Autor: Andréa Albuquerque Adour da Camara Faculdade de Educação



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Autor: Andréa Albuquerque Adour da Camara

Faculdade de Educação

Universidade Federal de Minas Gerais

Minas Gerais

Programa de Pós-Graduação Conhecimento e Inclusão Social em Educação

Eixo Temático: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação e Movimentos Sociais

Categoria: Pôster

Orientadores: Rogério Cunha Campos (FAE) e Sônia Maria de Melo Queiroz (FALE)



Voz do soul, voz da alma:

música, educação e religiosidade nos cantos de trabalho afro-descendentes

Objeto:

A pesquisa propõe estudar as relações entre música, educação e religiosidade a partir dos cantos de trabalho da diáspora africana no Brasil e nos Estados Unidos, tendo como princípio dois documentos escritos. O primeiro é o trabalho “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, de Machado, que registrou, na região de São João da Chapada e Quartel de Indaiá, município de Diamantina, em 1928, 65 cantos com elementos de língua africana entoados em situações de trabalho coletivo e celebrações da natureza, chamados vissungos. Segundo Machado, “dividem-se os vissungos em boiado, que é solo, tirado pelo mestre sem acompanhamento nenhum, e o dobrado, que é a resposta dos outros em côro, às vezes com acompanhamento de ruídos feitos com os próprios instrumentos usados na tarefa”. O outro registro escrito trata-se da publicação “Slave Songs of the United States”, editado por Allen et al. que representa a primeira coleção de cantos da diáspora africana, registrado nas plantações de algodão no sul dos Estados Unidos, em 1867. Em diversos momentos, os autores deste documento ressaltam o modelo de transmissão oral desses cantos e assinalam as dificuldades encontradas no processo de transcrição dos mesmos devido aos próprios limites da notação musical do ocidente, bem como aos diversos modos de cantar dos escravos: “as vozes das pessoas de cor possuem uma qualidade peculiar que ninguém pode imitar, e as entonações e variações delicadas mesmo em um só cantor, não podem ser reproduzidas no papel”1. Também serão usados pelo menos dois registros fonográficos. O primeiro deles foi realizado pelo musicólogo L. H. C. de Azevedo, a convite da biblioteca do Congresso Nacional Americano, que, a fim de construir o acervo do American Folklife Center, encomendou, na década de 40, a gravação em campo de diversas músicas no território brasileiro, dentre elas, os vissungos. O segundo material fonográfico, também encomendado nos anos 40 pela mesma biblioteca, foi produzido pelo musicólogo estadunidense A. Lomax, que registrou entrevistas e gravações de campo de canções entoadas nas plantations no sul de seu país. Esses 4 documentos estão entre os primeiros testemunhos gráficos e sonoros que marcam a presença do negro nas Américas. Partindo deles, a pesquisa propõe compreender a maneira pela qual aconteceram as primeiras manifestações culturais decorrentes da diáspora Africana, para então pensar em como esta presença acaba por consagrar esses dois países como dois importantes centros artísticos da música popular, revelando um rico intercâmbio cultural e a notável proximidade entre as produções culturais da África em diáspora.


Referencial teórico:

Para compreender o sentido da expressão “diáspora africana” serão utilizados os autores Gilroy, S. Hall. No campo da musicologia, serão utilizados os autores Mukuna, Tinhorão, Carvalho e Chase. Para os fundamentos da tradição oral, os trabalhos de Zumthor e para o aspecto da religiosidade, Bastide e Rouget. Para amparar o aspecto histórico dos documentos, os relatos dos viajantes (Rugendas, Martius e Humboldt).


Metodologia:

