Através da bíblia gênesis itamir Neves de Souza John Vernon McGee


Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei



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28. Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.

29. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas.

30. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Você tem buscado o refúgio que Deus preparou para você? Saiba que mesmo em meio às aflições, podemos contar com a salvação do nosso Deus.

Voltando ao texto de Gênesis 7, encontramos nos versos 2 a 10 a repetição da ordem divina para que Noé levasse para a arca casais de todas as espécies de animais, aves e répteis, porque o dilúvio seria grande. Literalmente o verso 4 nos diz: Porque, daqui a sete dias, farei chover sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites; e da superfície da terra exterminarei todos os seres que fiz.

Os versos 6 a 16 informam sobre a intensidade do dilúvio e a entrada na arca da família de Noé e de todos os animais. No ano seiscentos da vida de Noé, aos dezessete dias do segundo mês, nesse dia romperam-se todas as fontes do grande abismo, e as comportas dos céus se abriram, e houve copiosa chuva sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites (v. 11,12).

Você pode imaginar esse episódio? Muitos que tinham ouvido Noé falar dos planos de Deus agora passaram a ver que o julgamento divino era real e nada mais podiam fazer. Estavam perdidos. Não havia mais possibilidade de salvação. Sabe por quê?

O verso 16 diz claramente: … e o Senhor fechou a porta após ele. Não foi Noé que fechou a porta por dentro. Foi Deus que fechou a porta por fora. As oportunidades foram dadas até aquele momento. Durante muitos anos, enquanto Noé estava construindo a arca, certamente ele pregou e convocou os seus contemporâneos ao arrependimento, para se voltarem a Deus.

2Pedro 2.5 diz que Noé foi um “pregador da justiça”: E não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé, pregador da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo dos ímpios. Mas ninguém ouviu, ninguém se voltou para Deus. E o julgamento chegou! Seria o fim de uma época de maldade, corrupção e violência. O juízo de Deus estava sendo iniciado. Ele fechou a porta!

Deus não faltou com o seu amor. Durante muito tempo esperou por arrependimento, mas diante da inclinação do coração humano para o pecado não poderia ter outra atitude senão a de executar também o seu juízo. Enquanto o dilúvio é a demonstração do juízo divino, a arca é a demonstração da graça divina.

Mas exatamente neste ponto, precisamos de atenção redobrada. Nas culturas mais antigas da humanidade temos a descrição do grande dilúvio que se abateu sobre a terra. Os relatos mais próximos ao de Gênesis são encontrados na epopéia de Gilgamés e na de Atrahasis. Nesses contos babilônicos os mesquinhos deuses pagãos trouxeram o dilúvio sobre a terra para controlar o crescimento da população e o barulho irritante do povo, salvando apenas Utnapistim, sua família e os animais.

Os babilônios contavam esta história de uma maneira bem interessante. Eles diziam que houve uma guerra entre os deuses, e uns se colocaram contra os outros provocando o dilúvio. Não havia uma motivação clara e correta. Mas o relato bíblico nos mostra que as ações divinas são ações justas que acontecem de acordo com o caráter justo e amoroso de Deus.

No texto, dos versos 17 a 24, encontramos o relato da extensão do dilúvio: durante quarenta dias e quarenta noites choveu sobre a terra; as águas inundaram tudo e, como está registrado nos versos 19 e 20: … cobriram todos os altos montes que havia debaixo do céu, quinze côvados acima deles prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos.

As águas ficaram quase 7 m acima das maiores montanhas, certamente para que a arca não encalhasse em qualquer obstáculo. Mas o texto nos relata ainda, nos versos 21 a 23, que todo o ser vivo, literalmente “tudo o que tinha fôlego de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca”, morreu.

