Através da bíblia gênesis itamir Neves de Souza John Vernon McGee


Abraão guerreia e encontra Melquisedeque



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Abraão guerreia e encontra Melquisedeque

Gn 14.1-24

O texto de Gênesis 14.1-24 possui uma divisão natural:

     Parte 1 –     Relato e registro da primeira guerra da humanidade (v. 1-11)

     Parte 2 –     A prisão de Ló e sua libertação por Abrão (v. 12-17)

     Parte 3 –     O encontro de Abraão com Melquisedeque, o primeiro sacerdote (v. 18-24)

Na parte 1 temos o relato da primeira guerra registrada na história bíblica. É um confronto de quatro reis contra cinco, num local conhecido como vale de Sidim, que é o mar Salgado. Ele também é chamado de Mar Morto ou Mar de Arabá, conforme os versos 3 e 10.

Nos versos 1 e 2 encontramos a citação dos principais personagens desse conflito:

1. Sucedeu naquele tempo que Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de Elazar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim,

2. fizeram guerra contra Bera, rei de Sodoma, contra Birsa, rei de Gomorra, contra Sinabe, rei de Admá, contra Semeber, rei de Zeboim, e contra o rei de Bela (esta é Zoar).

Esse é um relato interessante. Os quatro primeiros reis se ajuntaram para derrotar os reis de Sodoma e Gomorra e de outras três nações amigas. Os reis dessas cinco nações foram derrotados e levados cativos.

Embora alguns críticos rejeitem este registro bíblico, a arqueologia tem encontrado monumentos, assim como inscrições com os nomes dessas nações. Elas realmente fazem parte da história. Sabe-se hoje que Elão é parte do Irã moderno; que dois outros reinos provavelmente são da região da Turquia e ainda; um deles é da região da Babilônia, o país que hoje conhecemos como Iraque. As pesquisas arqueológicas são importantes, porque através de seus achados o texto bíblico é confirmado. Assim temos aqui o registro da primeira guerra da humanidade.

Esse é um registro triste, porque vemos como a humanidade começou cedo com a prática odiosa e violenta da guerra. O verso 3 diz assim: Todos estes se ajuntaram no vale de Sidim (que é o Mar Salgado). Imagine o conflito. Quantas vidas foram ceifadas! Quantos lares foram desfeitos! Esse é sempre o resultado da guerra e da ambição do ser humano.

A vitória foi obtida pela confederação dos quatro reis saqueadores que mantiveram os cinco reis derrotados servindo-os pelo espaço de doze anos: Doze anos serviram a Quedorlaomer, porém no décimo terceiro se rebelaram (v. 4). Essa servidão era do tipo vassalagem, isto é, os reinos derrotados tinham a obrigação de pagar pesados tributos aos reinos vencedores. E, com isso, todo o povo sofria bastante, porque a carga de impostos era sempre muito alta.

Os versos 5 a 7 dizem que esse grupo de quatro reis ainda atacou e subjugou outras nações. Mas os versos 8 a 10 nos falam de um levante contra esse domínio violento. O verso 8 diz assim: Então, saíram os reis de Sodoma, de Gomorra, de Admá, de Zeboim e de Bela (esta é Zoar) e se ordenaram e levantaram batalha contra eles no vale de Sidim.

O levante era de se esperar. Depois de doze anos de domínio e de pesadas taxas, houve uma reação contra essa situação humilhante. Mas a mesma coisa pode acontecer em nossas vidas espirituais. Quando não nos preparamos bem para as batalhas, corremos o risco de sermos derrotados de uma maneira ainda mais contundente. E foi exatamente isso o que aconteceu com os cinco reis subjugados. Ao enfrentar o inimigo poderoso eles foram novamente derrotados e tiveram que fugir para o vale de Sidim. No caminho de fuga muitos morreram caindo nos poços de betume daquela localidade.