A pesquisa na área de ciências humanas vem desenvolvendo-se, porém algumas questões devem ser discutidas, visto que as situações comportamentais e culturais são efêmeras. A metodologia exige a constituição de princípios de trabalho que lhe sejam próprios, caracterizando-se por múltiplas abordagens, e diferentes estilos narrativos. Da mesma forma, o suporte teórico de nossos estudo será construído a partir de múltiplas leituras. O próprio termo metodologia nos auxilia neste aspecto, visto que metodologia vem do grego, met-odo-logia, de onde ódós significa caminho; logos, logia, diz “dizer aí” e met, “em lugar de”. Sendo assim, metodologia é “dizer o lugar do caminho”, o processo de caminhar. É na caminhada que traçamos nosso destino, pois nos entregamos ao caminho e às suas possibilidades. Um dos caminhos é a realização de uma revisão bibliográfica tendo como foco os sentidos dos termos Música, Educação, Religião, Língua, Linguagem, Cultura, Etnia, África, Diáspora, Identidade, Oralidade, Memória, com o objetivo de conhecer quais as transformações e os significados que os termos estudados podem assumir, auxiliando-nos na compreensão dos documentos que serão analisados. Esse suporte teórico nos auxiliará na análise das canções, onde buscaremos mapear a relação entre gesto e palavra a partir dos documentos escritos e sonoros, relacionando os cantos de trabalho com aspectos sagrados, educacionais e musicais presentes nestas culturas. Um outro caminho será a construção de gráficos, visando encontrar paralelos entre língua, melodia, gesto e ritmo, para tentar compreender as principais funções retóricas das canções. Aqui assume-se que muitas das línguas africanas (sobretudo do banto) são tonais, e que, assim como no uso dos tambores, elementos de comunicação estão ali representados sem a palavra. A melodia expressa através do canto deve apontar aspectos que construam uma nova relação na tríade palavra-melodia-sentido. Para a realização dessa análise, utilizaremos o parâmetro proposto por Shellenberg (2009) 2, onde a partir de gráficos comparativos entre fala e canto (Fig. 1) o autor investiga se fala e canção possuem paralelismo com relação ao contorno melódico. Em nosso caso, compararemos os registros em áudio e os escritos.

Fig. 1
Outro caminho refere-se às diferenças entre os documentos, visto que, tanto o material estadunidense, quanto o brasileiro não possuem equivalência precisa entre o registro escrito e o áudio: muitas vezes as músicas possuem em comum apenas o tema anunciado pela letra, enquanto a observação do conteúdo propriamente musical se depara com divergências bastante pronunciadas, possivelmente em decorrência do formato de transmissão oral. Tendo em vista que a distância entre os registros gráfico e sonoro brasileiros são de aproximadamente 20 anos, e tal distância, no caso estadunidense, é de 80 anos, teremos que enfrentar o percalço de tentar tecer o cenário dessas culturas a partir de observações diacrônicas, sendo para nós, este, o maior desafio. Os limites entre a escrita musical dos documentos e a oralidade dos registros sonoros também sugere uma investigação mais detalhada dos meios de transcrição da ação musical para o nosso contexto de pesquisa, buscando uma representação gráfica que contemple a performance musical mais amplamente.

A seguir, exemplos das transcrições realizadas por Machado (fig. 2) e por Allen et all.


Fig. 2
Fig. 3
Desenvolvimento:

Inicialmente a pesquisa propunha investigar as diásporas negras no Brasil e nos Estados Unidos a partir da presença da “soul music” na música brasileira através dos cantores de gospel e a relação entre religiosidade e educação de tradição oral, veiculadas tanto pela mídia como entre os cantores em suas comunidades. Buscando material que apontasse elementos africanos na música dos dois países, encontramos quatro importantes publicações que acabaram por reestruturar nosso caminho de investigacão: os livros de K. Mukuna (2006), E. Vidossich (1975), G. Chase (1957) e “de I. L. Sablosky (1994). Na leitura deste material, travamos contato com o texto de Machado e Allen, os quais se tornaram o ponto de partida da pesquisa. Neste movimento, descobrimos a importância da cultura banto nos dois países, marcadamente na região de Minas Gerais com os vissungos e nas plantations no Mississipi. Os mapas abaixo, mostram a presença das línguas banto na África (fig. 4) e o movimento migratório des escravos no período do tráfico negreiro (fig. 5):


