Através da bíblia gênesis itamir Neves de Souza John Vernon McGee



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1. Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?

2. Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer,

3. mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais.

4. Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis.

5. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal.

Podemos destacar alguns detalhes importantes nesse relato da tentação. Em primeiro lugar, a serpente, ao dirigir-se a mulher, perguntou-lhe de forma mentirosa, adulterando a Palavra de Deus, se eles não poderiam comer de toda árvore do jardim.

Em segundo lugar, Eva, ao invés de rejeitar a pergunta mentirosa, também mudou a Palavra e acrescentou algo que Deus não ordenara, dizendo que não deveriam tocar no fruto.

Em terceiro lugar, o diabo contradisse outra vez a Palavra de Deus afirmando categoricamente que se comessem do fruto proibido não morreriam.

E, em quarto lugar, o diabo lançou a sedução no coração de Eva ao dizer-lhe que, se comessem, seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal.

Dá para perceber como aconteceu a tentação? Ela foi um processo e se deu em relação à Palavra de Deus. Mentiras, dúvidas, incertezas em relação à Bíblia levam a tentação e conduzem ao pecado!

Mas por que Satanás se aproximou da mulher e não do homem? Por que tentou a mulher e não o homem? O texto bíblico aponta a serpente (Satanás, o nosso inimigo), como astuta e sagaz. Sabendo que a mulher fora criada por último, e que havia recebido a ordem divina através de Adão, e não diretamente de Deus, preferiu aproximar-se dela.

É possível fazer aqui uma aplicação para os nossos dias. Quando não damos prioridade ao estudo direto na Bíblia, feito por nós mesmos, e ficamos dependendo somente de terceiros para receber alimento espiritual, podemos correr o mesmo risco de Eva. Mas se com disciplina dedicarmos um tempo diário para conversarmos com Deus e ouvir a sua voz, através da leitura e do estudo do texto bíblico, cada vez mais seremos fortalecidos e ficaremos firmes contra as armadilhas de Satanás.

Precisamos sempre nos lembrar que uma das primeiras táticas do Maligno é lançar dúvida em nossas mentes a respeito da Palavra de Deus. Satanás, em outras palavras, disse a Eva: “Bem, se Deus é justo, como pode deixar você morrer?”. Ele lançou dúvidas sobre o caráter, sobre a santidade e a justiça de Deus.

Se não temos firmeza nas verdades bíblicas nos tornamos alvos fáceis de Satanás, pois ele é perito em distorcer, corromper e contradizer a Bíblia. E isso ele faz, muitas vezes, transformando-se em um anjo de luz, conforme Paulo nos adverte em 2Coríntios 11.14: E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz.

Continue acompanhando a seqüência dos fatos. Depois de a serpente lançar dúvidas na mente de Eva, ela estava pronta para desobedecer: Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu (v. 6).

Perceba a tática que Satanás empregou aqui. Primeiro, fez um apelo à carne, à satisfação das necessidades físicas. Mas isso não era tudo. O fruto era também agradável aos olhos e Eva se satisfaria com sua beleza estética. Por último, ele se aproveitou do senso de poder que todos nós carregamos. Eva entendeu que o fruto era desejável para dar entendimento, e desejou ser como Deus.

É interessante notarmos que estes mesmos apelos foram feitos a Jesus no deserto, e são feitos a nós continuamente. Você se lembra dos textos de Mateus 4.1-11 e 1João 2.15-17? Na primeira passagem vemos o relato de Jesus sendo tentado fisicamente pela fome: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães (v. 3). No caso de Eva, o fruto era bom para ser comido. É o que João chama de “concupiscência da carne” (1Jo 2.15).

Depois, Satanás levou Jesus à parte mais alta do Templo e o desafiou: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem (v. 6). Esse foi o apelo feito ao senso de poder de Jesus. Ele se jogaria dali e, poderosa e espetacularmente, os anjos viriam em seu socorro. No caso de Eva, o fruto era desejável para dar entendimento. Aquilo que João chama de “soberba da vida”.

E, em seguida, depois de levar Jesus a um monte muito alto, o diabo mostrou todos os reinos do mundo e a glória deles e lançou mais um desafio para Jesus: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares (v. 9). No caso de Eva, o fruto era agradável aos olhos. É o que João chama de “concupiscência dos olhos”.

