Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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Notas do Capítulo 20
1. ver acima, pp. 132-138.

2. Ver acima, pp. 269-274.

3. Walvoord, Kingdom p. 81.

4. Ibid., p. 298.

5. As razões para estas interpretação foram fornecidas acima, nas pp. 269-282.

6. Charles C.Ryrie, Dispensationalism Today (Dispensacionalismo Hoje), p. 158.

7. Devo o desenvolvimento deste ensino à obra de Patrick Fairbairn, Typoloty of Scriptyre (Tipologia das Escrituras), New York: Funk and Wagnall, 1900; pub. Orig em 1845-47, I, pp. 329-361.



8. Ibid., II, pp.3-4.

9. H.Sasse, “ge” TDNT, I, p. 678.



10. Return, p.220, número 18.

11. Ver também II Pedro 3.10. Para outras passagens de importância semelhante ver Ibid., pp.215, 216.

12. J.Behm, “Kainos”, TDNT, III, pp. 447-449. Para uma discussão mais recente e mais completa, ver William Barclay, “The One, New Man”(O Único e Novo Homem), in Unity and Diversity in New Testament Theology (Unidade e Diversidade na Teologia do Novo Testamento), ad.por Robert A Guilich, Grand Rapids, Eerdmans, 1978, pp. 73-81.

13. Ver acima.

14. A posição de que a nova terra será a terra atual renovada é claramente afirmada por um famoso credo da Reforma, a Confissão Belga, Art 37, par. 1; Cristo voltará “queimando este velho mundo com chamas e fogo para purificá-lo”.

15. Extraído de “Christus und seine Zukunft” (Cristo e Seu Futuro), in Zwischen den Zeiten (Entre os Tempos), 1931, p. 209. Trasncr. Por J.A Schep in The Nature of the Ressurrection Body (A Natureza do Corpo Ressurrecto), pp. 218,219.



16. Eternal Hope (Esperança Eterna), trad. Por Harold Knight, London: Lutterworth, 1954, p. 204.

17. Return, p. 232.

18. Alguém poderia perguntar sobre quem estes santos glorificados reinarão, pois todos os seres humanos da nova terra participarão neste reinado. Talvez a melhor resposta a esta questão seja que esse será um reinado sobre a nova criação. Agora o homem será capaz de cumprir perfeitamente o mandado de dominar sobre a terra, que na terra presente só podia ser cumprido de modo imperfeito. Em outras palavras, na vida por vir, pela primeira vez desde a queda, o homem realmente governará sobre a terra.

19. Ver acima.

20. Meaning, pp. 191, 192. Ver também pp.181-191.

21. De Gemeene Gratie, Amsterdam: Hoveker & Wormser, 1902, I, pp. 482, 483, citado em Berkhof, Meaning, p. 191. Para um maior desenvolvimento dessas idéias, ver pp. 454-494 da obra de Kuyper.

22. A palavra grega latreuo, utilizada aqui, significa “servir através do cumprimento de obrigações religiosas”, (F.W.Gingrich, Shorter Lexicon of the Greek New Testament - Pequeno Léxico do Novo Testamento Grego - Chicago: Universalismo. of Chicago Press, 1965, p.125.

23. Ver acima, pp.49-54, observando especialmente a citação de Hendrikus Berkhof na p. 50.
APÊNDICE
ÚLTIMAS TENDÊNCIAS NA Escatologia
Que dirão as pessoas dentro de cem anos acerca das principais tendências teológicas do século vinte? Uma coisa de que podemos estar certos que eles dirão é que este século testemunhou um notável aumento de interesse pela Escatologia.

Este aumento representa uma mudança importante em relação às ênfases encontradas na teologia liberal predominante na Europa do século dezenove. Vejamos, por exemplo, as posições teológicas de Albrecht Ritschl (1822-1889), um dos teólogos mais influentes do século dezenove. Ritchl ensinava que o conceito do Reino de Deus era o mais importante para o Cristianismo. Ele descrevia o Cristianismo como uma elipse determinada por dois pontos focais: a Redenção efetuada por Cristo e o Reino de Deus. Este último, disse ele, pode ser definido como “a organização moral da humanidade pela ação inspirada pelo amor” 1. “Redenção é função do redentor; atividade dirigida para o estabelecimento do Reino de Deus é a função do redimido” 2.

Isto implica que Ritschl concebe o Reino de Deus não primariamente como um dom divino, mas sim como uma tarefa humana3. Uma vez que Ritschl vê a religião cristã como consistindo essencialmente de moralidade, o Reino representa aqueles valores e alvos éticos que são ensinados pelo Novo Testamento e exemplificados por Jesus Cristo - valores e alvos que o redimido deve continuar a tentar alcançar. Para Ritschl o Reino de Deus é, portanto, essencialmente deste mundo; significa fazer a vontade de Deus aqui e agora. Jesus veio para fundar o Reino de Deus no sentido descrito acima; como fundador do Reino ele é também nossos grande exemplo.

Veremos que na compreensão que Rischl tem do Reino de Deus a Escatologia (a doutrina das últimas coisas) virtualmente não desempenha papel algum. Para ele, o Reino de Deus trata de nossa obediência a Deus no aqui e no agora; não é um dom de Deus, mas uma tarefa humana. Como fundador desse Reino, Jesus Cristo é nosso grande exemplo e mestre moral. Ernst Troeltsch, que viveu algum tempo após Ritschl, resumiu habilmente a teologia dos dias de Ritschl ao citar um contemporâneo do Ritschl que dizia: “Em nossos dias, a gaveta escatológica geralmente permanece fechada” 4.

As posições de Adolf von Harnack (1851-1930), conforme expressas em seu famoso livro What is Christianity? (Que é Cristianismo?), são típicas desta compreensão ritschliana de Jesus e do Reino. Segundo Harnack, a mensagem de Jesus acerca do Reino de Deus abarcava dois polos: “em um polo, a vinda do Reino parece ser um evento puramente futuro, e o Reino propriamente dito parece ser o governo externo de Deus; no outro, ele aparece como algo interior, algo que já está presente e atualmente abrindo seu caminho” 5. Ele continua dizendo que embora Jesus tenha assumido, das tradições religiosas de sua nação, essa visão do Reino tanto como futuro quanto presente, temos de distinguir entre o que é casca e o que é cerne na mensagem de Jesus acerca do Reino. O fato de o Reino significar uma esperança dramática no futuro, no qual todos os inimigos de Deus serão subjugados, era uma idéia que Jesus compartilhava com seus contemporâneos (a “casca”). Mas o fato de o Reino já estar aqui era a idéia particular de Jesus, e era o coração de sua mensagem (o “cerne”) 6. Para entendermos realmente a mensagem de Jesus, prossegue Harnack, temos de estudar suas parábolas. Ao fazê-lo, é isto que encontramos: “O Reino de Deus vem por vir ao indivíduo, por entrar em sua alma e dominá-la. É verdade que o Reino de Deus é o governo de Deus; mas é o governo de Deus nos corações dos indivíduos; é o próprio Deus em seu poder. Deste ponto de vista, tudo que era dramático, no sentido histórico e externo, foi subjugado, e também terminaram todas as esperanças externas pelo futuro” 7.

De um modo tipicamente ritschliano, Harnack continua dizendo que Jesus combinou religião e moralidade de tal forma que a religião pode ser chamada de alma da moralidade, e a moralidade de corpo da religião8. O Evangelho inteiro, afirma ele, está expresso em conceitos tais como a paternidade de Deus e o valor infinito da alma humana9. Harnack discute a ética do amor cristão coo sendo outro aspecto do Evangelho, resumindo suas posições como se segue:

“...Na espera do pensamento que é indicada pela “justiça superior” e “o novo mandamento do amor”, o ensino de Jesus também está totalmente contido. Na verdade, as três esferas que distinguimos - o Reino de Deus, Deus como pai e o infinito valor da alma humana, e a justiça superior demonstrando a si mesma em amor - estão mescladas; pois, em última instância, o Reino não é nada além do tesouro que a alma possui no Deus eterno e misericordioso. Tomando os dito de Jesus como base, somente um pouco de esforço é necessário para desenvolver este pensamento em tudo o que a cristandade conhece e se empenha por manter com esperança, fé e amor” 10.

Assim como Ritschl, portanto, Harnack rejeitou os aspectos escatológicos do Reino de Deus (Escatologia no sentido futuro) e viu Jesus primordialmente como um mestre da moralidade.

