Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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Notas do Capítulo 13
1. Dispensacionalismo é uma abordagem teológica da Bíblia que divide a história sacra em várias eras específicas ou dispensações, sendo que em cada uma delas Deus lida com as pessoas de um modo diferente. A última dessas dispensações, dizem eles, será o Reino de mil anos de Cristo sobre a terra durante o milênio. Pré-tribulacionismo é a posição que diz que a Igreja será arrebatada e levada para o céu antes da grande tribulação que precede o milênio.

2. Embora alguns dispensacionalistas tenham diferentes posições acerca da relação entre arrebatamento e tribulação (e.g., médio-tribulacionistas e pós-tribulacionaistas), a posição pré-tribulacionaista é a mais amplamente sustentada pelos dispensacionalistas.

3. Embora a palavra arrebatamento não apareça nas traduções inglesas da Bíblia, ela é derivada do texto da Vulgata para o verbo “elevados” (harpagesometha), em 1 Tessalonicenses 4.17, rapiemur.

4. Alguns dispensacionalistas afirmam que os crentes do Antigo Testamento também serão ressuscitados nessa hora; outros dispensacionalistas, entretanto, sustentam que os crentes do Antigo Testamento não ressuscitarão até após a tribulação, na hora da ressurreição dos santos que morreram durante a tribulação (ver New Scofield Bbible - a Nova Bíblia de Scofield - p. 1250, n.).

5. NSB, pp. 1372, 1293, 1161 e 1162.

6. NSB, pp. 1359, 1162, 1372.

7. Cp. também Normam F. Douty, Has Christ’s Return Two Stages? (Terá a Volta de Cristo Duas Etapas?), New York: Pageant Press, 1956, e Alexander Reese, The Approaching Advent of Christ (O Iminente Advento de Cristo), Grand Rapids: Kregel, 1975; pub.orig. 1932. Ambas as obras fornecem argumentos escriturísticos contra a teoria da Segunda Vinda dupla.

8. Embora os primeiros pré-tribulacionistas denominavam a primeira etapa da Segunda Vinda como Parousia e a segunda etapa como revelação ou manifestação, a maioria dos pré-tribulacionaistas contemporâneos reconhece agora que os três termos são utilizados indiscriminadamente pelo Novo Testamento para o que eles consideram as duas etapas da volta de Cristo (ver Gundry, The Church and the Tribulation - A Igreja e a Tribulação - p. 158).

9. E. Peterson, “apantesis” TDNT, I, pp. 380,381.

10. Para uma útil discussão dessas duas passagens, ver Hendriksen, I and II Tessalonians ( I e II Tessalonicenses), Grand Rapids: Baker, 1955, pp. 91-94, 111-114. Ele sugere que as expressões: “com todos os santos” (1 Ts 3.13) e “trará com Jesus” (1 Ts 4.14, NIV) referem-se às almas dos crentes mortos, que imediatamente após serão unidas a seus corpos na ressurreição. Cp. Catecismo de Heidelberg, Q.57; e Confissão Belga, Art. 37.

11. Sobre o argumento de que os 144.000 aqui descritos coo selados não representam apenas um remanescente judaico, mas sim, toda a igreja sobre a terra, ver Hendriksen, Mais Que Vencedores, Primeira Edição, Casa Editora Presbiteriana, São Paulo 1987, pp. 182-187.

12. A evidência para a doutrina da ressurreição geral será dada adiante, no capítulo 17.

13. A palavra arrebatamento tem sido colocada entre aspas para distinguir a posição aqui desenvolvida da posição do arrebatamento encontrada no pré-tribulacionismo. Poderíamos chamar a posição desenvolvida neste livro de um arrebatamento pós-tribulacionaista.

14. Let God Be True (Seja Deus Verdadeiro), Brooklyn: Watchtower Bible and Tract Society, 1946; rev. Em 1952, pp.198, 199; Make Sure of all Things (Certifique-se de Todas as Coisas), Brooklyn: Watchtower Bible and Tract Society, 1953; rev. Em 1957, p. 321. Ver minha obra Four Major Cults (Quatro Grandes Seitas), p. 297.

CAPÍTULO 14
AS PRINCIPAIS POSIÇÕES SOBRE O MILÊNIO
O livro do Apocalipse menciona certos indivíduos dos quais diz que viverão e reinarão com Cristo por mil anos (cap.24.4). interpretações divergentes desta passagem levaram à formação de pelo menos quatro posições principais acerca da natureza do milênio ou do Reino milenar descrito aqui1. Estas quatro posições são: amilenismo, pós-milenismo, premilenismo histórico e premilenismo dispensacinalista2. Neste capítulo, apresentaremos uma breve descrição e análise dessas quatro principais posições acerca do milênio.

Comecemos com o amilenismo3. O termo amilenismo não é muito feliz. Ele sugere que os amilenistas ou não crêem em nenhum milênio ou, simplesmente, ignoram os primeiros seis versos de Apocalipse 20, que falam de um reinado milenar. Nenhuma destas duas declarações é correta. Embora seja verdadeiro que os amilenistas não crêem em um reinado terreno literal de mil anos, que se seguiria à volta de Cristo, o termo amilenismo não é uma descrição acurada de sua posição. Jay E. Adams, em seu livro The Time is at Hand 4 (O Tempo Está Próximo), sugeriu que o termo amilenismo seja substituído pela expressão milenismo realizado. Este último termo, sem dúvida, descreve mais acuradamente a posição “amilenista” do que o termo usual, uma vez que os “amilenistas” crêem que o milênio de Apocalipse 20 não é exclusivamente futuro, mas está agora em processo de realização. Entretanto, a expressão milenismo realizado é um tanto desajeitada, substituindo um simples prefixo por uma palavra de cinco sílabas. Portanto, apesar das desvantagens e limitações da palavra, eu continuarei a usar o termo mais breve e mais comum, amilenismo5.

Os amilenistas interpretam o milênio mencionado em Apocalipse 20.4-6 como descrevendo o reinado presente das almas dos crentes mortos e com Cristo no céu. Eles entendem o aprisionamento de Satanás, mencionado nos primeiros três versos deste capítulo, como estando efetivado durante todo o período entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo, embora findando pouco antes da volta de Cristo. Eles ensinam que Cristo voltará após este reinado milenar celestial.