Enfrentamos esse antigo inimigo todos os dias e, por isso, precisamos estar bem conscientes de sua estratégia. “A concupiscência da carne” é o desejo, o apetite maligno da nossa velha natureza; “a concupiscência dos olhos” é o desejo, o materialismo avarento e transitório; e “a soberba da vida” é o orgulho, a vanglória, a jactância em relação àquilo que possuímos.

Tanto na tentação de Eva quanto na de nosso Senhor o diabo usou as palavras pronunciadas por Deus, de uma maneira distorcida, gerando dúvidas em relação ao que Deus tinha verdadeiramente falado.

O relato dos versos 7 a 13 mostra a conseqüência da desobediência, do pecado. Quando desobedeceram, Adão e Eva perceberam que estavam nus, fizeram um tipo de vestimenta de folhas para se cobrirem (v. 8), e se esconderam de Deus (v. 9,10). É isso que o pecado provoca. Ele nos leva a ter medo, a ficar distantes de Deus e nos escondermos Dele.

Mas não foi só isso que o pecado trouxe. Quando Deus questionou Adão sobre a sua situação (v. 11), ele imediatamente deu um jeito de transferir a culpa: A mulher que me deste por esposa… (v. 12). Querendo isentar-se da culpa sem se arrepender, sem confessar o erro, não vacilou em acusar sua mulher e a Deus. Será que percebemos como o pecado afeta a relação entre as pessoas e a nossa relação com Deus?

Seguindo a narrativa, verificamos que Eva também tentou se isentar do erro: A serpente me enganou, e eu comi (v. 13). Ao invés de confessar o pecado, ela tentou transferir a culpa para o diabo, exatamente como Adão fizera antes.

Não é exatamente assim que procedemos muitas vezes? Desobedecemos a Deus e pecamos, mas ao invés de confessarmos, culpamos outras pessoas pelos nossos erros. Que Deus possa livrar-nos dessa terrível tendência humana!

As conseqüências do pecado

Gn 3.14-24

O julgamento divino sobre o pecado aconteceu em três etapas. Primeiro, Deus se dirigiu à serpente, nos versos 14 e 15 de Gênesis 3: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos; rastejarás sobre o teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida. A Bíblia não fala que forma física a serpente tinha antes de receber essa maldição, mas certamente ela não era como a conhecemos hoje. Não sabemos se tinha pernas ou pés, mas depois dessa palavra divina ela ficou condenada a rastejar, comendo o pó da terra, como uma figura de extrema humilhação.

A sentença do diabo, que usou a serpente e tentou o ser humano, foi contundente. Ele já havia se rebelado contra Deus, já fora expulso do céu, conforme vimos anteriormente e lemos em Apocalipse 12. A Palavra de Deus veio, então, confirmar a existência de uma luta entre o bem e o mal. A constante luta entre o ser humano e as serpentes simboliza essa luta secular entre Deus e o Maligno, batalha sempre travada no interior do ser humano.

A serpente (Satanás), iria ferir o calcanhar do descendente da mulher (Jesus Cristo, que descende só de Maria, porque José foi apenas o seu pai legal), que esmagaria a cabeça da serpente (como de fato esmagou, com a ação indicada na morte de Jesus na cruz). Mas a plena vitória de Deus sobre as forças satânicas, da qual todos os crentes participarão, ainda acontecerá, conforme Paulo afirma em Romanos 16.20: E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás.

Podemos dizer que temos no v. 15 o proto-evangelho, isto é, o primeiro anúncio do evangelho, das boas notícias da salvação divina, a primeira profecia sobre o Salvador, o Messias. A verdade bíblica que é contada por toda a história da humanidade estava assim proclamada: Deus procura pelo homem, e mostra a ele a salvação em Cristo Jesus.

Em segundo lugar, temos o julgamento e a condenação da mulher. O verso diz: E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará. A condenação da mulher recaiu sobre aquilo que era exclusivamente dela, isto é, a possibilidade de auxiliar o marido e gerar filhos.

