Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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Notas do Capítulo 17
1. Ver acima, capítulo 8.

2. Ver acima, pp. 241-243, 252, 254

3. Ver acima, pp. 252, 254 Uma vez que os premilenistas afirmam que ainda haverá morte durante o milênio, eles também precisam defender uma ressurreição dos crentes que morreram durante o milênio, em adição às duas ressurreição mencionadas acima.

4. Ver NSB, p.1131, número 1: “Uma vez que esta hora de regeneração espiritual já tem perdurado por mais de dezenove séculos é também possível que a futura “hora” da ressurreição física (vs. 28,29) se estenda por mil anos - os justos sendo ressuscitados no princípio; os ímpios no final. Ver Apocalipse 20”. Cp. também, Pentecost, Things to Come (Coisas Por Vir), p. 400.



5. Millennial Studies (Estudos do Milênio), Grand Rapids, Baker, 1948, pp. 153, 154.

6. Ver acima, pp.130, 131.

7. Embora em Lucas 16.23, conforme vimos (acima, pp. 131, 132), Hades parece ser usado para descrever o lugar de punição do ímpios durante o estado intermediário, não há indicação de que esta palavra seja utilizada neste sentido restrito em Apocalipse 20.13, especialmente não porque nesta passagem Hades é colocado em paralelo com morte.

8. Provavelmente, não devemos pensar em livros no sentido literal nem aqui, nem no caso do “livro da vida”.

9. Para uma refutação mais ampla da teoria da ressurreição, em duas etapas, ver David Brown, Christ’s Second Coming (A Segunda Vinda de Cristo), New York: Carter, 1851, pp. 190-217.

10. Ver acima, p. 245.

11. Ver acima, pp. 128-130.

12. A palavra todos, na verdade, é utilizada na passagem neotestamentária que faz eco a estas palavras de Daniel: João 5.28,29.

13. Pensamos e.g., de ressurreições tais como a do filho da viúva de Sarepta (1 Reis 17.17-24) e do filho da mulher sunamita (2 Reis 4.32-37); bem como na ressurreição do filho da viúva de Naim (Lucas 7.11-17), da filha de Jairo (Mt 9.18-26) e de Lázaro (João 11.38-44).

14. Quando Paulo utiliza a expressão “ressurreição dos mortos” (anastasis nekron), neste capítulo, ele indica uma ressurreição física ou corporal. Isto fica evidente do exemplo de Cristo, que certamente ressuscitou de modo físico (ele pôde ser tocado e pôde comer; ver Lc 24.38-43). Fica evidente também pela consideração de que um tipo não-físico de “ressurreição” seria equivalente ao conceito grego da “imortalidade da alma” - um conceito que os hereges de Corinto provavelmente aceitaram como substituto para a ressurreição física.

15. A vida da semente continua, mas a semente não mais existe como semente depois de a nova planta ter começado a se formar.

16. Por causa disso, a tradução de 1 Coríntios 15.44, pela RSV, é confusa: “Semeia-se corpo físico, ressuscita corpo espiritual”. É melhor, como o fazem KJ, ASV e NIV, traduzir soma psychikon por corpo natural.



17. Pauline Eschatology (Escatologia Paulina), p.167.

18. Sobre o significado de “corpo espiritual” em 1 Coríntios 15.44 ver também J.A Schep, The Nature of the Ressurrection Body (A Natureza do Corpo Ressurrecto), Grand Rapids, Eerdmans, 1964, Cap. 6; M.E. Dahl The Ressurrection of the Body (A Ressurreição do Corpo), London: SCM, 1962; e H. Ridderbos, Paul , pp.537-551

19. Schep, op.cit., p. 204.

20. A Bíblia diz muito pouco acerca da ressurreição dos incrédulos. Já observamos as passagens que mencionam especificamente este aspecto da ressurreição (Daniel 12.2; João 5.28,29; Atos 24.15). A ressurreição dos incrédulos é parte do julgamento de Deus sobre eles, e por causa disso reflete mais a obra de Cristo como juiz do que sua obra como salvador.


