os descendentes de Isaque (v. 19-26).

     Quinto –      Esaú vende o seu direito de primogenitura.

Esses temas e registros são relevantes na seqüência da história da formação do povo de Israel e certamente trazem importantes lições para nós.

No primeiro parágrafo, que inclui os versos 1 a 6, encontramos um relato interessante: Abraão casou-se com uma mulher chamada Quetura. 1Crônicas 1.32 a apresenta como concubina de Abraão. Existe a possibilidade desse relacionamento ter se iniciado quando Sara ainda vivia. Mas se não adotarmos essa posição, e aceitarmos a ordem cronológica, Abraão teria na época 140 anos de idade, porque viveu ainda mais 45 anos depois do casamento de Isaque (v. 7, 20).

Um outro detalhe que deve ser observado é que Abraão gerou seis outros filhos com Quetura, aumentando a sua grande descendência. Esses filhos apontam Abraão como antepassado de muitas tribos árabes, grupos dispersos pelas regiões desérticas situadas a leste de Canaã e mais ao sul, próximos da Arábia. Dessas tribos, a mais conhecida, e com menção em vários textos bíblicos, é Mídiã que deu origem aos midianitas. Foi para o meio desse povo que Moisés fugiu, casando-se ali com Zípora (Êx 2.11-22; Jz 6.8). Tempos depois eles se tornaram inimigos da nação israelita.

Quando Deus faz alguma coisa, faz de um modo que sempre ultrapassa os nossos limites e a nossa imaginação. Abraão não somente gerou Ismael, como gerou Isaque, o filho da promessa; mas além deles gerou uma grande família por meio de Quetura, cumprindo assim a promessa de que seria o pai de muitas nações. Deus sempre cumpre o que promete. Deus é fiel. Ele não falha!

Um outro detalhe a ser destacado nesses primeiros versos refere-se ao cuidado que Abraão dispensava a seu filho amado. Os versos 5 e 6 dizem que o patriarca deixou tudo o que possuía para Isaque, mas para os outros filhos deu presentes e os enviou para longe de Isaque. Nessa atitude é fácil percebemos o quanto Abraão foi dedicado à Isaque, o filho da promessa. Certamente esse é o mesmo cuidado, a mesma atenção que devemos dar aos nossos filhos. Mas a verdade é que muitas vezes nos ocupamos com muitos afazeres e não dispensamos a devida atenção aos filhos que Deus nos deu. Não podemos nos esquecer que eles são herança do Senhor. Que Deus nos ajude a instruirmos corretamente os nossos filhos.

O texto prossegue e temos, nos versos 7 a 11, um relato triste, mas ao mesmo tempo muito significativo sobre a morte de Abraão. É triste porque Abraão é um dos grandes personagens da Bíblia e a sua vida tornou-se exemplo para todos os tementes a Deus. Mas o relato é significativo também por algumas razões:

     1.     Abraão viveu 175 anos, quando a média da idade para os seres humanos depois do dilúvio era de 120 anos. Essa idade avançada significava bênção de Deus.

     2.     Abraão morreu em ditosa velhice, isso é, em boa velhice. Morreu em paz, como Deus prometera em Gênesis 15.15.

     3.     Abraão “foi reunido ao seu povo”, isto é, foi sepultado no mesmo local em que Sara. Mas ao mesmo tempo, essa expressão em hebraico significa que o falecido entrou na morte para se juntar com seus ancestrais, sugerindo assim a vida após a morte.

     4.     Abraão foi sepultado pelos seus dois filhos,Ismael e Isaque. Este fato indica que por maiores que fossem as diferenças entre os dois, a honra, o amor e o respeito ao pai falecido motivou essa união especial, mesmo que temporária.

     5.     Abraão, mesmo depois de morto, obteve de Deus o cumprimento das promessas que afirmavam que Isaque, o seu filho amado, seria abençoado por Deus.

A vida de Abraão é um bom exemplo e um desafio para todos nós. Que possamos nos espelhar nela!

O texto prossegue e, nos versos 12 a 18, encontramos o relato da descendência de Ismael. Este filho de Abraão se multiplicou e não esteve sob as ordens de ninguém, indicando sua independência. Em certa medida, Ismael e sua descendência foram sombra para a descendência de Isaque.

A frase do verso 18, ele se estabeleceu fronteiro a todos os seus irmãos, pode significar que ele morreu na presença dos seus irmãos, mas é muito mais provável que indique que viveu em hostilidade com seus irmãos (16.12). Os doze filhos de Ismael foram notáveis em seu tempo, porém não fizeram parte da história da salvação, privilégio que coube à descendência de Isaque. E de novo aprendemos que Deus cumpre suas promessas, Deus cumpre os seus planos e não os planos humanos. O nosso Deus é fiel!