Mais triste ainda é o relato dos versos 11 e 12: Tomaram, pois, todos os bens de Sodoma e de Gomorra e todo o seu mantimento e se foram. Apossaram-se também de Ló, filho do irmão de Abrão, que morava em Sodoma, e dos seus bens e partiram. Ló se encontrava em uma situação delicada. Por ter escolhido as campinas verdejantes do Jordão (13.11), foi se aproximando cada vez mais de Sodoma e Gomorra e depois passou a habitar naquele lugar. Então, além de sofrer influência da frouxidão espiritual daquele povo que era pecador diante do Senhor, ao envolver-se com a cidade pecadora, foi penalizado com as conseqüências desse conflito.

Podemos fazer conjecturas, dizendo que a guerra se deu por motivos comerciais. Na localidade havia muitos poços de betume que em palavras de hoje significa muito petróleo. Mas será que naquele tempo já havia procura por esse bem tão precioso, como acontece em nossos dias? Com certeza, não com a sofreguidão atual, mas o betume era usado na calefação das embarcações e certamente em outros tipos de construções que necessitavam de vedação completa.

Devemos lembrar que a arca de Noé foi betumada e que Moisés foi colocado no rio Nilo num cestinho calafetado com betume. Então, o produto era valioso e a motivação da guerra pode ter sido comercial. Ló acabou sendo envolvido, porque sendo muito rico chamou a atenção daqueles reis gananciosos.

Na segunda parte do capítulo 14 verificamos a participação de Abrão em toda essa situação. O patriarca com certeza envolveu-se no conflito por causa de seu sobrinho. Vimos na primeira parte que os quatro reis orientais levaram presos os reis de Sodoma e de Gomorra, e que Ló também foi levado cativo. Mas como Abrão ficou sabendo desses acontecimentos? O verso 13 nos dá a resposta: Porém veio um, que escapara, e o contou a Abrão, o heteu; este habitava junto dos carvalhais de Manre, o amorreu, irmão de Escol e de Aner, os quais eram aliados de Abrão.

Abrão, que demonstrava uma fé crescente no Senhor, intrometeu-se numa guerra arriscada que diretamente não era sua, porque queria a libertação de Ló. Mais uma vez ele demonstrou cuidado por esse sobrinho que perdera o pai e, provavelmente, havia ficado sob sua responsabilidade.

Abrão ainda mantinha relacionamento com os antigos moradores da terra e assim tinha companheiros com quem podia contar nessas horas de incertezas. O verso 14 nos relata que sua casa dispunha de muitos homens preparados para essa situação de emergência: Ouvindo Abrão que seu sobrinho estava preso, fez sair trezentos e dezoito homens dos mais capazes, nascidos em sua casa, e os perseguiu até Dã.

Pelo número de servos que Abrão possuía, era certo que realmente era rico. Naturalmente Abrão devia possuir mais do que esses 318 homens, porque esse número diz respeito apenas àqueles que estavam preparados para entrar numa guerra e lutar. Podemos supor que eles eram casados e tinham pelo menos um filho. Então, muitas mulheres, crianças e idosos estavam sob a responsabilidade do patriarca. De fato, ele era um homem abençoado por Deus.

O verso 15 nos mostra que além de ser rico Abrão era inteligente. Ele elaborou uma estratégia para libertar seu sobrinho Ló: E, repartidos contra eles de noite, ele e os seus homens, feriu-os e os perseguiu até Hobá, que fica à esquerda de Damasco. Ele os perseguiu até o norte de Damasco com uma estratégia militar muito boa, e assim conquistou uma vitória surpreendente. O inimigo correu, deixando atrás de si o povo que havia sido capturado.

Abrão conseguiu resgatar tudo o que havia sido perdido: Trouxe de novo todos os bens, e também a Ló, seu sobrinho, os bens dele, e ainda as mulheres, e o povo. Após voltar Abrão de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma no vale de Savé, que é vale do Rei (v. 16-17)].

Aqueles reis impiedosos, quando enfrentaram Abrão e seus homens, foram derrotados e fugiram. Esta ação do patriarca impressionou muito o rei de Sodoma e também os outros que estavam presos com ele. A intenção do rei de Sodoma ao ir ao encontro de Abrão no vale de Savé certamente era de agradecer-lhe e oferecer-lhe gratificações.

Quando contamos com a presença de Deus, podemos ousar e ser bênção para outras pessoas, libertando-as dos seus problemas. Haverá gratidão da parte delas, mas o importante é louvarmos a Deus que nos possibilitou sermos usados por Ele.