Opondo-se à compreensão de Jesus e o Reino de Deus representada por Rischl e Harnack, surgiu uma vigorosa reação durante a última década do século dezenove. O primeiro protesto veio de Johannes Weiss (1863-1914), genro de Albrecht Ritschl, em sua obra Jesus’s Proclamation of the Kingdom of God (A Proclamação de Jesus a Respeito do Reino de Deus), cuja primeira edição foi publicada em 1892. Weiss disse que os ensinos de Ritschl, acerca do Reino de Deus, não estavam baseados num exame cuidadoso das palavras do próprio Jesus, mas sim no pensamento evolucionista e não-escatológico corrente do séculos dezenove. De fato, assim prossegue Weiss, a compreensão que o próprio Jesus tinha do Reino era exatamente o oposto da concepção de Ritschl.

Jesus não era somente um grande mestre ético, disse Weiss. Antes, Jesus estava convicto de que ele estava na encruzilhada decisiva dos tempos, e que ele era o proclamador de uma salvação escatologicamente orientada. Ele esperava o Reino como uma realidade futura. O Reino não viria como resultado de um processo evolutivo gradual, mas viria como uma total irrupção na história, totalmente diferente do que tivesse havido antes. Quando vier, o Reino de Deus será “a irrupção de uma estrondosa tempestade divina que irromperá na história para destruir e renovar” 11. Portanto, o Reino de Deus não é tarefa do homem, nem pode ser desenvolvido pela obra do homem; é inteiramente obra de Deus.

Quando Jesus eventualmente parecia dar a impressão de que o Reino já tinha chegado, Weiss continua dizendo, ele estava falando de modo antecipatório. Weiss interpreta as passagens que parecem falar de um Reino presente como indicando para o futuro. Entretanto, Jesus realmente pensou que o Reino estava vindo muito em breve. No princípio, ele nem mesmo pensou acerca da possibilidade de ter de morrer para instaurar o Reino. Sob pressão de circunstâncias desapontadoras, porém, Jesus veio a perceber que teria de morrer por seu povo para inaugurar o Reino. Mesmo assim, ele pensava que aquela geração que então vivia experimentaria a vinda do Reino. Uma grande nova era estava para irromper sobre o mundo!

Weiss resume a importância de Jesus nas seguintes palavras:

“A grandeza e Jesus era... que ele viveu, lutou e sofreu pela convicção de que a soberania de Deus estava para se manifestar e para alcançar a vitória para sempre. Aquilo que no judaísmo posterior era uma busca e uma esperança para o futuro distante, para Jesus era uma certeza imediata: Deus é realmente o único Senhor e Rei deste mundo. Chegou agora a hora em que ele demonstrará isso e destruirá todos os seus inimigos. Jesus é o mensageiro desta nova época; suas palavras não são instrução, mas sim Evangelho; sua obra é uma batalha pelas coisas de Deus, e seu ponto de partida é a afirmação da vitória de Deus. Ele deixou para a comunidade de seus seguidores não um ensino acerca do Reino de Deus, mas a certeza de que Satanás caiu e que o mundo [estava] nas mãos de Deus” 12.
Para Weiss, portanto, em distinção a Rischl e Harnack, o elemento escatológico não era a casca mas o cerne do ensino de Jesus. Ele prestou ao mundo teológico um grande serviço ao reconhecer a centralidade da Escatologia futura no ensino de Jesus. Mesmo assim, de modo geral, ele foi longe demais ao sustentar que, para Jesus, o Reino de Deus era exclusivamente futuro, e não presente de forma alguma.

As posições de Weiss acerca de Jesus e do Reino foram endossadas e expandidas por Ablert Schweitzer (1875-1966). Este último argumentou que, embora estivesse Weiss basicamente correto em sua compreensão da missão de Jesus, não foi longe o bastante. Enquanto Weiss tinha enfatizado os elementos escatológicos na pregação de Jesus, Schweitzer afirmava que os conceitos escatológicos não só dominavam a pregação de Jesus, mas toda a sua vida13. Por isso é que a interpretação que Schweitzer faz de Jesus e do Reino veio a ser conhecida como Escatologia consistente ou realizada.

Schweitzer apresentou suas posições primeiramente no seu livro que marcou época: Quest of the Historical Jesus (A Questão do Jesus Histórico) 14. Esta busca, disse Schweitrzer, certamente não obteria êxito se víssemos Jesus apenas através da lente do idealismo do século dezenove, não levando em conta os aspectos escatológicos de sua vida e de seu ensino. Assim como Weiss, Schweitzer ensinava que Jesus concebia o Reino não como uma realidade presente, mas sim futura. Para Jesus, o Reino era presente apenas assim como se pode dizer que está presente uma nuvem cuja sombra á lançada sobre a terra15; na verdade, o Reino era futuro, mas bem próximo - “logo atrás da esquina”. Jesus assumiu esta concepção do futuro do Reino com base na literatura apocalíptica judaica16.

Confiante de que ele era o Messias e de que o Reino futuro viria muito em breve, Jesus enviou seus discípulos para as “ovelhas perdidas da casa de Israel”, de acordo com Mateus 10, para dar às pessoas uma última chance de se arrependerem antes que o Reino de Deus realmente chegasse. Baseado em Mateus 10.23 (“Em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do homem”), Schweitzer concluiu que Jesus esperava que a Parousia e a vinda do Reino ocorressem antes que os discípulos tivessem terminado sua jornada de pregação17.

Entretanto, quando os discípulos voltaram a ele, a Parousia do Filho do homem ainda não tinha acontecido, e o Reino ainda não tinha vindo. Por essa razão, Jesus convenceu-se de que estivera enganado. Este incidente, de fato, tornou-se um ponto marcantemente decisivo no ministério de Jesus. Esta foi a primeira ocasião do assim chamado “atraso” ou adiamento da Parousia. Nesse momento, assim diz Schweitzer, iniciou-se “o abandono da Escatologia” que marcaria a história posterior do Cristianismo: “Deve ser observado que o não-cumprimento de Mateus 10.23 é o primeiro adiamento da Parousia. Por essa razão, temos aqui a primeira data importante na ‘história do Cristianismo’, isso dá uma nova direção à obra de Jesus, que de outra forma seria inexplicável” 18.

Não somente a predição da Parousia, mas também a predição dos sofrimentos descritos em Mateus 10 permanecem não-cumpridas. Esses sofrimentos, assim ensinava Scheitzer, eram a aflição messiânica que na expectação apocalíptica judaica deveria preceder ou acompanhar a vinda do Reino19. Agora Jesus convenceu-se de que ele precisaria sofrer essas tribulações messiânicas sozinho. Por causa disso, se determinou a forçar a vinda dessa aflição messiânica subindo a Jerusalém para sofrer e morrer. Dessa maneira assim pensava Jesus, ele seria capaz de trazer o Reino futuro à existência20.

Qual foi o resultado da tentativa de Jesus? Total desilusão. O clamor de Jesus na cruz, “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Mt 27.46), era um clamor de desespero, uma admissão final de que ele estivera enganado em sua última esperança. Embora ele estivesse entregando sua vida para introduzir o Reino - que infelicidade! - o Reino não veio. Schweitzer descreve a tragédia da morte de Jesus com palavras inesquecíveis:

“...Sabendo que Ele é o Filho do Homem vindouro, [Jesus], assume a direção do mundo para colocá-lo a mover aquela última revolução que deve trazer toda a história ordinária a um fim. O mundo se recusa a mudar, e Ele a Si mesmo se lança sobre o mundo. Então o mundo realmente muda e O esmaga. Em vez de inaugurar as condições escatológicas Ele as destruiu. O mundo se move e o corpo destroçado do único imensuravelmente grande Homem, que era forte o bastante para considerar-se o governador espiritual da humanidade e para prender a história a Seu propósito ainda está nele dependurado. Esta é Sua vitória e Seu Reino” 21.


A grande contribuição de Schweitzer, juntamente com Weiss, foi que ele aplicou um golpe mortal à velha imagem de Jesus como aquele que era meramente um exemplo moral e um mestre da ética. Schweitzer mostrara que “toda a obra e ensino de Jesus eram dominados por uma expectação escatológica fixa, uma expectação que deve ser interpretada nos termos do que encontramos na literatura apocalíptica judaica” 22. Entretanto, segundo o próprio Schweitzer, Jesus tornou-se uma figura trágica - um homem que provocou sua própria morte para trazer à existência aquilo que Deus, na verdade, não tinha intenção alguma de o fazer. Tudo o que nos restou é destilar certas ênfases éticas dos ensinos de Jesus.

Por essa razão, o comentário de Holmstrom sobre Schweitzer é muito importante: “A Escatologia conseqüente de Schweitzer impõe uma cristologia liberal conseqüente; seu aparente destaque da Escatologia, na verdade, se torna um extermínio da Escatologia; sua ética permanece como um moralismo que é até mais distante do verdadeiro Cristianismo do que o eticismo de Ritschl” 23.