A serpente e a terra foram amaldiçoadas, mas a mulher e o homem foram condenados. A mulher foi condenada a ter sérios problemas no seu papel de esposa e mãe. Ela teria dificuldades na sua tarefa de ser auxiliadora idônea, porque a partir dali não haveria mais o governo compartilhado no jardim; o seu desejo estaria submisso ao desejo do marido, que a governaria. Em relação à maternidade, ela passaria por grande sofrimento, teria um sofrido trabalho para dar à luz filhos.

É importante notarmos que essa submissão ao marido não indica menosprezo à pessoa ou aos dons da mulher, mas um papel redentor do marido frente à esposa, visando restabelecer o companheirismo original.

Em terceiro lugar, os versos 17-19 nos mostram o julgamento e a condenação do homem:

17. Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenei não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida.

18. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo.

19. No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes a terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás.

Graças à misericórdia de Deus, a maldição recaiu sobre os domínios do homem e não sobre o homem propriamente dito. É importante percebermos que existe uma diferença entre maldição e condenação. O homem, que deveria conduzir a mulher, foi por ela conduzido e assim trouxe maldição sobre a terra e condenação sobre si mesmo.

Através de trabalho penoso e árduo ele passaria a obter o seu sustento, a sua alimentação. Mas ao mesmo tempo em que temos a condenação, temos a graça divina, pois o homem conseguiria produzir alimentos que lhe sustentariam a vida.

A menção dos cardos e abrolhos, isto é, pragas vegetais, plantas rasteiras e espinhosas, são sinais da natureza amaldiçoada não dominada, em rebelião, por causa do pecado do homem.

E a referência de que o ser humano voltaria à terra de onde havia sido formado, pois era pó e ao pó tornaria, indica que a terra que deu origem ao seu corpo, que seria a fonte do seu alimento, veio também a ser símbolo da morte que aguardaria o seu fim. Certamente essas foram palavras contundentes!

Mas talvez haja ainda quem esteja se questionando sobre que tipo de morte o texto se refere. A morte espiritual foi claramente explicada quando estudamos o texto de Gênesis 2.17. Deus disse que haveria morte se houvesse desobediência, mas depois que ela aconteceu não houve morte física imediata porque o significado era de morte espiritual, da separação de Deus (o que de fato ocorreu quando o homem se escondeu de Deus).

A morte física, se a entendemos como a separação entre o corpo e espírito, está implícita no verso 19: Até que tornes a terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás. O ser humano chegaria ao seu fim desfazendo-se em pó, de onde viera originalmente.

Todo ser humano irá se apresentar diante de Deus depois da sua morte física, esteja ele salvo ou perdido, para prestação de contas. Adão não morreu fisicamente no mesmo dia em que pecou. Ele não passou pela morte física antes de alcançar a idade de 930 anos. Mas, a morte espiritual veio imediatamente, no mesmo dia em que pecou.

Leiamos agora os versos 20 e 21: E deu o homem o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos os seres humanos. Fez o Senhor Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu. O nome Eva, que foi dado à mulher depois da sentença de morte, significa “vida” ou “vivente”. Esse nome é de certa forma surpreendente e muito sugestivo, pois demonstra a contínua graça de Deus. Na antiguidade, quando uma pessoa ou objeto recebia um nome, implicava em um sentido de domínio ou posse sobre o mesmo. Assim, o fato de Adão ter dado o nome à mulher mostrava a sua preeminência, a sua primazia sobre ela.

No verso 21, a vestimenta feita pelo Senhor para Adão e Eva indica uma vestimenta satisfatória e apropriada para cobrir a vergonha deles, e significa também que as ações de Deus demonstram sempre a sua misericórdia, cobrindo o pecado humano, a ineficácia humana em se apresentar corretamente diante Dele.

A cobertura que o próprio homem providenciou (uma cinta de folhas), não era apropriada para cobrir sua nudez física e espiritual. Deus teve de providenciar roupa adequada, e fez isso através do derramamento de sangue, porque foi necessária a morte de alguns animais para que suas peles pudessem servir de vestimenta.

Esse versículo é importante porque demonstra o suprimento das necessidades imediatas do homem por um Deus que se interessa em cuidar dele, em todos os aspectos e, embora alguns não aceitem um significado mais profundo, temos aqui a origem dos sacrifícios, um prenúncio da expiação sacrificial.

