Através da bíblia gênesis itamir Neves de Souza John Vernon McGee


O conflito entre os filhos de Jacó e os siquemitas



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O conflito entre os filhos de Jacó e os siquemitas

Gn 34.1-31

No capítulo 34 de Gênesis vamos focalizar mais uma etapa da vida de Jacó. A vida desse homem é cheia de incidentes e por isso sempre desperta interesse. Não somente a sua, mas também a de sua família. Estamos diante de um capítulo de fatos muito tristes, mas que nos ensinam lições relevantes.

O contraste entre o culto prestado a Deus e o comportamento errado que será visto neste capítulo é marcante. Ao invés de se estabelecer em Siquém (33.18-20), Jacó deveria ter mudado para Betel. O relato desses versos é triste sobretudo porque não há, em momento algum, a menção de Deus.

Tal situação nos adverte em relação ao lugar onde moramos, com quem nos associamos e onde e com quem nos assentamos. Você deve se lembrar das palavras do Salmo 1.1: Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, que não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.

Jacó disse a Esaú que o seguiria até Seir, e mais uma vez não foi fiel à sua própria palavra. Foi para a terra de Sucote, onde habitou. De lá, ao invés de ir para Betel, onde tivera a visão da escada celeste, foi para Siquém. Comprou ali terras e foi morar defronte da cidade.

Os versos 1 a 4 dizem:



1. Ora, Diná, filha que Lia dera à luz a Jacó, saiu para ver as filhas da terra.

2. Viu-a Siquém, filho do heveu Hamor, que era príncipe daquela terra, e, tomando-a, a possuiu e assim a humilhou.

3. Sua alma se apegou a Diná, filha de Jacó, e amou a jovem, e falou-lhe ao coração.

4. Então, disse Siquém a Hamor, seu pai: Consegue-me esta jovem para esposa.

Todos nós entendemos o que aconteceu e vemos, mais uma vez, a Bíblia condenando o abuso sexual tão praticado também em nossos dias. Basta ver quantos são os casos e as reportagens sobre a violência sexual. Quantas mulheres têm sofrido esse crime e quanto a justiça tem sido falha em punir os culpados. Mas, veja bem, esse não é um pecado novo, dos nossos dias.

Aqui temos um caso daqueles tempos remotos, demonstrando que a natureza corrompida e perversa do homem teve início na queda. No decorrer do texto verificamos todas as conseqüências funestas de um ato brutal de um jovem pertencente à camada mais alta da sociedade. Quanta tristeza e quanto sofrimento um jovem dominado por seus prazeres pode trazer às famílias!

Esse moço, chamado Siquém, filho do príncipe Hamor, por ser muito apressado e inconseqüente, trouxe sobre si, sobre sua família, sobre a família de Jacó e sobre todos os siquemitas uma tragédia sem precedentes. Tudo indica que lhe faltou moderação, paciência e o autocontrole que todo jovem precisa ter para, então, se casar normalmente. É que muitos se esquecem dos sentimentos e dos direitos dos outros, e por isso ultrajam tudo e todos, colocando os seus interesses e paixões acima de qualquer coisa.

Siquém tinha amor por Diná. Seu coração se apegou a ela. Ele pediu, então, a Hamor, seu pai, que conversasse com Jacó para que sua filha Diná se tornasse sua esposa. Mas todo esse amor, toda essa paixão, jamais deveria tê-lo levado a um ato precipitado, violentando a moça. Poderiam até ter se casado e acontecer uma aliança entre as duas famílias. Mas infelizmente a atitude impensada e precipitada de Siquém pôs tudo a perder.

Os versos 5 a 7 nos fornecem a seqüência da história:



5. Quando soube Jacó que Diná, sua filha, fora violada por Siquém, estavam os seus filhos no campo com o gado; calou-se, pois, até que voltassem.

6. E saiu Hamor, pai de Siquém, para falar com Jacó.

7. Vindo os filhos de Jacó do campo e ouvindo o que acontecera, indignaram-se e muito se iraram, pois Siquém praticara um desatino em Israel, violentando a filha de Jacó, o que se não devia fazer.

Todos nós sabemos o que uma situação como esta causa em qualquer tempo e até mesmo em nossos dias. Muitas famílias perdem o controle, ou, como se diz popularmente, perdem a cabeça quando enfrentam um caso semelhante ao de Diná, filha de Jacó.