Deveríamos acrescentar uma palavra sobre a interpretação que Schweitzer faz de Paulo. Schweitzer ensinava que Paulo compartilhou com Jesus da expectação de uma vinda rápida do Reino24. Esta expectação, porém, mostrou-se uma ilusão. A importância permanente de Paulo está em sua convicção de que, através da morte e ressurreição de Cristo, o eschaton irrompeu na era presente. Agora a Igreja se tornou tão envolvida na morte e na ressurreição de Cristo que se pode dizer que ela está em Cristo e com Cristo. Dessa forma, já na vida presente, os crentes compartilham com Cristo. Esse estar-em-Cristo vem à existência pelo batismo, e é mediado pelo Espírito Santo.

Será visto que Schweitzer, em sua interpretação de Paulo, ao passo que mantém a compreensão escatológica do Reino que ele apresentara em seu livro anterior, passou a defender uma posição da irrupção do eschaton no presente que antecipa a “Escatologia realizada”, de Charles Harold Dodd constituem uma reação vigorosa contra a “Escatologia conseqüente” de Schweitzer.

A posição básica de Dodd, sobre Jesus e o Reino, poderia ser resumida como se segue: “Ele [Dodd] argumentava que para Jesus o Reino era presente, que Jesus ensinava a realidade do Reino como realizada em seu próprio ministério, [e que] a Escatologia de Jesus é uma ‘Escatologia realizada’” 27.

Dodd argumenta que o Reino de Deus predito pelos profetas do Antigo Testamento chegou com o ministério de Jesus. “O eschaton moveu-se do futuro para o presente, da esfera da expectação para a da experiência realizada” 28. Ele alega que o significado dos dois verbos utilizados nos Evangelhos Sinóticos, para descrever a vinda do Reino, é idêntico, de modo que ambos os tipos de expressão deveriam ser traduzidos por “o Reino de Deus chegou” 29. Portanto, o ministério de Jesus tem de ser entendidos como um ministério de “Escatologia realizada” ou seja, em verdadeiro processo agora, quando o impacto dos ‘poderes do mundo por vir’ se faz sobre este mundo numa série de eventos sem precedentes e sem repetição” 30.

Num livro posterior, Dodd argumenta que, para os escritores do Novo Testamento, o “dia do Senhor” predito no Antigo Testamento irrompeu, e que a era por vir começou” 31. Após citar várias passagens do Novo Testamento, ele diz: “Fica certamente claro nestas e em muitas passagens semelhantes, que, para os escritores neotestamentários em geral, o eschaton ingressou na história; o governo oculto de Deus foi revelado; a Era do Vir veio. O Evangelho do Cristianismo primitivo é um Evangelho de Escatologia realizada” 32.

Embora Dodd, conforme observamos, realmente vê a “Escatologia realizada” retratada nos Evangelhos Sinóticos, ele afirma que é nas Epístolas de Paulo que, pela primeira vez, se faz inteiramente jus ao princípio da Escatologia realizada: “A ordem de vida sobrenatural, que os escritores apocalípticos tinham predito em tempos de pura fantasia, é agora descrita como um verdadeiro fato da experiência... De modo magistral Paulo reivindica todo o território da vida da igreja como o campo do milagre escatológico” 33.

Dodd encontra a Escatologia realizada apresentada muito claramente no Evangelho de João: “Os evangelistas [João], portanto, está subordinando deliberadamente o elemento ‘futurista’ da Escatologia da Igreja primitiva à ‘Escatologia realizada’ que, conforme tentei demonstrar, era desde o princípio o fator distintivo e controlador do kerygma. Seu tema é a vida eterna, que quer dizer em linguagem escatológica a vida da Era por Vir, porém vida eterna como realizada aqui e agora pela presença de Cristo através de Seu Espírito na Igreja” 34.

Enquanto que para Weiss e Scheweitzer, o Reino de Deus que Jesus proclamava não era presente, mas futuro (embora no futuro imediato), para Dodd esse Reino chegou e está presente no ministério de Jesus. Mas, temos de perguntar, o que faz Dodd com as várias referências à ecologia futura encontradas no Novo Testamento - referências a eventos futuros tais como a Segunda Vinda de Cristo, o Dia do Juízo, a nova terra, etc? Vejamos, primeiramente, a interpretação de Dodd para a parábola dos talentos (Mt 25.14-30) e da parábola das minas (Lc 19.12-27). Estas parábolas certamente parecem indicar, claramente, um retorno futuro de Cristo, no qual haverá um ajuste final de contas. Como Dodd trata essas passagens? Essas parábolas, afirma Dodd, eram originalmente dirigidas contra os fariseus. O “servo maus e negligente” de ambas as parábolas, que esconde seu talento ou mina no solo ou num lenço, representa o judeu farisaico que busca segurança na observância meticulosa da lei, mas que por seu exclusivismo egoísta não deixa oportunidade para a salvação de publicanos e pecadores. Aplicando a cânones da crítica da forma, Dodd alega que a forma original da parábola não continha referência à Segunda Vinda de Cristo nem às trevas exteriores nas quais o servo negligente foi lançado. Como, então, estes elementos da Escatologia futura conseguiram ingressar nessas parábolas? Dodd diz que eles foram adicionados posteriormente pela Igreja, como forma de esclarecimento para o fato de que o retorno breve de Cristo, que tinha sido esperado, ainda não tinha acontecido35.

Dodd utiliza o mesmo tipo de raciocínio para a parábola das dez virgens (Mt 25.1-12). Originalmente, esta parábola pretendia ensinar sobre a prontidão para certos acontecimentos que deveriam acontecer no ministério terreno de Jesus. Mais tarde, porém, depois de a crise no ministério de Jesus - à qual a parábola primeiramente apontava - ter passado, a Igreja modificou a parábola, acrescentando uma ambientação escatológica a fim de preparar os homens para a crise final do mundo, que então se cria estar próxima36.

Dodd destaca que a fonte da “Escatologia futura” encontrada no Novo Testamento era a literatura apocalíptica judaica. No princípio, os crentes esperavam que o Senhor voltasse imediatamente. Quando isto não aconteceu, explica Dodd, “a Igreja... passou a reconstruir, em um plano modificado, o esquema tradicional da Escatologia judaica que tinha sido destroçado pela declaração de que o Reino de Deus já tinha vindo. Os materiais para tal reconstrução estavam presentes em profusão na literatura apocalíptica. Portanto, a Escatologia reconstruída da Igreja derivou-se fortemente de fontes judaicas” 37.

Dodd considera este material derivado dos escritos apocalípticos judaicos bastante inferior ao que ele considera ser a mensagem principal do Cristianismo primitivo, que é a Escatologia realizada. Ele expressa essa concepção em seus comentários acerca de 2 Ts. 1.7-10 e 2.3-10, e acerca do assim chamado “pequeno apocalipse” de Mc 13 e acerca do livro do Apocalipse38.

Se perguntarmos se Dodd deixa qualquer lugar, em seu pensamento, para o que foi anteriormente denominado “Escatologia futura” (ensinos acerca de eventos escatológicos que ainda devem acontecer), não receberemos uma resposta clara e unívoca. Por um lado, numa declaração preparada para a segunda assembléia do Concílio Mundial de Igreja (realizada em Evanston, Illinois, em 1954), ele disse: “Nele [Cristo] já possuímos pela fé a realidade do Reino de Deus. Mesmo assim, nós a possuímos em termos que implica que há mais por vir, uma vez que sobre a terra nada é nem final, nem completo. A vida cristã sempre está sob tensão entre realização e expectação”39.

Entretanto, ao tentarmos entender mais completamente a posição de Dodd sobre este assunto, fica claro que ele realmente não crê numa Segunda Vinda de Cristo no sentido literal. Ele afirma que uma vez que o Senhor não voltou, de fato, sobre as nuvens do céu durante os anos trinta do primeiro século, esperar que ele volte dessa forma no século vinte é ir contrariamente ao “Cristianismo primitivo” - que é o modo de Dodd definir “Cristianismo verdadeiro” 40. De fato, ele considera a doutrina da Segunda Vinda como um mito: “O mito menos inadequado do alvo da história é aquele que se molda sobre o grande evento divino do passado, conhecido em sua realidade concreta, e representa sua conclusão final de forma que leve o tempo a um fim e situe o homem na eternidade - a Segunda Vinda do Senhor, o Último Juízo” 41.

Mais luz é lançada sobre a compreensão de Dodd acerca do que geralmente é denominado Escatologia futura através de seu comentário sobre Marcos 14.25: “Em verdade vos digo que jamais beberei do fruto da videira, até àquele dia em que o hei de beber, novo no Reino de Deus”: “Devemos nós pensar a respeito do Reino de Deus como algo ainda por vir? Se é assim, não deve vir neste mundo, pois o ‘vinho novo’ pertence aos ‘novos céus e a nova terra’ do pensamento apocalíptico, isto é, à ordem transcedente além do tempo e espaço” 42.

