Através da bíblia gênesis itamir Neves de Souza John Vernon McGee


Jacó prepara a reconciliação com Esaú e luta com Deus



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Jacó prepara a reconciliação com Esaú e luta com Deus

Gn 32.1-32

O capítulo 32 pode ser dividido em duas partes:

     Parte 1 –     Jacó prepara-se para encontrar com Esaú (v. 1-21)

     Parte 2 –     A narrativa da luta de Jacó com Deus (v. 22-32)

Os versos 1 e 2 relatam que os anjos do Senhor vieram ao encontro de Jacó e sua comitiva. Jacó reconheceu a presença e a bênção do Senhor e chamou aquele local de Maanaim. No capítulo 29, Jacó começa a colher, a ceifar aquilo que havia plantado. Que final feliz para uma história tão tumultuada! Graças a Deus por sua graciosa mão.

Assim como Betel era “a casa de Deus” e “o portão do céu”, conforme vimos em 28.17, Maanaim era o “acampamento de Deus na terra”. Jacó saiu do acampamento de Labão e agora estava no acampamento de Deus. De fato foi uma maravilhosa mudança, uma promoção que demonstrava o cuidado e a atenção do Senhor para com esse patriarca que faria parte da origem da nação eleita para representar Deus entre as demais.

Como já constatamos, Jacó era um homem reflexivo, pensador e estrategista, características que podem ser identificadas na sua volta à Canaã, quando ele encontraria de novo seu irmão Esaú.

Jacó tinha cometido erros, cometera faltas, era um homem enganador e suplantador, como o seu próprio nome significava, mas foi o escolhido do Senhor para ser o herdeiro das promessas. Deus estava transformando-o e ajudando-o a mudar os valores da sua vida. Isso se deu através da dura disciplina na casa de Labão e, agora, se daria na experiência e na luta que teria com o próprio Deus.

Certamente ele tinha mudado muito durante os últimos vinte anos, mas necessitava de novas transformações, de novas experiências, de um novo conhecimento de Deus. O crente deve sempre crescer na graça e no conhecimento de Cristo Jesus. Cristo é o nosso alvo, a estatura de varão perfeito. Então, Ele é nosso padrão. Vale a pena nos questionarmos, nos avaliarmos. Temos que alcançar esse padrão estabelecido por Deus. Que Deus nos ajude a nos submetermos ao seu trabalho em nossas vidas para nos tornarmos cada vez mais semelhantes a Jesus Cristo.

Mas voltando ao texto, vemos a estratégia de Jacó na sua reaproximação com Esaú. Jacó sabia que ainda não estava livre das conseqüências dos seus maus negócios com o irmão. O relacionamento entre os dois não havia sido acertado. Jacó sabia disso, e estrategicamente enviou mensageiros a seu irmão com a notícia de que estava voltando e queria contar com a compreensão e o perdão dele. Os versos 3 a 5 nos relatam que os mensageiros foram adiante de Jacó, à terra de Seir, no território de Edom. Jacó instrui os enviados a falarem a Esaú humildemente.

Os mensageiros foram e voltaram dizendo que Esaú vinha em sua direção com 400 homens não para saudá-lo, ou recepcioná-lo amistosamente, mas para vingar-se. Esaú não havia esquecido de como fora enganado por Jacó, e agora estava disposto a enfrentá-lo e a vingar-se. Então, Jacó temeu e começou logo a lançar mão de mais uma estratégia humana: Então, Jacó teve medo e se perturbou; dividiu em dois bandos o povo que com ele estava, e os rebanhos, e os bois, e os camelos. Pois disse: Se vir Esaú a um bando e o ferir, o outro bando escapará (v. 7, 8).

Era uma boa estratégia. Demonstrava a sua esperteza. Jacó esperava que funcionasse bem. Mas esse plano era humano e não lhe dava nenhuma segurança concreta. Só que, dessa vez, finalmente, ele resolveu apelar para Deus. Eis o que dizem os versos 9 a 12:



9. E orou Jacó: Deus de meu pai Abraão e Deus de meu pai Isaque, ó Senhor, que disseste: Torna à tua terra e à tua parentela, e te farei bem;

10. sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com o teu servo; pois com apenas o cajado atravessei este Jordão; já agora sou dois bandos.