Neste ponto podemos perceber a abrangência do dilúvio e tentar entender se ele foi total ou parcial. Embora existam estudiosos que não aceitam o dilúvio como global, sendo limitado ao vale do Tigre e do Eufrates, há textos bíblicos que nos levam a crer seguramente que ele atingiu a terra toda (2Pe 3.5-7; Gn 8.21; 9.11, 15; 6.17). Gênesis 6.17 claramente nos diz: Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus

O verso 24 nos relata o tempo total do dilúvio. São essas as suas palavras: E as águas durante cento e cinqüenta dias predominaram sobre a terra. Durante cinco meses a face da terra foi dominada pelas águas. Mateus 24.37-39 diz que enquanto a vida acontecia normalmente para aqueles que não levavam Deus a sério e não se arrependeram, Deus salvava Noé e sua família porque eles creram na Palavra de Deus.

A grande lição aprendida aqui é que o nosso Senhor é completo em seu ser. Ao mesmo tempo em que é amor, e orienta Noé na construção da arca na qual seria salvo com sua família, é também um Deus de juízo que abomina o pecado e o pune severamente.

O final do dilúvio

Gn 8.1-22

Gênesis 8.1-22 possui uma divisão natural de seu conteúdo:

     Parte 1 –     O final do dilúvio (v. 1-14)

     Parte 2 –     A saída da arca (v. 15-19)

     Parte 3 –     A adoração de Noé a Deus em reconhecimento da salvação (v. 20-22)

O verso 1 diz: Lembrou-se Deus de Noé e de todos os animais selváticos e de todos os animais domésticos que com ele estavam na arca; Deus fez soprar um vento sobre a terra, e baixaram as águas. A expressão “lembrou-se Deus de Noé”, no hebraico, tem um significado muito importante: expressa uma ação baseada em um compromisso prévio. Lembrar-se de alguém significa ser solícito, ter um cuidado especial com o alvo da sua lembrança.

Na verdade, em termos bíblicos, quando Deus se lembra de alguém, passa a agir na história em favor de quem foi lembrado. Podemos ver o exemplo claro desse cuidado e ação em Êxodo 2.24, quando o Senhor ouviu o clamor de Israel depois 430 anos de escravidão no Egito: Ouvindo Deus o seu gemido, lembrou-se da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó.

Portanto, quando lemos que Deus se lembrou de Noé, não devemos entender que havia se esquecido dele e de todo o episódio do dilúvio, mas que estava expressando seu cuidado amoroso para com Noé.

É possível aplicar essa verdade em nossas vidas. Deus não apenas se lembra dos que o temem como tem um memorial diante dele, conforme está escrito em Malaquias 3.16-17:

16. Então os que temiam ao Senhor falavam uns aos outros; o Senhor atentava e ouvia; havia um memorial escrito diante dele para os que temem ao Senhor e para os que se lembram do seu nome.

17. Eles serão para mim particular tesouro, naquele dia em que preparei, diz o Senhor dos Exércitos; poupa-los-ei como um homem poupa a seu filho que o serve.

E Jesus prometeu muito mais àqueles que permanecessem fiéis: E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mt 28.20)]. Você tem experimentado o cuidado fiel e amoroso e a presença de Deus em sua vida?

Mas voltemos ao texto de Gênesis 8. O verso 1 ainda traz algumas palavras que merecem nossa atenção: Deus fez soprar um vento sobre a terra, e baixaram as águas. Qual o significado dessa expressão? A palavra “vento”, no hebraico, é a mesma palavra empregada para “Espírito” em Gênesis 1.2, e relembra o relato original da criação: “E o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. Em 8.1 podemos ver o primeiro ato recriativo de Deus depois do dilúvio, fazendo soprar um vento sobre a terra assim como fez no início da criação.

É impressionante a quantidade de paralelos que existe entre os relatos de Gênesis 1 e os dos capítulos 8 e 9:

8.2 e 1.7 – A separação das águas do firmamento, acima e abaixo.

8.5 e 1.9 – A aparição da porção seca da terra.

8.7 e 1.20 – O vôo das aves no firmamento, indo e voltando.

8.17 e 1.20 – A saída das aves, animais, répteis, segundo as espécies.

8.17 e 1.25 – A ordem para as aves, animais e répteis se multiplicarem.