Que significa “além do tempo e espaço”? Muitos dos críticos de Dodd disseram que aqui ele está introduzindo uma espécie de conceito platônico no pensamento bíblico43. Dodd, de fato, admite que ele encontra ênfases platônicas em dois livros do Novo Testamento: Hebreus e o Evangelho de João. A epístola aos hebreus, diz ele, reinterpretou a Escatologia nos termos do esquema platônico, pois a “Era Porvir” é identificada como “aquela ordem de realidade eterna cujas sombras ou reflexos formam o mundo dos fenômenos” 44. Com relação ao Evangelho de João, Dodd tem o seguinte a dizer: “O fato é que ainda mais completamente do que em Paulo, neste Evangelho a Escatologia é sublimada em um tipo distintivo de misticismo. Sua filosofia subjacente, assim como a da epístola aos hebreus, tem um aspecto platônico, que sempre é adequada à perspectiva mística. A realidade última, ao invés de figurar como o último termo na série histórica - como na literatura apocalíptica judaica - , é concebida como uma ordem eterna do ser, da qual a ordem fenomênica da história é sombra ou símbolo. Esta ordem eterna é o Reino de Deus...” 45.

A título de avaliação, podemos dizer que a compreensão de Dodd sobre o futuro do Reino em um sentido platônico, como estando “além do tempo e espaço”, lança sérias dúvidas sobre a acuracidade de sua compreensão da mensagem bíblica. Pois certamente, como com razão Oscar Cullmann insiste, o futuro do Reino e a Segunda Vinda de Cristo não eram, na compreensão dos escritores bíblicos, entidades atemporais, mas deveriam acontecer ao longo da mesma linha do tempo na qual a primeira vinda de Cristo aconteceu. Além disso, o ensino bíblico claro acercada nova terra (que foi desenvolvido num capítulo anterior) indica que o futuro do Reino não será “além do espaço”. Percebe-se aqui que Dodd introduziu um elemento estranho no ensino dos escritores do Novo Testamento46.

Deve ser dito, para crédito de Dodd, que ele corrigiu a visão unilateral de Schweitzer para quem o Reino de Deus, no ensino de Jesus, era completamente futuro. Dodd enfatizou corretamente o fato de que, para Jesus e para os apóstolos, o Reino de Deus era presente, e que por essa razão a Escatologia bíblica não se ocupa apenas de acontecimentos futuros, mas também de realidades presentes. Este é o elemento de verdade da “Escatologia realizada”. Por outro lado, contudo, deve ser dito também que superestimou seu lado. Conforme vimos, aquilo que denominamos “Escatologia futura” ou está totalmente ausente em Dod, ou é tão atenuado e “platonizado” na sua interpretação que somos deixados sem ensino claro algum acerca desses assuntos. O argumento de Dodd de que a maioria da Escatologia futura, encontrada no Novo Testamento, é uma relíquia da literatura apocalíptica judaica e, por essa razão, “subcristã” 47, certamente não faz jus a esse aspecto do ensino das Escrituras. Pelo fato de não nos fornecer ensino claro e inequívoco acerca da Segunda Vinda de Cristo e da consumação futura do Reino de Deus, Dodd não fez jus a uma dimensão da doutrina bíblica que é tão essencial à mensagem da Bíblia quanto à Escatologia realizada, que ele tão habilmente defende48.

Embora Dodd, ao consagrar a expressão “Escatologia realizada”, tenha enfatizado dramaticamente a irrupção do Reino de Deus no presente, através do ministério de Jesus Cristo, certamente ele não foi o primeiro a ver este aspecto do ensino do Novo Testamento. Thomas F. Torrance demonstrou que os princípios da Escatologia realizada já podem ser encontrados em João Calvino. Assim como Dodd, Calvino ensinava que o mundo por vir, em certo sentido, já está aqui:

Comentando Hb 2.5s., Calvino escreveu: “Aqui o mundo por vir não é aquele que esperamos para depois da ressurreição, mas aquele que se iniciou no princípio do Reino de Cristo, embora sem dúvida venha a ter sua realização completa em nossa redenção final”. Isto é, Calvino sustenta que a relação escatológica não envolve apenas a relação entre o presente e o futuro... mas também uma relação no presente entre o mundo novo e o velho, pois os últimos dias já alcançaram a Igreja de modo que, mesmo agora, ele vive no mundo novo49.
Torrance prossegue dizendo que, para Calvino, o Reino de Deus estava completamente realizado em Cristo, de modo que nada mais restava por fazer a não ser sua manifestação final em glória50. Ao comentar a natureza escatológica da paz fundamentada na morte, ressurreição e ascensão de Cristo, disse Calvino, de acordo com Torrance: “A paz significa não apenas a certeza da vitória, não um simples consolo na Anfechtung (=tentação), mas sim a experiência positiva da Igreja que já vive deste lado da ressurreição, pois através da fé a Igreja é assentada nos lugares celestiais com o Cristo triunfante em Seu Reino, mesmo que ainda esteja envolvida nas tribulações da cruz sobre a terra51.

Torrance também sustenta que a Escatologia de Calvino está intimamente relacionada com seu ensino sobre a união da Igreja com Cristo, de modo que aquilo que acontece ao Cabeça, acontece também aos membros: “Ou, dizendo de outra forma, Escatologia é a doutrina do Espírito e de tudo o que a união com Cristo pelo Espírito envolve” 52. Veremos, a partir das citações de Calvino feitas acima, que ele, embora enfatizando a verdade essencial daquilo que mais tarde Dodd chamaria de “Escatologia realizada”, evitou a unilateralidade deste último. Embora Calvino não tenha escrito nenhum comentário sobre o livro do Apocalipse, ele, certamente, creu e ensinou que o Reino de Deus teria uma futura manifestação em glória e que, por isso, existe tanto uma Escatologia futura quanto uma Escatologia realizada.

Neste ponto, deveríamos observar melhor um teólogo que deu uma importante contribuição aos estudos escatológicos, mas que não recebeu a atenção que merecia. Refiro-me a Geerhardus Vos (1862-1949), que foi professor de teologia bíblica no Princeton Theological Seminary de 1893 a 1932. Já em 1915, Vos antecipava as compreensões de Dodd acerca do Reino presente e da chegada da era por vir, ao mesmo tempo em que evitava a virtual rejeição que esta último fazia da Escatologia futura. Em um artigo intitulado “Eschatology of the New Testament” (Escatologia do Novo Testamento), escrito para a edição de 1915, da International Standard Bible Encyclopedia (Enciclopédia Clássica Internacional da Bíblia), ele fez declarações que soam surpreendentemente similares às de Dodd: “O Cristianismo traz bem na sua origem um caráter escatológico. Ele significa a manifestação do Messias e a inauguração de sua obra e, do ponto de vista do Antigo Testamento, isto faz parte da Escatologia” 53.

Vos continua dizendo que, enquanto o Antigo Testamento apontava, no futuro, para a vinda do Messias como aquele grande evento escatológico futuro (“o Dia do Senhor”), o Novo Testamento divide esse evento em dois estágios: a era messiânica presente e o estado consumado do futuro. Entretanto, o Novo Testamento encontra a era por vir antecipada no presente:

“Em alguns casos, isso assume uma forma explícita na crença em que grandes transações escatológicas já começaram a acontecer, e que os crentes já atingiram pelo menos um gozo parcial dos privilégios escatológicos” 54.

“...Isso até pode se expressar na forma paradoxal de que o estado escatológico chegou e aquela grande incisão na história foi feita (Hb 2.3,5; 9.11; 10.1; 12.22-24). Ainda, mesmo quando esta consciência extrema é alcançada, em nenhum lugar ela substitui outra representação mais comum, segundo a qual o estado presente continua a se situar deste lado da crise escatológica...” 55.


Em sua obra, Pauline Eschatology (Escatologia Paulina), publicada em 1930, vos desenvolve mais estas concepções, especialmente na medida em que refletem os ensinos dos apóstolo Paulo. Ele afirma que, para os escritores do Antigo Testamento, a distinção entre “esta era” e a “era por vir” era considerada simplesmente em termos de sucessão cronológica. Mas quando o Messias, cuja vinda estes escritores do Antigo Testamento tinham profetizado, realmente entrou em cena, em princípio o processo escatológico já tinha começado e, portanto, o esquema simples ad sucessão cronológica entre esta era ou mundo e a era ou mundo por vir não mais era adequado. A manifestação do Messias agora começa a se desdobrar em duas épocas sucessivas; “percebeu-se que a era por vir trazia em seu ventre outra era por vir” 56.