CAPÍTULO 18
O JUÍZO FINAL
Na verdade, há um sentido no qual as pessoas são julgadas já na presente vida, pela resposta delas a Cristo. Lemos em João 3.18: “Aquele que nele [Cristo] crê não é condenado (ou julgado, ASV); aquele que não crê já está condenado (ou julgado, ASV), porque não creu no nome do unigênito Filho de Deus” (veja também 3.36; 5.24). Em outras palavras, um julgamento divino recai já agora sobre aqueles que se recusam a crer em Cristo. Mas a Bíblia também ensina que haverá um julgamento final no fim da história, no qual todos os homens aparecerão perante o trono de Cristo para serem julgados. É deste juízo final que tratamos neste capítulo.

Começamos com a questão da necessidade deste julgamento. Alguns consideram o juízo final como desnecessário, pois o destino de cada pessoa já terá sido determinado por ocasião de sua morte. Se alguém morre, estando em Cristo, essa pessoa será salva e imediatamente após a morte estará na presença do Senhor1. Se, porém, uma pessoa morre na incredulidade, ela estará perdida e irá imediatamente para o lugar de tormentos2. Se isto é assim, por que é necessário um juízo final? Sem dúvida, tal juízo seria necessário para aqueles que ainda estivessem vivos quando do retorno de Cristo, mas não para aqueles que tiverem morrido até aquela ocasião. Esta é a objeção.

Esta objeção.

Esta objeção, porém, está baseada na suposição de que o propósito do juízo final seja determinar o destino futuro do homem. Os Advertistes do Sétimo Dia, por exemplo, ensinam que no final da vida de cada pessoa haverá um “julgamento investigador” para determinar se ela será salva ou estará perdida: “Este julgamento investigador determina quem dentre os milhares que estão dormindo no pó da terra é digno de tomar parte na primeira ressurreição, e quem de suas multidões viventes é digno da transladação” 3. Mas esta suposição não é correta. Na ocasião do juízo final o destino final de todos os que tiverem vivido ou ainda estiverem vivendo na terra já terá sido determinado. Deus não necessita de proceder a uma investigação nas vidas das pessoas para determinar quem será salvo e quem não o será. Vemos em Efésios (1.4) que o destino dos salvos é não apenas preconhecido por Deus mas tem, também, sido predeterminado desde a eternidade: “assim como nos escolheu nele [Cristo] antes da fundação do mundo”. Vemos em João (10.27, 28) que Cristo conhece as suas ovelhas e lhes deu vida eterna, de modo que ninguém pode tirá-las de sua mão.

Qual será, pois, o propósito do juízo final? Três pontos podem ser destacados: (1) O principal propósito do juízo será mostrar a soberania de Deus e a glória de Deus na revelação do destino final de cada pessoa. Até essa ocasião, o destino final de cada ser humano terá estado oculto; agora esse destino será revelado, conforme a fé que cada um teve ou não, conforme as obras que cada um fez e a vida que cada um viveu. Com a publicação dessas obras, a graça de Deus será magnificada na salvação de seu povo e sua justiça será magnificada na condenação de seus inimigos. Portanto, o que é central no dia do juízo não é o destino dos indivíduos, mas sim a glória de Deus (2) um segundo propósito é o de revelar o grau de punição que cada um deverá receber. Uma vez que esta atribuição está intimamente relacionada com as vidas que as pessoas viveram, este assunto terá de ser determinado por ocasião do juízo final4. (3) Um terceiro propósito é o de executar o julgamento de Deus sobre cada pessoa. Agora Deus designará o lugar em que cada pessoa passará a eternidade: ou a nova terra, ou o lugar de punição final.

Ao comentar a natureza do juízo final, E A Litton nos lembra que não devemos aplicar a analogia dos tribunais humanos tão literalmente: “Um julgamento humano... é estritamente um processo de investigação... No juízo final, porém, o Juiz é onisciente e não tem necessidade de provas que o convençam; ele preside ao julgamento com um conhecimento perfeito do caráter e da história de cada um que estiver perante ele... o grande dia será mais um dia de publicação e execução do que de julgamento estritamente concebido” 5.