9.1 e 1.28 – A ordem para os homens se multiplicarem e serem fecundos.

9.2 e 1.28 – O domínio do homem sobre animais, aves, peixes e ervas.

9.3 e 1.30 – A fonte de alimentação dos homens: animais, ervas, enfim tudo o que se move e vive.

É importante registrarmos esses paralelos. Enquanto o capítulo 1 relata o começo de tudo, os capítulos 8 e 9 referem-se ao recomeço, a recriação depois do dilúvio.

O verso 4 nos diz: No dia dezessete do sétimo mês, a arca repousou sobre as montanhas de Ararate. Qual a importância deste relato? A localização da ancoragem da arca é importante porque se deu em um lugar histórico onde vários reinos se estabeleceram (2Rs 19.37; Jr 51.27). Essa cadeia de montanhas, também conhecida por Urartu, fica no nordeste da Turquia e na atual Armênia. Uma localização bem definida mostra que a Bíblia não é uma série de contos inventados e aleatórios, mas uma narrativa verdadeira com provas históricas e geográficas.

Ainda nessa primeira parte, nos versos 7 a 12, que narram a ação sábia, cautelosa e cheia de autocontrole por parte de Noé em verificar pacientemente as condições da terra para que pudesse sair da arca, podemos tirar mais algumas lições espirituais.

O corvo enviado por Noé para verificar as condições da terra não voltou para arca, demonstrando que encontrara alimentação disponível. A base da alimentação dos corvos é de restos estragados de animais que se decompõem. Podemos imaginar que, com a tamanha mortandade que ocorrera, não faltou alimentação para o corvo que foi solto. A mesma coisa acontece com aquele que se alegra e se alimenta com as coisas estragadas, com o pecado. Ele não retorna mais ao lugar de onde saiu, não traz uma mensagem de esperança. Encontra um ambiente de podridão e se satisfaz nele. Muitos homens ainda procedem assim nos dias de hoje.

De modo contrário, a pomba enviada pela primeira vez voltou, pois não havia lugar para ela pousar. Mas quando foi enviada pela segunda vez, mesmo tendo encontrado alimento, uma folha nova de oliveira, retornou trazendo a mensagem de esperança. Noé prudentemente esperou mais sete dias e de novo enviou a pomba. Desta vez ela não voltou, dando a entender que já podia usufruir da recriação efetuada por Deus.

Assim acontece com aquele que experimenta a nova criação em Cristo. Quando prova o novo alimento, um alimento bom e verdadeiro, volta para trazer a mensagem a todos. E depois, quando é novamente enviado, vai e vive a sua nova vida desenvolvendo o papel que lhe foi designado para ser fecundo e multiplicar-se.

Quando unimos o verso 1 com o verso 11, onde vemos a volta da pomba para a arca com uma folha nova de oliveira no bico e a mensagem de que a terra estava seca, e lembramos que essa ave é o símbolo do Espírito Santo na Bíblia, devemos guardar em nossa mente o quanto é importante vivermos na esfera da nova criação, na esfera da influência do Espírito Santo.

A segunda parte desse capítulo nos informa que a extensão cronológica do dilúvio foi de mais de um ano. E, na verdade, quando comparamos 7.11 com 8.14, verificamos que Noé saiu da arca exatamente treze meses e vinte e sete dias depois que a porta fora fechada por Deus.

São essas as palavras dos versos 15 e 16: Então disse Deus a Noé: Sai da arca, e, contigo, tua mulher, e teus filhos, e as mulheres de teus filhos. No verso 17, Deus acrescentou a ordem para que também saíssem os animais, as aves e os répteis, e fossem fecundos e se multiplicassem.

Os versos 18 e 19 descrevem que tudo aconteceu como Deus ordenara. No verso 18, mais uma vez, vemos a obediência de Noé ensinando-nos que a vida de fé é concretizada na obediência. Quando cremos, amamos; quando amamos, obedecemos; quando obedecemos, mostramos a concretização da fé.