Agora, Vos prossegue desenvolvendo a idéia de que, para Paulo, em certo sentido, o crente neotestamentário vive tanto na era presente como na era por vir: “Lado a lado... com a continuação deste esquema antigo [das duas eras sucessivas] pode-se observar a emergência de um esquema novo, envolvendo a coexistência dos dois mundos ou estados”57.

Uma vez que Cristo ascendeu aos céus, o crente, que é um com ele, não somente tem interesse pelos “lugares celestiais” onde Cristo está, mas em certo sentido vive lá agora. Nas próprias palavras de Vos: “O outro, o mundo mais elevado, está em existência aí [no céu], e o cristão não pode escapar do seu domínio supremo sobre sua vida. Dessa forma, o outro mundo, até aqui futuro, tornou-se presente. Pois se o mundo presente tivesse, na mesma hora, deixado de existir, então a linha reta continuaria ininterruptamente, e não haveria ocasião para um desenrolar concorrente de duas linhas de existência. De qualquer forma, teria de suceder-se uma duplicação” 58.

Vos ilustra a estrutura da Escatologia paulina através de dois diagramas, o primeiro deles representando a Escatologia dos escritores do Antigo Testamento, e o segundo descrevendo a perspectiva escatológica de Paulo59:


I. O Esquema Original:

Esta era ou mundo A era ou mundo por vir

II. O Esquema Modificado

O mundo por vir, realizado em princípio Era e mundo futuros totalmente realizados em existência sólida

R D E E S S C U R R I R S E T I O Ç Ã O [no Céu] P A R O U S I A [na Terra]

Esta era ou mundo

Segundo Vos, portanto, o crentes neotestamentário vive, simultaneamente, tanto nesta era ou mundo como na era ou mundo por vir. Por essa razão, Vos concordaria com Dodd em que, num sentido, a era por vir já chegou. Entretanto, ele discordaria de Dodd ao sustentar que haverá uma Parousia ou Segunda Vinda futura de Cristo, e uma consumação futura da era ou mundo por vir, na qual todas as suas potencialidades serão completamente realizadas.

Em seu capítulo sobre “The Interaction betwewn Eschatology and Soteriology” (A Interação entre Escatologia e Soteriologia), Vos afirma que, para o crente neotestamentário, era a Escatologia que formava a soteriologia (a doutrina do modo de salvação), e não o contrário. O crentes estava tão claramente consciente da perfeição que ele finalmente herdaria, após a Parousia, que ele considerava sua salvação atual à luz daquela perfeição final: “...Em um aspecto muito amplo, em nada secundário em importância no sistema paulino de pensamento, o escatológico aparece como predeterminante tanto da substância como da forma do soteriológico” 60.

Agora, vos passa a ilustrar a conformação da soteriologia pela Escatologia em Paulo, utilizando-se de quatro ilustrações do ensino doutrinário deste. A primeira ocupa-se com o ensino de Paulo acerca da ressurreição. Vos considera notável que a nova vida do crentes seja descrita por Paulo como um “ser ressuscitado com Cristo”:

“Quando, então, vemos que a experiência soteriológica, pela qual os crentes são introduzidos em um novo estado, é caracterizada pelo Apóstolo como um “ressuscitar com Cristo”, ou “ser ressuscitado com Cristo”... então a influência retroativa e formativa exercida pela Escatologia, em uma parte central do processo salvador, fica inquestionável.

...A expressão “ser ressuscitado em ou com Cristo” só pode ter aquele sentido único: ter aplicado a si mesmo um dos dois atos fundamentais da Escatologia, através de uma mudança radical de vida... É um efeito antecipatório, no sentido mais literal do termo, produzido pelo mundo escatológico sobre aqueles que ainda permanecem no mundo presente” 61.

O segundo desses conceitos doutrinários é o da salvação. Nos escritos de Paulo, continua Vos, salvação tem tanto um sentido presente como um sentido futuro; ao considerarmos nossa salvação, o gozo presente e a alegre antecipação da libertação final estão mesclados conjuntamente. Mas, para Paulo, a prioridade pertence ao aspecto escatológico. Embora geralmente em nossos pensamentos nós partamos da salvação presente para a futura, para Paulo esta ordem era inversa: na medida em que deveremos ser salvos no futuro, assim somos salvos no presente62.

Outro conceito ilustrativo é o da justificação. Para Paulo, argumenta Vos, o ato da justificação era, para todos os efeitos - no que toca ao crente -, um juízo final antecipado63.

Vos também comenta a compreensão de Paulo a respeito do papel do Espírito, a quem ele tinha se referido anteriormente no capítulo como penhor e primícias da efetiva possessão final do estado celestial” 64. Em caráter similar, ele caracteriza o Espírito, na última parte do capítulo, como “o elemento da esfera escatológica ou celestial, aquele que caracteriza o modo de existência e vida do mundo por vir e, conseqüentemente, daquela forma antecipada na qual mesmo agora o mundo por vir é realizado...” 65.

Em suma, podemos dizer que Vos antecipou-se significativamente a Dodd, ao sustentar que, com a vinda de Cristo, o Reino de Deus chegou, e a era escatológica final teve início. Na verdade, ele vê o pensamento de Paulo como desde o princípio66 lançado em um molde escatológico e, por causa disso, denomina Paulo o pai da Escatologia cristã67. Diferentemente de Dodd, porém, Vos ensina claramente que haverá uma Segunda Vinda de Cristo, uma ressurreição futura dentre os mortos e um juízo final. Por essa razão vemos em vos uma abordagem equilibrada da Escatologia bíblica, que reconhece a autoridade plena das Escrituras e faz jus, inteiramente, à totalidade do ensino bíblico.

Passamos agora para um teólogo suíço contemporâneo, Oscar Cullmann, um dos mais proeminentes representantes da escola de Escatologia conhecida como “história da salvação”. Embora admitindo que a expressão “história da salvação” não seja encontrada no Novo Testamento, e que se pode contra ela levantar algumas objeções, Cullmann ainda expressa uma preferência por ela, como uma descrição de sua abordagem68. Por “história da salvação” quer indicar-se a posição de que Deus tem-se revelado na história através de uma série de atos redentores, no centro dos quais está a encarnação, crucificação e ressurreição de Jesus Cristo, e por meio dos quais ele traz a salvação a seu povo. Cullmann nos fornece uma descrição sucinta da história da salvação nestas palavras “O homem do Novo Testamento tinha certeza de que ele estava continuando [como um cooperador de Cristo na Igreja] a obra que Deus começara com a eleição do povo de Israel para a salvação da humanidade, que Deus cumpriu em Cristo, que ele desdobra no presente, e que completará no fim69.

Cullmann concorda com Dodd e Vos (embora ele não pareça estar familiarizado com os escritos deste último) em que a vinda de Cristo significou o cumprimento das expectações escatológicas do Antigo Testamento e, portanto, a instauração do Reino de Deus. Ele concordaria completamente em que há um sentido no qual nós estamos agora nos últimos dias ou na nova era, e que a grande incisão escatológica na história foi feita70. Mas, discordando de Dodd e concordando com Vos, Cullmann aguarda uma consumação futura do Reino na história; por essa razão sua posição deixa lugar tanto para a Escatologia futura como para a Escatologia realizada.

É básico, para a posição de Cullmann, a sua convicção de que o grande ponto central da história está às nossas costas. A própria datação de nossos calendários, que divide o tempo em dois períodos principais (antes de Cristo e depois de Cristo), testifica este fato71. Em outras palavras, este grande ponto central é o nascimento de Jesus Cristo - ou, antes, a totalidade dos eventos associados com a encarnação, crucificação e ressurreição de Cristo. “...No evento central do Cristo Encarnado, um evento que constitui o ponto central dessa linha [a linha inteira do tempo] não apenas tudo o que vem antes está cumprido mas, também, tudo que é futuro está decidido”72.

Enquanto que para o crente veterotestamentário o ponto central da história está no futuro, para o crente neotestamentário esse ponto agora está no apssado73. Sendo este o casi, este último faz assentar sua esperança, pelo futuro, primordialmente, naquilo que já aconteceu no passado. Cullmann cativou a imaginação de muitos ao comparar a posição do crente neotestamentário com a da pessoa que, durante a II Guera Mundial, vivia entre o “dia D” e o “dia V”:

“A batalha decisiva duma guerra pode já ter acontecido em um estágio relativamente inicial da guerra, e mesmo assim a guerra ainda continua. Embora o efeito decisivo daquela batalha talvez não seja reconhecido por todos, mesmo assim ela já significa a vitória. Mas a guerra ainda tem de ser levada adiante por um tempo indefinido até o “Dia da Vitória”. É exatamente esta a situação de que o Novo Testamento está consciente, pelo fato de reconhecer a nova divisão do tempo; a revelação consiste precisamente no fato da proclamação de que, aquele evento da cruz, juntamente com a ressurreição que se seguiu, ser já a batalha decisiva concluída” 74.