Qual será o tempo do juízo final? Os dispensacionalistas distinguem vários julgamentos separados: o julgamento das obras dos crentes por ocasião da Parousia ou arrebatamento; o julgamento individual dos gentios imediatamente antes do milênio; o julgamento de Israel imediatamente antes do milênio e o julgamento dos ímpios mortos após o milênio6. No capítulo anterior, foram examinados e julgados insuficientes os ensinos dispensacionalistas acerca das ressurreições múltiplas; foi fornecida evidência para a doutrina de que haverá uma ressurreição geral dos mortos por ocasião da volta de Cristo. O ensino bíblico acerca da ressurreição geral implica em que haverá apenas um juízo final, não quatro julgamentos diferentes, pois é dito que o juízo final se seguirá à ressurreição.

Quando acontecerá o juízo final? Embora não possamos situá-lo com precisão numa espécie de cronograma escatológico, podemos dizer que o juízo acontecerá no final da presente era. Pedro nos diz que os céus e terra que existem agora estão sendo guardados até o Dia do Juízo (2 Pedro 3.7), implicando que os novos céus e nova terra virão à existência após o juízo (v.13). Em sua explicação da parábola do joio, Jesus indica que a execução do destino final dos homens, que é um aspecto do juízo final, acontecerá no fim dos homens, que é um aspecto do juízo final, acontecerá no fim dos séculos (Mateus 13.40-43). Mas outra passagem bíblica sugere que o juízo acontecerá por ocasião da Segunda Vinda de Cristo. Jesus disse: “Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros...” (Mt. 25.31,32). No mesmo sentido, encontramos o ensino de Paulo em 2 Tessalonicenses 1.7-10. Além disso, vemos em Apocalipse 20 que o juízo se seguirá à ressurreição geral: “Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então se abriram livros. Ainda outro livro, o livro da vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros” (v.12).

Qual será a duração do juízo final? A Bíblia fala acerca do “dia do Juízo” (Mt 11.22), “aquele dia” (Mt 7.22; 2 Ts 1.10; 2 Tm 1.12) e “o dia da ira” (Rm 2.5). Não precisamos presumir que o Dia do Juízo seja um dia de vinte e quatro horas; a palavra dia, às vezes, é usada pelas Escrituras para indicar um período muito mais longo. Entretanto, sugerir, como o fazem as Testemunhas de Jeová, que o Dia do Juízo deva-se estender ao longo dos primeiros mil anos do novo mundo7 parece totalmente injustificado.

Passamos agora a examinar as circunstâncias do juízo final. A primeira questão é: Quem será o Juíz? Algumas passagens bíblicas atribuem o juízo a Deus Pai. 1 Pedro 1.17 fala de invocarmos com Pai aquele que julga imparcialmente a cada um conforme as suas obras. Romanos 14.10 menciona o tribunal de Deus (comparar também Mt 18.35, 2 Ts 1.5; Hb 11.6; Tg 4.12 e 1 Pe 2.23). O que se encontra mais comumente, e é mais característico do ensino neotestamentário sobre a questão, é que Cristo será o Juiz. Em João 5.22 lemos: “E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo o julgamento...” Em seu discurso aos atenienses encontramos Paulo dizendo: “[Deus] estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (Atos 17.31). Em 2 Timóteo 4.8 Paulo menciona “a coroa da justiça a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia...” E em 2 Coríntios 5.10, Paulo escreve: “Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo...” (comparar também Jo 5.27; Antigo Testamento 10.42; Rm 14.9; Mt 25.32; 2 Tm 4.1).

É realmente mais apropriado que Cristo seja o juiz do juízo final. Foi ele quem se encarnou, morreu e ressuscitou novamente para a salvação do seu povo. Os que nele crêem são por eles salvos; por isso é mais próprio que ele seja seu juiz. Os que o rejeitaram, por outro lado, pecaram contra ele. por isso á apropriado que aquele a quem eles rejeitaram seja seu juiz. Além disso, a obra de julgar será a exaltação final e o triunfo maior de Cristo. Enquanto esteve sobre a terra, ele foi condenado por governadores terrenos: agora ele julgará sobre todas as autoridades terrenas. Agora Cristo levará à consumação sua obra salvadora para seu povo. O juízo significará a subjugação total de todos os seus inimigos e a consumação do seu Reino, após o que ele entregará o Reino a Deus Pai (1 Co 15.24).