Nesse ponto devemos relembrar e destacar o método que o Espírito Santo, autor da Bíblia Sagrada, usou quando através de Moisés registrou estas diversas linhagens. Ele apresentou, em primeiro lugar, a linhagem que não tinha grande interesse espiritual, e depois apresentou e enfatizou a linhagem por meio da qual foi escrita a história da salvação que vai até Jesus Cristo. Depois de apresentada a linhagem de Ismael, temos a descendência de Isaque, o filho da promessa, o filho amado de Abraão.

Nos versos 19 a 26 encontramos a narrativa do nascimento dos filhos gêmeos de Isaque e Rebeca. De 19 e 20 lemos: São estas as gerações de Isaque, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaque; era Isaque de quarenta anos, quando tomou por esposa a Rebeca, filha de Betuel, o arameu de Padã-Arã, e irmã de Labão, o arameu. É esta a linhagem que a Bíblia destaca e é a que vamos seguir.

Devemos destacar que o verso 21 afirma que Rebeca também era estéril. Porém Isaque orou ao Senhor e sua oração foi respondida e sua esposa ficou grávida. O texto, dos versos 22 e 23, diz:



22. Os filhos lutavam no ventre dela; então, disse: Se é assim, por que vivo eu? E consultou ao Senhor.

23. Respondeu-lhe o Senhor: Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço.

Aqui encontramos um assunto realmente intrigante. Embora o normal fosse o filho mais moço servir ao mais velho, temos a clara afirmação da escolha soberana de Deus que Paulo, em Romanos 9.10-12, explica tão bem:



10. E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai.

11. E ainda não eram gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama),

12. Já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço.

Na realidade, é isso o que vemos quando lemos as Sagradas Escrituras. Existiu uma luta contínua entre as duas nações através da história. As nações de Edom e Israel sempre tiveram relações conflitantes, conforme lemos em Obadias, no verso 10. O conflito que começou no ventre materno era uma profecia que foi cumprida quando os descendentes de Esaú, os edomitas, foram muitas vezes subjugados por Israel até que finalmente foram incluídos e diluídos pelo estado judaico durante o período intertestamentário.

Nos versos 24 a 26 encontramos particularidades sobre o nascimento dos gêmeos:

     1.     O mais velho era ruivo, todo revestido de pêlos.

     2.     O nome que lhe foi dado, Esaú, pode significar “cabeludo”.

     3.     O mais novo segurava o calcanhar do mais velho, como que querendo nascer primeiro, suplantando o mais velho.

     4.     O nome que lhe foi dado, Jacó, pode significar “enganador”, palavra que no hebraico soa semelhante a “calcanhar”.

     5.     A idade de Isaque é destacada: 60 anos. Ele teve o primeiro filho bem mais cedo que seu pai que só o teve aos 100 anos.

Sobre estes versos é importante sabermos que alguns intérpretes percebem nessa luta um símbolo da batalha que existe no campo espiritual entre a luz e as trevas, entre o espírito e a carne. Todo filho de Deus conhece algo a respeito deste conflito que existe entre a carne e o espírito. Nesse simbolismo, esta é a luta mencionada por Paulo em Romanos 7.21: Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Esta é a luta entre a antiga e a nova natureza. Uma luta a que todo cristão é submetido. A nova natureza só vence quando vivemos no Espírito, sob o controle e a direção dele.

Nos últimos versos deste capítulo temos ainda um texto bem sugestivo a considerar. Os versos 27 a 34 descrevem o desenvolvimento dos gêmeos. Eles cresceram e Esaú tornou-se um perito caçador, um homem do campo. Jacó, porém, tornou-se um homem pacato, um homem das tendas, isto é, mais caseiro. Eram gêmeos, todavia tinham personalidades e objetivos de vida bem divergentes. Tinham sido gerados em conjunto, mas cada um via a vida de maneira diferente, tinham personalidades distintas.

De certa maneira é possível contextualizar a vida desses dois irmãos. Esaú representa o tipo do jovem que se preocupa em desenvolver seu físico, gosta de sair e de praticar esportes. Provavelmente tem uma boa turma de amigos, sai para fazer grandes aventuras e gosta muito de divertir-se, mas infelizmente não dá importância aos valores espirituais, não se interessa pelo desenvolvimento da sua vida interior. Esse tipo de pessoa pode representar a carne. Mas, não estamos aqui condenando o aspecto físico e esportivo da vida. É até recomendável que ele seja desenvolvido para termos boa qualidade de vida. O que criticamos é o descaso com o aspecto espiritual. Quando não valorizamos o que deve ser valorizado, todo o nosso ser padece.

