Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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A BÍBLIA E

O FUTURO

Por
Anthony A Hoekema

Copyright 1979 de Wm. B. Eerdmans Co.

Direitos exclusivos cedidos à Casa Editora Presbiteriana para edição em língua portuguesa.



Autor: Anthony A Hoekema

Tradutor: Karl H. Kepler

Revisão dos Originais: Sabatini Lalli

Revisão Final: Valter G. Martins

FICHA CATALOGRÁFICA

HOEKEMA, Anthony A H693b A Bíblia e o futuro. Anthony A Hoekema: Tradução de Karl H. Kepler. - - São Paulo: Casa Ed. Presbiteriana, 1989. 461 pp. Contém bibliografia Contém índice 1. Escatologia I. Título CDD (19º) 236 CDU 236


ÍNDICE PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO
ESCATOLOGIA - CRISTIANISMO 236

IGREJA TRIUNFANTE 236.6

VIDA FUTURA 237
1ª Edição 1989
As citações bíblicas, nesta obra, são extraídas da Edição Revista e Atualizada da tradução de João Ferreira de Almeida para o Português.

“Algumas partes do livro representam uma versão revisada (e expandida) do meu estudo sobre o amilenismo em The Meaning of the Millennium: Four Views (O Significado do Milênio: Quatro Posições), editado por Robert G. Clouse, 1977, pela Inter-Varsity Christian Fellowship dos EUA. Usado com permissão” (A A Hoekema).


CASA EDITORA PRESBITERIANA

Rua Miguel Teles Jr., 382/394, Cambuci

01540 - São Paulo - SP

Tel.: (011) 270-7099



ÍNDICE
Prefácio
Abreviaturas

PARTE I. ESCATOLOGIA INAUGURADA
1. A Perspectiva Escatológica do Velho Testamento

2. A Natureza da Escatologia Neotestamentária

3. O Sentido da História

4. O Reino de Deus

5. Escatologia e o Espírito Santo

6. A Tensão entre o “Já” e o “Ainda-Não”



PARTE II. A ESCATOLOGIA FUTURA
7. A Morte Física

8. Imortalidade

9. O Estado Intermediário

10. A Expectativa pela Segunda Vinda

11. Os Sinais dos Tempos

12. Os Sinais em Particular

13. A Natureza da Segunda Vinda

14. Principais Correntes Milenistas

15. Uma Crítica ao Dispensacionalismo Premilenista

16. O Milênio do Apocalipse 20

17. A Ressurreição do Corpo

18. O Juízo Final

19. Castigo Eterno

20. A Nova Terra


Apêndice: Últimas Tendências em Escatologia
Bibliografia
PREFÁCIO
Este livro é uma tentativa de apresentar a escatologia bíblica ou, seja, aquilo que a Bíblia ensina sobre o futuro. Conforme vem indicado no Apêndice, existem três grandes correntes de pensamento em escatologia, cada uma com uma perspectiva diferente a cerca da vinda do reino de Deus: o reino pode ser (1) presente, ou (2) futuro, ou então (3) tanto presente como futuro. O ponto de vista adotado neste estudo é o terceiro: reconhecendo a distinção entre o “já”- a forma presente do reino como inaugurado por Cristo - e o “ainda não” - o estabelecimento final do reino, que terá lugar quando da Segunda Vinda de Cristo.
Coerentemente com a tese de que escatologia é uma realidade que envolve tanto o presente como o futuro, o livro está dividido em duas partes. A primeira parte, Escatologia inaugurada, trata a realização presente do reino e das bênçãos que a comunidade redimida já desfruta; enquanto isso, a Segunda parte, Escatologia Futura, aborda assuntos tais como o estado do crente entre a morte e a ressurreição do corpo, o juízo final e a nova terra.
Cabe-me reconhecer minha dívida a meus colegas do Calvin Theological Seminary, e a meus alunos de todos esses anos, cujos comentários nas discussões de classe ajudaram a aprimorar minhas idéias sobre esses assuntos.
Eu gostaria ainda de expressar minha gratidão ao Conselho Diretor do Seminário por me propiciar um ano sabático, durante o qual esse livro foi iniciado, e à equipe das bibliotecas da Universidade de Cambridge e da Faculdade e Seminários Calvin, pelo uso de suas instalações.
Fico agradecido também à minha esposa, Ruth, por sua ajuda e apoio inestimável durante a redação deste livro.
Que o Senhor possa usar este estudo para inspirar regozijo por sua vitória decisiva sobre o pecado e a morte, e para aguardarmos ansiosamente a consumação final dessa vitória na vida vindoura.


  • ANTHONY A HOEKEMA


Grand Rapids, Michigan (EUA)


ABREVIATURAS
ASV American Standard Version

Berkhof, Meaning H.Berkhof, Christ the Meaning of History (Cristo, o sentido da História)

Berkouwer, Return G.C. Berkouwer, The Return of Christ (A Volta de Cristo)

Cullmann, Savation O Cullmann, Salvation in History (Salvação na História)

Culmann, Time O Cullmann, Christ and Time (Cristo e o Tempo)

DITNT Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento

Inst. J. Calvino, As Institutas da Religião Cristã

KJ King Jamens Version

Ladd, Presence G.E. Ladd, The Presence of the Future (A Presença do Futuro)

NIV New Internacional Version

NSB New Scofield Bible (1967) (A Nova Bíblia de Scofield)

Ridderbos, Coming H.N. Ridderbos, The Coming of the Kingdom (A Vinda do Reino)

RAB Edição Revista e Atualizada no Brasil

RSV Revised Standard Version



Walvoord, Kingdom J.F. Walvoord, The Millennial Kingdom (O Reino Milenar)
( Nota: Todas as citações bíblicas não identificadas de outra forma provêm da versão Revista e Atualizada no Brasil.)

PARTE I

ESCATOLOGIA INAUGURADA
O termo “escatologia” origina-se de duas palavras gregas, eschatós e lógos, e significa “doutrina das últimas coisas”. Geralmente, tem sido entendido como referindo-se a eventos que ainda virão a acontecer, relacionados tanto com o indivíduo como com o mundo.