Ao finalizarmos as considerações dessa segunda parte do capítulo 8, damos atenção especial para o verso 16, onde encontramos Deus ordenando a Noé que saísse da arca. Pelo fato de o dilúvio ser uma prefiguração do batismo cristão, como está escrito em 1Pedro 3.20-21, podemos entender essa saída de Noé e de sua família como o ressurgimento deles da antiga para uma nova vida, sob os cuidados e a direção de Deus. A mesma coisa acontece com os cristãos que, obedientes, submetem-se à ordenança do batismo feita pelo Senhor Jesus. Você já obedeceu a essa ordenança do Senhor Jesus? Já se identificou com a morte de Jesus pelo batismo? Esse é um dever de todo cristão!

A terceira parte do capítulo 8, que compreende os versos 20 a 22, é uma bela narrativa da adoração de Noé a Deus:



20. Levantou Noé um altar ao Senhor e, tomando de animais limpos e de aves limpas, ofereceu holocaustos sobre o altar.

21. E o Senhor aspirou o suave cheiro e disse consigo mesmo: não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade; nem tornarei a ferir todo vivente, como fiz.

22. Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.

Significativamente, o primeiro ato de Noé e de sua família ao saírem da arca foi o de adorar ao Senhor. O coração grato sempre agrada a Deus. Noé, neste ato de adoração, demonstrou sua gratidão a Deus, reconhecendo que fora alvo da graça, da misericórdia e do amor de Deus. A salvação que Deus nos proporciona deve tornar-nos pessoas gratas para com Deus. Você tem demonstrado gratidão por sua salvação?

Embora seja feita nesse texto uma distinção entre aves e animais limpos e imundos para serem oferecidos em holocausto, o sistema sacrificial completamente elaborado só seria conhecido no livro de Levítico. Mas sendo Moisés o autor do Pentateuco, e tendo recebido as orientações divinas sobre a maneira correta de cultuar, certamente destacou o procedimento correto de Noé ao oferecer sua adoração a Deus.

O verso 20 ainda diz que Noé ofereceu holocaustos ao Senhor. O holocausto era um sacrifício no qual a vítima era totalmente consumida pelo fogo sobre o altar sem que nenhuma parte fosse utilizada para outra finalidade. Era um sacrifício dedicado a Deus como propiciação pelo pecado. Certamente Noé incluiu o seu pecado, o de sua família e o de toda a humanidade porque o primeiro pecado, de Adão e Eva, havia afetado toda a raça humana. Mesmo sendo um homem justo diante de Deus, mesmo achando graça diante dele, Noé, com esse ato, confessou e admitiu o seu pecado e o pecado de toda a raça humana.

O verso 21 nos mostra que o Senhor aspirou o suave cheiro, ou como literalmente lemos no hebraico, “o Senhor aspirou aroma agradável, significando que aquele sacrifício foi aceitável diante dele”.

Embora tenhamos lições espirituais a serem percebidas nesse relato é importante também salientarmos que essa alusão ao olfato de Deus é mais uma vez uma referência antropomórfica, isto é, o uso de características humanas feito por autores bíblicos para se referirem a Deus, que é Espírito (Jo 4.24).

Outra lição marcante neste texto é aquela que vê neste holocausto propiciatório o desvio da ira divina de sobre a raça humana, fato que ocorreu na morte de Jesus Cristo que se deu por nós, morrendo o justo pelos injustos, trazendo-nos a paz: O castigo que nos traz a paz estava sobre ele (Is 53.5).

Nas palavras “não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem”, é possível vermos teologicamente que essa resolução divina de não aplicar mais o juízo do dilúvio indica a aceitação do sacrifício por parte de Deus. Isso não quer dizer que Deus tenha retirado a sua maldição de sobre a terra, mas que não a destruiria mais através do dilúvio.

Mas por que Deus assumiu esse compromisso com o homem, que desde a sua mocidade tem no seu íntimo um mau desígnio, isto é, o desígnio de desobedecer, de não depender de Deus? Por que esse compromisso divino? Apesar de reconhecer no ser humano a tendência para o pecado, o caráter gracioso da aliança de Deus com Noé revela o seu amor e o seu desejo de manter comunhão com a sua criatura. A aliança graciosa de Deus para com Noé e sua família estendeu-se, e estende-se ainda hoje, para toda a humanidade, sem sombra de dúvida.