Entrando na terceira parte de Gênesis 14, vemos essa atitude expressa no encontro de Abrão com Melquisedeque:

18. Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo;

19. abençoou ele a Abrão e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra;

20. e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo.

Que relato interessante, não é mesmo? Mas quem era Melquisedeque? E como chegou a conhecer o Deus Altíssimo? Deus era realmente o único para ele?

A Bíblia diz que Melquisedeque era rei de Salém, mas ao mesmo tempo sacerdote do Deus Altíssimo. Além de Gênesis 14.18, temos uma referência a sua pessoa no Salmo 110.4, “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”, e também nos capítulos 5 a 7 de Hebreus.

Por ser sacerdote, Melquisedeque provavelmente tinha um conhecimento correto do Deus vivo, do Deus verdadeiro. Trouxe vinho e pão para o patriarca Abrão, exatamente os dois elementos da comunhão da ceia memorial. Mas o que tinha em mente quando agiu assim? Alguns estudiosos entendem que havia monoteísmo antes do politeísmo. Em outras palavras, todos os homens tinham o conhecimento do Deus vivo e verdadeiro. É o que o apóstolo Paulo afirma em Romanos 1, a partir do verso 18, quando diz que os homens conhecem a Deus, mas não o glorificam como Deus, como Criador.

Melquisedeque é mencionado dez vezes nas Escrituras, mas nada sabemos sobre sua origem e nem sua genealogia é mencionada. E essa ausência é realmente estranha, porque temos visto que Gênesis é o livro das genealogias, o livro das famílias, das informações sobre as gerações. Mas provavelmente ele apareceu assim para se tornar um tipo da pessoa de Cristo, que também não teve princípio e nem terá fim. Hebreus 7.1-3 diz que este sacerdote era um tipo de Cristo que naturalmente fez o serviço de um sacerdote como aqueles da posterior ordem de Arão, da ordem dos levitas:

1. Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão, quando voltava da matança dos reis, e o abençoou,

2. para o qual também Abraão separou o dízimo de tudo (primeiramente se interpreta rei de justiça, depois também é rei de Salém, ou seja, rei de paz;

3. sem pai, sem mãe, sem genealogia; que não teve princípio de dias, nem fim de existência, entretanto, feito semelhante ao Filho de Deus), permanece sacerdote perpetuamente.

Cristo, como sumo-sacerdote, pertencia à ordem sacerdotal de Melquisedeque, porque assim como ele, não tinha origem humana e nem fim os seus dias. O sacerdócio de Arão era só para o povo de Israel, porém o sacerdócio de Melquisedeque era um tipo do sacerdócio universal de Cristo para todas as nações.

Mas o texto de Gênesis 14.18-20 diz que Melquisedeque ofereceu pão e vinho a Abrão. Jesus quando instituiu a ceia memorial ofereceu pão e vinho aos discípulos e a todos os cristãos de todos os tempos, como símbolo do seu corpo partido na cruz por nós e do seu sangue derramado para a remissão dos nossos pecados.

Nos versos 21 a 24 vemos o testemunho de Abrão diante do rei de Sodoma:



21. Então, disse o rei de Sodoma a Abrão: Dá-me as pessoas, e os bens ficarão contigo.

22. Mas Abrão lhe respondeu: Levanto a mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o que possui os céus e a terra,

23. e juro que nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão;

24. nada quero para mim, senão o que os rapazes comeram e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; estes que tomem o seu quinhão.

Abrão estava disposto mostrar sua fé em Deus e não se comprometer com aquilo que um rei pagão e infiel poderia lhe dar. Ele não queria um pagamento humano, mas receber de Deus a recompensa por ter defendido aqueles que haviam sido levados cativos injustamente. E, além disso, ele recebeu a bênção de Deus por meio de Melquisedeque, o sacerdote do Deus Altíssimo.

Aquele oferecimento de Bera, rei de Sodoma, foi indiscutivelmente uma tentação para o patriarca, mas felizmente Abrão já estava preparado por causa do encontro inspirador que tivera com o sacerdote de Deus. Abrão passou no teste e saiu de cabeça erguida de diante do rei de Sodoma após ter rejeitado os seus oferecimentos.