Com relação ao indivíduo, é dito que a escatologia se ocupa de assuntos tais como morte física, imortalidade, e o assim chamado “estado intermediário” - o estado entre a morte e a ressurreição geral. Com relação ao mundo, a escatologia é vista como tratando da volta de Cristo, da ressurreição geral, do juízo final e do estado final das coisas. Mesmo concordando em que escatologia bíblica inclui os tópicos acima mencionados, nós temos de insistir em que a mensagem da escatologia bíblica será seriamente empobrecida se nela não incluirmos a situação presente do crente e a fase atual do reino de Deus. Em outras palavras, a escatologia bíblica completa precisa incluir tanto o que podemos chamar de escatologia “inaugurada”1 como a escatologia “futura”2 .
Nesta seção deverei tratar de várias idéias básicas relativas ao estado presente do reino. Os capítulos 1 e 2 abordam detalhadamente a perspectiva escatológica do Antigo e do Novo Testamentos. O Antigo Testamento está repleto de profecias acerca de bênçãos futuras para Israel. Em o Novo Testamento, muitas destas profecias - embora não todas - são cumpridas na pessoa de Cristo. Por conseguinte, torna-se óbvio que algumas profecias serão cumpridas apenas na Segunda Vinda. O capítulo 3 discute a respeito do propósito e o alvo para o qual esta se move, com Cristo no centro e Deus no comando. Os demais capítulos desta parte abordam a natureza e o significado do reino de Deus, o papel do Espírito Santo na escatologia, e a tensão entre as realidades presente e futura.
1 Esta expressão é preferível à “escatologia realizada” (por razões que serão apresentadas mais adiante). Ela se refere ao gozo presente de bênçãos escatológicas que o crente desfruta.
2 Este termo designa eventos escatológicos que ainda são futuros.
CAPÍTULO 1
A PERSPECTIVA ESCATOLÓGICA

DO ANTIGO TESTAMENTO
Para entendermos corretamente a escatologia bíblica, precisamos vê-la como um dos aspectos integrantes de toda a revelação bíblica. A escatologia não deve ser vista como algo encontrado apenas em livros tais como Daniel e Apocalipse, mas como dominando e permeando toda a mensagem da Bíblia. Neste ponto, Jürgen Moltmann está totalmente correto: “Do começo ao fim, e não apenas do epílogo, o Cristianismo é escatologia, é esperança, olhar e andar para frente e, por causa disso, também, é revolucionar e transformar o presente. O escatológico não é um dos elementos da Cristandade, mas é o agente da fé cristã em si, a chave à qual tudo está ajustado... Por isso, escatologia não pode realmente ser apenas uma parte da doutrina cristã. Antes, a perspectiva escatológica é característica de toda a proclamação cristã, de cada existência cristã e de toda a Igreja” 1.

Para entendermos este tópico, passemos a apreciar mais de perto a natureza escatológica da mensagem bíblica como um todo. Neste Capítulo, queremos considerar a perspectiva escatológica do Antigo Testamento; no capítulo seguinte estaremos nos ocupando da visão escatológica do Novo Testamento.



Freqüentemente tem sido dito, por teólogos situados na tradição liberal, que há muito pouca escatologia no Antigo Testamento. Devemos concordar, naturalmente, em que os escritores do Antigo Testamento não nos fornecem ensinamentos claros a respeito das doutrinas a que chamamos de “Escatologia Futura”: vida pós-morte, Segunda Vinda de Cristo, juízo final e assim por diante. Mas há um outro sentido, segundo o qual o Antigo Testamento está orientado escatologicamente do princípio ao fim. George Ladd o descreve da seguinte forma:
Conclui-se que a esperança de Israel, pelo Reino de Deus, é uma esperança escatológica, e esta escatologia é a conseqüência inevitável da visão que Israel tem de Deus. O antigo criticismo Wellhauseniano insistia em que escatologia era um desenvolvimento tardio que veio a emergir somente na época pós-exílica. Recentemente, o pêndulo tem-se inclinado para outra direção e o caráter fundamental da escatologia israelita tem sido reconhecido. Pode-se citar um número cada vez maior de eruditos que reconhecem que foi o conceito de Deus, ocupando-se com Israel na história redentiva, a causa do surgimento da esperança escatológica 2.
Um dos mais recentes eruditos citados por Ladd é T.C. Vriezen, professor de Estudos do Antigo Testamento da Universidade de Utrecht é “um fenômeno israelita que não tem sido encontrado fora de Israel”3. Ele continua:
A escatologia não surgiu quando o povo começou a duvidar da veracidade do reinado de Deus no culto, mas sim quando eles tiveram de aprender, em meio a grande sofrimento, a confiar em Deus, pela fé somente, como o único fundamento firme da vida, e quando esse realismo da fé esteve dirigido criticamente contra a vida do povo, de modo que a catástrofe iminente era considerada como uma intervenção divina plenamente justa e, ainda, de modo a ser confessado que o Deus santo permanecia inabalado em Sua fidelidade e amor a Israel. Dessa maneira, a vida de Israel na história passou a ter um aspecto duplo: por um lado, o juízo era considerado como próximo, tangível, e a re-criação da comunidade de Deus como algo que se avizinhava... Escatologia é uma certeza religiosa que emana diretamente da fé israelita em Deus, conforme enraizado na história de sua salvação 4.
Por causa disso, Vriezen considera a escatologia como essencial à mensagem tanto do Antigo como do Novo Testamento: “No coração da mensagem do Antigo Testamento está a expectação do Reino de Deus, e em Jesus de Nazaré está o cumprimento inicial dessa expectação... isso subjaz à mensagem do Novo Testamento. O verdadeiro cerne de ambos, Antigo Testamento e Novo Testamento, é, portanto, a perspectiva escatológica” 5.
Passemos a examinar a perspectiva escatológica do Antigo Testamento com mais detalhe, vendo alguns conceitos específicos da revelação, nos quais esta perspectiva está incorporada. Nós começaremos com a expectação do redentor vindouro. A narrativa da queda, encontrada nos primeiros versículos de Gênesis 3, é imediatamente seguida pela promessa de um redentor futuro no versículo 15: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Esta passagem, freqüentemente denominada “a promessa mãe”, passa a determinar todo o Antigo Testamento. As palavras são endereçadas à serpente, mais tarde identificada como um agente de Satanás (Ap 12.9; 20.2). A inimizade instaurada entre a raça humana e a serpente implica em que Deus, que também é inimigo da serpente, será amigo do homem. Encontramos a promessa do redentor vindouro na predição de que finalmente o descendente da mulher esmagará a cabeça da serpente. Poderíamos dizer que, nesta passagem, Deus revela resumidamente todo o seu propósito salvífico para com o seu povo. A história da salvação, ulterior é um desdobramento do conteúdo desta “promessa-mãe”. A partir deste ponto, tudo na revelação do Antigo Testamento olha para a frente, aponta para a frente, e ansiosamente aguarda o redentor prometido.
Esse redentor vindouro, descrito em Gênesis 3.15 apenas como o descendente da mulher, é designado como descendente de Abraão em Gn 22.18 (cp. 26.4; 28.14). Gn 49.10, mais adiante, especifica que o redentor deverá ser um descendente da tribo de Judá. Ainda mais tarde, no curso da revelação do Antigo Testamento, aprendemos que o redentor vindouro será um descendente de Davi (2 Sm 7.12-13).

