Autonomia e Movimentos Indígenas no Brasil: a experiência Xavante na apropriação do recurso audiovisual



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Artigo CLACSO FINAL 9



Autonomia e Movimentos Indígenas no Brasil:

A experiência Xavante na apropriação do recurso audiovisual.

Kelly Russo*


Depois que vi o contato com os brancos, eu já sabia que nossa vida não continuaria do jeito que era. Mas essas coisas modernas, torre, placa solar, carro, meninos estudando, são só para nos comunicarmos com o branco. Mesmo com todas essas coisas, nós continuaremos com a nossa história e com a nossa vida.

Serebura1
Movimentos indígenas e Estados Nacionais

Ao propor trabalhar o tema movimento indígena no Brasil, é preciso antes de tudo, contextualizar o próprio termo “movimento indígena”. Diferente de outros países latino americanos, esse país possui uma população indígena minoritária (apenas 0,2% do total de habitantes) e com tamanha dispersão geográfica e diversidade lingüística e cultural2, que até hoje, as experiências de unificação para a criação de um movimento com representatividade e força nacionais mostraram-se frágeis e pouco consistentes. Isso não significa que não exista movimento indígena, mas sim que se faz necessário entender sua especificidade.

Organizações como a União das Nações Indígenas - UNI, fundamental para os avanços obtidos durante a Assembléia Nacional Constituinte de 1988, não conseguiram manter uma sólida base indígena e se desfizeram em pouco tempo. A política propriamente indígena, autônoma e permanente, surge neste país, como “uma realidade fundamentalmente local (de cada aldeia, comunidade ou família), faccional (no caso, por exemplo, de aldeias onde a organização social está baseada em metades a cada qual corresponde um peso político diferenciado) e descentralizada (sem o reconhecimento de um poder central)” (Ricardo, 2001:51). Esse caráter “híbrido e volátil”3 tornou-se ainda mais evidente nos últimos quinze anos, quando o Estado brasileiro modifica, pelo menos oficialmente, sua intenção inicial de assimilar esses povos a uma determinada idéia de nação, para os reconhecerem como constitutivos da Identidade Nacional.

Essa mudança correspondeu a uma tendência que não diz respeito apenas a realidade brasileira, mas a dos demais países da região. Em menos de duas décadas, onze Estados Nacionais latino-americanos reconheceram em suas Constituições, o caráter multiétnico, pluricultural e multilíngue de suas sociedades. Tal fenômeno pode ser entendido a partir de três principais fatores: o retorno dos regimes democráticos, após um largo período de golpes militares em toda a região; a expansão do Neoliberalismo, que diminuiu o poder do Estado com sua política de descentralização e transferência de responsabilidades à comunidades locais e organismos não-governamentais; e a maior intensidade da Globalização, que permitiu a criação de atores globais4 e lutas comuns para a sociedade civil mundial, ao mesmo tempo em que enfraqueceu a autonomia dos Estados nacionais, que precisariam ser redefinidos (Grós, 2000; Lopez e Sichra, 2004).

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* Formada em Comunicação Social (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Pós-Graduada em Direitos Humanos e Diversidade Étnica (Universidade Bolivariana - Chile) e Mestre em Ciências Sociais e Educação (Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais – Argentina).

Como conseqüência dessa nova lógica, o Estado brasileiro passa a ter uma relação ainda mais ambígua com essas populações, variando entre os declarar “relativamente incapazes” e requerentes de uma tutela Estatal, de acordo com o Estatuto do Índio – Lei 6001 de 19/12/73, que continua vigente até hoje; ou o total abandono, por trás de um discurso de “emancipação e autonomia dos povos indígenas”, que esconde a perda de direitos obtidos. Assim, os cerca de duzentos diferentes povos indígenas existentes no país buscam formas para se tornarem cada vez menos dependentes da ação estatal: disputam recursos e apoios de ONGs nacionais e internacionais, além de instituições religiosas ou educacionais para a garantia de direitos. Nesse contexto, passam também a se apropriar de elementos e tecnologias não tradicionais, entre eles o recurso audiovisual.