Nos versos 22 a 24 chegamos ao final do capítulo com essas palavras:

22. Então, disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente.

23. O Senhor Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado.

24. E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida.

Ainda bem que Deus não deixou o homem viver eternamente no pecado! Não permitiu que vivesse para sempre no erro, o que é uma grande bênção. O pecado, que foi a tentativa do homem tornar-se como Deus, sempre resultou e ainda resulta em morte, em separação eterna de Deus. Ele priva o pecador da dádiva maior de ter a vida eterna com o Pai. Apesar do ser humano ter sido expulso do paraíso, Deus não queria que vivêssemos eternamente separados dele, fato que aconteceria se comêssemos o fruto da árvore da vida.

O fato de o texto mencionar que o homem foi expulso do jardim do Éden também para cultivar o solo pode significar que antes do pecado ele trabalhava num jardim belo e agradável, mas agora, como conseqüência da queda, e conforme a condenação divina, teria de lavrar a terra difícil, amaldiçoada com espinhos e ervas daninhas.

Preste bastante atenção, pois as últimas palavras deste capítulo três nos mostram uma verdade importante. O verso 24 diz que Deus colocou querubins guardando o jardim do Éden, com espadas que se revolviam impedindo o acesso à árvore da vida. Como podemos entender este versículo?

Encontramos os querubins em outros textos bíblicos, como em Ezequiel 1 e 10. Eles são vistos como guardiões simbólicos do Santo dos Santos e suas formas foram também bordadas no grosso véu que impedia o acesso ao lugar santíssimo.

Ora, tudo isso, e mais a espada que se revolvia, pode significar que a espada do juízo divino e os querubins que guardavam a entrada na santíssima presença de Deus ficavam agora entre o homem e Deus, criavam um obstáculo impedindo o acesso livre que ele tivera até então à presença divina.

É possível perceber como o pecado nos fez ficar completamente separados de Deus. Somente através da redenção divina, que foi providenciada pelo sacrifício do Senhor Jesus Cristo, é que podemos novamente ter acesso à vida eterna, à presença de Deus.

A Bíblia diz que o véu foi rasgado de cima a baixo quando Jesus Cristo morreu na cruz do Calvário. Ele foi rasgado pela iniciativa do próprio Senhor e, de acordo com Hebreus 10.19-22, um novo caminho foi aberto, possibilitando-nos ter novamente comunhão com Ele. Mas tudo isso só foi possível por meio de Jesus Cristo. Graças a Deus por sua maravilhosa graça!



Abel e Caim

Gn 4.1-7

A Bíblia é um livro singular, um livro único. Depois de demonstrar como podemos ter novamente acesso a Deus, ela nos traz de volta as condições do pecado humano. Iniciamos, pois, o capítulo quatro que nos relata o primeiro assassinato da história humana. Caim matou seu irmão Abel. E assim, aqui encontramos o fruto do pecado.

Nos dois primeiros capítulos de Gênesis vimos a criação. Nos capítulos 3 e 4, o pecado e seu fruto. Se alguém perguntar se o pecado é realmente mau, encontrará a resposta no capítulo 4, onde vemos o que ele é e o que pode fazer com o homem.

Nos versículos iniciais do capítulo quatro estão presentes algumas verdades. Em primeiro lugar, o texto relata que Adão e Eva se conheceram, tiveram relacionamento sexual, como era o plano de Deus para a multiplicação fecunda que deveria acontecer. E desse relacionamento, com certeza após uma gravidez já com sofrimentos, Eva deu à luz ao seu primeiro filho, Caim.

O nome Caim quer dizer “adquirir”, por isso o verso 1 indica: “Adquiri um varão com o auxílio do Senhor”. O verso 2 relata o nascimento de Abel, que significa “fôlego” ou “sopro” e também a atividade dos dois irmãos: Abel trabalhava com ovelhas e Caim era lavrador.

Os versos 4 nos contam que os dois irmãos fizeram sacrifícios, trouxeram ofertas ao Senhor, fruto do trabalho de suas mãos, reconhecendo a bênção divina sobre suas atividades e que tudo vinha do Senhor. Eles fizeram suas ofertas em algum lugar de adoração. Certamente as orientações foram indicadas a eles por revelação. Podemos chegar a essa conclusão pela leitura de Hebreus 11.4: Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim.