Após o estabelecimento da monarquia, o povo de Deus do Antigo Testamento reconheceu três ministérios especiais: os de profeta, sacerdote e rei. O redentor vindouro era aguardado como sendo o auge e o cumprimento de todos os três ministérios especiais. Ele deveria ser um grande profeta: “O Senhor teu Deus te suscitará um profeta no meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim (Moisés): “O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4). Ele também deveria ser o grande rei do seu povo: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei...” (Zc 9.9).

Em conexão com o reinado do redentor vindouro há uma predição específica de que ele se assentará no trono de Davi. O profeta Natã disse a Davi: “Quando teus dias se cumprirem, e descansares com teus pais, então farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino” (2 Sm 7.12-13; cp. Is 9.7).

Podemos também perceber que algumas vezes a vinda do futuro Rei e Redentor é identificada com a vinda de Deus a seu povo. Em Isaías 7.14, por exemplo, o redentor vindouro é denominado especificamente Emanuel, que significa “Deus conosco”. Em Isaías 9.6, um dos nomes atribuídos ao redentor prometido é “Deus Forte”. A B. Davidson faz um comentário a respeito nas seguintes palavras: “Algumas vezes, a vinda ‘de Jeová’ é cumprida de acordo com a esperança messiânica - Jeová desde para junto de seu povo no Messias, Sua presença é manifestada e percebida nele... Deus está plenamente presente, com propósitos redentores, no rei Messiânico. Esta é a concepção messiânica mais sublime”6.

Lado a lado com a concepção de que o redentor vindouro será um profeta, um sacerdote e um rei, porém, encontra-se em Isaías, igualmente, a visão de que o redentor será o Servo sofredor de Deus. O conceito de “Servo do Senhor” aparece freqüentemente em Isaías, sendo que, algumas vezes, designa a nação de Israel e outras vezes descreve o redentor vindouro. Entre as passagens de Isaías que descrevem especificamente o Messias vindouro como o Servo do Senhor estão: 42.1-4; 49.5-7; 52.13-15, e todo capítulo 53. É especialmente Isaías 53 que retrata o redentor vindouro como o Servo sofredor de Jeová : “ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (v.5). De passagens como essas nós aprendemos que o redentor, cuja vinda o crente do Antigo Testamento aguardava, era considerado pelo menos no tempo dos últimos profetas, como alguém que iria sofrer por seu povo a fim de redimi-lo.

Outra forma pela qual o Antigo Testamento descreve a vinda do redentor é como o Filho do Homem. Encontramos este tipo de expectação particularmente em Daniel 7.13-14.



Eu estava olhando nas minhas visões da noite

E eis que vinha como as nuvens do céu

Um como o Filho do homem,

E dirigiu-se ao Ancião de dias,

E o fizeram chegar até ele.

Foi-lhe dado domínio

E glória, e o reino,

Para que os povos, nações e homens de todas as línguas

O servissem;

O seu domínio é eterno,

Que não passará,

E o seu reino

Jamais será destruído.
Em o Novo Testamento, o Filho do Homem é especialmente identificado com o Messias.

Em resumo, podemos dizer que o crente veterostestamentário aguardava um redentor, de maneiras diversas e pelo sentido de várias figuras, que deveria vir em algum tempo futuro (ou nos “últimos dias”, para usar uma figura de linguagem comum ao Antigo Testamento) para redimir seu povo e, também, para ser uma luz aos gentios. Pedro, em sua primeira epístola, nos dá um quadro vívido sobre o modo como os profetas do Antigo Testamento aguardavam a vinda deste Redentor messiânico: “A respeito desta salvação, os profetas, que falaram da graça que haveria de vir para vós, buscaram atentamente, e com o maior cuidado, procurando descobrir a época e as circunstâncias às quais o Espírito de Cristo neles estava-se referindo, quando ele predisse os sofrimentos de Cristo e as glórias que se haveriam de seguir” (1 Pe 1.10-11, NIV).

Outro conceito da revelação bíblica no qual a perspectiva escatológica do Antigo Testamento está incorporada é o do reino de Deus. Apesar de o termo “reino de Deus” não ser encontrado no Antigo Testamento, o pensamento de que Deus é rei está presente particularmente nos Salmos e nos profetas. Deus é denominado, freqüentemente, de Rei, tanto de Israel (Dt 33.5; Sl 84.3; 145.1; Is 43.15) como de toda a terra (Sl 29.10; 47.2; 96.10; 97.1;103.19; 145.11-13; Is 6.5; Jr 46.18). Porém, devido à abundância de pecado e rebelião nos homens, o senhorio de Deus é efetuado apenas imperfeitamente na história de Israel. Por causa disso os profetas aguardavam um dia quando o reinado de Deus pudesse ser provado plenamente, não somente por Israel, mas pelo mundo inteiro 7.

É especialmente Daniel quem desenvolve a idéia do reino vindouro. No capítulo 2 de sua profecia, ele fala acerca do reino que Deus um dia levantará, que nunca será destruído, que quebrará todos os outros reinos em pedaços e que permanecerá para sempre (vs 440-45). E em 7.13-14, como vimos, àquele um como filho do homem é dado um domínio eterno e um reino que não será destruído. Por causa disso Daniel prediz não apenas a vinda de um reino futuro, mas conjuga este reino com a vinda do Redentor, a quem descreve como o Filho do Homem.

Mais um conceito veterostestamentário com implicações escatológicas é o da nova aliança. Como muitos eruditos do Antigo Testamento têm mostrado, a idéia da aliança é central à revelação do Antigo Testamento 8. Nos dias de Jeremias, entretanto, o povo de Judá havia quebrado a aliança de Deus com eles por meio de suas idolatrias e transgressões. Embora o tema principal das profecias de Jeremias seja o de condenação na ruína, ele efetivamente prediz que Deus fará uma nova aliança com seu povo: “Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam minha aliança”(Jr 31.31-32; ver também 33-34). A partir do Novo Testamento (veja Hb 8.8-13; 1 Co 11.25) fica claro que a nova aliança predita por Jeremias foi instaurada pelo nosso Senhor Jesus Cristo.

Proeminente entre os conceitos escatológicos do Antigo Testamento é a restauração de Israel. Após a divisão do reino, ambos, Israel e Judá, caíram mais e mais na desobediência, idolatria e apostasia. Por causa disso, os profetas pregaram que, devido à sua desobediência, o povo de ambos os reinos seria levado cativeiro por nações hostis, e ficaria disperso por terras estrangeiras. Mas em meio a essas predições sombrias há também profecias de libertação. Vários profetas pregam a futura restauração de Israel do seu cativeiro.

Observe, por exemplo, esta pregação do profeta Jeremias: “Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; serão fecundas, e se multiplicarão (23.3).

As palavras de Isaías 11.11 também vêm à mente: “Naquele dia o Senhor tornará a estender a mão para resgatar o restante do seu povo, que for deixado, da Assíria, do Egito, de Patros, da Etiópia, de Elão, de Sinear, de Hamate e das terras do mar”.