Os amilenistas também sustentam que o Reino de Deus está presente agora no mundo, pois o Cristo vitorioso está governando seu povo através de sua Palavra e seu Espírito, embora eles também aguardem um Reino futuro, glorioso e perfeito na nova terra na vida por vir. Apesar do fato de Cristo ter conquistado a vitória decisiva sobre o pecado e o mal, o Reino do mal continuará a existir lado a lado com o Reino de Deus até o fim do mundo. Embora já estejamos desfrutando de várias bênçãos escatológicas, no tempo presente (Escatologia inaugurada), nós aguardamos uma série culminante de eventos futuros associados com a Segunda Vinda de Cristo, que instaurará o estado final (Escatologia futura). Os assim chamados “sinais dos tempos” têm estado presentes no mundo desde o tempo da primeira vinda de Cristo, mas eles atingirão uma manifestação mais intensa e final imediatamente antes de sua Segunda Vinda. O amilenista, portanto, espera que, antes da volta de Cristo, sejam completadas a pregação do Evangelho a todas as nações e a conversão da plenitude de Israel. Ele igualmente aguarda uma forma intensificada de tribulação e da apostasia, bem como a manifestação de um anticristo pessoal, antes da Segunda Vinda.

O amilenista compreende a Segunda Vinda de Cristo como um evento único, não um evento que envolva duas partes. Na hora da volta de Cristo haverá uma ressurreição geral, tanto de crentes como de incrédulos. Após a ressurreição, os crentes que ainda estiverem vivos serão transformados e glorificados. Estes dois grupos, crentes ressurrectos e crentes transformados, são então elevados para as nuvens para encontrar com o Senhor nos ares. Após este “arrebatamento” de todos os crentes, Cristo completará sua descida à terra e conduzirá o juízo final. Após o juízo, os incrédulos serão entregues à punição eterna, ao passo que os crentes desfrutarão para sempre das bênçãos dos novos céus e da nova terra6.

Uma segunda posição importante sobre o milênio é a do pós-milenismo7. Podemos observar primeiramente que os pós-milenistas concordam com os amilenistas em três pontos: (1) os pós-milenistas não entendem o milênio como envolvendo um reinado invisível de Cristo a partir de um trono terreno; (2) ele não consideram o milênio como tendo exatamente uma duração de mil anos; (3) eles situam a volta de Cristo após o milênio.

No entanto, as diferenças entre pós-milenismo e amilenismo ficarão mais claras ao procedermos a descrição da posição pós-milenista. Começamos com a citação de um dos expoentes contemporâneos mais famosos do pos-milenismo, Loraine Boettner:

“Temos definido pós-milenismo como aquela posição, acerca das últimas coisas, que sustenta que o Reino de Deus está agora sendo estendido no mundo através da pregação do Evangelho e da obra salvadora do Espírito Santo nos corações dos indivíduos; que o mundo, por fim, deve ser cristanizado e que a volta de Cristo deve acontecer no final de um longo período de justiça e paz geralmente denominado “Milênio”. Dever-se-ia acrescentar que, de acordo com os princípios do pós-milenismo, a Segunda Vinda de Cristo será imediatamente seguida pela ressurreição geral, o juízo geral e a introdução do céu e inferno em sua plenitude” 8.


Conforme o pós-milenismo, a era atual será gradualmente absorvida na era milenária na medida em que uma proporção cada vez maior dos habitantes do mundo for sendo convertida ao Cristianismo através da pregação do Evangelho. Este número crescente de cristãos incluirá tanto judeus como gentios. Os pós-milenistas geralmente entendem Romanos 11.25,26 como ensinando uma futura conversão, em larga escala, do povo judeu, embora eles não considerem isto como envolvendo restauração de um reinado judaico político.

Enquanto o milênio se torna uma realidade, os princípios cristão de fé e conduta serão os padrões aceitos por nações e indivíduos. O pecado não será eliminado, mas reduzido a mínimo. A vida social, econômica, política e cultural da humanidade será amplamente desenvolvida. Haverá condições gerais de prosperidade em todo o mundo, as riquezas serão mais amplamente divididas e o deserto florescerá como a rosa. Nações que eram inimigas, trabalharão juntas harmoniosamente. Esta era dourada da prosperidade espiritual se estenderá por um longo período de tempo, talvez bem mais do que mil anos literalmente falando. Nas próprias palavras de Boetther: “Isto não significa que haverá um período, nesta terra, em que cada pessoa será um cristão, ou que todo o pecado seja abolido. Mas isto significa sim que o mal, em todas as suas variadas formas, finalmente será reduzido a proporções mínimas, de modo que os princípios cristãos serão a regra e não a exceção, e que Cristo retornará a um mundo verdadeiramente cristianizado” 9.

Tanto Loraine Boettner como J. Marcellus Kik (outro pós-milenista) concordam em que a grande tribulação de Mateus 24 e a apostasia de 2 Tessalonicenses 2 já são passadas. Porém, baseado em Apocalipse 20.7-10, que descreve a soltura de Satanás no final do milênio, Boettner aguarda por uma “manifestação limitada do mal” antes da volta de Cristo. Mas, ele segue dizendo, que esta soltura de Satanás e o ataque contra a igreja, que ele então lançará, serão de curta duração e não prejudicarão a igreja10. Para o pós-milenista, o fato de haver um ressurgimento final do mal imediatamente antes da volta de Cristo, de modo algum nega sua expectação por uma futura era dourada milenar.

O único lugar em que a Bíblia menciona um milênio é Apocalipse 20.1-6. Os primeiros três versos desta passagem descrevem o aprisionamento de Satanás durante mil anos, enquanto os últimos três versos indicam que certos indivíduos viverão e reinarão com Cristo por mil anos. Será interessante observar agora como vários pós-milenistas interpretam esses versos. Benjamim B. Warfield, geralmente alistado entre os pós-milenistas, afirma que Apocalipse 20.1-6 descreve o aprisionamento de Satanás durante a era atual da Igreja, e o Reino das almas dos crentes mortos com Cristo nos céus durante a presente era11. Em sua obra mais recente sobre o assunto, Loraine Boettner concorda com a interpretação de Warfield sobre esta passagem12. Portanto, estes dois pós-milenistas adotaram a interpretação amilenista comum acerca dos seis primeiros versos de Apocalipse 20. J. Marcellus Kik, entretanto, mesmo concordando que o aprisionamento de Satanás esteja acontecendo no tempo presente, afirma que a expressão - “e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos” - se refere aos crentes que vivem agora sobre a terra. De acordo com Kik, a “primeira ressurreição” (v.6) significa a regeneração destes crentes enquanto eles estão vivendo na terra, e os tronos do verso 4 são interpretados como um modo figurativo de descrever o reinado do povo de Cristo com ele agora sobre a terra13. Normm Shepherd, também um pós-milenista, sustenta, que o aprisionamento de Satanás ainda é futuro. No entanto, ele concorda com Kik ao interpretar a “primeira ressurreição” como se referindo à regeneração. Ele também interpreta o “viver e reinar com Cristo” como descrevendo a vida presente dos crentes sobre a terra14.