11. Livra-me das mãos de meu irmão Esaú, porque eu o temo, para que não venha ele matar-me, e as mães com os filhos.

12. E dissestes: Certamente eu te farei bem e dar-te-ei a descendência como a areia do mar, que, pela multidão, não se pode contar.

Aqui, sim, temos uma oração correta. Talvez tenha sido esta a primeira oração verdadeira de Jacó. Foi a primeira vez que ele disse que não merecia as bênçãos de Deus. Jacó reconheceu que era um pecador indigno diante de Deus. Ele disse que veio para aquele lugar somente com um cajado, e agora estava conduzindo dois grandes bandos.

Existem muitas pessoas achando que não são assim tão más, nem que são pecadoras. O crente verdadeiro sabe que é pecador, e que só pela graça divina recebe os favores do céu. Ele reconhece que é salvo somente pela graça. Ninguém se salva porque é bom, ninguém entra no céu porque é bom. Em Romanos 3.23, Paulo diz que todos pecaram e carecem da glória de Deus. A não ser que o pecador passe por uma transformação espiritual e receba uma nova natureza, não poderá entrar no reino do céu. Precisamos nos avaliar com toda a honestidade diante de Deus. Ninguém é justo e merecedor do céu. Porque todos nós somos pecadores indignos, deve ficar claro que só herdaremos o céu através da maravilhosa graça de Deus.

Jacó reconheceu ser indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que Deus tinha usado para com ele. Seu raciocínio estava certo. Aqueles vinte anos de provações, de disciplina, não foram desperdiçados. Quando reconhecemos isso estamos no caminho certo. Às vezes, o homem só chega a este momento de confissão diante de uma crise como essa que Jacó estava atravessando.

Esaú vinha em sua direção para vingar-se. Jacó deixou de confiar em si mesmo, nos seus métodos, nas suas estratégias, e entregou o problema a Deus, confessando antes o seu pecado. Jacó estava num momento de crise, e é exatamente neste momento que as bênçãos espirituais chegam. Essa tem sido a experiência de muitos que desistem de si mesmos e confiam totalmente em Deus. Não precisamos esperar pelos momentos de crise; antes deles surgirem devemos entregar a Deus o controle das nossas circunstâncias.

Junto com a sua oração e sua entrega a Deus, nos versos 13 a 15 vemos que Jacó preparou um grande presente para Esaú. Era uma demonstração de boa vontade. A fé e a confiança em Deus não impedem de usarmos o bom senso e a sabedoria. Era um belo presente; eram muitos bens, o que demonstrava que Jacó era realmente riquíssimo. Jacó foi muito liberal, foi generoso, foi sábio. Era, de fato, um grande presente para o seu irmão.

Ao continuarmos a leitura, vemos que Jacó entregou-os aos seus servos, cada rebanho à parte, e orientou-os como deveriam conduzi-los (v. 16). E ainda acrescentou nos versos 17 a 21:

17. Quando Esaú, meu irmão, te encontrar e te perguntar: De quem és, para onde vais, de quem são estes diante de ti?

18. Responderás: São de teu servo Jacó; é presente que ele envia a meu senhor Esaú; e eis que ele mesmo vem vindo atrás de nós.

19. Ordenou também ao segundo, ao terceiro e a todos os que vinham conduzindo os rebanhos: Falareis dessa maneira a Esaú, quando vos encontrardes com ele.

20. Direis assim: Eis que o teu servo Jacó vem vindo atrás de nós. Porque dizia consigo mesmo. Eu o aplacarei com o presente que me antecede, depois o verei; porventura me aceitará a presença.

21. Assim, passou o presente para diante dele; ele, porém, ficou aquela noite no acampamento.

Aqui vemos Jacó agindo depois de orar. Dessa vez sua intenção não estava errada. Ele tentava conquistar a simpatia e a complacência de Esaú. Os preciosos presentes e os rebanhos que mandou para o irmão não poderiam, por si só, alterar a situação, o rumo das coisas; mas a oração, sim. Deus poderia usar aqueles rebanhos para aplacar o coração de Esaú. Jacó também fez suas esposas, as duas servas e todos os seus onze filhos com todos os seus bens atravessarem o vau do Jaboque, um afluente do rio Jordão (v. 23).