É interessante notar a palavra “tornará” na passagem, a qual sugere que a futura restauração de Israel será um tipo de segundo Êxodo.

É importante observar, também que a restauração de Israel pregada pelos profetas tem implicações éticas. Ambos, Ezequiel e Isaías (caps 24-27) salientam que esta restauração não acontecerá isolada do arrependimento e rededicação de Israel ao serviço de Deus. Como George Ladd salienta:

“Eles (os profetas do Antigo Testamento) prevêem a restauração, mas somente de um povo que tenha sido purificado e justificado. Sua mensagem, tanto de tribulação como de prosperidade, é endereçada a Israel para que o povo possa ser advertido sobre sua pecaminosidade e se converta a Deus. A escatologia é ética e religiosamente condicionada.

Talvez o resultado mais significante da preocupação ética dos profetas é sua convicção de que não será Israel como tal que entrará para o remanescente crente e purificado”9.

Também encontramos, particularmente em Joel, uma pregação sobre o futuro derramamento do Espírito sobre toda a carne. As bem conhecidas palavras da profecia de Joel são:
E acontecerá depois que derramarei

o meu espírito sobre toda a carne;

vossos filhos e vossas filhas profetizarão,

vossos velhos sonharão, e vossos jovens

terão visões;

até sobre os servos e sobre as servas

derramarei o meu Espírito naqueles dias” (2.28-29)
Este derramamento do Espírito, portanto, foi outro evento escatológico no horizonte do futuro ao qual o crente da época véterotestamentária olhava com ansiosa antecipação. É notável, no entanto, nos versos seguintes da profecia de Joel, a menção de prodígios nos céus e na terra; sangue, fogo, e colunas de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor” (2.30-31).

Certas passagens do Novo Testamento (por exemplo, Lucas 21.25, Mateus 24.29) relacionam os sinais mencionados acima como a Segunda Vinda de Jesus Cristo. Contudo, Joel parece pregá-los como se eles fossem acontecer imediatamente antes do derramamento do Espírito. A menos que alguém interprete esses sinais de forma não literal (em cujo caso a transformação do sol em trevas poderia ser entendida como cumprida nas 3 horas de trevas enquanto Jesus estava na cruz), parecerá que Joel, em sua profecia, vê numa única visão, como acontecendo conjuntamente, eventos que de fato estão separados um do outro por milhares de anos. Este fenômeno passível de ser chamado de perspectiva profética, ocorre freqüentemente nos profetas do Antigo Testamento. Ele também acontece, como veremos adiante, em algumas passagens apocalípticas do Novo Testamento.

Esta passagem de Joel nos conduz a considerar outro conceito escatológico proeminente do período veterotestamentário, qual seja, o dia do Senhor. Às vezes, nos escritos proféticos, o dia do Senhor é considerado como um dia no futuro próximo, quando Deus trará destruição repentina para os inimigos de Israel. Obadias, por exemplo, prediz a ruína de Edom como a chegada do dia do Senhor (vs 15-16). Entretanto, o dia do Senhor pode também referir-se a um dia final, escatológico, de juízo e redenção. Às vezes - e este é outro exemplo da perspectiva profética - um dia do Senhor próximo e um distante são vislumbrados juntos, na mesma visão. Isaías 13, por exemplo, fala de um dia do Senhor no horizonte não tão longínquo, quando Babilônia será destruída (vs 6-8,17-22). No mesmo capítulo, porém, espalhado entre descrições da destruição de Babilônia, encontramos referências ao dia escatológico do Senhor, no futuro distante:
Eis que vem o dia do Senhor,

dia cruel, com ira e ardente furor

para converter a terra em assolação,

e dela destruir os pecadores.

Porque as estrelas e constelações dos céus

Não darão a sua luz;

O sol logo ao nascer se escurecerá,

e a lua não fará resplandecer a sua luz.

Castigarei o mundo por causa da sua maldade,

e os perversos por causa da sua iniqüidade” (v.5).
Parece como se Isaías estivesse vendo a destruição de Babilônia e o dia escatológico, do Senhor, o dia final, como sendo um dia só, uma visitação divina.

Muito freqüentemente, porém, a expressão “o dia do Senhor” é usada pelos profetas para retratar um dia final, escatológico, de visitação. Às vezes o dia do Senhor significa juízo para Israel. Nos dias de Amós era comum se pensar que o dia do Senhor traria somente bênçãos e prosperidade para Israel. Amós, porém, perturbou o contentamento comum ao dizer:


Ai de vós que desejais o dia do Senhor!

Para que desejais vós o dia do Senhor?

É dia de trevas e não de luz”.
De modo similar, Isaías descreve o dia do Senhor como um dia de juízo para o povo apóstata de Judá:
Porque o dia do Senhor dos Exércitos

será contra todo soberbo e altivo,

e contra todo o que se exalta...

A arrogância do homem será abatida,

E a sua altivez será humilhada;

Só o Senhor será exaltado naquele dia” (2.12,17)
Também Sofonias fala do dia do Senhor como um dia de ira:
“Está perto o grande dia do Senhor;

está perto e muito se apressa.

Atenção! O dia do Senhor é amargo

E nele clama até o homem poderoso

Aquele dia é dia de indignação,

Dia de angústia, e dia de alvoroço

E desolação,

Dia de escuridade e negrume,

Dia de nuvens e densas trevas...” (1.14-15)

Pelo restante do livro fica claro que o dia de ira, de Sofonias, refere-se tanto a um dia de juízo para Judá num futuro imediato como uma catástrofe escatológica, final” 10.

Todavia, o dia do Senhor não traz unicamente juízo e destruição. Às vezes, é dito que o dia trará salvação. Joel 2.32, por exemplo, promete salvação a todo o que invocar o nome do Senhor antes da chegada do dia do Senhor. E em Malaquias 4, não é só juízo que é proferido contra os malfeitores, em conexão com a vinda do “grande e terrível dia do Senhor” (v.5), mas são igualmente prometidos cura e gozo a todos os que temem o nome de Deus (v.2). Poderíamos resumir, observando que o dia do Senhor pregado pelos profetas do Antigo Testamento será um dia de juízo e ira para uns, mas de bênçãos e salvação para outros.