No ato de julgar, Cristo será assistido por anjos e santos. Fica evidente que os anjos tomarão parte no juízo final, segundo Mateus 13.41-43: “mandará o Filho do homem os seus anjos que ajuntarão do seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no Reino de seu pai”. (comparar também Mateus 24.31 e 25.31). Mesmo os santos, em seu estado glorificado, tomarão parte na obra de julgar. Quando Paulo repreende aos Coríntios por irem aos tribunais contra seus companheiros cristãos, ele diz: “Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois acaso incompetentes para julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos?” (1 Co 6.2,3). Hermann Bavinck, ao comentar esta passagem, diz que não devemos diminuir esta declaração de modo a significar uma mera aprovação dos santos para o julgamento de Cristo, mas devemos entendê-la como ensinando que os santos, realmente, compartilharão do ato de julgar o mundo e os anjos. Sobre este assunto, ele chama a atenção para Mateus 19.28, que relata as palavras de Jesus a seus discípulo: “Em verdade vos digo que vós os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do homem, se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (comparar Lucas 22.30) 8. Esteja Bavinck correto ou não, em sua interpretação, parece claro que os santos glorificados realmente participarão na obra do dia do juízo.



Quem será julgado? Já está claro, à partir de 1 Coríntios 6.2,3 conforme citado acima, que os anjos serão julgados. Pedro, em sua segunda epístola, fala especificamente do julgamento dos anjos caídos: “... se Deus não poupou a anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno (no grego, Tartarys), os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo...” (2 Pe 2.4). No mesmo sentido, encontramos as palavras de Judas 6: “E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sobre trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande dia...”.

As Escrituras também ensinam que todos os seres humanos de todos os tempos terão de aparecer perante este tribunal final. Conforme Mateus 25.32: “E todas as nações serão reunidas em sua presença [do Filho do homem]”. De acordo com Romanos 2.5,6, “Segundo a tua dureza de coração impenitente acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento...”. Vemos, em Romanos 3.6, que Deus julgará o mundo. E na cena do julgamento, de Apocalipse 20, encontramos todos os mortos, grandes e pequenos, inclusive todos aqueles devolvidos pelo mar, pela morte e pelo Hades, em pé perante o trono do juízo (vv 12,13) 9.

Se todos os homens devem aparecer perante o tribunal de Cristo, isso tem de incluir todos os crentes. O Novo Testamento ensina isso bem explicitamente. De acordo com 2 Coríntios 5.10 nós, significando “nós, os crentes”, temos todos de comparecer perante o tribunal de Cristo. Lemos em Hebreus 10.30: “O Senhor julgará seu povo”. Em Romanos 14.10, Paulo escreve a seus companheiros cristão: “Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus...” (Comparar Tiago 3.1; 1 Pedro 4.17). Embora todos os crentes tenham de comparecer perante este tribunal, eles não precisam temer o dia do juízo. Pois não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1), e aqueles que permanecem em Deus podem ter confiança no dia do juízo (1Jo 4.17). A alegre antecipação que o crente tem do dia do juízo está muito bem expressa na resposta 52 do Catecismo de Heildelberg:

Em toda minha angústia e perseguição eu olho para os céus e, confiantemente, aguardo como juiz Aquele que já suportou o julgamento em meu lugar perante Deus e, dessa forma, removeu de mim toda maldição. Todos os seus e meus inimigos ele condenará à punição eterna: Mas a mim e seus eleitos ele levará consigo para o gozo e gloria dos céus.” 10.