Qual é a prova escriturística que os pós-milenistas fornecem para sua posição? Boetter cita a Grande Comissão de Mateus 28.18-20, na qual Cristo ordena a seu povo para fazerem discípulos de todas as nações. Esta comissão, prossegue ele, não é meramente um aviso de que o Evangelho será pregado mas implica numa promessa de que a evangelização efetiva de todas as nações será completada antes que Cristo retorne15. Boettner igualmente menciona Mateus 16.18, onde se registram as palavras de Jesus, dizendo que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja. ele interpreta este verso como indicando que a Igreja tomará a ofensiva com o Evangelho, “de modo que ela avançará por todo o mundo e nada literalmente nada, será capaz de resistir sua marcha progressiva”16. Normam Shepherd cita passagens dos Salmos e dos Profetas que mencionam o reinado universal e triunfante do Messias (e.g., Nm 14.21; Sl 2.8; 22.27-29; 72; Is 2.2-4; 11.6-9; 65; 66; Jr 31.31-34; Zc 9.9ss; 13.1; 14.9). Então ele diz: “Uma vez que elas [estas passagens] não podem referir-se a um reinado pós-advento de Cristo, e porque nada do que tem acontecido na história faz jus à glória da visão profética, a era dourada tem de ainda ser futura, mas anterior à volta do Messias” 17. Shepherd prossegue, mencionando a parábola do fermento, em Mateus 13.33, como indicando uma extensão universal do Reino. Ele deduz de Romanos 11 o aspecto da conversão extensiva tanto de judeus como de gentios. “Tudo isto”, continua ele, “está de acordo com o fato de que o objeto da redenção de Cristo é o mundo (João 3.16,17; Cp. Apocalipse 11.15) 18.

A título de crítica, podemos levantar as seguintes objeções contra a posição pós-milenista:

(1) As profecias do Antigo Testamento, interpretadas pelos pós-milenistas como se referindo a uma futura era dourada milenar, retratam o estado final da comunidade redimida. O professor Shepherd afirma que passagens deste tipo não podem referir-se a um reinado pós-advento de Cristo. Eu pergunto: Por que não? Se tivermos em mente o importante fato de que no estado final haverá tanto um novo céu como uma nova terra19, estas profecias podem ser prontamente entendidas como apontando, em seu sentido último, para as glórias nessa nova terra.

Passemos a examinar algumas das passagens apontadas pelo Professor Shepherd. Salmos 2.8 diz: “Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e as extremidades da terra por possessão”. Se esta passagem for considerada como se referindo ao Messias, o que sem dúvida ela faz, por que não podemos considerá-la como descrevendo o Reino de Cristo na nova terra, quando “o reino do mundo se tornou o Reino de nosso Senhor e seu Cristo?” (Ap 11.15). Isaías 2.4 diz: “...estes converterão as suas espadas em relhas de arados, e suas lanças em podadeiras: uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra”. Por que não podemos interpretar esta passagem como igualmente se referindo à nova terra, na qual as folhas da árvore da vida servirão para a cura das nações? (Ap 22.2). Há duas passagens proféticas que descrevem claramente que a totalidade do conhecimento do Senhor caracterizará a existência na nova terra: Isaías 11.9 (“por que a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar”) e Jeremias 31.34 (“todos me conhecerão, desde o menor até o maior deles, diz o Senhor”). Isaías 65.17-25 também tem de ser entendido como descrevendo o estado final dos redimidos; observe especialmente as palavras do verso 17: “Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas”.

(2) A interpretação pós-milenista comum da grande tribulação de Mateus 24 e da apostasia de 2 Tessalonicenses 2 é injustificada. Como já vimos, o Sermão Profético de Mateus 24 lida tanto com eventos relativos à destruição de Jerusalém como com eventos concernentes ao fim do mundo. Embora Jesus efetivamente indique, em seu sermão, que a tribulação deve ser esperada por seu povo para todo o período entre sua primeira e segunda vindas, ele também fala de uma grande tribulação tal qual nunca houve desde o princípio do mundo e jamais haverá (v.2). Os versos 29 e 30 deste capítulo são de uma importância especial: “Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá... então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem... e verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu com poder e muita glória”.

No que toca à apostasia de 2 Tessalonicenses 2, Paulo afirma explicitamente: “porque aquele dia [o dia do Senhor, ou a Parousia] não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia...” (v.3). Portanto, não há justificativa, nas Escrituras, para se dizer que estes dois eventos, a grande tribulação e a apostasia descrita em 2 Tessalonicenses 2, devem ser relegados apenas ao passado.

(3) Apocalipse 20.1-6 não dá apoio à posição pós milenista. Conforme será demonstrado mais adiante, esta passagem descreve o reinado das almas dos crentes que estão com Cristo no céu durante a presente era, e não retrata uma futura era dourada. Passemos agora a examinar três interpretações desta passagem que são sustentadas por pós-milenistas representativos.

Tanto Warfiel como Boetthr aceitam a interpretação amilenista comum destes versos, concordando em que eles descrevem o aprisionamento de Satanás durante a era presente e o reinado das almas dos crentes já mortos que estão com Cristo no céu, também durante a era presente. Entretanto, que base pode ser encontrada nesta passagem, conforme esta interpretação, para crer em uma futura era dourada? Deve ser lembrado que o único lugar onde a Bíblia menciona um milênio é Apocalipse 20; se estes versos não dão evidência para a expectação de uma futura era dourada milenar, que prova consistente temos nós de que haverá uma tal era?

J. Marcellus Kik concorda que o aprisionamento de Satanás esteja acontecendo agora, mas interpreta o verso 4 como descrevendo os crentes vivos que estão reinando sobre a terra já agora com Cristo. Existem duas dificuldades com a interpretação de Kik acerca do verso 4. A primeira: interpretar “as almas que reinam com Cristo”, como se referindo a crentes que ainda estejam vivos sobre a terra, entra em conflito com a declaração anterior: “Vi ainda as almas dos decapitados”(v.4), e também como uma declaração ulterior: “Os restantes dos mortos não reviveram...” (v.5). A segunda: como se pode falar de crentes vivos reinando com Cristo por mil anos, quando cada pessoa não vive mais do que o período normal de vida de “setenta anos” - se chegar a isso? Além disso, mesmo baseados na interpretação que Kik faz da passagem, que fundamento há nestas palavras para esperarmos uma futura era dourada milenar?

O professor Shepherd afirma que o aprisionamento de Satanás ainda é futuro, ao passo que ele interpreta o reinado das almas com Cristo no mesmo modo de Kik o faz. As objeções mencionadas acima para a posição também se aplicam aqui. Há uma dificuldade adicional: conforme Shepherd, os mil anos durante os quais Satanás estará preso parecem ser um período diferente do que os mil anos durante os quais as almas reinam com Cristo. Mas, não parece muito mais provável que os “mil anos”, mencionados cinco vezes nestes seis versos, representam o mesmo período de tempo, especialmente porque a expressão “os mil anos” (ta chilia ete) ocorre duas vezes na passagem, uma no verso 3 e outra no verso 5? Mesmo se admitirmos, todavia, que a interpretação de Shepherd acerca dessa passagem possa estar correta, temos novamente de perguntar: que base haverá então, em Apocalipse 20.1-6, para a expectação de uma futura era dourada milenar? 20.