Embora o conceito do dia do Senhor tenha, freqüentemente, uma conotação de tristeza e de trevas, há ainda um outro conceito escatológico do Antigo Testamento, que tem um toque mais brilhante: o de novos céus e nova terra. A esperança escatológica do Antigo Testamento sempre inclui a terra:


“A idéia bíblica de redenção sempre inclui a terra. O pensamento hebraico via um unidade essencial entre homem e natureza. Os profetas realmente não pensam na terra como apenas um teatro indiferente no qual o homem executa seus deveres normais, mas como a expressão da glória divina. Em lugar algum o Antigo Testamento prega a esperança de uma redenção incorpórea, imaterial, meramente “espiritual”, como o faz o pensamento grego. A terra é o cenário divinamente arranjado para a existência humana. Mais tarde, a terra foi envolvida na maldade trazida pelo pecado. Há um inter-relação entre a natureza e a vida moral do homem; por causa disso, a terra tem de tomar parte da redenção final de Deus” 11.
Esta esperança futura para a terra está expressa em Isaías 65.17:
Pois eis que eu crio novos céus e nova terra;

e não haverá lembrança das coisas passadas,

jamais haverá memória delas” (cp 66.22).

Outras passagens de Isaías mostram o que esta renovação da terra envolverá: o que é árido passará a ser terreno frutífero (32.15) o deserto florescerá (35.1), os lugares secos serão fontes de água (35.7), a paz volverá ao mundo animal (11.6-8), e a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar (11.9).

Passemos, agora, a recapitular o que aprendemos a respeito da perspectiva escatológica do Antigo Testamento. Bem no início, havia uma expectação por um Redentor vindouro que haveria de ferir ou esmagar a cabeça da serpente. Com o passar do tempo, houve um enriquecimento progressivo da esperança escatológica. Com certeza, os diversos itens desta esperança não subsistiram todos ao mesmo tempo, e eles assumiram formas variadas em tempos diversos. Mas se considerarmos estes conceitos de modo acumulativo, poderemos certamente dizer que em várias épocas o crente veterotestamentário aguardava, no futuro, as seguintes realidades escatológicas:

(1) O Redentor Vindouro

(2) O Reino de Deus

(3) A Nova Aliança

(4) A Restauração de Israel

(5) O Derramamento do Espírito

(6) O Dia do Senhor

(7) Os Novos Céus e a Nova Terra
Todas estas coisas avultam no horizonte da expectação: o crente do Antigo Testamento não tinha, naturalmente, idéia clara sobre como ou quando estas expectações seriam cumpridas. No que lhe tocava, estes eventos escatológicos aconteceriam todos a uma vez em algum tempo futuro, variavelmente denominado de “dia do Senhor”, de os “últimos dias”, de os “dias vindouros”, ou de “naqueles dias”.

Com uma perspectiva caracteristicamente profética, os profetas veterotestamentários inter-mesclavam itens relacionados à primeira vinda de Cristo com itens relacionados à segunda vinda de Cristo. Somente nos dias do Novo Testamento viria a ser revelado que o que, no Antigo Testamento, era considerado como sendo em uma vinda do Messias seria cumprido em dois estágios: uma primeira e uma Segunda vinda. O que por causa disso não era claro aos profetas do Antigo Testamento foi clarificado na era do Novo Testamento.

Todavia, temos de reiterar que a fé do crente veterotestamentário era completamente escatológica. Ele aguardava a intervenção de Deus na história, tanto no futuro próximo como no distante. Foi, na verdade, esta fé-esperança que concedeu ao santo do Antigo Testamento a coragem necessária para percorrer o caminho posto perante ele. o décimo primeiro capítulo de Hebreus, ao olhar retrospectivamente para os heróis da fé, salienta especialmente este ponto. Ali é dito de Abraão: “aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (v.10). É dito acerca de todos os patriarcas: “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas, vendo-as, porém de longe, e saudando-as...” (v.13). E sobre todos os santos do Antigo Testamento reunidos é declarado o seguintes: “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé, não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido cousa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (vs 39-40).
Notas do Capítulo 1

1. Jürgen Moltmann, Teologia da Esperança, p. 16

2. G.E. Ladd, Presence, pp 52-53

3. T.C. Vriezen, Na Outline of Old Testament Theology (Esboço de Teologia do Antigo Testamento), Oxford: Blackwell, 1970, p.458



4. Ibid., p 459

5. Ibid., p 123

6. A B. Davidson, The Theology of the Old Testament (A Teologia do Antigo Testamento), Edinburgh: T.&T. Clark, 1904, p.371

7. Ladd. Presence, p 46

8. Veja, e.g., Walter Eichrodt, Theology of the Old Testament (Teologia do Antigo Testamento), Vol I, Philadelphia: Westminster, 1961; Ludwig Kohler, Olde Testament Theology (Teologia do Antigo Testamento), Philadelphia: Westminster, 1957, pp. 60-75; Vriezen, op.cit., pp.139-143, 283-84, 325-27; Gerhard Von Rad, Old Testament Theology (Teologia do Antigo Testamento), New York: Harper and Row, 1962, pp. 129-35, 192-94, 202-3, 338-39.

9. Ladd, Presence, p 72

10. Ibid., pp 67-68

11. Ibid., pp 59-60
CAPÍTULO 2
A NATUREZA DA ESCATOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO
A fé do crente veterotestamentário era escatologicamente orientada. Como já vimos, ele aguardava por um número de eventos que avultam no horizonte escatológico. No cerne de sua esperança escatológica estava a expectação pelo redentor vindouro. Podemos observar esta esperança escatológica exemplificada no já idoso Simeão, de quem é dito que “esperava a consolação de Israel” (Lc 2.25), e em Ana, a profetisa, que, após ter visto o infante Jesus, “dava graças a Deus, e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (Lc 2.38).

Na era do Novo Testamento, as bênçãos espirituais desfrutadas eram mais abundantes do que nos dias do Antigo Testamento: o conhecimento do plano redentor de Deus está largamente enriquecido, a fé do crente neotestamentário está muito aprofundada, e sua compreensão das dimensões do amor de Deus, conforme revelado em Cristo, está imensuravelmente fortalecida. Ao mesmo tempo, porém, a expectação do crente por bênçãos ainda maiores, no porvir, está igualmente intensificada. O Novo Testamento possui, assim como o Antigo, uma visão fortemente orientada para o futuro. Há uma convicção profunda de que a obra redentora do Espírito santo experimentada agora é apenas um prelúdio de uma redenção muito mais rica e completa no futuro, e que a era que foi instaurada pela primeira vinda de Cristo será seguida de outra era, que será mais gloriosa do que esta talvez possa ser. Em outras palavras, por um lado o crente do Novo Testamento esta consciente do fato de que ao grande evento escatológico predito no Antigo Testamento já aconteceu, enquanto que, por outro lado, ele percebe que outra significativa série de eventos escatológicos ainda está por vir.