Diná tinha onze irmãos, que eram do campo. Jacó foi omisso. Não reagiu. Talvez estivesse mais interessado em relacionar-se bem com os poderosos da cidade. Talvez poderia ter contornado a situação, porque numa circunstância como aquela, a melhor saída teria sido mesmo dar a filha em casamento. Ele contornaria a situação e evitaria uma desgraça maior. Se bem que o casamento misto era, e ainda é, contrário a Palavra de Deus. Porém numa circunstância como aquela seria a melhor solução. Se Siquém queria casar-se com Diná, então, que se casasse. E tudo poderia ter sido remediado.

Hamor, o pai de Siquém, com boas intenções, se dirigiu tanto a Jacó como aos irmãos de Diná, dizendo em termos bem amigáveis: A alma de meu filho Siquém está enamorada fortemente de vossa filha; peço-vos que lha deis por esposa (v. 8). E assim propôs uma união entre os povos. O próprio Siquém também disse ao pai e aos irmãos de Diná: Ache eu mercê diante de vós e vos darei o que determinardes (v. 11). Porque queria casar-se, estava disposto a concordar com o que lhe impusessem.

É claro que Jacó não iria aceitar todas as propostas do pai de Siquém, pois estaria comprometendo a sua própria missão de herdeiro da linhagem patriarcal abençoada. Ele não poderia se misturar. Jacó tinha a responsabilidade diante de Deus de manter limpa a sua linhagem. Não deveria misturar-se com os pagãos, com adoradores de deuses estranhos, adoradores de ídolos.

Jacó, porém, poderia ter aceitado a proposta de casamento feita a Diná, porque se tratava de um caso especial e a linhagem patriarcal não se daria por intermédio de uma filha mulher. Bem, a verdade é que todos aqueles oferecimentos do pai do jovem foram recusados. E a resposta dos filhos de Jacó foi taxativa, conforme vemos nos versos 14 a 16:



14. Não podemos fazer isso, dar nossa irmã a um homem incircunciso; porque isso nos seria ignomínia.

15. Sob uma única condição permitiremos: que vos torneis como nós, circuncidando-se todo macho entre vós;

16. então, vos daremos nossas filhas, tomaremos para nós as vossas, habitaremos convosco, e seremos um só povo.

O que é de lamentar nesta proposta dos filhos de Jacó é que eles não repreenderam e nem condenaram o mau caráter de Siquém, nem o ato de violência que ele havia praticado. Com suas palavras, destacaram apenas a questão da circuncisão, acima do caráter de Siquém. Talvez tenham tratado o assunto dessa maneira, porque já haviam arquitetado a tragédia final.

Eles argumentaram que pelo ato da circuncisão os habitantes da terra se tornariam prosélitos do judaísmo. Pertenceriam à mesma religião da casa de Israel. Mas veja bem, era possível tornar-se um prosélito e continuar tendo um mau caráter. Eles deveriam ter destacado, em primeiro lugar, a necessidade de Siquém viver corretamente e nunca mais cometer desatinos como aquele que certamente poderia ocorrer diante de outro impulso da carne.

Segundo os filhos de Jacó, para que houvesse casamento, seria necessário que se submetessem ao ritual da circuncisão. Então, tudo estaria acertado. Eles estavam errados, como errados estão todos aqueles que pensam que se uma pessoa recebe alguns sacramentos resolve todo o resto. Muitos hoje pensam que podem merecer o perdão divino e até a salvação mediante a prática cerimonial de alguns sacramentos efetuados pelo homem. Encontramos justamente aqui um dos grandes equívocos da religião concebida pelo homem.

Com esses atos, nada muda dentro do ser humano. O sacramento e a ordenança não modificam o homem. Somente quem é transformado pela graça de Deus pode receber os sacramentos ou as ordenanças, porque essas cerimônias são apenas símbolos de uma realidade espiritual que existe de verdade na vida do crente.

É por isso que podemos dizer que os filhos de Jacó estavam cometendo um sacrilégio, pois esvaziaram o sinal da aliança do seu significado religioso (17.10-11), e abusaram dele com a intenção de cometer um ato de vingança. Na verdade, os filhos de Jacó, ao responderem com falsidade e com segundas intenções, fizeram valer o ditado popular que diz, “tal pai, tal filho”.