Mas como ele pode oferecer pela fé? Bem, a fé vem pelo ouvir, e pelo ouvir a Palavra de Deus. É claro que Deus os instruiu a respeito do culto. Eles ouviram a Palavra de Deus de alguma maneira. E, por sacrificar pela fé, Abel foi aceito, enquanto Caim foi rejeitado.

Alguns estudiosos tentam ver nessa narrativa uma rivalidade entre os dois modos de viver: o do pastoreio e o da agricultura. Não há base bíblica para aceitá-la como verdadeira. Mas o que está aqui sabiamente contrastado é a religião formal, ou carnal, e a religião viva, ou espiritual.

Também não é correto afirmar que a ausência de sangue desqualificou a oferta de Caim e qualificou o sacrifício prestado por Abel. Caim foi rejeitado porque a intenção do seu coração era má, percebida claramente depois pelo seu semblante descaído. Em Provérbios 21.27 lemos que o sacrifício dos perversos já é abominação; quanto mais oferecendo-o com intenção maligna!

A razão de uma oferta ser aceita, e a outra não, está no fato de que a oferta de Caim foi feita sem cuidado e sem consideração, enquanto que a de Abel foi feita de forma selecionada e generosa. O verso 4 diz: Abel, por sua vez, trouxe as primícias do seu rebanho e da gordura deste… A gordura dos sacrifícios, como veremos em Êxodo e Levítico, simbolizava a melhor adoração, a adoração que vinha do íntimo. Nos dias de hoje, assim como naquele tempo, o Senhor ainda busca verdadeiros adoradores que o adorem em espírito e verdade.

Jesus disse em João 4.24: Deus é espírito; e importa que seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. O Senhor quer um culto sincero e honesto diante dele porque conhece a motivação do nosso coração.

O primeiro homicídio, os descendentes de Caim e o nascimento de Sete

Gn 4.8-26

Os versos 5, 6 e 7 do capítulo 4 relatam a reação irada de Caim e a advertência divina dirigida a ele. A ira e o semblante carrancudo de Caim confirmaram que o seu espírito já era mau. Sua motivação, sua intenção e atitude revelaram o seu interior. Caim foi rejeitado porque o seu procedimento não foi correto, como lemos no início do verso 7.

1João 3.12 nos diz que Caim era do Maligno… porque as suas obras eram más. A ordem de que era necessário dominar o pecado que estava à porta como um leão pronto para dar o bote, pronto para devorar, infelizmente não foi ouvida por Caim.

A partir do verso 8 até o verso 16, encontramos o relato do primeiro homicídio entre os homens. Esse primeiro assassinato foi monstruoso por três razões. Primeiro, porque foi premeditado, e comprovado pelo fato de Caim convidar Abel para ir ao campo. Segundo, porque vemos um irmão se voltando contra outro, demonstrando desrespeito à família. E, em terceiro, porque foi feito contra uma pessoa bondosa, um correto adorador.

A pergunta retórica do verso 9, “Onde está teu irmão?”, faz-nos relembrar a pergunta que Deus dirigiu a Adão depois deste pecar, em Gênesis 3.9: “Onde estás?”. Tanto lá quanto aqui, o ser humano não admitiu o pecado, não o confessou diante de Deus.

A resposta de Caim e a sua pergunta, “Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão?”, é uma declaração de fria indiferença, mostrando-nos os efeitos do pecado na vida do ser humano. Mesmo diante de Deus, mentimos e não confessamos o nosso erro.

No verso 10 temos um bonito contraste a ser aplicado. Enquanto o sangue de Abel clama por justiça, isto é, para que seja vingado e Deus puna os violentos, o sangue de Jesus, derramado injustamente, clama anunciando a graça divina, o perdão divino ao pecado humano. Hebreus 12.24 diz: E a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel.

Os versos 11 e 12 mostram que o duro e impenitente Caim ouviu palavras muito mais severas que as dirigidas a Adão. O primeiro homem recebeu a maldição indireta, que caiu sobre a terra. A maldição de Caim foi direta. Ele, que era lavrador, ouviu Deus dizer que a terra, manchada pelo sangue de Abel, já não lhe daria a sua força.