Ao abrirmos as páginas do Novo Testamento, ficamos imediatamente cientes do fato de que aquilo que foi prometido pelos escritores do Antigo Testamento já aconteceu. A vinda de Jesus Cristo ao mundo é, de fato, o cumprimento da expectação escatológica central do Antigo Testamento. Willian Manson o descreve assim:
Quando mudamos para o Novo Testamento, nós passamos do clima de predição para o de cumprimento. As coisas que Deus tinha predito pelos lábios de Seus santos profetas, Ele trouxe agora, pelo menos em parte, à realização. O Eschaton, descrito de longe..., registrou seu advento em Jesus... O sinal supremo do Eschaton é a Ressurreição de Jesus e a descida do Espírito Santo sobre a Igreja. A Ressurreição de Jesus não é meramente um sinal que Deus concedeu a favor de Seu Filho, mas é a inauguração, a entrada na história, dos tempos do Fim.

Através do Cristo, portanto, os cristãos entraram na Nova Era. Igreja, Espírito, vida em Cristo, são grandezas escatológicas. Aqueles que se reuniam em Jerusalém nos numinosos primeiros dias da Igreja, sabem que é assim; eles já estavam conscientes de provarem os poderes do Mundo porvir. O que tinha sido predito nas Sagradas Escrituras para acontecer a Israel ou ao homem no Eschaton, aconteceu para e em Jesus. A pedra fundamental da Nova Criação assumiu sua posição 1.


Apesar disto ser verdade, nós estamos igualmente cientes de que muitas das profecias dos profetas do Antigo Testamento ainda não foram cumpridas, e que uma porção de coisas que o próprio Jesus predisse ainda não foram realizadas. Não é verdade que os profetas falam de um julgamento do mundo e de uma ressurreição dos mortos, e que Jesus fala sobre a vinda do Filho do Homem sobre as nuvens em poder e grande glória? Concluímos, portanto, que se deve falar da escatologia do Novo Testamento tanto em termos do que já foi efetuado como em termos do que ainda deve acontecer. Mais uma vez, Manson o coloca bem:
Existe uma escatologia realizada. Existe também uma escatologia do não-realizado. Sob nenhuma condição imaginável pode haver algo como uma escatologia totalmente realizada no sentido estrito. O impulso escatológico novamente desperta e se auto-afirma no cristianismo, porque escatologia, como o amor, é de Deus...

O cristianismo, portanto, exibe desde o princípio uma bipolaridade essencial. O Fim chegou! O Fim não chegou! Nem a graça nem a glória, nem o gozo antecipado no presente, nem a perfeição futura da vida em Deus podem ser omitidas do quadro sem que a realidade seja destruída 2.


Devemos notar, portanto, que o que caracteriza especificadamente a escatologia do Novo Testamento é uma tensão subliminar entre o “já” e o “ainda-não” - entre o que o crente já desfruta e o que ele ainda não possui. Oscar Cullmann tem o seguinte a dizer sobre esse ponto: “o elemento novo no Novo Testamento não é a escatologia mas o que eu costumo chamar de tensão entre o ‘já cumprido’ decisivo e o ‘ainda-não-completado’, entre presente e futuro. Toda a teologia do Novo Testamento... está marcada por esta tensão” 3.

Voltaremos a discorrer sobre essa tensão em um capítulo seguinte, onde exploraremos suas implicações para nossa compreensão da mensagem bíblica e para nossa vida no mundo de hoje. Por ora, será suficiente reconhecermos esta tensão do “já-ainda-não” como um aspecto essencial da escatologia do Novo Testamento. Embora poder-se-ia dizer que o crente do Antigo Testamento já experimentava essa tensão, a tensão é mais elevada para o crente do Novo Testamento, uma vez que ele tem tanto uma experiência mais rica das bênçãos presentes como uma compreensão das esperanças futuras mais claras do que seu parceiro veterotestamentário.

Passemos agora a ver como o Novo Testamento indica ambos: que o grande evento escatológico predito pelos profetas do Antigo Testamento aconteceu, e que a consumação final da história está ainda por vir.

(1) Em o Novo Testamento encontramos a percepção de que o grande evento escatológico predito no Antigo Testamento aconteceu.

A vinda de Jesus Cristo para o mundo é interpretada no Novo Testamento especificamente como o cumprimento da profecia vétero-testamentária. Por exemplo, no Evangelho de Mateus, o nascimento de Jesus da virgem Maria está apresentado como um cumprimento da predição encontrada na profecia de Isaías:


Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo... Tudo isso aconteceu, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta:

Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco) (Mt 1.20-23).
Um grande número de outros detalhes a respeito da vida, morte e ressurreição de Jesus é citado como cumprimento das profecias do Antigo Testamento: seu nascimento em Belém (Mt 2.4-6; comparado com Mq 5.2), sua fuga para o Egito (Mt 2.14-15; Os 11.1), sua rejeição pelo seu povo (Jo 1.11; Is 53.3), sua entrada triunfal em Jerusalém (Mt 21.4-5; Zc 9.9), sua venda por trinta moedas de prata (Mt 26.15; Zc 11.12), ser pregado numa cruz (Jo 19.34; Zc 12.10), o fato dos soldados lançarem sortes sobre suas vestes (Mc 15.24; Sl 22.18), o fato de nenhum de seus ossos ter sido quebrado (Jo 19.33; Sl 34.20), o fato de que ele deveria ser sepultado com o rico (Mt 27.57-60; Is 53.9), sua ressurreição (At 2.24-32; Sl 16.10) e sua ascensão (At 1.9; Sl 68.18).

De grande importância nesta conexão é a aplicação de palavras tais como hapax (uma única vez) e ephapax (de uma vez por todas) para a obra de Cristo. Assim, por exemplo, lemos em 1 Pe 3.18: “Pois também Cristo morreu, uma única vez (hapax), pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus”. O autor de Hebreus utiliza a palavra ephapax para expressar o mesmo pensamento:

“Quando, porém, veio Cristo como sumo-sacerdote dos bens já realizados; mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação, não por meio de sangue de bodes e bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção.” (9.11-12)

“... temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas”(10.10).

No mesmo sentido é usada a expressão eis to dienekes (=para sempre) em Hb 10.12: “Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, o único sacríficio pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que seus inimigos sejam postos por estrado de seus pés”.

Nós aprendemos, de passagens desse tipo, que o sacrifício de Cristo foi caracterizado por uma finalidade, e que na obra de Cristo, realmente aconteceu o que Deus tinha prometido através dos profetas do Antigo Testamento. Em Cristo, o redentor prometido realmente veio!

Vejamos alguma evidência adicional para este ponto. Tanto João Batista como Jesus são mencionados, proclamando que na vinda de Jesus o reino de Deus ou dos céus está próximo (Mt 3.2; Mc 1.15; a palavra grega traduzida por “próximo” é eggizo). Jesus, igualmente, disse aos fariseus que seu ato de expulsar os demônios pelo espírito de Deus era uma prova de que o reino de Deus era chegado sobre eles (Mt 12.28; aqui a palavra grega é “phthano”). Uma vez que a vinda do reino de Deus, como já vimos, era um dos aspectos da expectação escatológica do Antigo Testamento, vemos mais esta profecia cumprida em Cristo. Na pessoa de Cristo o reino prometido tinha vindo - embora também deverá haver uma consumação final desse reino no futuro.