Deus prepara os seus servos para enfrentarem as tentações. Devemos nos sentir preparados para quando formos testados, dizendo sim à comunhão com Deus e não ao apelo que o mundo faz.

Abrão tinha ao seu lado o Deus que criou os céus e a terra e, demonstrando novamente a sua generosidade e o seu interesse pelos outros, disse que os rapazes que o acompanharam deveriam ser pagos. Era muito justo que Abrão intercedesse pelos que com ele lutaram na defesa daqueles reis. Mas para si mesmo não queria absolutamente nada. Ele confiava em Deus.

A fé de Abrão e a renovação da aliança

Gn 15.1-21

Os 21 versículos de Gênesis 15 podem ser divididos da seguinte maneira:

     Parte 1 –     Deus anima Abrão e lhe promete um filho (v. 1-11)

     Parte 2 –     Deus reafirma sua aliança com Abrão (v. 12-21)

Abrão foi constantemente testado na área da segurança, porque Deus o tinha chamado para andar com Ele, sem rumo certo a olhos humanos. A partir do capítulo 15, os testes começaram a se concentrar em uma outra área da vida do patriarca: a da posteridade, do futuro, da herança deixada para as próximas gerações. Abrão é também testado na área da descendência que era muito valorizada na sociedade daqueles tempos.

Para estudarmos a primeira parte e apreendermos com exatidão o seu conteúdo, os primeiros seis versículos precisam estar claros em nossa mente. Diz assim a Palavra de Deus:



1. Depois destes acontecimentos, veio a palavra do Senhor a Abrão, numa visão, e disse: Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo grande.

2. Respondeu Abrão: Senhor Deus, que me haverás de dar, se continuo sem filhos e o herdeiro da minha casa é o damasceno Eliézer?

3. Disse mais Abrão: A mim não me concedeste descendência, e um servo nascido na minha casa será o meu herdeiro.

4. A isto respondeu logo o Senhor, dizendo: Não será esse o teu herdeiro; mas aquele que será gerado de ti será o teu herdeiro.

5. Então, conduziu-o até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: Será assim a tua posteridade.

6. Ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça.

Nestes versos vamos primeiro ressaltar duas palavras de Deus dirigidas a Abrão: “Não temas”. Por que será que Abrão estava abatido e necessitava desse encorajamento da parte de Deus? Ele não tinha acabado de ganhar uma grande batalha? Não tinha sido abençoado por Melquisedeque? Mas não é verdade que às vezes ficamos abatidos depois de vitórias? Lembra-se de Elias em 1Reis 19.4? Depois de derrotar os profetas de Baal, fugiu de Jezabel e pediu a morte a Deus. Estava em profunda depressão: Ele mesmo (Elias), porém, se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte e disse: Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais.

Assim também pode ter acontecido com Abrão. Depois de obter essas conquistas poderia estar temeroso e triste, provavelmente porque via que na sua caminhada com Deus ainda lhe faltava um filho. Faltava a Abrão um herdeiro para que a sua descendência pudesse receber a terra que lhe havia sido prometida. Não ter filhos, naqueles dias, também era visto como um sinal de castigo divino.

Nós precisamos aprender a ser sempre sinceros e transparentes diante de Deus, expressando nossos sentimentos e dialogando com Ele. Deus nos concede essa liberdade. Abrão abriu seu coração dizendo que na sua percepção via que seu descendente seria Eliézer, o damasceno. Mas as palavras de Deus o desafiaram e o encorajaram. Disse a Abrão que Ele era o seu escudo, o seu protetor, e que o seu galardão seria grande.

O que Deus estava dizendo a Abrão, e a nós também, é que a confiança deve ser posta nele, na sua promessa, na sua Palavra. O objetivo das palavras do Senhor vindas por meio de visão a Abrão não era o de promover um impacto visual, como muitos têm procurado hoje em dia. O objetivo era claramente destacar a confiança, a crença na Palavra divina. Por isso mesmo Deus levou Abrão para fora da tenda e pediu-lhe que contasse as estrelas do céu. Aquela mesma quantidade, impossível de ser contada, seria a descendência dele.