Jacó sentia que tinha que orar ainda mais, e assim fez. Ele atravessou os seus rebanhos e todas as suas posses e foi ao acampamento para ficar só, para passar a noite orando. O relato do verso 24 é muito interessante: Ficando ele só; lutava com ele um homem, até o romper do dia. Jacó estava sozinho nesse lado do rio e uma grande luta com Deus estava sendo travada. Era uma luta desigual. Era uma batalha com um ser celeste. E o texto nos diz que Jacó estava lutando com Deus.

Alguns intérpretes crêem que esta luta se deu por meio da oração. Jacó estava sozinho. Ele ficou só e orava. E para lutar com Deus, em oração, o homem tem que ficar só. As pessoas dizem que a solidão é a pátria das grandes almas. Quando é para lutar com Deus em oração, o melhor é estarmos sozinhos. É aí onde as grandes vitórias espirituais são conquistadas.

Jesus disse que quando quiséssemos orar deveríamos entrar em nosso quarto e fechar a porta e orar ao nosso pai, pois Ele vê em secreto (Mt 6.6). O quarto é um lugar onde podemos ficar a sós com Deus, onde podemos lutar com Ele. O quarto pode ser um lugar onde as grandes vitórias são alcançadas.

O homem que lutou com Jacó era um ser celeste, era o Senhor em forma de homem. O Senhor sempre aparecia desta maneira aos homens naquele tempo. Devemos relembrar da definição da palavra “teofania”: a aparição ou revelação da divindade; a manifestação de Deus. E aquela foi uma batalha realmente renhida, demorada. A luta durou até o romper do dia. Jacó lutou a noite toda. E o verso 25 prossegue: Vendo este que não podia com ele, tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a junta da coxa de Jacó, na luta com o homem.

Foi preciso que a coxa de Jacó fosse deslocada para facilitar a sua rendição. Isso nos ensina uma verdade muito importante. Muitas vezes é preciso que Deus nos fira para que rendamos a nossa vida a ele. Este ferimento pode ser feito de muitas formas, através de uma enfermidade, de um problema, de uma necessidade, de uma incompreensão. Qualquer coisa que nos fira, que nos quebrante será usada por Deus.

O Senhor se agrada de um coração quebrantado. Na luta com Deus é isso que faz toda a diferença. Jacó precisava render-se, entregar a sua vida, o seu ego, a sua vontade completamente a Deus. Mas talvez até inconscientemente ele se recusava. A maior luta do homem é exatamente a travada para defender o seu ego. Diante de Deus a nossa vontade vale pouco ou quase nada. Nós sabemos que a nossa vontade é imperfeita. Quebrá-la é difícil, mas é necessário.

Mas voltemos ao vale de Jaboque, onde Jacó estava lutando com Deus. O verso 26 diz: Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares. Temos aqui uma lição espiritual que precisamos aprender: perseverar na luta, insistir na oração. Jacó sabia com quem estava lutando e por isso queria ser abençoado. Jacó tinha recebido muitas bênçãos através dos anos, mas agora queria mais uma, queria uma bênção espiritual. Ora, se Deus havia dado bênçãos materiais a Jacó, muito mais interesse teria em dar-lhe as bênçãos espirituais. Porém o problema não está em Deus, está no homem, no pecador que nem sempre tem condições adequadas para receber as bênçãos do Senhor.

Deus queria abençoar Jacó. Então, lhe fez uma pergunta muito intrigante, como vemos no verso 27: Como te chamas? Para que Jacó recebesse a bênção de Deus ele tinha de dizer quem era na realidade. Tinha que dizer tudo a Deus, repetir o que já havia falado na sua oração anterior, admitindo que era um pecador, indigno, que era mesmo um Jacó, um enganador. E foi exatamente o que fez: Ele respondeu: Jacó (v. 27). E com esta resposta ele estava dizendo tudo. O seu nome significava suplantador. Sou Jacó, o suplantador, o enganador.

E a mesma coisa Deus exige de cada um de nós. Queremos receber as bênçãos, mas temos que dizer quem nós somos. Temos que confessar os pecados e render nossas vidas a Deus. É preciso que haja quebrantamento de coração.

Assuma quem você é diante de Deus. O nome de Jacó dizia tudo. Pode ser que Deus esteja lhe perguntando agora: Qual é o seu nome? Para você responder deve falar o seu nome e em seguida dizer o que na realidade tem feito, o que você é. Confesse o seu pecado a Deus, diga tudo. Por isso você deve ficar só, deve ter o seu lugar secreto para falar com Deus. Por isso Jacó ficou no vale de Jaboque sozinho. Eu sou Jacó. Eu sou suplantador. Eu tenho procurado levar vantagem em todos os negócios, usando meios desonestos, truques, mentiras. Eu sou Jacó.