Ora, como a prática da circuncisão poderia alterar o caráter de Siquém e dos seus conterrâneos? E nos dias atuais o que pode fazer um sacramento no sentido de transformar o coração do homem? Só Deus pode regenerar e salvar o ser humano.

Quando temos alvos claros e sinceros, quando desejamos obedecer corretamente ao Senhor, quando nossas intenções são explícitas e transparentes, aprendemos que é necessário tratar claramente a questão do coração, do caráter, da vida de intimidade com Deus, e não apenas do exterior, aquilo que se pode ver com olhos humanos.

Mas o texto prossegue e vemos nos versos 18 a 19 a reação de Hamor e de Siquém: Tais palavras agradaram a Hamor e a Siquém, seu filho. Não tardou o jovem em fazer isso, porque amava a filha de Jacó e era o mais honrado de toda a casa de seu pai. E logo foram à porta da cidade para declarar aos líderes do povo as exigências dos filhos de Jacó. E todos concordaram sem fazer qualquer objeção.

Aquela proposta foi aceita à porta da cidade, porque era a maneira pela qual as decisões coletivas eram tomadas naqueles dias Mas vemos aqui também uma religião de interesse material. Os homens daquela cidade não tiveram a menor resistência de se submeterem à circuncisão. Era somente aquilo? Qual era o problema? Não existia problema. Era uma mera cerimônia religiosa que não afetaria em nada a vida deles.

Um dos interesses que eles tinham era o carnal, pois aqueles homens queriam casar-se com as moças diferentes que tinham vindo de Padã-Arã, na comitiva de Jacó. Um outro interesse era o comercial, pois desejavam desfrutar da riqueza que Jacó tinha formado duramente em Harã, na casa de Labão. Não haveria nenhuma transformação interior.

Muitas igrejas crescem fácil e rapidamente quando não requerem de seus membros uma experiência verdadeira de salvação em Cristo. O que Jesus disse a Nicodemos serve para todos os homens: para se entrar no reino de Deus é preciso conversão e isso implica em arrependimento e fé. É preciso ser regenerado, é preciso nascer de novo, ter uma vida nova em Cristo (Jo 3.3). Isto não é reencarnação, porque ela não existe. Existe renascimento espiritual, que é a conversão, a mudança de vida.

Mas agora vamos ver como terminou este episódio tão triste. Houve algo repugnante que mostra a que ponto pode chegar o homem num momento de fúria, de raiva e de vingança. Levados pelo sentimento de ódio e, quem sabe, temendo que os moradores daquele lugar concretizassem a idéia de tomar toda a riqueza de seu pai, dois dos filhos de Jacó, irmãos de Diná, mataram os moradores daquela cidade.

O verso 25 nos diz que ao terceiro dia, quando os homens sentiam mais forte a dor, por causa da circuncisão, dois filhos de Jacó, Simeão e Levi, irmãos de Diná, tomaram cada um a sua espada, entraram inesperadamente na cidade e mataram os homens todos. Eles também levaram cativas mulheres e crianças.

Não é preciso dizer o quanto tudo isso foi lamentável. Nada pode justificar uma ação violenta como aquela. Os filhos de Jacó cometeram um crime incomparável. Eles estavam colocando em prática a parte final do plano maléfico. Talvez com medo da acolhida de Hamor e de Siquém que poderiam estar armando uma emboscada, um ardil para tomarem as riquezas de Jacó, os filhos de Jacó anteciparam o que poderia acontecer e cometeram aquele desatino, matando a todos.

Simeão e Levi eram irmãos legítimos de Diná. Eram filhos de Jacó e de Lia. Eles não se conformaram, guardaram rancor e, depois de planejarem, entraram na cidade e fizeram aquele morticínio.

Os filhos de Jacó tinham um tipo de religião muito rudimentar. Além disso, vinham da casa de Labão, de um ambiente onde não havia o temor de Deus, o que esclarece o fato do ressentimento de Simeão e Levi ter se transformado em matança. Essa vingança descabida, essa retaliação brutal, esse pecado injustificado trouxe terríveis conseqüências para Simeão e Levi, pois seus descendentes foram espalhados por lugares distantes, como veremos em 49.7, quando Jacó impetrou a bênção a seus filhos pouco antes de sua morte.