Mais uma vez é possível perceber o quanto foram duras e objetivas essas palavras, porque o pecado traz gravíssimas conseqüências

Nos versos 13 e 14 encontramos Caim protestando contra a sentença divina. Sua atitude foi bem diferente da atitude do ladrão na cruz que, arrependido, admitiu os seus erros: Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem… (Lc 23.41). Suas palavras só demonstraram que estava preocupado com sua situação de total insegurança: É tamanho o meu castigo, que não posso suportá-lo. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me matará (v. 14).

Caim não se arrependeu. Ele expressou a Deus o seu egoísmo e autopiedade. Os dez pecados que cometeu nos impressionam: impiedade (v. 3); ira; semblante carrancudo (v. 5-6); inveja; planejamento para o mal; assassinato (v. 8); mentira; indiferença (v. 9); egoísmo (v. 13) e; autopiedade (v. 14). O resultado é que permaneceu separado de Deus. É isso que o pecado causa ainda hoje!

Em suas palavras finais, Caim lamentou: “Quem comigo se encontrar me matará”. A pergunta que surge nesse momento é: a quem Caim está se referindo, se até aqui temos o relato da existência de apenas quatro seres humanos na terra?

Essas palavras dão a entender a presença de inúmeras pessoas além do próprio Caim. Assim, é possível entender que ele estivesse prevendo o futuro e o rápido crescimento da espécie humana. Talvez pudesse implicar também que cada pessoa encontrada seria um parente próximo de Abel, o que é coerente com o contexto, pois os outros seres humanos deveriam ser filhos de Adão e Eva.

Nos versos 15 e 16 encontramos, mais uma vez, Deus se interessando pelo pecador. Mesmo depois da demonstração de egoísmo, o Senhor coloca-se a favor de Caim dando-lhe um sinal como um salvo-conduto, uma proteção contra possíveis vinganças, revelando sua misericórdia até para com os que não se arrependem. Ora, vemos assim, a vida do assassino sendo poupada nesse momento, apesar de que, no futuro, ela seria destruída pelo dilúvio que veio como castigo sobre toda a raça humana.

A Bíblia não diz e nem nos fornece qualquer pista sobre qual era esse sinal. E, na verdade, descobrir qual era o sinal não nos ajuda a perceber a grande lição que o texto apresenta. O sinal ou a marca divina colocada sobre Caim, assim como o sinal do arco-íris que aparece em Gênesis 9.13, ao invés de ser um estigma, uma marca vergonhosa que discrimina ou humilha o pecador não arrependido, é a demonstração clara da bondade de Deus. É a demonstração do incrível amor de Deus até mesmo para com os pecadores impenitentes.

Na seqüência, o verso 16 nos diz que Caim saiu da presença de Deus e foi habitar na terra de Node. Sua localização não é conhecida e é bem provável que este seja apenas um nome simbólico, pois a palavra “nad”, no hebraico, significa “vagabundo”, atribuindo mais esse valor negativo a vida errante de Caim quando se afastou da face do Senhor. O resultado do pecado, o fruto do pecado, é nos fazer ficar afastados do Senhor. Quando não nos arrependemos e mudamos o rumo do nosso caminhar, a conseqüência é a separação de Deus. O profeta Isaías diz: Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça (Is 59.2). Para desfrutarmos a comunhão com o Pai precisamos confessar nossos pecados e converter nossos corações. Essa é mais uma lição a ser aplicada.

Os versos 17 a 24 descrevem a descendência de Caim quando ele já estava longe de Deus. Vale a pena fazermos algumas observações para compreendermos melhor a situação. O verso 17 diz que Caim se casou e teve um filho chamado Enoque. Mas com quem ele se casou? Para responder a essa pergunta temos de considerar a possibilidade de sua esposa ser uma parenta, como uma irmã, filha de Adão e Eva, ou uma sobrinha, filha de algum de seus irmãos. Mas por que aceitar essa resposta? Porque Deus não criou outros seres humanos além de Adão e Eva. A teoria que diz que havia uma outra raça humana habitando o mundo não tem qualquer fundamento bíblico.