Em Números 23.19 lemos: Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?. Assim como Deus preservou e cuidou de Israel, seu povo, durante toda a história, com quem também firmou alianças, podemos crer que essa aliança com Noé e sua descendência é a garantia de que o juízo divino não ocorrerá novamente através das muitas águas. Deus é fiel!

Teremos, sim, o juízo divino sobre a raça humana, mas a Bíblia nos diz, em 2Pedro 3.7 e 13, que ele virá através do fogo:

7. Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma palavra, têm sido entesourados para fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios.

13. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e novas terras, nos quais habita a justiça.

O verso 22 de Gênesis 8 é a conclusão do compromisso divino com o ser humano. Ele nos mostra algo maravilhoso com a expressão “enquanto durar a terra”: a preservação por parte de Deus da boa ordem terrena, isto é, a seqüência correta dos dias e das noites; as estações uma após a outra; e as colheitas como resultado do trabalho do semeador. É possível percebermos que a nossa vida, em cada um dos seus detalhes, está sustentada na Palavra de Deus.

As palavras desse versículo nos convidam a apreciar, de uma maneira nova, os fenômenos da natureza. A ordem e a regularidade dos ciclos naturais estão sustentados na promessa divina. Paulo reafirma essa tão importante verdade ao referir-se ao Senhor Jesus Cristo: Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste (Cl 1.17).

Quando preservamos e também contemplamos a natureza, estamos vendo nos pequenos detalhes a boa, firme e amorosa mão de Deus proporcionando-nos um ambiente para o desenvolvimento de nossas vidas. Que possamos agradecer continuamente a Deus! Que nossa atitude seja semelhante à de Noé: cultuar ao Senhor de tal maneira que Ele aceite o nosso ato de louvor e adoração!



A aliança de Deus com Noé. As bênçãos e maldições

Gn 9.1-29

O conteúdo do capítulo 9 pode ser dividido também em três partes:

     Parte 1 –     Os novos decretos divinos (v. 1-7)

     Parte 2 –     A aliança universal, estabelecida com a raça humana (v. 8-17)

     Parte 3 –     A vida de Sem, Cão e Jafé (v. 18-29)

No verso 1 lemos: Abençoou Deus a Noé e a seus filhos e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra. Nesse novo começo, Deus estava renovando a bênção que havia proferido no início da criação do mundo. Na verdade, essa é a terceira vez que Deus abençoava o ser humano, como já havia feito em 1.28 e 5.2. Noé, como pai da humanidade resgatada do dilúvio, recebeu essa bênção assim como Adão recebeu a bênção extensiva a toda a humanidade. Essa bênção divina foi proferida não só a Noé, mas também a seus filhos, porque foi a renovação da aliança de Deus.

A ordem para serem fecundos e encher a terra demonstra mais uma vez a vontade de Deus de ver o mundo criado habitado pelo ser humano. Uma vez que o próprio Deus, através do dilúvio, havia feito perecer toda a carne, a ordem de povoar a terra era restabelecida. Através da família de Noé o mundo seria novamente habitado.

E isso de fato ocorreu, de tal maneira que nos dias de hoje temos uma superpopulação em algumas regiões do planeta, gerando muitas vezes, pela falta de cuidado do próprio ser humano, problemas difíceis, como a escassez de alimentos. A explosão demográfica e a procura pelos grandes centros urbanos trazem conseqüências terríveis para a humanidade.