Desde o final da década de oitenta, com o fim da Ditadura Militar e em um contexto de busca por Direitos Humanos e Democratização dos Meios de Comunicação na sociedade em geral, diferentes povos indígenas brasileiros tiveram acesso à tecnologia do audiovisual. A partir da intervenção de ONGs, de antropólogos ou por iniciativa do próprio grupo, passam a utilizar câmeras de vídeo, o que originou um rico debate no campo da Antropologia. Diferentes autores passam a negar ou defender a possibilidade desses grupos utilizarem recursos tão distantes de suas formas tradicionais de representação, sem ameaçarem a integridade cultural do grupo e como forma de empowerment (Turner, 1991; Gallois e Carelli, 1998 e 1995; Faris, 1992; Ginsburg, 1994; Weiner, 1997). Com esse estudo, esperamos contribuir com esse debate a partir da inclusão do conceito autonomia.

A apropriação do recurso audiovisual por povos amazônicos produz imagens impactantes: aquelas realizadas por indígenas, mas principalmente, pelas que exibem o contraste entre o idealizado índio clássico, que fala o idioma nativo e vive em aldeias afastadas de centros urbanos, e uma tecnologia tão moderna. Esse contraste visual e os caminhos que alguns desses debates terminam por seguir colocam em evidência a vitalidade de conceitos embasados em visões essencialistas da cultura. Supor que esses grupos humanos possuem uma série de traços culturais rígidos que se encontram em constante ameaça de serem perdidos em algum processo de aculturação, neste caso provocado pelo uso de uma tecnologia de representação externa e muito diferente a existente na chamada “cultura tradicional” é, ao nosso ver, uma vez mais limitar ou não reconhecer a possibilidade de autonomia dessas populações.

Acreditamos na cultura como um processo, sempre em construção, sendo modificada e adaptada a novos contextos e realidades (Cardoso de Oliveira, 1996; Wolf, 2003b) e a modo como essas mudanças são priorizadas e orquestradas é a forma como esse grupo busca a sua continuidade cultural. Sabemos que as populações indígenas amazônicas e suas formas de organização, representação e luta estão em transformação contínua, provavelmente desde antes do contato colonizador5, e certamente após dele. Ao tratarmos dessa questão, não pretendemos diminuir ou desconsiderar a situação de desequilíbrio de poder existente na relação entre uma minoria étnica e uma sociedade nacional, que termina por ditar as formas de atuação consideradas “válidas” para que esse grupo consiga estar representado nas discussões políticas e sociais do país. Mas, o modo como cada um desses grupos indígenas se apropriaram dessas técnicas e recursos e como passaram a atuar, também demonstra como essa relação é feita de forma ativa, e não passiva.

Ao ter conhecimento sobre experiências dos Xavante que, de forma criativa e variada, vem utilizando o recurso audiovisual na defesa de seu grupo, decidimos investigar como se dá essa utilização. Aproximando-nos da realidade desse grupo, percebemos um cenário bastante plural: os Xavante eram compostos por uma população total de cerca de 9 mil habitantes6, divididos em mais de 60 aldeias, e cada uma delas com diferentes graus de contato e relação com a sociedade nacional, recebendo ou não, forte influência de missões religiosas, como a Salesiana Italiana, que vive e estuda alguns dos grupos Xavante desde os primeiros contatos pacíficos a mediados do século XX7.

Autodenominados A´wē Uptab (povo verdadeiro), constituem o ramo Acuen dos povos da família lingüística Je do Brasil Central. Talvez, por sua própria tradição cultural, aonde alianças e disputas políticas são freqüentes, ou por conseqüência dessa relação diferenciada com a sociedade nacional, cada aldeia Xavante possui grande autonomia na forma de organização e liderança. Dificilmente atuam em conjunto e os conflitos são freqüentes, algumas vezes incentivados por agentes externos que se beneficiam com essa segmentação8. Mas se essas características poderiam sugerir um grupo étnico de ação política débil, os Xavante surpreendem: são reconhecidos tanto na literatura acadêmica quanto no imaginário social brasileiro por sua forte resistência, sua atuação firme e decidida no enfrentamento de dificuldades e seu ethos guerreiro (Lopes, 2000). Menezes (1982:52) conclui que os Xavante são um exemplo de que as sociedades em que a “prática política é vivida como um exercício contínuo de reflexão e que, sociologicamente, são mais bem equipadas para agir em estado de guerra, dispõem igualmente de mais recursos para enfrentar a dominação que sobre elas é exercida”. Esse ethos guerreiro e alguns dos recursos utilizados pelo grupo para enfrentar a dominação puderam ser identificados desde as primeiras aproximações com o grupo, para a realização dessa pesquisa.