No final do capítulo, os versos 30 e 31 nos relatam a repreensão de Jacó a Simeão e a Levi, não porque eles tivessem errado, mas porque aquela atitude vingativa poderia prejudicá-lo e também a todos os seus.

Mas a defesa de Simeão e Levi diante da advertência do pai foi esta: Abusaria ele de nossa irmã, como se fosse prostituta? (v. 31). Levi e Simeão responderam ao pai tentando se justificar, mas ao mesmo tempo sendo arrogantes diante da aparente passividade de Jacó.

E as palavras do pai sobre as ações dos filhos não convenceu ninguém. Ele estava com medo da repercussão e das conseqüências daquele ato criminoso. Repreendeu os filhos, mas pelo motivo errado. Estava preocupado consigo mesmo e não em educá-los corretamente. Ora, é fácil percebermos que Jacó estava errado em julgar o caso apenas por este aspecto. Jacó deveria ter condenado o ato, a ação criminosa deles, e não se preocupar apenas com as conseqüências que poderia vir a sofrer.

O pecado deve ser combatido ou condenado de qualquer forma. Devemos rejeitar o pecado porque ele ofende a Deus. Ao invés de querermos fazer justiça ou vingar-nos com nossas próprias mãos, temos que confiar e deixar Deus exercer a sua justiça. Simeão e Levi deveriam ter dependido de Deus e não tentar fazer justiça com as próprias mãos. O Deus do céu, Deus justo e reto, faz a justiça.

Que Deus nos proteja de agirmos assim. Que Ele mesmo nos capacite a dependermos dele, deixando-O decidir sobre as injustiças que sofremos.

Jacó, nesse episódio, demonstrou passividade ao deixar os filhos tomarem a frente de assuntos que caberiam a ele resolver. Ele estava mais preocupado com as circunstâncias que o cercavam do que em repreender e ensinar aos filhos os princípios divinos. Ele deveria ter-lhes ensinado a viver uma vida de justiça, paz e santidade. Mas como sabemos, Jacó estava começando a sua nova vida, e ainda tinha muito que aprender.

Mas alguém pode perguntar: Como uma pessoa que foi tocada por Deus e teve até o seu nome mudado ainda pode ter atitudes como as de Jacó? Até mesmo os maiores homens de Deus são capazes de descerem um pouco das alturas espirituais e tomarem decisões erradas. Até os grandes homens de Deus são falhos, cometem erros e pecados. Na verdade, todos nós vamos caminhando e sendo “transformados de glória em glória”, na própria imagem de Cristo. Não é algo instantâneo. É algo que acontece depois de muitos erros e acertos! As mudanças na vida cristã normalmente ocorrem através de um processo.

Portanto, mesmo depois de ter tido aquela maravilhosa experiência no Vale de Jaboque, Jacó poderia ainda cair em fraqueza, como caiu em Siquém. Mas isso não quer dizer que ele não tenha experimentado alguma mudança espiritual. E certamente depois dessa experiência em Siquém, Jacó sentiu-se derrotado e viu a falência dos seus próprios recursos.

Ele estava no processo de crescimento e amadurecimento espiritual. Descobrira seus erros, mas ainda não tinha descoberto a fé verdadeira. Tanto é que depois de encontrar Esaú, depois da experiência em Peniel, no Vale de Jaboque, disse ao irmão que iria se encontrar com ele em Seir. Mas não foi o que aconteceu. Ainda usou de engano e esperteza, porque tomou um rumo diferente para Sucote e dali para a cidade de Siquém, onde aconteceu toda a tragédia. A fé lhe faltou, senão teria partido para Seir e depois para Betel. Era o rumo certo, era o rumo da fé, mas ele seguiu a direção errada, o rumo indicado pela própria mentalidade humana.

Muitos perguntam se depois que a pessoa se converte a carne pecaminosa desaparece. A verdade é que a carne, a antiga natureza, a natureza má, não desaparece. Ela pode ser crucificada, pode ficar inativa, mas sempre volta a operar na vida da pessoa, sempre que se sente solta e livre, sempre que é alimentada. Então, o crente precisa ficar sempre alerta para não dar lugar à carne, para não satisfazer os desejos humanos do seu coração.