Deus confirmou sua promessa e Abrão creu. E isso lhe foi imputado para justiça, fato que o Novo Testamento destaca através de Paulo (Rm 4.22-25; Gl 3.6), do autor de Hebreus (Hb 11.11-12), e de Tiago (Tg 2.23). A justiça que Deus imputou a Abrão dependeu totalmente da fé e não das obras da lei, uma vez que a lei ainda não tinha sido dada.

Por isso Abrão é um modelo para quem deseja ser salvo. É necessário fé. É necessário crer. A salvação é exclusivamente pela fé em Cristo. Não é por nossos esforços ou por nossas obras pessoais que somos salvos, mas pela fé na obra que Cristo realizou no Calvário por nós. Esta é a base da nossa salvação. Nós não temos justiça própria. A justiça nos é imputada por meio da fé que depositamos em Cristo.

Deus disse a Abrão que a sua descendência seria como as estrelas do céu, que eram tantas que não podiam ser contadas. Abrão não tinha nenhum merecimento para receber a bênção prometida, mas creu que Deus podia concedê-la.

O texto prossegue, e nos versos 7 a 11 temos o restante dessa narrativa. Deus reafirmou que tinha tirado Abrão de Ur e lhe daria aquela terra por herança. O patriarca queria saber como isso aconteceria. Deus, então, lhe pediu que tomasse uma novilha, uma cabra, um cordeiro, cada um com três anos, uma rola e um pombinho. Esses animais foram partidos ao meio e postos em ordem, em metades, umas em frente às outras, com exceção das aves. Mas o que significava isso? Parece estranho, não é verdade?

Naquele tempo era esta a maneira certa de assinar um contrato, de fazer um acordo. Muitos anos depois o profeta Jeremias faz referência a este tipo de acordo: Farei aos homens que transgrediram a minha aliança e não cumpriram as palavras da aliança que fizeram perante mim como eles fizeram com o bezerro que dividiram em duas partes, passando eles pelo meio das duas porções (Jr 34.18)].

Essa cerimônia acontecia quando uma aliança era firmada. Os animais sacrificados eram partidos ao meio e os que faziam a aliança passavam por entre as duas metades pronunciando um juramento ou uma fórmula, amaldiçoando a si próprios caso não cumprissem sua parte.

Os animais partidos ao meio eram um símbolo do que aconteceria àquele que quebrasse a aliança que estava sendo firmada. Então, Deus reafirmou sua palavra propondo uma aliança a Abrão. E o quadro termina, não com uma cena bonita, mas com um retrato da vida cotidiana: as aves de rapina desciam sobre aqueles animais mortos e Abrão as enxotava.

Iniciamos agora a segunda parte do nosso texto, que denominamos “Deus reafirma a sua aliança com Abrão”. Nos versos 12 a 16, lemos que a palavra de Deus foi dada a Abrão, confirmando a promessa e incluindo até detalhes sobre a descendência prometida:

12. Ao pôr-do-sol, caiu profundo sono sobre Abrão, e grande pavor e cerradas trevas o acometeram;

13. então, lhe foi dito: Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos.

14. Mas também eu julgarei a gente a que têm de sujeitar-se; e depois sairão com grandes riquezas.

15. E tu irás para os teus pais em paz; serás sepultado em ditosa velhice.

16. Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniqüidade dos amorreus.

Mesmo caindo em profundo sono, e tendo um grande temor certamente pela presença marcante de Deus, Abrão ouviu sua voz proferindo detalhes sobre a descendência tão desejada. Ela seria escrava, mas depois de 400 anos sairia livre, com muitas riquezas, e voltaria para aquela terra prometida.

Esse prenúncio da escravidão teve duplo significado. Em primeiro lugar, podemos perceber que se tratava de um plano deliberado, com sucesso garantido no final após a formação de uma nação. Em segundo lugar, a paciência de Deus para com os habitantes de Canaã. O texto diz claramente que esse tempo de espera ocorreria porque ainda não estava cheia “a medida da iniqüidade dos amorreus”.