(4) A expectação pós-milenista de uma era dourada futura, anterior à volta de Cristo, não faz jus à tensão contínua na história do mundo entre o Reino de Deus e as forças do mal. Já mencionamos anteriormente que está havendo e continuará a haver uma tensão sempre presente na história21. Já em Gênesis 3.15, Deus anunciava a antítese que continuaria por toda a história: inimizade entre a semente da mulher e a semente da serpente. Esta antítese continua até ao fim da história - considerem-se as referências em Apocalipse à Batalha do Armagedom (cap. 16.13-16) e à Batalha de Gogue e Magogue (cap. 20.7-9). Na parábola do joio (ou erva daninha), encontrada em Mateus 13.36-43, Jesus ensina que o povo do maligno continuará a existir lado a lado com o povo redimido de Deus até a hora da ceifa. A implicação clara desta parábola é que o Reino de Satanás, se assim o podemos chamar, continuará a existir e a crescer enquanto o Reino de Deus crescer, até que Cristo venha de novo. O Novo Testamento dá indicações de contínua força desse “reino do mal” até o fim do mundo, ao falar acerca da grande tribulação, da apostasia final e da manifestação de um anticristo pessoal. Por causa disso, supor que antes da volta de Cristo o mal “será reduzido a proporções mínimas” 22 pareceria uma simplificação exagerada e romântica da história, que não é uma garantia pelos dados bíblicos. Sem dúvida, Cristo conquistou a vitória decisiva sobre o pecado e Satanás, de modo que o resultado final da luta nunca é posto em dúvida. Mesmo assim, a antítese entre Cristo e seus inimigos continuará até o fim.

Prosseguiremos agora examinando uma terceira importante posição acerca do milênio, que o premilenismo histórico. Faz-se necessário uma discussão em separado do premilenismo histórico, como distinto do premilenismo dispensacionalista, porque estas duas variedades de pensamento premilenista diferem em assuntos essenciais. Falando resumidamente, os premilenistas crêem que a Segunda Vinda de Cristo será premilenista: isto é, anterior ao milênio. Por isso, os premilenistas aguardam um reinado de Cristo sobre a terra por um período de mil anos após sua volta, e antes da instauração do estado final. O que se segue é um esboço das características principais do premilenismo histórico23. Naturalmente, é necessário lembrar que os premilenistas históricos diferem entre si em vários detalhes específicos24.

De acordo com o premilenismo histórico, vários eventos têm de acontecer antes que Cristo retorne: a evangelização das nações, a grande tribulação, a grande apostasia ou rebelião e a manifestação do anticristo pessoal. A Igreja terá de atravessar esta tribulação final. A Segunda Vinda de Cristo não será um evento em duas etapas, mas uma ocorrência única. Quando Cristo voltar, os crentes que estiverem mortos serão ressuscitados, os crentes que estiverem ainda vivos serão transformados e glorificados, e então ambos os grupos serão juntamente elevados para encontrar com o Senhor nos ares25. Após este encontro nos ares, os crentes acompanharão o Cristo que desce à terra.

Após Cristo ter descido à terra, o anticristo é exterminado e seu Reino opressor chega ao fim. Ou neste momento ou antes disso, a grande maioria dos judeus que estiverem vivos se arrepende de seus pecados, crê em Cristo como seu Messias e é salva; esta conversão do povo judeu será uma fonte de bênçãos indizíveis para o mundo.

Agora Cristo estabelece seu Reino milenar - um Reino que durará aproximadamente mil anos. Jesus agora governa visivelmente sobre todo o mundo, e seu povo redimido reina juntamente com ele. Os redimidos incluem tanto judeus como gentios. Embora em sua maioria os judeus tenham-se convertido recentemente, após a conversão dos gentios, eles não formam um grupo separado, uma vez que há apenas um povo de Deus. Aqueles que reinam com Cristo, durante o milênio, incluem tanto crentes que acabam de ser ressuscitados da morte como crentes que ainda estavam vivos quando da volta de Cristo. As nações incrédulas, que ainda estiverem sobre a terra nessa época, são controladas e governadas por Cristo com vara de ferro.

Não se deve confundir o milênio com o estado final, porque o pecado e a morte ainda existem. Entretanto, o mal será amplamente restringido e a justiça prevalecerá na terra como nunca antes aconteceu. Este deve ser um tempo de justiça social, política e econômica, e de grande paz e prosperidade. Até a natureza refletirá as bênçãos desta era uma vez que a terra será extraordinariamente produtiva e o deserto florescerá como a rosa.

Perto do fim do milênio, porém, Satanás, que estava preso durante este período, será solto e sairá a enganar as nações mais uma vez. Ele congregará as nações rebeldes para a Batalha de Gogue e Magogue, e as levara para atacar o “acampamento dos santos”. Mas descerá fogo do céu sobre as nações rebeldes e Satanás será lançado no “lago de fogo”.

Após o fim do milênio, segue-se a ressurreição dos incrédulos que morreram. Agora acontece o julgamento perante o grande trono branco, no qual todos os homens, tanto crentes como incrédulos, serão julgados. Aqueles cujos nomes forem encontrados escritos no livro da vida ingressarão na vida eterna, enquanto aqueles cujos nomes não forem encontrados naquele livro serão lançados no lago de fogo. Depois disto, o estado final é instaurado: os incrédulos passam a eternidade no inferno, enquanto que o povo redimido de Deus vive para sempre na nova terra que foi purgada de todo mal.

Quais são as provas das Escrituras fornecidas pelos premilenistas históricos para o ensino de que haverá um reinado milenar terreno após a volta de Cristo? George Eldon Ladd admite que o único lugar onde a Bíblia menciona tal reino milenar terreno é Apocalipse 20.1-626. Ele encontra uma descrição da Segunda Vinda de Cristo em Apocalipse 19, e interpreta Apocalipse 20 como descrevendo eventos que sucederão à Segunda Vinda. Os primeiros três versos de Apocalipse 20, afirma Ladd, descrevem o aprisionamento de Satanás durante o milênio posterior à volta de Cristo27. Apocalipse 20.4 retrata o reinado dos crentes ressuscitados com Cristo sobre a terra durante o milênio. Ladd insiste em que a palavra grega ezasan (eles viveram ou, vieram à vida), encontrada nos versos 4 e 5, tem de significar ressuscitado da morte de um modo físico28. No verso 4, ele encontra uma descrição da ressurreição física dos crentes no início do milênio (mais tarde denominada “a primeira ressurreição”), e no verso 5 ele encontra uma descrição da ressurreição física dos incrédulos no final do milênio. Ladd credita no fato, de que o ensino acerca deste Reino milenar terreno seja encontrado apenas neste capítulo, ao que ele entende a respeito da revelação progressiva.