Jacó em Betel, o nascimento de Benjamim e a morte de Raquel

Gn 35.1-29

Assim como o crente que ainda sofre as investidas da velha natureza, Jacó descobriu que aquele desagradável acontecimento ocorrido em Siquém revelava a necessidade de firmar-se ainda mais em Deus. Jacó descobriu que o seu lar não estava em ordem. Quem mandava eram os filhos. Imagine só a situação. Eram onze rapazes e parece que cada um queria mandar. Por esse motivo aconteceu aquele lamentável massacre. De qualquer forma, Jacó viu que tinha que imprimir ordem na família. E foi o que procurou fazer a partir daquele desastre.

No capítulo 35 vemos Jacó levantar-se pela fé, graças ao chamado de Deus: Disse Deus a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel, e habita ali; faze ali um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú, teu irmão (v. 1).

Deus mandou Jacó voltar para Betel, lugar onde teve a sua primeira grande experiência com Ele. Aquele era o lugar certo para Jacó. Ele deveria voltar para lá. Certamente depois dessa ordem de Deus, “levanta-te, sobe a Betel”, ele se lembrou que tinha feito um voto em Betel (28.20-22), quando estava fugindo de Esaú e teve a visão da escada.

Nos versos 2 e 3, Jacó passou a ter o controle sobre sua família e assumiu o papel de líder:

2. Então, disse Jacó à sua família e a todos os que com ele estavam: Lançai fora os deuses estranhos que há no vosso meio, purificai-vos e mudai as vossas vestes;

3. levantemo-nos e subamos a Betel. Farei ali um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia e me acompanhou no caminho por onde andei.

Ele passou a ter voz ativa, transmitiu uma ordem, uma determinação, assumiu a direção da família. E isso era necessário. Como qualquer instituição, o lar, a família precisa de liderança. Assim Jacó tomou nas mãos as rédeas do lar e passou a comandar todas as decisões. A ordem que ele dava agora à sua família e a todos os que com ele estavam tinha um custo, porque o arrependimento envolve a renúncia de qualquer coisa que atrapalhe a adoração e o culto a Deus. O pré-requisito fundamental do culto e celebração da aliança era a lealdade exclusiva a Deus.

A referência aos deuses estranhos no texto poderia indicar que Raquel ainda conservava consigo aqueles ídolos familiares que tinha furtado de seu pai. O próprio Jacó nada sabia, mas sem dúvida aqueles ídolos deveriam estar sendo adorados, e por isso é que deveriam ser lançados fora.

Jacó foi obedecido e o verso 4 nos diz que deram a ele todos os deuses estrangeiros que tinham em mãos e as argolas que lhes pendiam das orelhas; e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém.

Essa passagem deve levar você a refletir sobre a presença desses ídolos na sua vida. Existem ídolos feitos pelos homens, mas existem ídolos também dentro dos nossos corações. São aquelas coisas que guardamos lá no fundo, que sabemos que não agradam a Deus. Qualquer coisa que toma o lugar Dele em nossos corações é um ídolo.

Quando Jacó ordenou “lançai fora os deuses estranhos”, também ordenou “purificai-vos e mudai as vossas vestes”. Precisamos de vestes novas para entrarmos em Betel, isto é, em comunhão com Deus. Para vivermos em comunhão com Ele, temos de viver com vestes limpas, abandonar os nossos maus hábitos, os nossos pecados.

Jacó tinha a intenção de levantar um altar a Deus relembrando a proteção divina que o tinha alcançado no dia da angústia e o acompanhara por todo o caminho onde andara.

Aqui vemos Jacó com um plano maravilhoso. Abraão era o amigo de Deus, que levantava altares ao Senhor por onde quer que fosse. Isaque também levantou altares a Deus. Agora Jacó estava iniciando essa mesma prática. Isso revelava a sua fé, a sua consagração a Deus. Ele estava procurando andar pelos caminhos da fé. Poderia ter crescido muito mais, é verdade. Mas Deus mandou novamente Jacó recomeçar em Betel. Muitas vezes temos que retroceder um pouco. Precisamos recuar para avançar depois. Deus sempre nos manda para o lugar onde começamos uma nova fase em nossa vida espiritual.