Que é que será julgado? Todas as coisas que foram feitas durante esta vida presente. 2Coríntios 5.10 é bem claro a respeito: “Porque todos nós temos de comparecer perante o tribunal de Cristo para que cada um receba o que lhe é devido pelas coisas feitas enquanto estava no corpo, sejam boas ou más” (NIV). Tudo o que uma pessoa fez é uma expressão da inclinação básica do seu coração e por isso será levado em conta no dia do juízo. Isso inclui as obras, palavras e pensamentos da pessoa. As obras estão claramente incluídas em Mateus 25.35-40: “Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e fostes ver-me... Em verdade, vos afirmo que sempre o que fizestes a um destes pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Em Apocalipse (20.12), está especificamente declarado que “os mortos foram julgados segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros” (comparar 1 Co 3.8; 1 Pe 1.17; Ap 22.12). Nem é necessário dizer que tantas boas obras como as más obras são levadas em conta. Observe, em adição a passagem de Mateus recém-citada, Efésios 6.8, onde se lê: “Certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre”; e também Hebreus 6.10, onde está escrito: “Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos”.

O dia do juízo também se ocupará das palavras que pronunciamos. Jesus nos diz, em Mateus 12.36: “Digo-vos que de toda palavras frívola que proferirem os homens, dela darão conta no dia do juízo”. Até os pensamentos dos homens serão julgados, conforme fica evidente em 1 Coríntios 4.5: “Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios (ou motivos, NIV; no grego, boulas) dos corações” (compare com Romanos 2.16). Em suma, não há nada que agora esteja escondido que não haverá de ser revelado no dia do juízo (comparar Lc 12.2; Mt 6.4, 6, 18; 10.26; 1 Tm 5.24, 25).

Às vezes é dito que os pecados dos crentes, que Deus perdoou, apagou e lançou no mar do esquecimento, não serão mencionados no dia do juízo. Entretanto, se é verdade que nada há que agora esteja oculto que não venha a ser revelado, e que o juízo se ocupará de todas as nossas obras, palavras e pensamento, então certamente os pecados dos crentes também serão revelados naquele dia. De fato, se é verdade que mesmo as melhores obras dos crentes estão manchadas com pecado (veja Is 64.6; Rm 3.23; Tg 3.2), como será possível trazer à luz qualquer feito dos crentes sem reconhecer algum pecado ou imperfeição? Em 1 Coríntios 3.10-15, Paulo ensina que alguns crentes constróem sobre o fundamento da fé em Cristo com materiais inferiores, como madeira, feno e palha - estes serão salvos mas, mesmo assim, sofrerão a perda. As falhas e deficiências destes crentes, portanto, participarão do quadro do dia do juízo. Mas - e este é o ponto importante - os pecados e deficiências dos crentes serão revelados no juízo como pecados perdoados, cuja culpa foi totalmente coberta pelo sangue de Jesus Cristo. Por isso, conforme dissemos, os crentes não tem nada a temer acerca do juízo - embora a percepção de que eles terão de prestar contar de tudo que fizeram, disseram e pensaram, deveria ser para eles um incentivo constante para a luta diligente contra o pecado, para o serviço cristão consciente e para uma vida consagrada.

Qual será o critério pelo qual os homens serão julgados? O critério será a vontade revelada de Deus, mas esta não será a mesma para todos. Alguns receberam uma revelação mais completa da vontade de Deus do que outros; fica claro, em Mateus 11.20-22, que aqueles que tiverem recebido uma revelação da vontade de Deus maior do que os outros terão responsabilidades correspondentemente maiores: “Passou, então, Jesus, a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido. Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidon se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E contudo voz digo: No dia do juízo haverá menos rigor para Tiro e Sidon, do que para vós outros”.

Em outras palavras, aqueles que receberam a revelação completa da vontade de Deus, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, serão julgados por sua reação a toda a Bíblia. Aqueles que tiveram apenas a revelação do Antigo Testamento serão julgados por sua reação ao Antigo Testamento. Em apoio a isso, podemos lembrar que os profetas do Antigo Testamento advertiram repetidamente a seus ouvintes para que vivessem de acordo com o que Deus lhes tinha revelado, e, dessa forma, encontrassem paz, felicidade e salvação. É mais reveladora nesse assunto a parábola do homem rico e Lázaro que Jesus contou em Lucas 16. Quando o homem rico pergunta à Abraão se Lázaro poderia ser ressuscitado dos mortos para advertir aos irmãos dele, que ainda viviam sobre a terra, acerca do lugar de tormentos, Abraão responde: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”. (v.31).