Era difícil admitir, era vergonhoso admitir uma vida tão distante de Deus. Mas aquela vergonha se transformou em bênção. Eis o que disse o anjo que era Cristo, Cristo na forma de um anjo, Cristo pré-encarnado: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste (v. 28). Aqui está o momento mais significativo da vida de Jacó. Aqui morreu o velho homem e nasceu o novo. Houve transformação!

Ele não podia ser mais Jacó, agora era Israel, que significa “Deus luta”. Tinha um novo nome, um novo coração. Uma vida nova acompanha sempre um novo nome. Transformada foi para sempre a sua natureza e para sempre foi mudado o seu nome. Deus o mudou. Nada poderia ser mais significativo para a sua vida. E o texto continua: Àquele lugar chamou Jacó Peniel, pois disse: Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva. Nasceu-lhe o sol, quando ele atravessava Peniel (v. 30, 31). Que experiência maravilhosa. Depois de uma noite de lutas, um novo dia, um novo nome, uma nova vida! Nasceu-lhe o sol. Agora uma nova certeza. Que o sol nasça para cada um de nós também.

É interessante notarmos ainda que ao sair da experiência com Deus Jacó mancava. Isto é, Jacó tinha uma clara marca de que fora tocado por Deus. E é isso mesmo que acontece! Quando Deus nos toca, quando nos transforma, não é possível esconder. Todos podem ver. E, finalmente, o verso 32 nos diz que os israelitas não comiam o nervo do quadril dos animais, provavelmente o nervo ciático, pois foi nessa articulação que Jacó fora tocado por Deus.

Pode ser que Jacó tenha praticado posteriormente alguns dos truques de antes, levado naturalmente pela fraqueza. Mas ele, o homem novo que saiu do vale de Jaboque, o homem chamado Israel, jamais seria o mesmo.



O encontro de Jacó com Esaú

Gn 33.1-20

O primeiro verso do capítulo 33 diz: Levantando Jacó os olhos, viu que Esaú se aproximava, e com ele quatrocentos homens. Então, passou os filhos a Lia, a Raquel e às duas servas. Jacó queria saber quais eram as intenções de Esaú. Jacó queria saber por que Esaú estava acompanhado por 400 homens. Jacó precisava saber se teriam que travar uma batalha por causa das suas desonestidades do passado.

Jacó não imaginava o que se passava no coração do irmão mais velho. Tomou, então, medidas de precaução. Colocou as servas com seus filhos à frente, perfilou Lia e os seus filhos depois e, por fim, colocou Raquel e o pequeno José, organizando assim a sua família (v. 2). Jacó mesmo adiantou-se à comitiva e prostrou-se à terra sete vezes, até aproximar-se de seu irmão (v. 3). Essas sete inclinações demonstravam um sinal de submissão, o cumprimento de um vassalo diante do seu senhor nas cerimônias de uma corte real.

Ninguém sabe a partir de que distância Jacó começou a se prostrar antes de se encontrar com Esaú. Sem saber o que esperar, saiu prostrando-se pelo caminho até que se aproximou de Esaú. Com que coração vinha Esaú que anos antes tinha a intenção de matar o irmão? O que desejava ele agora? Haveria Deus mudado o seu coração? Sim! Foi exatamente que Deus fez!

Deus, assim como mudou o coração de Labão quando vinha furioso matar Jacó, transformou também o coração de Esaú. A reação que Esaú teve foi uma surpresa para Jacó: Então, Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou; arrojou-se-lhe ao pescoço e o beijou; e choraram (v. 4).

Este é um dos versos mais impressionantes e belos da Bíblia. Os dois irmãos se abraçaram, se beijaram e choraram. Qual foi a causa daquela completa transformação na vida de Esaú? A resposta é Deus. Jacó poderia pensar por alguns instantes que aquela mudança era resultado da sua estratégia de enviar vários rebanhos para aplacar a ira de Esaú, que vinha furioso. Mas não foi isso o que aconteceu.