Ladd encontra mais apoio para seu ensino em 1 Coríntios 15.23-26, embora ele admita que esta passagem não fornece prova conclusiva para um milênio terreno29. Ele apela especialmente para os versos 23 e 24: “Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias, depois (epeita) os que são de Cristo, na sua vinda. E então (eita) virá o fim (telos), quando ele entregar o Reino ao Deus e Pai...” De acordo com Ladd, Paulo retrata aqui o triunfo do Reino de Cristo realizado em três etapas. A primeira etapa e a ressurreição de Cristo. A segunda etapa ocorre na Parousia, quando os crentes são ressuscitados. Então vem o fim, quando Cristo entrega o Reino a Deus Pai; esta é a terceira etapa. Uma vez que há um intervalo significativo entre a primeira e a segunda etapas, não parece improvável que haja também um intervalo significativo entre a segunda e a terceira etapas. Ladd afirma que as palavras então (eita) e fim (telos) deixam lugar para um intervalo indefinido de tempo entre a Segunda Vinda e o fim, quando Cristo completa a subjugação de seus inimigos30. Este intervalo seria o milênio.

A título de avaliação, podemos dizer primeiramente que existe muito na posição de Ladd que podemos apreciar. Entre estes pontos estão seu ensino de que (1) Deus não tem dois povos separados com destinos distintos (a saber, judeus e gentios, ou Israel e a Igreja) mas somente um povo; (2) o Reino de Deus é tanto presente como futuro; (3) a Igreja já está desfrutando bênçãos escatológicas no tempo pressente; (4) os sinais dos tempos têm estado presente desde o tempo da primeira vinda de Cristo, mas assumirão uma forma intensificada antes de sua Segunda Vinda; (5) a Segunda Vinda de Cristo não é um acontecimento em duas etapas, mas um evento único.

Temos igualmente de apreciar a rejeição decidida que Ladd faz de vários ensinos dispensacionalistas; por essa razão, seu premilenismo, bem como dos premilenistas históricos em geral31, deve ser claramente distinguido do dispensacionalismo premilenista. Entretanto, permanecem certas dificuldades básicas com o ensino que é comum tanto ao premilenistmo dispensacionalista como ao não dispensacionalista, de que haverá um reinado milenar terreno após a volta de Cristo. As seguintes objeções podem ser levantadas contra esta posição:

(1) Apocalipse 20 não fornece prova incontestável para um reinado milenar terreno que se seguirá à Segunda Vinda. Não há dúvida de que vários teólogos evangélicos efetivamente encontram uma prova para tal Reino nesta passagem. Contudo, conforme será demonstrado em um capítulo subseqüente, este não é o único modo possível de se interpretar esses versos. A compreensão amilenista de Apocalipse 20.1-6, que descreve o reinado das almas dos crentes decapitados com Cristo nos céus, tem tido bom apoio na Igreja desde os dias de Agostinho32. Para uma descrição e defesa mais elaborada da interpretação amilenista desta passagem, veja o capítulo 16.

Entretanto, mais uma questão deveria ser levada em conta acerca da compreensão premilenista de Apocalipse 20.1-6. Geralmente, os premilenistas não dispensacionalistas sustentam que aqueles que reinam com Cristo, durante o milênio, são não apenas os crentes que foram ressuscitados da morte, mas também os crentes que ainda estavam vivos quando Cristo voltou. Deveria ser observado, porém, que mesmo na interpretação premilenista, esta passagem não diz coisa alguma acerca deste último grupo. Se a frase “viveram e reinaram com Cristo durante mil anos” for entendida com o sentido de “foram ressuscitados dos mortos e reinaram com Cristo”, não há nada dito aqui acerca de crentes que não morreram, mas ainda estavam vivos quando Cristo retornou. De acordo com a interpretação premilenista comum, portanto, esta passagem fala apenas acerca de um reinado com Cristo, durante o milênio da parte de crentes ressurrectos. Mas este seria um tipo diferente de reinado milenar terreno daquele que geralmente é ensinado pelos premilenistas33.

(2) 1 Coríntios 15.23,24 não fornece evidência clara para tal Reino milenar terreno. Deve ser dito em primeiro lugar que em nenhum dos escritos paulinos à base para a expectação de um Reino milenar que preceda o estado final. Além disso, não há um ensino claro acerca de um reinado milenar terreno deste tipo nesta passagem. Em 1 Coríntios 15 Paulo estava tratando com cristãos que aparentemente criam efetivamente na ressurreição corporal de Cristo, mas não esperava mais uma ressurreição corporal dos crentes. Argumentando contra esse erro, Paulo desenvolve, neste capítulo a ordem divina das coisas: Cristo, as primícias, que foi ressuscitado primeiro; depois disso, na Parousia, aqueles que são de Cristo serão ressuscitados dentre os mortos. Paulo aqui não está sugerindo que haverá uma ressurreição de incrédulos mil anos após a ressurreição dos crentes: ele não diz coisa alguma nesta passagem acerca da ressurreição de incrédulos. As palavras do verso 24: “E então virá o fim, quando ele entregar o Reino ao Deus e Pai”, não implicam necessariamente um longo intervalo de tempo após a ressurreição dos crentes, mas são apenas um modo de dizer que só então, após tudo isso ter acontecido, virá o fim ou a consumação da obra messiânica de Cristo34.

(3) O retorno do Cristo glorificado e dos crentes glorificados, para uma terra onde existam pecado e morte, violaria a finalidade de sua glorificação. Porque os crentes que tem estado desfrutando da glória celestial, durante o estado intermediário35, deveria ser ressuscitado dentre os mortos para voltar a uma terra onde o pecado e a morte ainda existem? Não seria isso um anti-climax? A existência de corpos ressurrectos e glorificados não reivindica uma vida em uma nova terra, da qual todos os remanescentes de pecado e maldição tenham sido banidos? Além disso que deveria o Cristo glorificado retornar para uma terra aonde existam ainda pecado e morte? Por que deveria ele, após sua volta em glória, ainda ter de governar sobre seus inimigos com vara de ferro, e ainda ter de esmagar uma rebelião contra ele no fim do milênio? A batalha de Cristo contra seus inimigos não foi completada já durante seu estado de humilhação? Não foi durante esse tempo que ele conquistou a vitória final e decisiva sobre o mal, pecado, morte e Satanás? Não é verdade que a Bíblia ensina que Cristo está voltando na plenitude da sua glória, para instaurar não um período interno de paz e bênção limitadas, mas sim o estado final de ilimitada perfeição?