Aqueles, porém, que não receberam nem a revelação encontrada no Antigo Testamento, nem a encontrada no Novo, serão julgados à base da luz que tiveram. Vemos em Romanos 1.18-21 que, mesmo aqueles que tinham apenas a revelação de Deus na natureza, não têm desculpa pelo fato de não honrarem a Deus como Deus: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça: porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhece, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indescupáveis...” E observamos, em Romanos 2, que o julgamento de Deus sobre aqueles que não tiveram a revelação completa de sua vontade será baseado na reação deles à “norma da lei gravada nos seus corações”. Assim, pois, todos os que pecaram sem lei, também sem lei perecerão; e todos os que com lei pecaram, mediante a lei serão julgados... Quando, pois, os gentios que não têm lei, procedem por natureza de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada nos seus corações, testemunhando-lhes também a consciência, e os seus pensamentos mutuamente acusando-se ou defendendo-se; no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu Evangelho” (vv.12, 14-16).

O que está bem claro, portanto, é que os homens serão julgados com base na luz que tiveram, e não com base numa revelação que eles não receberam. Aqueles que tiveram muitos privilégios terão a maior responsabilidade; aqueles que tiveram menos privilégios terão menos responsabilidades. Por essa razão haverá “graduações” nos sofrimentos dos perdidos. Jesus indica isso em Lucas 12.47,48: “Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu Senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu Senhor e fez coisas dignas de reprovação, levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão”.

No que diz respeito àqueles que efetivamente receberam a plena luz da revelação divina - isto é, que conheceram a vontade de Deus conforme revelada em toda a Bíblia - o que é de importância crucial é se eles estão unidos com Cristo na fé, e estão vestidos com sua perfeita justiça. O fator de suma importância, para determinar o destino eterno do homem, é sua relação com Jesus Cristo. Citamos acima João 3.1811; no mesmo sentido vem João 3.36: “Por isso quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”. Jesus também disse, em João 5.24: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” 12. Paulo afirma, inequivocamente, em Romanos 8.1: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.

Mas agora surge a questão: Se é verdade que uma fé viva em Cristo é de importância crucial para determinar o destino eterno da pessoa, por que é que a Bíblia ensina tão consistentemente que o juízo final será segundo as obras? Considere, por exemplo, as seguintes passagens:

“Pois o Filho do homem virá na glória de seu pai com seus anjos; e então ele retribuirá a cada homem segundo os seus feitos (Mateus 16.27, ASV).

Pois ele [Deus] retribuirá a cada homem segundo as suas obras (Romanos 2.6).

Eu vi os mortos, os grande e os pequenos, postos em pé perante o trono... e os mortos foram julgados segundo as coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras (Apocalipse 20.12, ASV).

Eis que venho rapidamente; e meu galardão está comigo; para retribuir a cada homem conforme é a sua obra” (Apocalipse 22.12, ASV).
A razão pela qual a Bíblia ensina que o juízo final será segundo as obras, mesmo que a salvação venha pela fé em Cristo e nunca seja conquistada por obras, é a conexão íntima entre fé e obras. A fé tem de revelar a si própria nas obras, por sua vez, são a evidência da verdadeira fé. Como disse João Calvino certa vez: “É... só a fé que justifica, e mesmo assim a fé que justifica não está só” 13. Que isso é assim ficará claro pela consideração de passagens das Escrituras tais como Tiago 2.26 (“Porque, assim como o corpo sem Espírito é morto, assim também é fé sem obras é morta”) e Gálatas 5.6: “Porque em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem valor algum, mas a fé que atua pelo amor”).