O verso 5 relata: E, tendo eles partido, o terror de Deus invadiu as cidades que lhes eram circunvizinhas, e não perseguiram aos filhos de Jacó. Vemos aqui Deus protegendo seu povo, atemorizando os habitantes das cidades vizinhas. Os métodos usados por Deus para proteger os seus escolhidos são os mais diversos. Tudo está nas mãos do Senhor. Não há limite para o seu poder. Deus usa o temor como poder para paralisar os pés dos inimigos do povo de Deus.

Os versos 6 e 7 relatam que Jacó chegou a Luz, chamada Betel, na terra de Canaã, e ali edificou um altar e chamou o lugar de El-Betel, porque ali Deus se lhe revelou quando fugia da presença de seu irmão (v. 7). Ao construir este altar, a família patriarcal reconheceu as promessas da aliança e consagrou a terra prometida. O culto regular seria crucial se quisessem manter a separação religiosa dos vizinhos cananeus.

O nome que Jacó deu ao lugar, El-Betel, quer dizer “o Deus de Betel”, numa prova do seu crescimento espiritual. Cada vez ele conhecia melhor a Deus. Tinha passado mais de vinte anos na casa do seu tio Labão e sua volta a Betel, agora que era um homem maduro em idade, deveria indicar que se transformara num mestre, mas Jacó estava ainda aprendendo as coisas rudimentares. Quanto tempo perdemos andando por caminhos que não agradam a Deus! Que possamos evitar esses caminhos e conhecer Deus melhor a cada dia.

O texto prossegue e o verso 8 diz: Morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada ao pé de Betel, debaixo do carvalho que se chama Alom-Bacute. Jacó estava voltando para aquela terra onde havia deixado os seus pais. Certamente Débora, a serva de Rebeca, tinha servido Jacó quando este era pequeno e, depois de uma longa vida de serviço, foi sepultada ao pé de Betel. Sobre a morte de sua mãe Rebeca, a Bíblia não fala nada, mas aponta o local de sua sepultura, na caverna de Macpela, onde todos os patriarcas foram sepultados (49.31).

Débora teve uma vida sem grandes destaques, porém foi possível extrair o seu testemunho: uma mulher que serviu! Quantas vidas preciosas passam desapercebidas aos olhos humanos. Mas essas vidas simples e humildes merecem o destaque do próprio Deus! Que nossas vidas possam ser assim!

Os versos 9 a 15 nos falam de mais uma experiência especial de Jacó com Deus:

     1.     O Senhor aparece a Jacó como Deus Todo-Poderoso, o El Shaddai.

     2.     O Senhor novamente abençoa a Jacó.

     3.     O Senhor reafirma a mudança do nome de Jacó para Israel.

     4.     O Senhor ordena que seja fecundo e multiplique-se.

     5.     O Senhor confirma a promessa de Jacó ser origem de uma nação e numerosas nações.

     6.     O Senhor confirma a promessa de reis procederem de Jacó.

     7.     O Senhor promete a Jacó e a sua descendência a posse da terra, que Ele tinha dado a Abraão e a Isaque.

A reação de Jacó diante dessas promessas e confirmações especiais, a sua resposta está nos versos 14 e 15: Então, Jacó erigiu uma coluna de pedra no local onde falara com ele; e derramou sobre ela uma libação e lhe deitou óleo. Ao lugar onde Deus lhe falara, Jacó lhe chamou Betel. Jacó não teve outra atitude senão erguer um altar, ungindo-o com óleo, confirmando o novo nome daquele local: Betel, a casa de Deus!

Para o crescimento espiritual, as experiências com Deus são indispensáveis. Foram poucos os altares levantados ali por Jacó. Pouca era também a sua experiência e maturidade espiritual. Mas Deus relembrou a Jacó a mudança de nome que estava ligada também a sua mudança de natureza. Trocado o nome, mudada seria a sua natureza. Deus voltou a dizer isso a Jacó.

Os versos 16 a 21 nos falam da morte de Raquel, a esposa querida, amada e predileta de Jacó, agora chamado de Israel. Mas na sua morte, Raquel teve a oração feita por ela, em 30.24, respondida. Deu a Israel um outro filho, Benjamim, que significa “filho de minha mão direita”, no sentido de que ele se tornaria o preferido de Israel, o caçula dos doze filhos, completando assim o número patriarcal das doze tribos da futura nação israelita.