Fig. 4 Fig. 5

A presença de escravos falantes de línguas vindas do banto é comprovada por diversos autores (Hall – 2005) e manifesta-se também no vocabulário do português (moleque, cochilar, bunda, marimbondo) e do ingles (jazz, boogie-woggie, banjo), como demonstram respectivamente Castro (2002) e Wass (1979). Por outro lado, como compreender os contextos brasileiro e estadunidense, que começaram a receber diversas etnias e diferentes línguas africanas desde o século XVII? Nos apoiamos no principio que nos aponta Gilroy e S. Hall de que o Atlântico negro os une em diáspora, pois estão unidos enquanto cultura, pela sobrevivência, num contexto de escravidão. Podemos ainda imaginar que, num contexto de multilínguas dado pelas diversas etnias, essas culturas se misturaram e acabaram constituindo aqui e lá uma nova cultura. Foi nesse momento que decidimos buscar entender, a partir do quimbundo, língua banto, como a língua expressa o sentido de CANTAR. O quimbundo é uma língua tonal e, como tal, possui modos de entonação diferentes: um tom alto, um tom médio e um tom baixo. R. Mendonça diz com relação aos tons musicais nas línguas africanas: “a elevação da voz pode mudar completamente o sentido de uma palavra.”3 Assim constituímos a indagação de que, em línguas tonais, possivelmente o sentido de afinar (precisão) da cultura ocidental deve ser entendido de outra forma. Investigamos, então, o Dicionário Kimbundo - Português de A. Junior e constatamos alguns fatos interessantes: palavras como “jimbimbi” (diferenças que se notam nas vozes ou nos tons), kubana (entoar, cantar), kuiéia (entoar, cantar em coro), kútua (afinar: ter fio; tornar-se agudo, penetrante), Uimbilu (entoação, maneira de cantar), indicam sentidos dos termos “afinar” e “entoar” bastante distintos daqueles apresentados por um dicionário de Música. As palavras que sugerem o sentido de “entoação” estão sempre atreladas a um contexto de performance e nunca apontam para a idéia de precisão de afinação. O termo “afinar”, que só aparece nas definições de um dos termos do dicionário (“kútua”), está ao lado de um sentido – o de tornar-se agudo – que o distingue bastante do entendimento como “ajuste”. Outro aspecto que devemos considerar é a forte presença do cantar em muitos dos registros que descrevem a permanência da cultura africana no Brasil, como os realizados por Machado:

Os negros no serviço cantavam o dia inteiro. Tinham cantos especiais para a manhã, o meio dia e a tarde. Mesmo antes do sol nascer, pois em regra começava o serviço alta madrugada, dirigiam-se à lua, em uma cantiga de evidente teor religioso”4.

O cantar como pertencente a todas as atividades do dia, reestruturando e dignificando a permanência na condição de escravo, é também uma forma de continuidade e preservação cultural. Segundo L Calvet, “o intérprete é também um artista um criador.”5. A ação musical cantada de origem africana deve ter contribuído em muito para a música brasileira, visto que as culturas orais são resguardadas mnemonicamente a partir de mecanismos musicais de preservação. Em permanente re-elaboração, a ação musical do cantar é refeita e os elementos africanos e brasileiros são fundidos. Acreditamos, contudo, que alguns traços da cultura banto ainda permanecem nas melodias populares brasileiras e que eles podem ser buscados e identificados.
Próximas etapas de pesquisa:

1) analisar os dicionários de umbundo e quicongo com o mesmo desenho de campo semântico, buscando os sentidos dos termos cantar e afinar.

2) analisar os documentos escritos, construindo gráficos que busquem: apontar aspectos melódicos e rítmicos em relação à letra e à língua.

3) analisar as entrevistas e os arquivos em áudio e construir paralelos com os resultados encontrados nas análises dos documentos escritos.

4) Analisar os limites da transcrição e da notação musical nesses contextos.

5) Redigir os resultados encontrados e analisa-los do ponto de vista da formação desses indivíduos em seus contextos culturais.

5) Redação final e conclusão.
Palavras chaves:

Música – África – Diáspora


Referências:

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2010. Introdução à Poesia Oral. Belo Horizonte, Editora UFMG.


Gravações:

CD - Music of Ceará and Minas Gerais

Luiz Heitor Correa de Azevedo – Library of Congress Endangered Music Program (Series)

CD – Negro Work Songs and Calls

Allan Lomax - Library of Congress Archive of Folk Culture
Contato: E-mail: andreaadour@yahoo.com.br

Telefone: 31 32859271



1 ALLEN, et all. 1995. Pg. iv. (tradução nossa)

2 SHELLENBERG, Murray. 2009.

3 idem

4 MACHADO FILHO, Aires da Matta. 1943.

5 CALVET, Louis-Jean. Org. QUEIROZ, Sonia. 2006.


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