O que esta figura indica é o seguinte: embora já tenha sido travada a batalha decisiva contra os poderes do mal, e embora Cristo já tenha conquistado a vitória, os crentes ainda têm de continuar a “combater o bom combate da fé”, até que Jesus venha de novo para fazer acontecer o término definitivo da guerra e a consumação final do seu Reino. Portanto, combatemos com a certeza da vitória final.

Cullmann representou o contraste entre os crentes do Antigo e do Novo Testamento através dos seguintes dois diagramas75:


JUDAÍSMO:

Ponto Central

Antes da Criação Entre a Criação e a Parousia Depois da parousia
Cristianismo:

Ponto Central

Antes da Criação Entre a Criação e a Parousia Depois da Parousia
Para o crente veterotestamentário (veja o primeiro diagrama), a linha do tempo bíblico estende-se até o passado indefinido de antes da criação, continua a se mover no período entre a criação e a Parousia, e se estende indefinidamente para o futuro, no infinito tempo da eternidade. Para este crente, o ponto central da linha do tempo ainda estava no futuro: a vinda do Messias profetizado. Para o crente neotestamentário, porém (veja o segundo diagrama), uma divisão dupla do tempo foi sobreposta à divisão tripla do judaísmo: antes da vinda de Cristo e depois dela. Para o crente neotestamentário, portanto, o ponto central da linha do tempo (ou da história) está agrao no passado, pois Cristo veio. Ao passo que, conforme a divisão dupla, o cristão que vive entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo já pertence à nova era, conforme a divisão tripla a nova era, que se inicia com a Parousia, ainda não começou76.

Assim como Vos, portanto, Cullmann crê na sobreposição das duas eras. Em um sentido, o crente já está na nova era, pois o grande ponto central escatológico está no passado. Em outro sentido, ele ainda não está na nova era, pois a Parousia ainda não aconteceu77.

Para Cullmann, a era na qual o crente neotestamentário vive é marcada por uma tensão contínua entre o ponto central e o fim: “O elemento novo do Novo Testamento não é a Escatologia, mas o que eu chamo de tensão entre o decisivo ‘já cumprido’ e o ´ainda não completado’, entre o presente e o futuro. Toda a teologia do Novo Testamento, inclusive a pregação de Jesus, é caracterizada por esta tensão” 78.

Cullmann vê essa tensão como encontrada já nos ensinos do próprio Cristo:

“...Ela [a expectação de Jesus] não deve ser... considerada como puramente futura ou puramente presente, mas como uma tensão no tempo entre o “já” e o “ainda-não”, entre o presente e o futuro... 79.

“...Os ensinos de Jesus somente podem ser libertados dessa tensão [entre o presente e o futuro] por um método altamente arbitrário e cientificamente questionável, no qual tanto os pronunciamentos sobre o presente (a escola de Schweitzer) como os pronunciamentos sobre o futuro (a escola de Dodd) são denominados “criações da comunidade”. A essência do que é denominada Escatologia de Jesus consiste na justaposição de ambas essas séries de declarações” 80.


Esta tensão entre o “já” e o “ainda-não” está ilustrada de diversas formas: “Nós somos santos; isto significa que deveríamos nos santificar a nós mesmos. Nós recebemos o Espírito; isto significa que deveríamos ‘andar no Espírito’. Em Cristo já temos a redenção do poder do pecado; isto significa que agora mais do que nunca temos de batalhar contra o pecado” 81.

A tensão também é ilustrada peos ensinos neotestamentários acerca da subjugação dos inimigos de Cristo e da abolição da morte. Embora Pedro (1 Pe 3.22) afirme que os poderes invisíveis já foram sujeitados a Cristo, Paulo (1 Co 15.25) ensina que todos os inimigos de Cristo somente serão colocados sob seus pés no fim dos tempos82. Enquanto que, para Paulo, (em 2 Tm 1.10), a morte já foi abolida por Cristo, para ele (ainda em 1 Co 15.26) a destruição da morte ainda está no futuro83.

Embora essa tensão continue a existir durante todo o período entre o ponto central e a Parousia, para Cullmann o “já” prepondera sobre o “ainda-não”: É essencial, para essa tensão, que, por um lado, ela ainda exista, mas por outro lado ela esteja abolida por implicação. Não é como se o ‘já’ e o ‘ainda-não’ equilibrassem exatamente a balança. Nem o ponto central decisivo divide o tempo da salvação em duas partes iguais. O fato de que a mudança decisiva de eventos já aconteceu em Cristo, o ponto central - de que agora a expectação futura está fundamentada na fé no ‘já’-, mostra que o ‘já’ é preponderamente sobre o ‘ainda-não’” 84.

Desta vez fica claro que, para Cullmann, a Escatologia bíblica inclui os elementos futuros que ainda não foram cumpridos e, também, os elementos presentes que já foram cumpridos. Depois de perceber com desagrado a tendência de certos grupos em considerar qualquer interesse por um evento final, ainda por vir, como expressão de uma forma inferior de religião, ele continua afirmando a importância da Escatologia futura como parte essencial da mensagem bíblica: “...As declarações futuristas do Novo Testamento estão envolvidas na interação típica da história da salvação, com todo o processo salvador e o evento do ponto centra, Cristo... O futuro não mais é concebível, no Novo Testamento, sem a vitória sobre amorte já conquistada por Cristo. Mas as declarações futuristas, assim enraizadas na vitória de Cristo, apontam no futuro para um ponto final para todo o processo salvador que, de modo algum, é realizado definitivamente antes do fim” 85.

Considerando, conforme vimo, que não se encontra nenhum ensino claro acerca da Escatologia futura nos escritos de C.H.Dodd, Cullmann afirma que grandes eventos futuros ainda nos aguardam. O diagrama da posição do crente neotestamentário, que observamos anteriormente, indica claramente que Cullmann aguarda uma Parousia futura. Em vários contextos ele menciona a era neotestamentário da história da salvação como estando “entre a ressurreição de Cristo e sua volta” 87. Cullmann faz um grande esforço para demonstrar que o assim chamado “atraso da Parousia” não era um grande problema para os cristãos primitivos; o importante era que, uma vez que Cristo tinha vindo, seu retorno era certo e, portanto, em um sentido, sempre próximo88.

Cullmann ensina que o Reino de Deus é tanto presente como futuro89, e que o juízo tanto já aconteceu commo ainda acontecerá no futuro90. Ele também afirma que a ressurreição do corpo e a renovação da criação são eventos ainda por vir:

“Tudo que está associado com a ressurreição de nossos corpos e sua transformação pelo Espírito (1 Co 15) e com a nova criação super-humana (Rm 8) ainda está por vir... Somente na ressurreição futura nós teremos um corpo finalmente transformado por Deus..., quando o mesmo Espírito refizer toda a criação. Então a vitória que já foi alcançada sobre a “carne”... e o pecado, a conquista da morte pela qual nosso homens interior já está sendo renovado (pelo Espírito) dia a dia (2 Co 4.16) produzirão seu efeito corporal. É uma modernização injustificada da substância do pensamento paulino interpretar este evento de outra forma que não algo que ainda esteja por vir no tempo91.
É mister acrescentar algo acerca da compreensão de Cullmann sobre o significado do tempo. Embora admitindo que os escritores do Novo Testamento nãoe stavam primordialmente ocupados com o conceito de tempo como tal, mesmo assim Cullmann extrai do Novo Testamento um conceito de tempo que ele considera necessário para a compreensão de sua mensagem. Este conceito de tempo é por ele denominado linear92. Na sua obra Christ and Time (Cristo e Tempo), ele diz que o símbolo do tempo, para o cristinismo primitivo, era uma linha ablíqua ascendente, cujo aspecto “oblíquo ascendente” significa que o plano de Deus está em movimento progressivo para seu alvo final93. Entretanto, em sua obra Salvation in History (Salvação na História), ele insiste em que, “embora eu ainda utilize a figura da linha como orientação geral para a história da salvação, agora para mim é importante enfatizar que eu não indicava com isso uma linha reta, mas uma linha ondulada, que pode demonstrar variação ampla” 94.