A vida de Raquel tem lições para todos nós e, portanto, deve ser conhecida. Ela foi muito amada por Jacó que teve sempre uma atitude bem tolerante para com ela e soube ser um esposo compreensivo. Raquel foi protegida pelo marido (33.2), quando Jacó organizou sua comitiva nos momentos que antecederam o reencontro com Esaú. Ele colocou todos os seus dez filhos e suas mulheres na frente, deixando Raquel e José atrás, para que nada sofressem naquele encontro com Esaú.

Sem dúvida a morte de Raquel, ao dar a luz Benjamim, marcou Jacó profundamente. Quando agonizava, ela sugeriu que o nome do menino fosse Benone, que quer dizer dor, tristeza, sofrimento, mas Jacó não quis. E assim escolheu o nome de Benjamim que quer dizer mão direita, apoio, suporte, escora, ajuda, provavelmente reconhecendo que em Raquel tivera todo o apoio e ajuda quando mais precisou. Olhando para Benjamim, Jacó tinha uma grande recordação da sua querida esposa Raquel. Era um pedaço do seu próprio coração. Benjamim tornou-se a melhor recordação que Jacó tinha de Raquel, sua amada esposa.

O verso 20 diz que Jacó levantou sobre a sepultura de Raquel uma coluna que existe até o dia de hoje. Esse relato demonstra o quanto sua esposa significava para ele. Ela era uma criatura valiosa, merecendo um monumento na sua sepultura. De fato, um homem que levava uma vida tão rude como Jacó só podia considerar Raquel a criatura mais doce e mais significativa deste mundo.

O nome de Raquel aparece ainda em Gênesis 46.19-22, onde lemos que ela deu a Jacó os filhos José e Benjamim e mais doze netos. Em 48.7 temos o relato da sua morte e seu sepultamento no caminho de Efrata. Em Rute 4.11 e 1Samuel 10.2 o seu nome é usado como referência e, finalmente em Jeremias 31.15 e Mateus 2.18 Raquel é mencionada na profecia quando Herodes mandou matar todos os meninos abaixo de dois anos, ao saber da notícia do nascimento de Jesus Cristo, o verdadeiro Rei dos judeus. Que a vida de Raquel, nos seus acertos, seja um exemplo para todos nós.

O verso 22 narra o que era o reflexo, a conseqüência, o resultado de vidas anteriormente sem a presença e o controle do Senhor: E aconteceu que, habitando Israel naquela terra, foi Rúben e se deitou com Bila, concubina de seu pai; e Israel o soube. Depois da alegria pelo nascimento do filho caçula, Benjamim, Israel passou pela tristeza de ver o filho mais velho, Rubén, desrespeitá-lo e cometer o grave pecado de possuir a sua concubina, Bila, a serva de Raquel.

Para satisfazer a sua lascívia e reivindicar de modo arrogante a sua posição e os seus direitos de primogenitura, Rúben cometeu esse desatino, trazendo como penalidade sobre si e sua descendência exatamente a perda da condição legal de primogênito, conforme veremos em 48.1, onde a dupla porção de herança passou para as mãos de José, através de seus filhos Manassés e Efraim. Rúben perdeu também sua posição de liderança que foi transmitida a Judá, seu irmão (49.3, 4). Que Deus não permita termos atitudes como essa em que nos precipitamos na busca de algo que Deus já nos deu. Que possamos sempre aguardar o tempo do Senhor!

Nos versos finais deste capítulo encontramos a menção nominal dos doze filhos de Israel: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom, filhos de Lia; José e Benjamim, filhos de Raquel; Dã e Naftali, filhos de Bila, serva de Raquel; Gade e Aser, filhos de Zilpa, serva de Lia.

Mas nos versos 27 e 28 encontramos também o registro do reencontro de Jacó com Isaque, seu pai, em Hebrom, provavelmente quando este já estava no final dos seus dias. Temos o registro da morte de Isaque, seu pai, que morreu aos 180 anos. O verso 28 diz que ele morreu “farto de dias”, expressão que significa que teve uma vida frutífera, apesar de que, depois de sua tentativa de abençoar Esaú, em 27.1-4, a sua história não foi mais registrada.

O sepultamento de Isaque merece destaque. Assim como na morte de Abraão, quando Ismael e Isaque se reuniram, aqui também vemos Esaú e Jacó juntos, indicando o respeito dos dois filhos pelo patriarca mesmo tendo falhado várias vezes.




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