Jacó se enganou se chegou a pensar assim, porque Esaú mostrou indiferença pelos presentes e pelos rebanhos oferecidos. Não os quis. Rejeitou-os. Então, a sua atitude amiga, amistosa, amável para com o seu irmão Jacó era devido a uma transformação de coração processada, promovida por Deus. É somente Deus que muda os corações.

Os versos 5 a 7 relatam que Esaú levantou os olhos e contemplou as mulheres e os meninos, e quis saber quem eram. Jacó testemunhou dizendo que eram os filhos com que o Senhor Deus o agradara. Foi um bonito testemunho. E, é assim que temos que reconhecer as ações divinas em nosso favor. Temos que nos lembrar que nossos filhos são herança do Senhor (Sl 127.3).

Imagine esta bonita cena: as quatro mulheres e os onze filhos de Jacó curvando-se diante de Esaú, em sinal de submissão, respeito e reverência. Quando Jacó saiu de casa, fugiu da presença de Esaú, pois o tinha enganado, tomando-lhe a bênção. Agora, depois de vinte anos, se reencontravam e, numa atitude humilde, todos se curvaram diante de Esaú pedindo-lhe perdão.

Mais intrigante ainda foi o que Esaú disse a respeito dos presentes: Qual é o teu propósito com todos esses bandos que encontrei? Respondeu Jacó: Para lograr mercê na presença de meu senhor (v. 8).

É perceptível, é fácil ver que a estratégia de Jacó de conseguir mercê, o perdão de Esaú, falhou completamente. Como dissemos antes, Deus pode usar os nossos meios, planos e recursos, quando eles são legítimos, puros, sadios, sem carnalidade, sem duplicidade nas intenções. Deus usa os nossos recursos quando isso lhe agrada. Mas muitas vezes Deus prefere fazer a obra sozinho, sem a nossa intervenção.

Nesse reencontro dos dois irmãos, Deus não usou os recursos de Jacó. Deus, e somente Ele, mudou o coração do irmão mais velho para que pudesse perdoar o mais novo. Esaú continuou rejeitando a oferta de Jacó, mas este insistiu. O relato dos versos 9 a 11 é significativo:



9. Então, disse Esaú: Eu tenho muitos bens, meu irmão; guarda o que tens.

10. Mas Jacó insistiu: Não recuses; se logrei mercê diante de ti, peço-te que aceites o meu presente, porquanto vi o teu rosto como se tivesse contemplado o semblante de Deus, e te agradaste de mim.

11. Peço-te, pois, recebe o meu presente, que eu te trouxe; porque Deus tem sido generoso para comigo, e tenho fartura. E instou com ele, até que o aceitou.

Que mudança de atitude! Antes os dois brigavam querendo possuir um mais do que o outro, e agora os dois insistiam em ceder, em presentear o outro com seus bens materiais. Houve uma transformação em ambos. E uma mudança assim só é processada por Deus. Conforme as palavras de Jacó ele viu no seu irmão não mais um inimigo, mas o próprio semblante de Deus. É claro que o Senhor estava controlando Esaú e fazendo com que aquele encontro fosse o mais amistoso possível. Certamente o que acontecia ali era o resultado da oração de Jacó no vale de Jaboque. A oração opera, a oração funciona, a oração faz maravilhas.

Vemos, então, os dois irmãos revelando certa indiferença por aquilo que antigamente mais os apaixonava: a riqueza. Depois disso, Esaú ofereceu seus préstimos a Jacó. Queria protegê-lo durante a viagem. Os versos 12 a 15 nos colocam a par de mais um diálogo entre os irmãos:

12. Disse Esaú: Partamos e caminhemos; eu seguirei junto de ti.

13. Porém Jacó lhe disse: Meu senhor sabe que estes meninos são tenros, e tenho comigo ovelhas e vacas de leite; se forçadas a caminhar demais um só dia, morrerão todos os rebanhos.

14. Passe meu senhor adiante de seu servo; eu seguirei guiando-as pouco a pouco, no passo do gado que me vai à frente e no passo dos meninos, até chegar a meu senhor em Seir.

15. Respondeu Esaú: Então, permite que eu deixe contigo da gente que está comigo. Disse Jacó: Para quê? Basta que eu alcance mercê aos olhos de meu senhor.