Outro destaque que devemos fazer encontra-se no conteúdo do verso 2: Pavor e medo de vós virão sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar nas vossas mãos serão entregues. É necessário discernirmos o significado dessas palavras. O homem criado a imagem e semelhança de Deus, como veremos no verso 6, continuaria sendo um mordomo do mundo criado, mas este novo domínio estaria em grande medida sendo exercido num clima de medo e temor. A relação existente antes da queda, quando o homem provavelmente era vegetariano, era certamente pacífica. Mas agora, essa relação do homem com o restante da criação seria desenvolvida com base no temor e no medo, e os outros seres vivos também criados por Deus seriam dominados pelo homem e lhe serviriam de alimento, porque nas mãos dos homens estavam sendo entregues. Mais uma vez constatamos os resultados prejudiciais do pecado, mesmo após o dilúvio disciplinador, atingindo toda a criação.

O texto do verso 3, juntamente com o texto de 1.29, nos faz deduzir que antes do dilúvio a dieta dada por Deus ao homem era vegetariana. Por outro lado, é possível entendermos também que não temos aqui uma mudança de padrão, mas simplesmente a preservação de uma prática comum. Estas palavras divinas simplesmente autorizam, de forma oficial, uma prática (alimentar-se de carne), que a humanidade já fazia anteriormente com freqüência: Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora (v. 3). Assim, a dieta humana foi expandida e, a partir daqui, a ingestão da carne como parte do cardápio estava plenamente autorizada. Digno de nota também é o fato de não percebermos nesse texto nenhuma menção que diferenciava entre animais puros e impuros, pois somente na época da lei é que tal diferença foi estabelecida.

Na seqüência, os versos 4 a 6 falam sobre o sangue. Para entendermos corretamente o texto é importante lembrarmos que o povo daqueles dias entendia que o sangue era o princípio vital dos seres vivos, tanto dos animais quanto dos homens. Hoje sabemos que a vida não está nele e nem no coração. Somente quando as ondas cerebrais cessam é que termina a vida.

Então, comer carne sem retirar-lhe o sangue era uma forma de afirmar que o poder da vida, que pertence exclusivamente a Deus, estava nas mãos daquele que a ingerisse. Em Levítico 17.11-14 vemos essa estreita relação entre o sangue e a vida quando o texto declara duas vezes que “a vida de toda carne é o seu sangue”.

A vida é um presente misterioso de Deus, e o homem que O teme não deveria buscar preservá-la ou aumentar a sua força vital, comendo mais “vida” ao ingerir a carne ainda com sangue. Muitos povos pagãos tinham essa prática, pois criam que assim poderiam obter mais poder. Comiam muitas vezes as carnes dos seus inimigos, supondo que dessa maneira ficariam mais poderosos ainda.

A repetição da palavra “requererei”, por três vezes em Gênesis 9.5, destaca o princípio de que a vida humana é tão valiosa para Deus que Ele exige como compensação nada menos que a vida daquele que a tira de outra pessoa. No verso 6 lemos: Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem. Juntamente com o verso 4, este texto traz a mensagem de que toda vida pertence a Deus, e a vida humana pertence-lhe ainda mais.

O próprio Deus é o grande defensor da vida humana que lhe é preciosa, porque o homem foi criado à sua imagem e semelhança. Mesmo distorcidos pelo pecado, esses atributos ainda são preservados em nós pelo próprio Deus. Quando um ser humano tira a vida de outro, está demonstrando desprezo para com Deus, o Criador, e para com o seu próximo que também lhe é semelhante.

Apesar de ser um tema bastante polêmico, nas palavras desses versos encontramos a razão pela qual não é possível ser favorável à pena de morte. Em seu bojo também estão a questão da participação em guerras e do nosso senso de defesa própria. É uma discussão com diversos pontos de vista, entretanto, devemos perceber que a exigência divina tinha um sentido profundo de disciplinar e corrigir. Ao invés de significar uma vingança social, ou um desrespeito à vida, serviria para desencorajar a prática de um crime que colocaria fim à existência humana.

É interessante notar que no verso 7, logo depois desses versículos que tratam sobre o sangue, temos uma palavra de motivação: Mas sede fecundos e multiplicai-vos; povoai a terra e multiplicai-vos nela. Sim, Deus estava repetindo a ordem que dera ao homem no verso 1 para que se multiplicasse sobre a terra. Mas isso só poderia acontecer com a bênção divina. Temos que aprender que qualquer iniciativa nossa em tentar obedecer às ordens divinas só será bem sucedida se for realizada sob a bênção de Deus. Essa é uma verdade concreta que devemos acatar.