Cullmann contrasta essa visão de tempo com a que é encontrada no pensamento grego. Para os gregos, o símbolo do tempo não era uma linha reta, mas um círculo. Uma vez que para eles o tempo se movia num eterno curso circular, no qual tudo continuava a se repetir, o fato de que o homem está preso ao tempo era experimentado como uma escravidão e uma maldição no pensamento grego. Portanto, a redenção, para os gregos, significava ser livre do tempo e ser transferido para um Além temporal95.

No Cristianismo primitivo, porém,a salvação é concebida estritamente em termos de um processo de tempo: “A consumação vindoura é um futuro tão real quanto a obra redentora passada de Jesus Cristo, e apesar do fato de ser ela o ponto central interpretador de todos os tempos é, no entanto, do pnto de vista da Igreja, um passado real, exatamente como o presente da Igreja, que é marcada por um caráter inteiramente condicionado pelo tempo, e está presa a esse passado e àquele futuro”96.

Adotando, como sua própria, o que ele denomina a posição do Cristianismo primitivo, Cullmann portanto rejeita qualquer “dissolição e reinterpretação filosófica” do mesmo em uma “metafísica atemporal” 97. Ele encontra um exemplo desse tipo de metafísica em Platão. Ao passo que para os cristãos primitivos a eterninade é entendida simplesmente como uma linha de tempo interminável98, para Platão a eternidade é atemporal, qualitativamente diferente do tempo99. Por essa razão, Cullmann também rejeita a concepção de tempo de Karl Barth, que diz ser o tempo algo qualitativamente diferente da eternidade, contra o que Cullmann sustenta que essa concepção é um remanescente do platonismo100. Cullmann é especialmente veemente ao repudiar a maneira como Rudolf Bultmann compreende o desenvolvimento da história da salvação no tempo “como apenas uma armação da qual temos de despir o relato para chegar ao cerne” 101. Bultmann considera o elemento histórico e temporal dos escritos bíblicos como sendo material mitológico que temos de pôr de lado, e dessa forma “despir a proclamação cristã de seu contexto temporal da história redentora” 102. Ao proceder assim, contexta Cullmann, Bultmann está retirando o coração do Evangelho. Pois nossa salvação depende do que Jesus Cristo fez por nós no tempo e na história.

Tem sido muito discutida a compreensão de Cullmann acrerca do significado da eternidade como tempo infinitamente prolongado. A maioria das críticas às suas posições tem-se concentrado na dificuldade de aplicar esta concepção a Deus. John Marsh, por exemplo, sustenta que a visão da eternidade de Cullmann não faz jus à transcedência de Deus, pois tem de ser óbvio que Deus não vive numa mera sucessão de momentos, como o faz o homem103. Hendrikus Berhof, igualmente, teme que na concepção de Bultmann a linha divisória entre Deus e o homem esteja em perigo de exitinção104. Em um livro posterior, Berkhof destaca que a eternidade de Deus não é a mesma eternidade do homem e que, portanto, não será possível colocar Deus e o homem na mesma linha de tempo105. Embora estas críticas sejam bem colocadas, elas não deveriam nos cegar para o serviço genuíno que Cullmann prestou ao Cristianismo evangélico, ao insistir no arrraigamento da história redentora no tempo.

Poderíamos resumir a importância da contribuição de Cullmann, para a Escatologia bíblica, como se segue: Uma vez que o grande ponto central da história aconteceu por ocasião da primeira vinda de Cristo, existe um sentido muito real segundo o qual os crentes estão hoje vivendo na nova era. A consumação final do Reino de Deus, porém, que incluirá a Segunda Vinda de Cristo, a ressurreição geral e a renovação da criação, está ainda no futuro. Por isso, a era na qual agora vivemos está caracterizada pela tensão - entre o ponto central e o fim, o presente e o futuro, o já e o ainda-não.

Poderá ser proveitoso concluirmos este apêndice com um breve exame de três tipos de Escatologia que representam ênfases um tanto diferentes das discutidas acima. Eu me refiro à “Escatologia vertical” de Karl Barth, à “Escatologia existencialista” de Rudolf Bultmann e à “Escatologia futurista” de Jüigen Moltmann.

Karl Barth disse que ele não quer que a Escatologia seja meramnte “um último capítulo, breve e perfeitamente inofensivo, da teologia dogmática” 106. Toda a teologia, Barth gostaria de dizer, está colocada em um molde escatológico. Nós bem podemos apreciar esta ênfase no caráter universal da Escatologia e em sua importância para o todo da teologia. Mas fica a questão: o que entende Barth por Escatologia?

No prefácio da segunda edição de sua obra Epistle to the Romans (Epístola aos Romanos) Barth disse: “Se eu tenho um sistema, ele está limitado a um reconhecimento do que Kierkegaard denominou a ‘distinção infinita e qualitativa’ entre tempo e eternidade...” 107. Quando Barth abordou a carta aos Romanos com esta compreensão de tempo e eternidade em mente, o resultado foi uma ênfase esmagadora sobre a trasncedência de Deus e sobre o fato de que não há uma ponte do homem pra Deus, mas apenas uma ponte de Deus para o homem.

“...Karl Barth, em sua obra Epistle to the Romans (Espístola aos Romanos)... chamou a atenção para a soberania [deveria ser juízo] 108 transcedente de Deus sobre tudo que é temporal e humano na moralidade, cultura e religião, enfatizando especialmente que a Escatologia nãoe está principalmente, preocupada com condições futuristas, mas sim com a realidade completa da proclamação escatológica no presente... Ele viu o eschaton - Deus como o Último - na crise existencial do homem que vive constantemente à beira da eternidade de Deus. Esta eternidade não era temporalmente remota, mas estava intimamente relacionada e relevante à vida cotidiana” 109.


Esta nova compreensão da Escatologia é exemplificada pela interpretação que Barth faz de Romanos 13.11: “E digo isto a vós outros que conheceis o tempo, que já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação, está agora mais perto do que quando no princípio cremos”. Ao invésde ve aqui uma proximidade cronológica retratada, Barth fala sobre um tipo diferente de proximidade:

“Parados no limite do tempo, os homens são confrontados pela muralha íngreme e suspensa de Deus, pela qual todo o tempo e tudo o que está no tempo é dissolvido. É aí que eles aguardam a Última Hora, a Parousia de Jesus Cristo...

Não haverá nunca um fim para toda nossa interminável fala sobre o atraso da Parousia? Como poderá a vinda daquilo que não ingressa ser atrasada? O Fim de que o Novo Testamento fala não é nenhum evento temporal...

O que atrasa sua vinda [a expectação do Fim] não é a Parousia, mas nossa vigilância. Nós apenas vigiamos; nós apenas relembramos, nós apenas progredimos do tempo não-qualificado para ao tempo que é qualificado; fomos apenas terrificados pelo fato de que, quer queiramos quer não, efetivamente a cada momento estamos na fronteira do tempo... então deveríamos aguardar a Parousia... e então não deveríamos hesitar em nos arrepender, em nos converter, em pensar o pensamento da eternidade e por essa razão - amar” 110.


Nestas palavras, Barth revela uma concepção de Escatologia completamente diferente da tradicional. Escatologia não mais significa aguardar certos eventos que acontecerão no futuro mas, antes, significa temer a Jesus Cristo em arrependimento e fé, em cada momento em que o defrontarmos. Podemos denominar isso uma espécie de “Escatologia atempora”, na qual a Parousia não mais é entendida como a volta futura de Cristo, mas antes como “um símbolo atemporal da realidade infinita da eternidade em cada situação existencial” 111. Também podemos denominar isso como uma espécie de Escatologia “vertical”, em distinção à “horizontal”. O Eterno é considerado como estando sempre sobre nós; temos de responder a ele quando ele nos fala; no momento em que o fazemos, a eternidade interseccionou-se com o tempo - e isso é Escatologia. Berkouwer reproduz como se segue o pensamento de Barth sobre esse ponto:

“Não havia um fim da história em termos de tempo em um plano horizontal, mas somente um eschaton vertical marcado pela crise permanente da vida e pela real gravdade da proximidade de Deus.

Dessa forma o futuro temporal é transposto para o presente e o eschaton realizado não mais é mencionado em categorias temporais, mas em termos espaciais... O “pós” é substituído pelo “trans” e, contra todo o futurismo, a ênfase recai sobre o sempre-presente pulsar [o soar contínuo do gongo] da eternidade” 112.

Entretanto, se essa é a compreensão que se tem de Escatologia, parece que não sobra espaço para a Escatologia futura. Baseados em tal compreensão, estaríamos simplesmente rejeitando qualquer expectação de uma volta futura de Cristo ou de um juízo final como remanescente obsoletos da superstição medieval. Na tentativa de reabilitar a Escatologia, Barth roubou da Escatologia bíblica alguns de seus significados mais essenciais113.

A bem da verdade, deveríamos observar que o próprio Barth roubou da Escatologia bíblica alguns de seus significados mais essenciais113.