Quanta gentileza. E de ambos os lados havia delicadeza e cortesia. Vemos nesse relato o tratamento amistoso e respeitoso que reinava entre Esaú e Jacó. Nem pareciam mais os irmãos que tanto se odiavam. Aqui, o respeito e a bondade são recíprocos. Esaú ofereceu a Jacó os seus 400 homens para dar a melhor proteção possível durante o resto da viagem. Jacó agradeceu, apresentando razões perfeitamente lógicas.

A aceitação dos presentes por parte de Esaú demonstrou que não havia mais mágoas em seu coração, era um sinal de que a amizade estava restabelecida. Mas por outro lado, Jacó não aceitou o favor de Esaú. Agradeceu a oferta da companhia de todos aqueles homens, considerando-a desnecessária, e alegou que o seu grupo se deslocava muito vagarosamente, e assim atrasaria o grupo de Esaú.

Jacó disse que estava muito satisfeito só pelo fato de Esaú ter se revelado amigo e demonstrado compreensão. Foi o que mais agradou a Jacó. E assim dispensou qualquer outro tipo de favor no momento.

Nos versos 16 e 17 Esaú voltou para Seir, exatamente pelo caminho de onde viera, e Jacó partiu para um lugar chamado Sucote onde fez uma casa para sua família e palhoças para seu gado.

É assim que Deus faz quando oramos. Os maiores problemas da nossa vida podem desaparecer como névoa quando os levamos até Ele. Aquilo que pareceria ser o maior perigo transformou-se em fator de segurança e proteção. Foi uma noite de oração no vale de Jaboque que transformou Jacó e também Esaú. Os corações mais duros e violentos podem ser mudados pelo poder da oração. Esta é uma experiência que pode acontecer em nossos dias. Deus é o mesmo hoje e a oração tem o mesmo poder sempre.

Vamos ler agora os últimos versos deste capítulo:

18. Voltando de Padã-Arã, chegou Jacó são e salvo à cidade de Siquém, que está na terra de Canaã; e armou a sua tenda junto da cidade.

19. A parte do campo, onde armara a sua tenda, ele a comprou dos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de dinheiro.

20. E levantou ali um altar e lhe chamou Deus, o Deus de Israel.

Muitos acreditam que Jacó não deveria ter se dirigido logo para Siquém. Poderia ter ido diretamente a Betel, onde teve aquela experiência tão boa com Deus. Mas ele dirigiu-se aquela cidade. O mais certo seria mesmo voltar a Betel, porém temos de lembrar que Jacó estava dando os primeiros passos na nova vida, na vida de Israel. Ele seguiu para Betel, mas somente depois de alguns acontecimentos trágicos.

Siquém é como se fosse o caminho para Betel. Ele estava indo passo a passo na direção de Betel e na sua vida espiritual. O crescimento espiritual nem sempre vem logo. Vemos a vida de Jacó dando muitas voltas até ele se tornar finalmente um homem de fé, um homem de Deus.

Jacó é um desses crentes que chega a plenitude espiritual com muita demora, mas chega. O pior na vida de muitos crentes é que nunca alcançam à maturidade, aquela firmeza na vida espiritual e na fé. Jacó foi chegando aos poucos, mas por fim chegou, e é isso que importa.

No itinerário rumo a uma vida vitoriosa, Jacó ainda enfrentaria muitas dificuldades. Siquém, o lugar escolhido para morar na terra de Canaã, trouxe-lhe grandes problemas. A experiência que teve naquela cidade nos mostra o quão perigoso é estarmos no lugar errado em nossas vidas. Não me refiro exatamente ao lugar onde moramos, mas ao estado espiritual em que nos encontramos.

A nossa vida é uma peregrinação, é uma jornada. Passamos por muitas experiências, e algumas delas são bem perigosas. A peregrinação do crente é espiritual e por isso está sujeita aos perigos, visto que as verdadeiras ameaças estão exatamente no mundo espiritual. Temos que estar certos sobre o nosso desenvolvimento espiritual. Temos que estar seguros das pessoas com as quais nos relacionamos. Temos que saber que influência espiritual elas têm sobre nós e que influência exercemos sobre elas.

Jacó estava crescendo espiritualmente, mas paulatinamente. E no verso final vemos um ato espiritual e maduro de Jacó: E levantou ali um altar e lhe chamou Deus, o Deus de Israel (v. 20). Com o crescimento vem a maturidade e os frutos começam a aparecer. Que procuremos sempre os meios adequados ao nosso crescimento espiritual; que busquemos a intimidade com Deus.




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