Pesquisa de campo e autonomia indígena: quando “objetos” tornam-se sujeitos9

Dentro dessa realidade plural existente no universo Xavante, contactamos a três diferentes grupos10 com o objetivo de definir com qual comunidade iríamos desenvolver esse estudo. Imediatamente nos chama a atenção que, apesar dos contextos variados, todas foram firmes na seguinte ressalva: investigadores somente seriam aceitos se oferecessem uma “contra-partida” para a comunidade, ou seja, através do resultado de sua pesquisa, ou por meio de atividades paralelas, auxiliasse o grupo a desenvolver melhorias de qualidade de vida para a sua comunidade. Em uma dessas organizações Xavante, chegamos a receber, por correio eletrônico, um “Código de Ética para o Investigador”, que enumerava os compromissos que o pesquisador deveria cumprir com o grupo estudado. Algo um tanto impactante de início, mas bastante evidente de que os jovens líderes amazônicos estavam tratando de impor sua nova posição: deixavam o lugar de “objetos de estudo” para buscarem uma participação de maior eqüidade nessa relação. Cada vez mais interados das formas organizativas e simbólicas existentes no mundo acadêmico, procuravam estabelecer algum controle sobre essas intervenções, já que acreditam que, nesses quase 60 anos de contato colaboraram para que “muitos livros fossem publicados” e autores consagrados, sem que suas aldeias recebessem qualquer retorno (Siridiwé, 2004: comunicação pessoal; Hiparidi, 2004:comunicação pessoal).

Depois de propostas de “contra-partida” negociadas (que na prática foi a exigência de uma postura responsável e ética do investigador em relação a dura realidade dessa comunidade), e o período de pesquisa de campo definido, delimitamos então, como nosso campo de estudo, a população da aldeia Etêñiritipa, considerada a aldeia-mãe da reserva Pimentel Barbosa. Essa reserva de 329 mil hectares, já homologada e com uma população de mais de dois mil habitantes, é considerada uma das mais protegidas de influências externas, por não existir qualquer missão religiosa e pela relativa distância em relação as cidades mais próximas (cerca de três horas de automóvel). Está localizada no estado de Mato Grosso, região da Amazônia Legal, centro-oeste brasileiro. A aldeia Etêñiritipa, aonde desenvolvemos nosso trabalho de campo, possui cerca de 519 habitantes11, o idioma utilizado é o Xavante, e menos de um por cento da população domina o português (nenhuma mulher). Entre os que dominam este idioma, estão o atual cacique, o vice-cacique, um dos professores da aldeia e um videomaker, ou Dapoto´wa (criador de imagem), como denominam em língua Xavante, os dois jovens responsáveis pela utilização do recurso audiovisual nesta aldeia.

Para iniciar nossa investigação sobre o uso do recurso audiovisual no contexto de contato interétnico, propomos às lideranças a realização de um vídeo feito por eles, apresentando a cultura Xavante, a ser exibido em escolas públicas da região. Desde 2001, a população de Etêñiritipa vem realizando uma série de seminários, palestras e apresentações de danças tradicionais em escolas da região, como parte de uma estratégia que busca manter uma melhor relação com as comunidades locais. Nosso intuito era o de acompanhar esse processo e também, investigar a possibilidade de utilização dos vídeos realizados por grupos indígenas, como material didático em escolas públicas brasileiras, criando assim, um diálogo intercultural entre diferentes grupos étnicos e o sistema formal de ensino do país. Mas, apesar da excelente acolhida e visível interesse demonstrado por grande parte da comunidade, nossa proposta inicial se viu alterada no decorrer do trabalho de campo.