Os escritores do Novo Testamento estão conscientes de que eles já estão vivendo nos últimos dias. Isto é, especialmente declarado por Pedro, em seu grande sermão, no dia de pentecostes, quando ele cita o seguinte da profecia de Joel: “estes homens não estão embriagados, como vindes pensando, sendo esta a terceira hora do dia. Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: ‘E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda carne...’” (At 2.15-17). As palavras: “nos últimos dias” (= en tais eschatais hemerais) são uma tradução das palavras hebraicas acharey qhen que literalmente significam: posteriormente. Quando Pedro cita estas palavras e as aplica ao evento recém-ocorrido, o que ele está, de fato, dizendo é: “nós estamos nos últimos dias agora” 4.

Encontramos em Paulo um conceito similar. Em uma de suas primeiras epístolas (Gl 4.4), ele indica que Jesus veio ao mundo na “plenitude dos tempos” (RAB) ou “quando o tempo tinha plenamente chegado” (RSV; a expressão grega é topleroma tou chronou). A palavra pleroma sugere a idéia de cumprimento, ou, chegado à conclusão. Quando Paulo declara que Cristo apareceu plenitude do tempo está inferindo que o grande ponto central da história é chegado, que a profecia do Antigo Testamento chega agora, a seu cumprimento. Embora tais palavras não excluam uma futura consumação da história no fim dos tempos, elas certamente estão ensinando que, da perspectiva do Antigo Testamento, a era do Novo Testamento é o tempo do cumprimento. Numa carta escrita alguns anos mais tarde, 1 Coríntios, Paulo coloca esta verdade de modo impressionante: “estas coisas lhes sobrevieram (aos israelitas que peregrinavam no deserto) como exemplos, e foram escritas para advertência nossa de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (“os fins dos séculos”, tateletonaionon, 10.11). Aqui, novamente, a linguagem de cumprimento é inconfundível.

O autor de Hebreus expressa o mesmo pensamento ao contrastar Cristo como o sumo-sacerdote do Antigo Testamento, que ano após ano tinham de entrar no Santo Lugar com sangue que não era o deles. Cristo, assim continua o autor, é imensamente superior a esses sacerdotes, uma vez que: “ao se cumprirem os tempo (literalmente “no fim dos tempos” episynteleía tonaionon), se manifestou uma vez por todas para aniquilar pelo sacrifício de si mesmo o pecado” (Hb 9.26). Comparando com o papel provisório dos sacerdotes, veterotestamentários, a Epístola aos Hebreus vê o surgimento de Cristo em termos de cumprimento escatológico e de caráter final.

As epístolas de João são normalmente consideradas como pertencendo aos últimos escritos do Novo Testamento. Aqui também encontramos uma compreensão da era do Novo Testamento como sendo de cumprimento escatológico. Entretanto, ao invés de usar a expressão: “os últimos dias”, João usa as palavras: “a última hora”: “filhinhos, já é a última hora (eschate hora); e, como o vistes que vem o anti-cristo, também agora muitos anti-cristos tem surgido, pelo que conhecemos que é a última hora” (1 Jo 2.18).

Expressões como as que acabamos de ver mostram que o crente do Novo Testamento tinha realmente consciência de estar nos últimos dias, na última hora e no fim dos tempos. Ele estava ciente de que o grande evento escatológico predito no Antigo Testamento, tinha acontecido com a vinda de Jesus Cristo. Este é o elemento de verdade na posição associada com C.H.Dodd, comumente denominada: “escatologia realizada.” Contudo, uma vez que restam ainda muitos eventos escatológicos que ainda não se realizaram e uma vez que o Novo Testamento fala claramente sobre uma escatologia futura, assim como de uma presente, eu prefiro falar de uma escatologia “inaugurada” ao invés de uma “realizada” 5. A vantagem deste termo é que ele faz juz ao fato de que a grande incisão escatológica na história já está feita, ao passo que não exclui o desenvolvimento ulterior da escatologia no futuro. (escatologia inaugurada) implica em que a escatologia já teve início, mas de modo nenhum está terminada.



(2) Em o Novo Testamento encontramos ainda a compreensão de que aquilo que os escritores do Antigo Testamento pareciam representar, como um movimento único, deve agora ser reconhecido como envolvendo dois estágios: a era messiânica presente e a era do futuro. Ou, então, dita em outras palavras, o crente da época Neotestamentária, conquanto ciente de estar agora vivendo na era predita pelos profetas, percebeu que esta nova era inaugurada pela vinda de Jesus Cristo, era entendida como carregando no seu ventre uma outra era porvir 6.

Podemos encontrar evidência, para tanto, no fato de que os escritores do Novo Testamento, mesmo reconhecendo, como acabamos de ver que há um sentimento de que estamos nos últimos dias agora, começam igualmente a falar acerca de duas eras: a era presente e a era porvir. São usados três tipos de expressão para descrever a era porvir: “aquela era” (ho aion ekeinos, Lc 20.35), “a era vindoura” (ho aion erchomenos, Lc 18.30), a “era porvir” (ho aion mellon, Mt 12.32).

O autor de Hebreus, por exemplo, afirma que certas pessoas, nos seus dias, tinham provado “os poderes da era porvir”(mellontos aionos, Hb 6.5). Paulo, em Ef 2.7, fala inclusive sobre as eras porvir: “para que nas eras porvir (en tois aiosin tois èperchomenois) ele possa mostrar a suprema riqueza da sua graça em bondade para conosco em Cristo Jesus” (ASV) 7.

A percepção de que haverá uma era futura distinta da presente é tão perspicaz que há várias passagens nas quais as duas eras são mencionadas conjuntamente. Em Lc 20.34-35, Jesus responde a pergunta ardilosa dos saduceus acerca da ressurreição dizendo: “Os filhos deste mundo (aiomos toutou) casam-se e dão-se em casamento; mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura (aionos ekeinou) e a ressurreição dentre os mortos, não casam nem se dão em casamento”. Uma justaposição similar das duas eras é encontrada em Mt 12.32: “mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado nem neste mundo (touto to aionil) nem no porvir (to mellonti)”8. Numa outra passagem, o tempo presente (kairos) é contrastado com a era porvir: “Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos por causa do reino de Deus, que não receba no presente (kairo touto) muitas vezes mais, e no mundo porvir (to aioni to erchomeno) a vida eterna” (Lc 18.29-30). A partir de passagens como estas, fica claro que os escritores do Novo Testamento aguardavam por uma era vindoura, que deveria seguir-se à presente era.