A população da terra começou a multiplicar-se através dos filhos e filhas de Adão e Eva e certamente através de seus netos e bisnetos, e assim por diante. O texto bíblico nos diz que além de Caim e Abel, Adão e Eva tiveram Sete, seu terceiro filho, e depois mais filhos e filhas: Depois que gerou a Sete, viveu Adão oitocentos anos; e teve filhos e filhas (Gn 5.4). Portanto, certamente havia um grau de parentesco entre Caim e sua esposa.

O verso 17 ainda nos mostra que a primeira cidade foi fundada e organizada por Caim. No hebraico, cidade é um termo aplicável a povoações de qualquer tamanho, e podemos entender que a vida urbana teve seu início com Caim, a partir de uma pequena vila. O nome que esta cidade recebeu foi o do primeiro filho de Caim: Enoque.

O significado de Enoque é “início”, trazendo-nos a idéia de um novo princípio, isto é, um novo começo, não mais a partir de Deus, o criador, mas a partir do ser humano, agora distanciado da comunhão e da intimidade com Deus. O nome do primeiro filho, e da primeira cidade, mostra a vida tomando um rumo independente de Deus.

Os descendentes de Caim, mencionados nos versos 17-24, são em número de dez nomes: Adão, Caim, Enoque, Irade, Meujael, Metusael, Lameque, Jabal, Jubal e Tubalcaim. O uso do número dez é simbólico. Seu significado é inteireza, perfeição e plenitude.

Sobre os descendentes de Caim vale a pena destacar o nome de Lameque. No verso 19 lemos: Lameque tomou para si duas esposas… Aqui vemos a poligamia entrando na história humana. O orgulhoso Lameque, da linhagem de Caim a partir de Adão, com essa atitude talvez procurasse receber mais bênçãos da parte de Deus, como aconteceu com o primeiro casal em Gênesis 1.28: E Deus os abençoou e lhes disse: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a.

Numa tentativa humana, e por iniciativa própria, Lameque quis para si mais bênçãos e, ao invés de uma esposa, teve duas, saindo do padrão estabelecido por Deus de um casamento monogâmico. Todos nós sabemos que a partir daí muitos outros casamentos fora do padrão divino surgiram e obtiveram como resultado apenas problemas, e não bênçãos. A Bíblia registra o fato, mas ao invés de recomendá-lo, condena-o. Quando lemos cuidadosamente a Bíblia ficamos certos que a Palavra de Deus é contra a poligamia.

Nos versos 20 a 22, vemos os homens, com a criatividade dada pelo Senhor, desenvolvendo as mais diversas atividades. Embora muitos estudiosos afirmem, tendo por base a mitologia do passado, que os deuses ensinaram aos seres humanos as artes, o artesanato e outras atividades, fica claro, por este relato, que essas habilidades foram concedidas pelo único e verdadeiro Deus.

Os nomes dos filhos de Lameque eram Jabal, Jubal e Tubalcaim. Eles tinham nomes semelhantes, mas cada um se destacou numa atividade diferente: Jabal dedicou-se à atividade pastoril, Jubal foi o iniciador da atividade musical e Jubal ateve-se às atividades metalúrgicas, inclusive a fabricação de armas.

Lameque e sua sarcástica poesia, mencionada nos versos 23 e 24, demonstram o progresso do pecado. Ao contrário de Caim, que dizia não suportar o peso do pecado, Lameque exultou com seus atos criminosos. Lameque regozijou-se por ter matado um homem, porque o feriu e por ter matado um rapaz simplesmente porque havia pisado nele. Nesse momento, a destruição violenta e irresponsável da vida humana proclamava o total afastamento entre Deus e o homem. Com isso, o pecado ganhava cada vez mais espaço entre os seres humanos.

Os dois últimos versículos (25 e 26), relatam o nascimento de Sete, mais um dos filhos de Adão e Eva. Sete foi recebido como substituto de Abel. Destaca-se aqui o nome de seu filho Enos que, assim como Adão, significa “homem”. A partir daí começa no mundo a descendência daqueles que invocavam o nome do Senhor, ato que havia sido interrompido com a morte de Abel.




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