Mais do que a criação de novos canais de comunicação para um maior equilíbrio no fluxo de informações entre sociedade nacional e populações indígenas, uma outra questão foi evidenciada como prioritária para esta comunidade naquele momento: transformar a escola municipal local em uma verdadeira escola indígena, capaz de valorizar e resgatar a cultura tradicional (garantindo a continuidade e reprodução cultural do grupo), e de capacitar jovens Xavante no uso de códigos sócio-culturais e políticos da sociedade nacional, ou em suas palavras, que lhes ensinasse “os segredos dos warazu” (brancos) para se defenderem de modo mais efetivo.

No momento em que realizávamos a pesquisa etnográfica, as lideranças estavam diretamente comprometidas com o desafio de se apropriarem da instituição escolar, além de inseridos em um forte debate sobre como fortalecer o grupo diante das influências recebidas diariamente, no contato cada vez mais freqüente12 com sociedade envolvente. Durante esse período, foram presenciadas discussões e decisões do grupo sobre a chegada ou não de computadores na escola da aldeia; a viabilidade do desenvolvimento de projetos turísticos dentro da reserva, como forma de aumentar a renda comunitária; tentativa de definição de regras para manterem vícios considerados “perigosos” (como bebidas alcoólicas e cigarros) sob controle e longe de seu cotidiano; e ainda, estabeleciam uma negociação, junto a uma Prefeitura da região, sobre custos e valores de cachê artístico que deveriam receber para que apresentassem uma cerimônia Xavante durante um evento organizado por esta.

Assim, com uma maior proximidade da realidade local, foi possível perceber que a apropriação do recurso audiovisual – que existe nessa aldeia por iniciativa do próprio grupo – é um integrante a mais de uma série de ações que estão sendo desenvolvidas pelas lideranças dessa comunidade que, com autonomia, buscam maior liberdade em sua relação com a sociedade nacional. Nesse novo cenário, os objetivos propostos inicialmente foram revistos durante o próprio desenrolar da investigação, quando o “objeto de estudo” passou a ser também sujeito nessa história. Em lugar de fazermos um vídeo a ser apresentado a estudantes brasileiros, os Xavante decidiram realizar, com nossa parceria, um vídeo sobre a própria escola da aldeia: o cotidiano dos professores e alunos, os desafios enfrentados por professores e coordenadores, e como se dá a participação dos anciãos do grupo nessa administração escolar13.

Durante a realização do vídeo junto aos Xavante, foram muitos os momentos em que nos deparamos com a segurança e habilidade desses líderes, ao trabalharem com o recurso audiovisual. Um dos primeiros encontros, gravado em vídeo, foi entre os homens mais velhos da comunidade, professores e cacique, para discutirem a necessidade de publicação de material didático em idioma nativo e como seria a participação deles nesse processo de decisão de conteúdos para os novos livros. A reunião foi na escola, a pedido do próprio cacique, em uma sala de aula. Depois de apresentada a questão por um dos professores, o cacique levantou-se e começou a explicar o que significaria essa publicação, a importância desse encontro – que seria o primeiro a tratar sobre o conteúdo escolar – e de sua intenção de começar a discutir na comunidade, como eles estariam acompanhando mais de perto o funcionamento dessa escola. Sentados em círculo, cada orador se levantava para falar ao grupo, sempre em idioma Xavante.

Os principais objetivos pretendidos por professores e cacique, para a realização do vídeo sobre a escola da aldeia, era o de incentivar uma maior participação da comunidade na gestão escolar, mostrar apoio do cacique e anciãos em relação ao trabalho dos professores, e com a finalização e divulgação desse vídeo fora de sua comunidade, conseguirem apoios para a publicação de materiais escolares específicos, e definição do idioma Xavante, falado nesta reserva, para a língua escrita14. O videomaker passou todo o encontro gravando cada depoimento, circulando entre os participantes, não desligando o aparelho em nenhum momento. Registrava detalhes do rosto e mãos de cada um deles, dando maior ênfase para os mais velhos, principalmente quando estes folheavam curiosos, os modelos de cartilhas vindos de outras comunidades indígenas. Em alguns momentos foi possível perceber a variação do tom de voz, da força do discurso, mudanças na direção do olhar ou mesmo da expressividade dos oradores, de acordo com a proximidade ou não, da câmera. Também, ao final do encontro, muitos explicitaram o que percebemos ser uma preocupação freqüente no grupo: a cada momento que utilizávamos a câmera de vídeo queriam saber os objetivos deste e principalmente, de quem seria o material registrado, antes de fazer qualquer depoimento.