Encontramos uma ilustração muito interessante da justaposição das duas eras no uso que o Novo Testamento faz das expressões: “últimos dias” e “o último dia”. Como já vimos, Pedro em seu sermão no dia de Pentecostes, disse que o período introduzido pelo derramamento do Espírito Santo constitui os “últimos dias”; em outras palavras, nós estamos nos últimos dias agora 9. Quando a expressão é encontrada no singular (“o último dia”), entretanto, ela nunca se refere à era presente, mas sempre à era porvir geralmente ao Dia do Juízo ou ao dia da ressurreição. Assim, por exemplo, ouvimos Jesus dizer: “E a vontade de quem me enviou é esta: Que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia (eschate hemera)” (Jo 6.39). Expressões similares são encontradas nos versos 40,44 e 54 deste capítulo. Em Jo 11.24 é relatado que Marta fala acerca de seu irmão Lázaro: “Eu sei que ele há de ressurgir na ressurreição no último dia”. E em Jo 12.48, Jesus diz: “Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras, tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia”. Em outros termos, de acordo com os autores do Novo Testamento nós estamos agora nos “últimos dias”, mas o “último dia” ainda está porvir.

É igualmente interessante observar o uso do substantivo synteleia (fim, ou conclusão). Em um caso, onde esta palavra é usada junto com o plural de aion (era), significa a era presente: “Agora, uma vez no fim das eras (epi synteleia ton aionon), ele (Cristo) foi manifestado para tirar o pecado” (Hb 9.26, ASV). Mas quando essa palavra é usada com o singular de aion, sempre se refere à consumação final, que ainda é futura: “E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século (tes sinteleias tou aionos)” (Mt 13.39; cp vs.40,49); e quando os discípulos perguntam a Jesus acerca do futuro, eles dizem: “Dize-nos quando sucederão estas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século” (Mt 24.3).

A escatologia do Novo Testamento, portanto, olha para trás, para a vinda de Cristo, que tinha sido predita pelos profetas do Antigo Testamento, e afirma: nós estamos agora nos últimos dias. Mas a escatologia Neotestamentária também olha para a frente, para uma consumação final ainda por vir, e por isso também diz: o último dia ainda está chegando; a era final ainda não chegou.

Seria possível, na verdade, representar a expectação escatológica do crente neotestamentário num diagrama semelhante ao seguinte:


Criação Primeira vinda de Cristo Segunda Vinda de Cristo

A era passada Esta era A era porvir

Os últimos dias O fim das eras O último dia O fim da era

Uma vez admitido que a escatologia Neotestamentária olha tanto para o passado como aponta para o futuro, qual é a relação entre estes dois aspectos dessa escatologia?

(3) A relação entre estes dois estágios escatológicos é que as bênçãos da era presente são o penhor e a garantia de bênçãos maiores no porvir.

Antes de tudo, podemos ver esta relação ao observarmos que, conforme o Novo Testamento, a primeira vinda de Cristo é a garantia e penhor da certeza da segunda vinda de Cristo. Foi isso que o anjo destacou, ao falar aos discípulos quando da ascensão de Cristo: “Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Este Jesus que entre vós foi assunto ao céu, assim virá do modo como o vistes subir” (At 1.11). O autor de Hebreus afirma que tão certo quanto o juízo segue à morte, assim certamente a Segunda vinda de Cristo seguirá à primeira: “E assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para salvação”(Hb 9.27,28). E Paulo, em Tt 2.11-13, indica que o crente neotestamentário vive entre duas vindas de Cristo: “Porquanto a graça de Deus se manifestou (epephane) salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação (epinhaneian) da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”. A segunda palavra grega destacada aqui é o substantivo correspondente ao verbo usado mais no começo do texto; ambas as palavras denotam uma manifestação visível e real. Assim como Cristo apareceu no passado, ensina esta passagem, assim ele aparecerá novamente no futuro.

Escatologia cristã, portanto, envolve uma expectação pelo futuro que está enraizada no que já aconteceu no passado G.C.Berkouwer comenta da seguinte forma:

“...A promessa do futuro está intricavelmente conectada com eventos do passado. A expectação cristã é algo muito diferente de uma generalização tal como: “as sementes do futuro estão no presente”. É algo completamente determinado pela relação única entre o que está porvir e o que já aconteceu no passado. Toda a certeza da nossa expectação está fundamentada nesta relação peculiar...

Escatologia verdadeira, portanto, ocupa-se sempre com a expectação do Cristo que já foi revelado e que “aparecerá Segunda vez... para salvar aqueles que estão ansiosamente esperando por ele”(Hb 9.28) (RSV) 10.

O que é singular a respeito da escatologia Neotestamentária, portanto, é que ela espera uma consumação futura dos propósitos de Deus baseada na vitória de Cristo, no passado. George Ladd salienta este ponto: “Seu [da igreja] testemunho da vitória de Deus, no futuro será fundamentado numa vitória já alcançada na história. Ela proclama não apenas esperança, mas uma esperança baseada em eventos da história e em sua própria experiência”11.

Oscar Cullman se utiliza de uma figura bem conhecida: o crente da era cristã vive entre o “Dia D” e o “Dia V”. O “Dia D” foi a primeira vinda de Cristo, quando o inimigo foi decisivamente derrotado; “Dia V” é a Segunda Vinda de Cristo, quando o inimigo vai se render, total e finalmente. “A esperança da vitória final é tão vívida assim por causa da inabalavelmente firme convicção de que a batalha que decide já aconteceu”12.

No mesmo sentido vem a seguinte declaração de Hendrikus Berkhof: “Em resumo, o futuro em o Novo Testamento é o desdobramento e conclusão daquilo que já existe em Cristo e no Espírito que será acabado triunfantemente apesar do pecado, sofrimento e morte”13. Ele continua ao destacar que a esperança cristã é de ascensão, não principalmente da pobreza, mas da possessão. O cristão espera por bênçãos muito maiores no futuro, não porque ele tem tão pouco, mas porque ele já tem tanto: “Entre nós, seres humanos, a esperança por um futuro feliz nasce geralmente da pobreza e incerteza; a esperança cristã, porém, surge de uma possessão que abre muitos horizontes mais para o futuro. Por isso é que esperança é regularmente encontrada em conexão com fé e amor, que são ambos nossas possessões. Mas exatamente o fato de que nós possuímos, faz-nos sentir dolorosamente o que ainda não temos; tem “gosto de quero mais”. Por isso esperança é fruto tanto da possessão como da falta” 14.

Concluímos, então, que a natureza da escatologia do Novo Testamento pode ser resumida sob estas três observações: (1) o grande evento escatológico predito no Antigo Testamento já aconteceu; (2) aquilo que para escritores do Antigo Testamento representava um movimento é visto agora como envolvendo dois estágios: a era presente e a era do futuro; e (3) a relação entre estes dois estágios escatológicos é que as bênçãos da era presente são penhor e garantia de bênçãos maiores no porvir.




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