(4) o reinado milenar terreno, ensinado pelos premilenistas, não concorda com o ensino escatológico do Novo Testamento, uma vez que não pertence nem a era presente nem a era porvir. Já vimos anteriormente36que o Novo Testamento destaca duas eras: a era presente, a era porvir. Não há indicação nenhuma nos Evangelhos, no livro de Atos, nem nas epístolas de que haverá também uma terceira era entre a era presente e a era porvir. O que os escritores do Novo Testamento é que, quando Jesus voltar, ele instaurará nova era. Assim, por exemplo, lemos em Mateus 25.31: “quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele [uma referência obvia à volta de Cristo] então se assentará no trono da sua glória”. Fica evidente à partir do verso 46 que este não é um trono milenar terreno mas sim o trono do juízo que introduzirá a era final: “E irão estes [aqueles à esquerda do juiz] para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna”. Em Atos 3, ouvimos Pedro dizer em seu sermão no templo: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que seus pecados possam ser apagados, a fim de que da presença do Senhor venham tempos de refrigério; e que ele envie o Cristo que já vos foi designado, Jesus: a quem o céu deve receber até os tempos da restauração de todas as coisas de que Deus falou por boca de seus santos profetas desde a antigüidade”. (vs 19-21, ASV). Certamente as palavras - “os tempos da restauração de todas as coisas” - não se referem a um intervalo milenar intermediário, mas ao estado final. Paulo ensina que a Segunda Vinda de Cristo será imediatamente seguida pelo juízo final: “Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará a plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações” (1 Co 4.5). Em sua segunda epístola, Pedro afirma com inconfundível clareza que a Segunda Vinda será seguida no ato pela dissolução da velha terra e criação da nova terra:

“Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas. Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do dia de Deus, por causa do qual os céus incendiados serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça”. (2 Pe 3.10-13).

O milênio dos premilenistas, portanto, é algo como uma anomalia teológica. Não é nem completamente como a era atual, nem completamente como a era porvir. Com certeza, é melhor do que a era presente, mas fica muito atrás de ser o estado final de perfeição. Para os santos ressurrectos e glorificados, o milênio é um adiamento agonizante do estado final de glória pelo qual eles aguardam tão ansiosamente. Para as nações rebeldes, o milênio é uma continuação da ambigüidade da era presente, na qual permite ao mal existir enquanto atrasa seu julgamento final sobre ele. Uma vez que um reinado terreno milenar de Cristo não é ensinado em nenhum outro lugar das Escrituras, e uma vez que as características deste Reino milenar entram em conflito com o que as Escrituras ensinam, em outras passagens, acerca da Segunda Vinda e acerca da era porvir que a sucede, por que deveríamos afirmar que Apocalipse 20.1-6 ensina que haverá um Reino assim? Ao invés de insistirmos que Apocalipse 20 apresenta um ensino que não é encontrado em nenhum outro lugar da Bíblia, não seria mais sábio interpretar esses versos difíceis de um livro apocalíptico à luz e em harmonia com o que o restante das Escrituras claramente ensina?

Passamos agora a examinar a quarta importante posição acerca do milênio, o premilenismo dispensacionalista. Deveria ser dito, de início, que o premilenismo dispensacionalista tem uma origem comparativamente recente. Embora o premilenismo tenha sido ensinado por teólogos cristãos desde o segundo século 37, o sistema teológico conhecido como dispensacionalismo, ensinando, como de fato o faz, uma distinção absoluta entre Israel e a Igreja, como dois povos de Deus separados, não teve seu início se não na época de John Nelson Darby (1800-1882) 38.

O premilenismo dispensacionalista compartilha com o premilenismo histórico a convicção de que Cristo reinará sobre a terra durante mil anos após a sua volta. Entretanto, existem muitas diferenças profundas entre estas duas variedades de premilenismo.

Antes de observarmos as principais características do dispensacionalismo (ou premilenismo dispensacionalista) deveríamos primeiramente anotar dois princípio básicos, que são determinantes para o pensamento dispensacionalista:

(1) A interpretação literal de profecias. Herman Hoyt, um dispensacionalista contemporâneo, desenvolve estes princípio nas seguintes palavras:

“Este princípio claramente declarado é o de tomar as Escrituras em seu sentido literal e normal, entendendo que isso se aplica a toda Bíblia. Isto significa que o conteúdo histórico da Bíblia deve ser tomado literalmente; a matéria doutrinária deve ser igualmente interpretada desta forma; a informação moral e espiritual também segue este padrão; e o material profético deve ser igualmente entendido desse modo. Isto não significa que não haja linguagem figurada utilizada na Bíblia. Mas significa, isto sim, que onde esta linguagem for empregada, é preciso interpretá-la figuradamente, pois, de outro modo, será uma aplicação indevida do método literal. Qualquer outro método de interpretação furta parcialmente, se não completamente, o povo de Deus da mensagem que lhe estava destinada”


(3) A distinção fundamental e permanente entre Israel e a Igreja. Ilustram este ponto as seguintes citações de teólogos dispensacionalistas famosos:

“O dispensacionalismo crê que, através das eras, Deus está buscando dois propósitos distintos: um deles relacionado com a terra, com um povo terreno e objetivos terrenos envolvidos, que é o judaísmo; enquanto que o outro está relacionado com o céu, com um povo celestial e objetivos celestiais envolvidos, que é o Cristianismo... 40

É de importância capital, à interpretação premilenista das Escrituras, a distinção estabelecida no Novo Testamento entre o propósito atual de Deus para a Igreja e Seu propósito para a nação de Israel. Os indivíduos que nesta era presente são descendentes de Jacó têm o mesmo privilégio dos gentios para investir sua fé em Cristo e formar o corpo de Cristo que é a igreja. Entretanto, o Novo Testamento, assim como o antigo, deixa claro que a nação de Israel, como tal, tem suas promessas cumpridas em última instância no reinado futuro de Cristo sobre eles... A era presente, de acordo com a interpretação premilenista, é o cumprimento do plano e propósito de Deus, revelado no Novo Testamento, de chamar um povo dentre judeus e gentios igualmente, para formar um novo corpo de santos. É somente quando este propósito for completado que Deus poderá realizar as sentenças trágicas que precedem ao Reino milenar de Cristo, e inaugurar a justiça e a paz que caracterizam o Reino milenar” 41.
É difícil apresentar as características principais do premilenismo dispensacionalista, porque os dispensacionalistas diferem entre si de vários detalhes. O que se segue é uma tentativa de descrever os aspectos mais importantes da Escatologia dispensacionalista contemporânea, retratando particularmente o ponto de vista da New Scofield Bible (A Nova Bíblia de Scofield) de 196742.