Com a formação dos videomakers da aldeia, o domínio sobre as próprias imagens passou a ser um tema freqüente para o grupo e, como podemos perceber, uma preocupação não somente de suas lideranças, mas também para grande parte da comunidade. A maioria dos moradores só aceitava participar da gravação do vídeo, principalmente as mulheres, depois de explicado que este material seria deles, ficaria na aldeia. O mesmo acontecia com as fotos. A partir de nossa experiência de campo, ao verem-se utilizando e dominando técnicas antes desconhecidas e que faziam parte apenas do universo dos warazu (brancos), os Xavante sentem-se com maior poder e mais capazes de manter uma relação equilibrada com essa mesma sociedade (Supretapra, 2004: comunicação pessoal):


O pensamento da gente para fazer um filme foi pras pessoas entenderem o nosso sentimento, daqui da aldeia, porque a gente é índio, então é sempre discriminado, né? (...) Foi pra mostrar que também somos capazes de fazer igual a eles, mostrar que queremos ser respeitados porque somos gente também. Antes só os antropólogos davam informação, sendo dono da informação do povo indígena e agora a gente resolveu fazer essa documentação e divulgação, (...) para conscientizar outras pessoas através desse filme, através de fotos ou através de informações da televisão, mostrando quem são os Xavante.
Criar uma nova dinâmica no fluxo de comunicação, abrindo espaço para que sejam expostos também os “sentimentos” do grupo, ou seja, o ponto de vista da própria comunidade; mostrarem “capacidade” e igualdade de condições ao dominarem uma tecnologia que não configura em suas tradições, mas que permite “conscientizar” os não Xavantes de acordo com a visão do grupo; e serem “donos” de suas próprias informações, ao possuir voz nos debates em torno de sua sociedade, participando de um contexto aonde muito se fala sobre eles, mas pouco ou quase nunca, tem espaço para participarem desses debates... Dessa forma, nos propomos a investigar se a apropriação do recurso audiovisual significaria um empowerment deste grupo, ou seja, sua utilização poderia ser considerada uma nova forma de poder.

A partir de uma investigação etnográfica junto à população da aldeia Etêñiritipa durante os meses de fevereiro, julho e agosto de 2004, e a realização de entrevistas abertas e semi-estruturadas com essa comunidade e com atores externos (pesquisadores, jornalistas, indigenistas, líderes de outras etnias e representantes do poder público local), tratamos de pesquisar sobre como se dá a utilização do recurso audiovisual. Com o trabalho de campo, percebemos que essa apropriação não poderia ser analisada como um fenômeno per si, mas sim, dentro de um contexto de decisões coletivas que visam uma maior autonomia com a sociedade nacional. Nossa hipótese é que o uso do vídeo, assim como a apropriação de outros recursos ou tecnologias externas, representam novas formas de poder e luta dessa etnia em sua relação com a sociedade nacional.

Assim como os Xavante de Etêñiritipa, muitos outros grupos indígenas precisam negociar cotidianamente, a continuidade de uma cultura considerada tradicional com a entrada de novos hábitos e recursos provenientes do contato, e acreditamos que essa negociação ocorre de modo ativo e dinâmico. A tecnologia do audiovisual é apenas uma delas, como poderemos ver a partir da experiência desse grupo. Ao analisarmos como se dá a apropriação do recurso audiovisual, esperamos contribuir nas discussões sobre como novas lideranças indígenas estão, de forma criativa e autônoma, se apropriando de diversos recursos externos a sua cultura tradicional, em busca de maior poder em sua relação com as sociedades nacionais.

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