Na segunda parte, os versos 8 a 17 narram o estabelecimento da aliança universal; na verdade, a primeira aliança explicita. Os versos 8 a 10 nos relatam uma aliança que é abrangente em sua amplitude, porque inclui todos os seres humanos, todos os seres viventes e até os animais que tinham saído da arca. Deus falou não só a Noé, mas à família toda. Seus filhos são agora co-herdeiros das bênçãos proferidas pelo Senhor.

No verso 11 lemos: Estabeleço a minha aliança convosco: não será mais destruída toda carne por águas de dilúvio, nem mais haverá dilúvio para destruir a terra. Em certo sentido, essa aliança tem dimensão e alcance globais, uma vez que abrange todos os seres viventes. Por isso, o memorial da aliança, o arco-íris, foi colocado no céu, um dos elementos do cosmos. Esse arco-íris, disse Deus no verso13, “será por sinal da aliança entre mim e a terra”.

As alianças bíblicas geralmente são representadas por símbolos visuais, como por exemplo a circuncisão, na aliança com Abraão; o sábado, na aliança com Israel no Sinai; a Ceia do Senhor, na nova aliança. Na aliança feita com Davi, o símbolo era a manutenção do reino na sua família. E, é sempre bom lembrar que Deus cumpre integralmente a sua parte nos concertos que faz com o ser humano.

A repetição de uma idéia, através das frases “não será mais destruída toda a carne” (v. 11), “nem haverá dilúvio” (v. 11), “minha aliança… para perpétuas gerações” (v. 12), e “me lembrarei da minha aliança eterna” (v. 15), significam um compromisso unilateral de Deus. Na verdade, Deus a si mesmo se obriga manter a palavra por toda a história do ser humano, sem exigir nada em troca. Como Deus é bom! Mesmo sabendo que não cumprimos os nossos compromissos, se mantém fiel à sua Palavra. Por isso você pode confiar nele e ter segurança sempre.

Nos versos 15 e 16 temos a repetição da frase “me lembrarei”, impetrada por Deus quando Noé ainda estava na arca (8.1). No hebraico, o verbo lembrar tem a conotação de uma ação baseada num compromisso prévio. É assim que Deus honra a sua palavra. Quando firma uma aliança conosco, podemos estar certos e seguros de que Ele a cumprirá. Podemos experimentar essa fidelidade do Senhor.

A segunda parte termina com o verso 17, onde vemos uma reafirmação do compromisso divino com toda forma de vida que há sobre a terra: Disse Deus a Noé: Este é o sinal da aliança estabelecida entre mim e toda carne sobre a terra.

Agora, na terceira e última parte do capítulo 9, vamos conhecer o conteúdo dos v. 18 a 29. Neles encontramos a narrativa das vidas de Sem, Cão e Jafé, os três filhos de Noé. Nos versos 11 a 19, ênfase maior é dada a Cão, que é apontado como o pai de Canaã. A partir desses três homens, toda a terra foi povoada e surgiram as diversas nações.

Os versos 20 a 23 nos relatam um episódio bastante interessante. Noé era agricultor, como seu pai Lameque (5.29), e foi o primeiro a plantar uma vinha. Certamente é possível admitirmos que a semente que Noé usou para essa plantação foi preservada na arca. Algum tempo se passou, a vinha produziu, e de seu fruto Noé fez vinho e, tomando-o, se embriagou.

É importante nesse momento destacarmos que a primeira referência bíblica ao vinho associa-o a embriagues. Embora a Bíblia não condene o uso de vinho, ela adverte a todo homem do perigo do seu uso em excesso (Pv 21.17; 23.20-21,29-35; Is 5.22; 28.7). Os nazireus, pelos seus votos, não deveriam tomar vinho de forma nenhuma, assim como os sacerdotes quando estavam oficiando e os governantes quando tomavam suas decisões.