Observe também as palavras de Jesus em Mateus 7.21: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”. Em outras palavras, o julgamento conforme as obras realmente será um julgamento acerca da fé - isto é, a fé como revelada em obras. Se a fé foi genuína, as obras estarão presentes; se as obras não estiverem presentes, a fé não terá sido real. Tiago o diz de modo notável: “Mas alguém dirá: Tu tens fé e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé” (2.18) 14.

A propósito, passemos a examinar mais de perto a cena do juízo encontrada em Mateus 25.31-46. O Filho do homem retornou em sua glória, e está sentado no seu trono do juízo. todas as nações estão congregadas perante ele e agora o rei passa a separar as “ovelhas” que estão à sua direita dos “cabritos” que estão à sua esquerda. Observe como a decisão acerca do destino final, tanto das ovelhas como dos cabritos, é dada em primeiro lugar. No caso das “ovelhas”, a decisão é esta: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo...”(v.34). Em outras palavras, este julgamento não é uma investigação das vidas das “ovelhas”, para determinar se estas fizeram boas obras o bastante para merecer o Reino que lhe foi preparado, mas é antes uma decisão graciosa acerca de seu destino final, seguida por um revelação pública das razões pelas quais esta decisão é correta e apropriada. Se, agora, voltarmos para observar o verso 34 mais de perto, verificaremos que qualquer idéia de mérito está excluída. As “ovelhas” são chamadas de “benditos de meu Pai” - objeto do favor imerecido do Pai. É dito que elas herdarão o Reino - uma herança, porém, nunca é conquistada mas sempre recebida como um presente. O Reino que elas estão para herdar é descrito como tendo sido preparado para elas desde a fundação do mundo - novamente vemos a evidência da sua escolha graciosa que o Pai fez desde a eternidade, uma escolha não baseada em mérito, mas sim na graça.

Agora, o rei prossegue em revelar as razões pelas quais a decisão acerca destas “ovelhas” era certa e apropriada: “porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber” e assim por diante. Fica evidente, a partir de sua surpresa, que as “ovelhas” não praticam estas boas obras para merecer o Reino: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? “ (v.37). sua surpresa revela que eles não estavam fazendo estas obras para merecer a vida eterna, mas antes como um modo espontâneo de expressar sua devoção genuína à Cristo, mostrando amor aos irmãos de Cristo. Suas obras foram evidências de sua fé. Os “cabritos”, por outro lado, não revelaram amor por Cristo pelo fato de não demonstrarem amor aos irmãos de Cristo; dessa forma, mostraram que eles próprios não eram verdadeiros crentes. Em outras palavras, a cena do julgamento de Mateus 25 ilustra, vividamente, a natureza do juízo final.

Isso nos leva à questão do galardão. Sem dúvida a salvação é dada totalmente pela graça; mesmo assim a Bíblia indica que haverá diferenças no galardão a ser recebido pelo povo de Deus no dia do juízo. Sobre esse assunto, duas passagens neotestamentárias são especialmente importantes: Lucas 19.12-19 e 1 Coríntios 3.10-15.

Lucas 19.12-27 registra a parábola das dez minas. Um homem nobre foi a um país distante para receber um Reino e então retornar. Este homem nobre deu uma mina15 a cada um dos seus dez servos, pedindo a cada um que negociasse com sua mina para obter algum lucro. Quando o homem nobre retornou16, o primeiro servo lhe disse: “Senhor, a tua mina rendeu dez” (v.16). E o homem nobre lhe respondeu: “muito bem, servo bom, porque foste fiel no pouco terás autoridade sobre dez cidades” (v.17). O segundo servo disse ao senhor que sua mina tinha rendido cinco outras. A este servo o senhor respondeu: “Terás autoridade sobre cinco cidades” (v.19). O que é importante é que a variação na recompensa concedida é proporcional à variação no número de minas que os servos angariaram com a sua mina original. Sem dúvida, o ponto principal da parábola é que todos nós devemos ser fiéis em aplicar os dons que o Senhor nos tem dado. Mas parece que o detalhes adicional das cinco cidades e das dez cidades tem, pelo menos, alguma significância. É também interessante observar que, neste caso, a recompensa parece mais ser uma questão de responsabilidade aumentada, do que simplesmente um gozo maior.