Enquanto isso, Jacó representa um outro tipo de jovem, um outro tipo de vida. É a vida mais retirada, mais introspectiva, que se adequa mais aos pensamentos, aos planos e ao desenvolvimento mental. Com essas características é sábio e astuto, e, por ser também reflexivo, dá mais atenção para as coisas espirituais. Por ser mais caseiro, podemos chamá-lo de “filhinho da mamãe”.

Há também uma nota de fundamental importância no verso 28: Isaque amava a Esaú, porque se saboreava de sua caça; Rebeca, porém, amava a Jacó. Eis aí a descrição de um grande problema. O conflito entre os pais era nítido, porque havia preferências dentro de casa. Isaque preferia a Esaú, enquanto Rebeca preferia a Jacó. O texto diz que Isaque gostava de saborear os apetitosos pratos preparados pelo próprio Esaú, resultado de suas saídas ao campo para caçar. Por outro lado, Rebeca amava a Jacó, pois era um jovem caseiro, um filho que a ajudava nos trabalhos domésticos. E, conforme a profecia que Rebeca recebera, sabemos que Deus estava preparando este jovem, o mais novo dos irmãos, reservado e reflexivo, para fazer parte do seu plano universal. Jacó daria seqüência à descendência prometida a Abraão.

Na verdade, Jacó tinha muitas falhas, como vamos focalizar depois, mas Deus, através de um processo bem específico, foi moldando o seu caráter, libertando-o dos pecados e preparando-o para ser aquele que transmitiria depois esta mesma herança espiritual ao seu filho José. As suas verdadeiras habilidades espirituais, o seu verdadeiro dom espiritual, Jacó só revelou muito depois, muito mais tarde na vida.

Nos versos 29 a 34, encontramos a descrição de um episódio que mudou a história desses dois irmãos. Certo dia Jacó havia preparado um bom ensopado. O aroma tinha se espalhado pela tenda. Então, Esaú entrou cansado de suas andanças pelos campos. Ele estava com fome. Ao sentir o aroma gostoso pediu ao seu irmão um pouco daquele cozido vermelho. É interessante notarmos aqui um jogo de palavras no hebraico, feito entre o nome de Edom e a palavra vermelho, dando origem ao nome de sua descendência: os edomitas, os vermelhos.

A narrativa prossegue e Jacó, vendo o desejo compulsivo e apressado do irmão, respondeu fazendo-lhe uma proposta. Lembre-se de que Jacó era o pensador. Dos dois irmãos, era o mais esperto, ardiloso, enquanto Esaú era direto, objetivo e rápido em suas decisões. Jacó, então, diz no verso 31: Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura.

Esaú estava com fome. Não tinha tempo para ficar pensando. Sua resposta foi taxativa: Estou a ponto de morrer; de que me aproveitará o direito de primogenitura? (v. 32). Essa é a resposta típica de alguém impulsivo, de alguém que se preocupa só com o momento. De que valeria o direito de primogenitura àquela hora? A primogenitura era importante por dois aspectos: primeiro porque abrangia o direito a uma porção dupla da herança em relação aos demais irmãos; e segundo, porque nessa família da aliança abrangia também a essência da bênção de descendência e a posse da terra. Mas Esaú queria matar a sua fome. Jacó insistiu. Pediu que Esaú jurasse. E no verso 33 vemos que Esaú jurou e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó.

E o capítulo termina com Esaú abrindo mão do que tinha direito: Deu, pois, Jacó a Esaú pão e o cozinhado de lentilhas; ele comeu e bebeu, levantou-se e saiu. Assim, desprezou Esaú o seu direito de primogenitura (v. 34).

Jacó era uma pessoa astuta que estava sempre tramando e queria levar vantagem em tudo. Com sua esperteza, tentava conquistar aquilo que Deus já tinha prometido. Em muitas ocasiões, essa também é nossa atitude. Desprezamos o tempo de Deus, a sua Palavra, e agimos por conta própria. Agimos precipitadamente!

Esaú desprezou um direito tão importante e especial que tinha, trocando uma bênção divina por uma satisfação momentânea e passageira. Aquele direito não representava nada para ele e também para muitas pessoas. Valores espirituais são rejeitados em detrimento das alegrias e satisfações momentâneas e passageiras. Infelizmente essa atitude que Esaú demonstrou também é praticada por nós.





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