Em nosso relato específico, Noé, o cabeça da raça humana, após o dilúvio, pecou ao beber e embriagar-se, assim como Adão, o cabeça original da raça, pecou ao comer do fruto proibido. Embora Noé estivesse em um mundo novo, estava ainda sob os efeitos, sob o domínio do pecado. Fica claro que o uso excessivo do vinho pode levar qualquer um até mesmo a um comportamento indecente, um comportamento incompatível com uma vida de piedade na presença de Deus.

A exposição pública da nudez é desmoralizante, trouxe vergonha a Noé e complicações terríveis para Cão, porque ao invés de encobrir a indecência do pai, ele foi contar o ocorrido a seus irmãos. Sem e Jafé tiveram uma atitude melhor e mais respeitosa que Cão. Andando de costas para não verem a nudez do pai, cobriram-no com uma capa, livrando-o da situação vexatória em que se encontrava.

Há nesse episódio duas atitudes que merecem nossa atenção. Primeiro, a atitude de Cão de desprezo, de desdém, de irreverência e, principalmente, de falta de respeito para com o pai. Muitas vezes nós também menosprezamos aqueles que por motivos diversos não têm um comportamento correto. Condenar o pecado é correto, mas amar o pecador é o nosso dever. Em segundo lugar, a atitude de consideração, respeito e reverência por parte dos outros dois irmãos. Querendo evitar a vergonha do pai, Sem e Jafé demonstraram carinho, consideração e submissão a ele.

Na seqüência, ao observarmos os versos 24 a 27, a recuperação de Noé do efeito do vinho, percebemos também a sentença condenatória proferida a Cão. Ao acordar do efeito do vinho, disse: Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos (v. 25). Cão era provavelmente o filho mais novo (veja 10.21), e talvez tenha pecado por ser mais inexperiente, mas mesmo assim, não ficou livre da maldição proferida por seu pai. Ele e seus descendentes receberiam a punição.

Por sua violação ao respeito que deveria ter para com a família, para com o seu pai, sua descendência iria fracassar. Assim por ser o filho mais novo de Noé, e agir errado para com seu pai, a maldição recairia sobre ele, Canaã, que passaria a viver como servo.

Alguns estudiosos da Bíblia crêem que essa maldição tem relação com a cor da pele e com a sentença de servidão aos descendentes de Jafé e Sem. Entendem esses que a raça negra é a descendência de Cão. Em relação à pigmentação da pele, podemos afirmar que ela ocorre pela questão do clima e da localização geográfica, conforme nos informam os estudos científicos modernos. Também o que os cananitas enfrentaram, quando o território da Palestina foi devastado, foi uma clara conseqüência da civilização corrupta, criminosa e de práticas religiosas que ofendiam a vontade de Deus, como o oferecimento de seus próprios filhos em sacrifícios aos ídolos (Lv 20.23-24 com Gn 15.16).

Os descendentes de Cão, em outras localidades, foram responsáveis pelas duas primeiras grandes civilizações da história humana: o Egito e a Babilônia. Portanto, concluir que a maldição de Cão se deu através da coloração da pele, é um exagero sem base textual.

Enquanto Cão foi amaldiçoado, Sem foi abençoado (v. 26). Noé bendisse nesse verso ao Senhor, reconhecendo Deus como o autor da vida e estendeu essa bênção a Sem. E, assim, a linha messiânica fica restrita a linhagem de Sem, especificamente através de Abraão.

Finalmente, nos versos 28 e 29, encontramos o relato da idade completa de Noé, 950 anos, sendo ele o décimo e o último da genealogia de Sete, conforme está registrado no capítulo 5.

Podemos terminar esse capítulo com as palavras de Hebreus 11.7 sobre Noé: Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca dos acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé. Noé teve uma vida exemplar. Foi escolhido para preservar a raça humana. Mesmo pecando, foi usado por Deus para cumprir o seu plano. Que essa vida de fé e confiança no Senhor possa ser seguida por todos nós.





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