A outra passagem importante, que trata da questão do galardão, é 1 Coríntios 3.10-15. Embora a referência primordial da passagem seja aos ensinos (os ensinos de homens como Paulo e Apolo, ambos os quais serviram na Igreja de Corinto), aplicá-la às obras, bem como aos ensinos, é apenas uma extensão mais ampla do sentido da passagem. Conforme o verso 11, o fundamento único sobre o qual todos têm de construir é Jesus Cristo . mas muito depende de como a pessoa constrói sobre aquele fundamento. Ela pode construir com ouro, prata e pedras preciosas - ou ela pode construir com madeira, feno e palha (v.13). Então a passagem fala acerca de um fogo que testará o tipo de obra que cada um tem realizado - uma referência óbvia ao Dia do Juízo: “Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo” (vs. 14, 15).

Ambos os tipos de edificadores são salvos pela graça, pois ambos construíram sobre o fundamento único que é Jesus Cristo. Mas o construtor, cuja edificação sobre o fundamento passar no teste do fogo e sobreviver, receberá um galardão. O homem cuja obra não passe no teste do fogo, porém, sofrerá perda. Que quer dizer a perda? Não pode significar a perda da salvação - veja o verso 15. A perda que este homem sofre tem de ser uma perda de galardão. Este homem é salvo como “alguém que escapou por entre as chamas” (NIV), assim como um homem escapa de um prédio em fogo, tendo perdido todas as suas posses com exceção das roupas do corpo. Parece óbvio que esta passagem fala sobre um galardão que alguns crentes recebem e outros não. Esse galardão será diretamente proporcional ao tipo de material com o qual a pessoa construiu sobre o fundamento da fé em Cristo - em outras palavras, à qualidade de sua vida cristã.

Está claro que haverá tais galardões para os crentes. Jesus freqüentemente menciona os galardões (veja Mateus 5.11, 12; 6.19-21; Lucas 6.35; Marcos 9.41; Mateus 25.23). Entretanto, Jesus deixa indubitavelmente claro que tais galardões são imerecidos, sendo dons da graça de Deus. Observe especialmente suas palavras em Lucas 17.10: “Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer”. O Catecismo de Heidelberg expressa a mesma idéia na Resposta 63: “Este galardão não é conquistado: é um presente da graça” 17.

Entretanto, a relação entre nossas obras e nosso futuro galardão não deve ser entendida de modo mecânico, mas antes de modo orgânico. Quando alguém estudou música e obteve alguma destreza em tocar algum instrumento musical, a sua capacidade para desfrutar da música foi grandemente aumentada. De modo similar, nossa devoção a Cristo e ao serviço do seu Reino aumentam nossa capacidade de desfrutar as bênçãos daquele Reino, tanto agora como na vida por vir. Leon Morris habilmente diz: “Aqui e o homem que de todo coração se entrega ao serviço de Cristo conhece mais da alegria do Senhor do que o que tem o coração dividido. Não temos garantia alguma do Novo Testamento para pensar que isso será diferente no céu”18.

Finalmente, qual é a significação do Dia do Juízo? Podemos fazer quatro observações: (1) A história do mundo não é uma sucessão infinita de ciclos sem sentido, mas é um movimento em direção a um alvo; (2) O Dia do Juízo revelará finalmente que a salvação e a felicidade eterna dependerão da relação da pessoa com Jesus Cristo; (3) A inevitabilidade do Dia do Juízo enfatiza a responsabilidade do homem por sua vida, e afirma a seriedade da luta moral na vida de cada pessoa, especialmente na vida do cristão; (4) O Dia do Juízo significa o triunfo final de Deus e de sua obra redentora na história - ou, seja, a conquista final e decisiva sobre todo mal e a revelação final da vitória do Cordeiro que foi morto. O Dia do Juízo revelará que, sem sombra de dúvida, a vontade de Deus, ao final, será executada perfeitamente.

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