Os dispensacionalistas dividem as ações de Deus para com a humanidade em várias “dispensações” diferentes. A New Scofield Bible distingue sete destas dispensações: Inocência, Consciência de Responsabilidade Moral, Governo Humano, Promessa, Lei, a igreja e o Reino. Uma dispensação é definida como “um período de tempo durante o qual o homem é testado em relação à sua obediência a algumas revelações específicas da vontade de Deus43. Embora em cada dispensação Deus revele sua vontade de um modo diferente, estas dispensações não são modos separados de salvação. “Durante cada uma delas [das dispensações] o homem é reconciliado com Deus de apenas uma forma, i.e., pela graça de Deus através da obra de Cristo que foi realizada na cruz e vindicada em sua ressurreição” 44. A dispensação do Reino é o Reino milenar de Cristo, que acontecerá após a sua volta.

O Antigo Testamento contém várias promessas de que, em algum tempo no futuro, Deus estabelecerá um Reino terreno que envolva o povo de Israel, o povo de seu antigo pacto. Embora a aliança abraâmica inclua promessas à descendência espiritual de Abraão, sua promessa central era de que a terra de Canaã seria dada aos descendentes naturais de Abraão por uma possessão eterna. Na aliança davídica, a promessa outorgada era que um dos descendentes de Davi (a saber, o Messias vindouro) iria se assentar para sempre no trono de Davi, governando sobre o povo de Israel. A nova aliança predita em Jeremias 31.31-34, embora inclua certas características que já estão sendo cumpridas para os cristãos na presente Era da Igreja, é essencialmente uma aliança para Israel, que não será completamente cumprida até a época do milênio vindouro. Uma grande quantidade de passagens dos Salmos e profetas (e.g., Sl 72.1-20; Is 2.1-4; 11.1-9; 11-16; 65.18-25; Jr 23.5,6; Am 9.11-15; Mq 4.1-4; Zc 14.1-9, 16-21) prediz que o povo de Israel, em algum tempo futuro, será novamente congregado na terra de Canaã, desfrutará de uma época de prosperidade e bênção, terá um lugar especial de privilégio sobre outras nações e viverá sob o governo benevolente e perfeito de seu Messias, o descendente de Davi. Uma vez que nenhuma destas promessas foi cumprida até agora, os dispensacionalistas aguardam este cumprimento para o Reino milenar de Cristo.

Quando Cristo estava sobre a terra, ele ofereceu o Reino dos céus aos judeus de sua época. Este Reino deveria ser um governo terreno sobre Israel, em cumprimento às profecias do Antigo Testamento; além disso, a entrada do Reino requereria arrependimento dos pecados, fé em Jesus como o Messias e uma disposição para adotar o alto padrão de moralidade ensinado, por exemplo, no Sermão do Monte. Entretanto, os judeus daquela época rejeitaram o Reino. Por causa disso, o estabelecimento final deste Reino foi então adiado para a época do milênio. Neste ínterim, Cristo introduziu a “forma misteriosa” do Reino - uma forma descrita em parábolas tais como a do semeador e a do joio em Mateus 13. Um expoente desta posição, E. Schuyler English, argumenta da seguinte forma: “O Reino em mistério é a cristandade, aquela parte do mundo onde o nome de Cristo é confessado. É a Igreja visível, composta tanto de crentes como de incrédulos, que constitui o Reino dos céus em mistério. Ele continuará até o fim da era, quando Cristo retornará à terra para reinar como Rei” 45.

Uma vez que o Reino, em sua forma “real” ou final, foi rejeitado pelos judeus, Cristo agora passou a estabelecer a Igreja. o propósito da igreja é de congregar crentes, primariamente gentios, mas também judeus, como o corpo de Cristo - uma convocação ou “chamada” que não será completada até que Cristo volte para o arrebatamento. Embora o Reino davídico tenha sido predito no Antigo Testamento, a Igreja não o foi. Por causa disso, a Igreja constitui uma espécie de “parêntesis” no plano de Deus, interrompendo o seu programa predito para Israel. “...A era presente [a Era da Igreja] é um parêntesis ou um período de tempo não predito pelo Antigo Testamento, e por causa disso não cumprindo nem levando o programa de eventos revelado na previsão do Antigo Testamento” 46.

Conforme vimos acima47, a volta de Cristo acontecerá em duas etapas ou fases. A primeira fase será o assim chamado arrebatamento, que pode acontecer a qualquer momento. Aqui emerge uma diferença importante entre o premilenismo dispensacionalista pré-tribulacionista e o premilenismo histórico; enquanto que este último aguarda que certos sinais dos tempos sejam cumpridos, antes da volta de Cristo, aquele espera que estes sinais sejam cumpridos após ter ocorrida a primeira etapa da volta. Em outras palavra: os dispensacionalistas pré-tribulacionaistas crêem na assim chamada vinda iminente ou a qualquer momento de Cristo48. Na hora do arrebatamento, Cristo não vem realmente por todo o trajeto até a terra mas faz apenas parte do caminho. Então acontece a ressurreição de todos os verdadeiros crentes, excluindo os santos do Antigo Testamento. Após esta ressurreição, os crentes que ainda estiverem vivos - tanto crentes judeus como gentios crentes - serão instantaneamente transformados e glorificados. Agora acontece o arrebatamento de todo o povo de Deus; os crentes ressuscitados e os crentes transformados são elevados às nuvens para encontrar nos ares o Senhor que está descendo. Este corpo de crentes, denominado Igreja, agora sobe ao céu com Cristo, para com ele celebrar durante sete anos as bodas do Cordeiro.

Este período de sete anos que se segue é um cumprimento da septuagésima semana da profecia de Daniel (Dn 9.24-27). Os dispensacionalistas afirmam que, embora a sexagésima nona semana desta profecia tenha sido cumprida quando da primeira vinda de Cristo, a profecia acerca da septuagésima semana (v.27) não será cumprida até o arrebatamento. Durante este período de sete anos, enquanto a Igreja permanece no céu, acontecerão vários eventos na terra: (1) a tribulação predita em Daniel 9.27 começa agora, sua última metade sendo a assim chamada grande tribulação; (2) o anticristo inicia agora seu reinado cruel - um reinado que culmina em sua exigência para ser adorado como Deus; (3) então caem terríveis julgamentos sobre os habitantes da terra; (4) nesta hora um remanescente de Israel converter-se-á a Jesus como o Messias - os 144.000 israelitas selados de Apocalipse 7.3-8; (5) então este remanescentes de Israel começará a pregar o “Evangelho do Reino” - um Evangelho que tem como conteúdo central o estabelecimento do Reino davídico vindouro, mas que inclui a mensagem da cruz e a necessidade de fé e arrependimento; (6) através do testemunho deste remanescente judaico, uma multidão inumerável de gentios será igualmente trazida à salvação (Ap 7.9); (7) então se reúnem os reis da terra e os exércitos da besta e do falso profeta para atacar conjuntamente o povo de Deus na Batalha do Armagedom.