Você consegue perceber o plano divino? Com o povo escravizado e se multiplicando sob a escravidão, surgiu um sentimento de companheirismo e cooperação mútua e, assim, quando saíram do Egito séculos depois, sob a liderança de Moisés, todos tinham o mesmo anseio de liberdade.

E o outro detalhe significativo é o da paciência divina que sempre concede oportunidades para que o homem ande nos caminhos corretos. Deus age punindo o pecador somente quando a medida da misericórdia divina é ultrapassada. E nós sabemos que tudo o que foi dito de fato se cumpriu.

Em referência a escravidão do povo judeu no Egito por 400 anos, vale a pena destacar que esta não foi a única vez que ele saiu da sua terra, que ficou longe da terra da promessa. Séculos depois, por ter pecado e se desviado do Senhor, mesmo tendo sido advertido pelos profetas, o povo judeu foi disciplinado pelo próprio Senhor e levado cativo para a Babilônia. Foram 70 anos de cativeiro, retornando depois em cumprimento da profecia do profeta Jeremias.

Mas mesmo depois da encarnação, do sacrifício e da ascensão de Cristo, novamente o povo foi tirado e disperso de sua terra, quando houve a invasão dos romanos no ano 70 d.C. Só vinte séculos depois, em 1948, é que Israel começou a voltar à Palestina em cumprimento às antigas profecias.

Mas o texto prossegue, e lemos nos versos finais do capítulo a concretização da aliança divina com Abrão:



17. E sucedeu que, posto o sol, houve densas trevas; e eis um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo que passou entre aqueles pedaços.

18. Naquele mesmo dia, fez o Senhor aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates:

19. o queneu, o quenezeu, o cadmoneu,

20. o heteu, o ferezeu, os refains,

21. o amorreu, o cananeu, o girgaseu e o jebuseu.

O patriarca estava num sono profundo. O ambiente era de temor diante da marcante presença de Deus. A voz de Deus confirmara a Abrão que haveria descendência e ainda revelara-lhe o futuro dela. Mas os detalhes para a concretização da aliança deveriam ser completados. Porém Abrão estava dormindo.

Mas como Abrão poderia assinar o contrato, se estava dormindo? Na verdade não era Abrão que tinha de assinar ou estabelecer o contrato, mas somente Deus. Quem estava fazendo o juramento era Deus. Tudo dependia e sempre depende Dele. A aliança foi firmada por Deus e seria cumprida, porque Ele não é homem para mentir.

Deus foi o elemento ativo na aliança. Além de oferecer sua promessa estava empenhando a sua palavra. Abrão podia dormir, acordar, porque era o elemento passivo naquela aliança e não tinha o que oferecer a Deus. O importante nesse caso era a fé que depositava na promessa de Deus. Abrão creu, pois já experimentara que Deus sempre cumpre o que promete.

O fogareiro fumegante e a tocha acesa que passou entre as partes dos animais sacrificados representavam o próprio Deus se colocando sob maldição se não cumprisse a promessa. A presença de Deus simbolizada pelo fogo era a garantia que Abrão precisava.

O verso 18 resume todo o evento, porque nele a palavra de Deus foi afiançada e todo o programa da origem da nação estava sendo confirmado. Mas a validação da aliança veio depois, em Gênesis 17.9-14, quando a circuncisão foi instituída como sinal.

Abrão precisava apenas crer na Palavra de Deus. Imagine se ele tivesse dito que assumiria o compromisso de, por exemplo, orar uma vez por dia, ou duas, ou três, e depois viesse a fraquejar, viesse a falhar. Se isso acontecesse o contrato seria quebrado e Abrão perderia tudo.

Mas Deus nunca colocaria essa pressão sobre o patriarca. O assunto era muito sério e do interesse de Deus, porque ali estava em jogo a própria salvação da humanidade. Ele não lançaria esta responsabilidade sobre Abrão, que era falho como todo homem. Deus não poderia depender dele, mas só de si mesmo. Ainda bem que a nossa salvação não estava nas mãos de Abrão, mas nas de Deus. Não dependemos de nós mesmos, mas de Cristo.

Podemos confiar nas promessas e na Palavra do Senhor, que é fiel. Mesmo quando temos dúvidas e tememos, Ele está pronto a nos socorrer e nos animar.




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