No final deste período de sete ano, Cristo retornará em glória, acompanhado pela Igreja. desta vez ele descerá todo o trajeto até a terra e destruirá seus inimigos, pondo dessa forma fim à Batalha do Armagedom. Até esse momento a não de Israel terá sido reagrupada na Palestina. Na volta de Cristo a grande maioria dos israelitas que estiverem vivos se converterá em fé a Cristo e será salva, em cumprimento a profecias do Antigo e do Novo Testamentos. Então será preso o diabo, lançado no abismo e ali selado por mil ano - o período de tempo é interpretado de modo estritamente literal. Os santos que morreram durante a tribulação dos sete anos, que acabou de findar, são agora ressuscitados dentre os mortos (Ap 20.4); também acontece neste momento a ressurreição dos santos do Antigo Testamento. Estes santos ressuscitados, porém, não entrarão no Reino milenar que está para ser estabelecido; eles se juntarão aos santos ressurrectos e transladados que constituem a Igreja arrebatada nos céus. Agora segue-se o julgamento dos gentios vivos, registrado em Mateus 25.31-46. Este julgamento é para indivíduos e não para nações. “O critério deste julgamento será como os indivíduos gentios trataram a seus irmãos cristãos - sejam irmãos segundo a carne (i.e., judeus) ou irmãos segundo o Espírito (i.e., pessoas salvas) - durante a “tribulação” 49. As ovelhas - aqueles que passaram no teste - serão deixadas na terra para ingressar no Reino milenar. Os cabritos - aqueles que não passaram no teste - serão lançados no fogo eterno. Então segue-se o julgamento de Israel, mencionado em Ezequiel 20.33-38. Os rebeldes dentre os israelitas serão mortos nessa hora e não lhes será permitido desfrutar das bênçãos do milênio. Aqueles israelitas que se voltaram para o Senhor, entretanto, ingressarão no Reino milenar e desfrutarão de suas bênçãos.

Agora Cristo inicia seu reinado milenar. Ele se assenta num trono em Jerusalém e governa sobre um Reino que é primariamente judaico, embora os gentios também compartilhem de suas bênçãos; os judeus, porém, são exaltados acima dos gentios. No início do milênio, Cristo governa sobre aqueles que sobreviveram ao julgamento dos gentios e ao julgamento de Israel recém-descritos. Aqueles que são membros do Reino milenar, portanto, não são crentes ressurrectos, mas sim crentes que ainda estavam vivos quando Cristo voltou para a segunda etapa de sua Segunda Vinda; deveria também ser observado que, no princípio do milênio não haverá pessoas não-regeneradas vivendo sobre a terra. O Reino milenar de Cristo cumpre as promessas feitas a Israel no Antigo Testamento: “O propósito terreno de Israel, de que falam os dispensacionalistas, diz respeito à promessa nacional que será cumprida pelos judeus durante o milênio, quando eles viverem sobre a terra em corpos não-ressuscitados. O futuro terreno de Israel não se refere aos israelitas que morreram antes da instalação do milênio” 50.

Aqueles que ingressaram no Reino milenar serão seres humanos normais. Eles casarão e se reproduzirão, e a maioria deles morrerá. O milênio será um tempo de prosperidade, produtividade maravilhosa e paz; será uma era dourada tal como o mundo nunca viu antes. A terra estará cheia do conhecimento de Deus como as águas cobrem o mar. A adoração no milênio será centrada em um templo reconstruído em Jerusalém, ao qual todas as nações irão para oferecer louvores a Deus. Serão novamente oferecidos sacrifícios de animais no templo. Estes sacrifícios, porém, não serão ofertas propiciatórias, mas sim ofertas memoriais, relembrando a morte de Cristo por nós.

Qual será a relação dos santos ressurrectos com a terra milenar? Os santos ressuscitados estarão vivendo na Jerusalém nova e celestial, que é descrita em Apocalipse 21.1 a 22.5. Durante o reinado milenar, esta Jerusalém celestial estará nos ares sobre a terra, irradiando sua luz sobre a terra. Os santos ressurrectos terão alguma participação no Reino milenar, pois participarão com Cristo em certos julgamentos (cp. Mt 19.28; 1 Co 6.2; Ap 20.6). Parece, então, que os santos ressurrectos são capazes de descer na Nova Jerusalém para a terra a fim de participar destes julgamentos. Entretanto, estas atividades julgadoras parecem ser “limitadas a algumas funções específicas, e a atividade principal dos santos ressurrectos será na nova cidade celestial” 51.

Embora no princípio do milênio haja apenas pessoas regeneradas sobre a terra, os filhos destas pessoas - nascidas durante o milênio -, com o tempo, superarão em muito o número de seus pais. Muitas destas crianças irão se converter e se tornarão crentes verdadeiros. Aqueles que se mostraram rebeldes contra o Senhor serão controlados por Cristo e, se necessário, serão mortos. Aqueles que apenas professam a fé cristã, mas não são crentes verdadeiros, serão arrebanhados por Satanás no final do milênio (após ele ter sido solto de sua prisão) para uma ataque final contra o “acampamento dos santos”. Esta revolta final, porém, será totalmente esmagada por Cristo, os inimigos de Deus serão destruídos e Satanás será lançado no lago de fogo. Antes que termine o milênio todos os crentes que morreram durante o milênio serão ressuscitados.

Após o milênio ter findado, todos os incrédulos mortos serão ressuscitados e julgados perante o grande trono branco. Uma vez que seus nomes não terão sido escritos no livro da vida, eles todos serão lançados no lago de fogo, que á a segunda morte.

Agora será instaurado o estado final. Deus então criará novos céus e uma nova terra, dos quais todo pecado e imperfeição terão sido removidos. A Jerusalém celestial, o lugar da habitação dos santos ressurrectos, descerá agora para esta nova terra, onde Deus e seu povo habitarão eternamente juntos, em perfeita felicidade. Embora o povo de Deus, sobre a nova terra, seja um, continuará a haver uma distinção entre judeus redimidos e gentios redimidos, por toda a eternidade.

A relação entre o cumprimento das promessas de Deus à nação de Israel durante o milênio e o destino final dos indivíduos israelitas salvos está indicada na seguinte citação: “... O Antigo Testamento exibe uma esperança nacional que será totalmente realizada na era milenar. A esperança do indivíduo santo do Antigo Testamento, acerca de uma cidade eterna, será realizada pela ressurreição na Jerusalém celestial, onde, sem perder a distinção ou a identidade, Israel ser reunirá com os ressurrectos e transladado da era da igreja para compartilhar na glória do Seu [de Cristo] Reino para sempre52.

Uma avaliação crítica do premilenismo dispensacionalista será apresentada no próximo capítulo.

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