A bem da verdade, deveríamos observar que o próprio Barth reagiu contra esta posição extrema em escritos posteriores. Reproduzindo o que Barth diz, em sua obra Church Dogmatics (Teologia Dogmática da Igreja), Berkouwer comenta:

“Barth aceita uma ênfase [quase] 114 exclusiva na transcedência [Jenseitigkeit] de Deus sem dar atenção adequada à sua vinda em si. A reação escatológica foi muito forte, e perdeu de vista o telos, o alvo e fim da história.

Reconsiderando sua exegese de Romanos 13.11... Barth confessa abertamente: “Mas também está claro que, com toda essa arte e eloqüência, eu perdi a característica distintiva da passagem, a teologia que concebe o tempo como se movendo para um fim real” 115.

Ao avaliarmos a posição de Barth, não devemos ignorar essa correção. Mesmo assim, ele nunca repudiou sua insistência na “distinção infitita e qualitativa” entre o tempo e eternidade. Devemos admitir que permanece muita ambigüidade em Barth acerca da relação exata entre o presente e o futuro, entre o já e o ainda-não.

Rudolf Bultmann vê a mensagem do Novo Testamento embutida numa estrutura de mitologia. Uma vez que esta mitologia é completamente inaceitável ao homem moderno, e uma vez que po essa razão ela agora constitui um obstáculo à aceitação do Evangelho, temos assim afirma Bultmann, de “demitizar” o Novo Testamento. Por “demitizar” ele não quer dizer, simplesmente, que devamos rejeitar estes aspectos mitológicos do Novo Testamento, segundo o estilo dos teólogos liberais do século dezenove, mas sim que devemos reinterpretar a mitologia para obter seu significado real e interior. Entre os elementos mitológicos do Novo Testamento, que devem ser reinterpretados, e portanto não mais entendidos literalmente, estão os seguintes: céu e inferno, a ressurreição de Jesus Cristo , a Segunda Vinda de Cristo e o Dia do Juízo final.

Conforme Cullmann destacou, Bultmann considera toda a estrutura de tempo na qual a mensagem redentora do Novo Testamento está ambientada como algo que temos de despir para chegar à verdade real da mensagem. Para Bultmann, o ponto importante acerca de Jesus Cristo não é a obra expiatória que ele fez por seu povo, num dado tempo na história, mas o novo modo de vida que ele nos possibilitou.

O que, pois, é a Escatologia para Bultmann? “O ponto essencial acerca da mensagem escatológica é a idéia do Deus que nela opera e a idéia de existência humana que ela contém - não a rença de que o fim do mundo está logo à frente” 116.

Podemos dizer que Bultmann nos oferece uma “Escatologia existencialista”. Para ele, a Escatologia não trata de certos eventos que acontecerão no futuro, mas sim da vinda de Jesus Cristo ao mundo e da decisão que cada pessoa tem de tomar em relação a ele.

Observemos como Bultmann descreve a sua compreensão da Escatologia:

“Segundo o Novo Testamento, o significado decisivo de Jesus Cristo é que ele - em sua pessoa, sua vinda, sua paixão e sua glorificação - é o evento escatológico117.

Portanto, temos de dizer que viver na fé é viver uma existência escatológica, viver além do mundo, ter passado da morte para a vida (cp Jo 5.24; 1 Jo 3.14). Certamente, a existência escatológica já é realizada em antecipação, poi, “andamos por fé, não por vista” (2 Co 5.7). Isto significa que a existência escatológica do crente não é um fenômeno mundano, mas é realizada na nova auto-compreensão. Essa auto-compreensão, conforme vimos anteriormente, surge da Palavra. O evento escatológico, que é Jesus Cristo , acontece aqui e agora enquanto a Palavra está sendo pregada (2 Co 6.2; Jo 5.24)...” 118.


A existência escatológica, portanto, envolve uma nova auto-compreensão - uma nova auto-compreensão que vem ao respondermos com fé à Palavra pregada. A existência escatológica também envolve abertura ao futuro. “Este, pois, é o sentido mais profundo da pregação mitológica de Jesus - estar aberto ao futuro de Deus, que realmente é iminente para cada um de nós...” 119.

Bultmann alega encontrar apoio para sua posição especialmente no Evangelho de João, uma vez que, assim argumenta ele, João demitizou a mensagem do Evangelho. Para João, não haverá juízo final; o juízo já veio através de Cristo. A vida eterna, para João, não é uma bênção futura mas uma possessão presente. O que, então, Bultmann faz com as declarações do Quarto Evangelho, que apontam para eventos escatológicos futuros? Essas afirmações, assim diz Bultmann, foram acrescentadas ao Evangelho original por um editor posterior.

“Bultmann conclui... que não há nenhuma menção de qualquer elemento futuro ou dramático na perspectiva escatológica de João, porque, para João, “o evento escatológico já está sendo consumado”. Ele admite que realmente há algumas alusões ao futuro no livro, entre as quais as declarações de Jesus de que “vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão” (Jo 5.28s), e de que “qem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (6.54; cp. v.39; 12.48). Ele julga que estas passagens estão em conflito com a Escatologia presente [característica de João], e conclui que elas não podem ter sido originais” 120.
Bultmann também diz encontrar apoio para sua posição nos escritos de Paulo. Ele admite os ensinos acerca de eventos futuros “apocalípticos”, como a Segunda Vinda e o juízo final, se encontram em Paulo. Bultmann, porém, efetivamente não aceita esta “Escatologia mítica”: “Não podemos mais aguardar pela volta do Filho do homem sobre as nuvens ou esperar que o fiel se encontrará com ele nos ares (1 Ts 4.15ss)... A Escatologia mítica é insustentável...” 121.

Por essa razão, ele passa a reinterpretar Paulo: “... Se Paulo tivesse uma compreensão válida da situação humana, em seu tempo, essa mesma compreensão seria válida para nosso tempo. A tarefa então é decifrar sua linguagem, sua mitologia, sua cosmovisão, e penetrar em sua auto-compreensão... Embora as declarações de Paulo, acerca da natureza do ambiente do homem não sejam verdadeiras, mesmo assim num sentido mais profundo todo o que ele diz pode ser verdadeiro acerca da situação humana. Deste ponto de vista, Paulo é relevante e válido para cada época” 122.

Herman Ridderbos fornece a seguinte análise da compreensão de Bultmann acerca da mensagem redentora de Paulo:

“Embora Paulo, segundo Bultmann, não rejeita as expectações apocalípticas futuras da ressurreição, juízo e glória, ainda assim a salvação real, para ele, é a justiça, liberdade e alegria no Espírito Santo... Por um lado, esta salvação já eé presente, mas, por outro lado, ela ainda é futura, pois só é obtida... através de decisões existenciais. Para chegar à sua existência autêntica, o homem precisa sempre de novo permetir a si próprio ser crucificado com Cristo - isto é, ele precisa desviar seus olhos do que está próximo, sobre o que ele tem controle, e precisa escolher aquilo que não está próximo, que é invisível, sobre o que ele não tem controle algum. Dessa forma ele é constantemente levado ao fim de suas possibilidades controláveis, e é conduzido à liberdade de ser verdadeiramente humano. O que forma a estrutura da pregação de Paulo não são as concepcções escatológicas, mas as compreensões antropológicas que por elas são expressadas. O conteúdo demitizado dessa Escatologia não é a idéia do fim do mundo, mas o modo pelo qual o hoem é existencialmente confrontado com a ação e as palavras de Deus em Jesus Cristo” 123.


A natureza existencialista da Escatologia de Bultmann é deixada clara na seguinte citação:

“O paradoxo da mensagem cristã é o fato de que o evento escatológico, segundo Paulo e João, não deve ser entendido como uma catástrofe cósmica e dramática, mas como acontecendo dentro da história, começando com o aparecimento de Jesus Cristo e, em continuidade com isso, acontecendo sempre de novo na história, porém não como um tipo de desenvolvimento histórico que possa ser repetido na pregação e fé. Jesus é o evento escatológico não como um fato estabelecido do tempo passado, mas como repetidamente presente, como se dirigindo a você e a mim aqui e agora na pregação.

Pregação é comunicação, e, como comunicação ela requer uma resposta, decisão... Nessa decisão de fé eu não decido sobre uma ação responsável, mas sobre uma nova compreensão de mim como livrre de mim mesmo pela graça de Deus e como presenteado com meu novo ser, e esta é ao mesmo tempo a decisão de aceitar uma nova vida fundamentada na graça de Deus” 124.

Filósofos existencialistas, como Martin Heidegger e karl Jaspers, argumentam que o homem tem de encontrar uma existência autêntica através do rompimento com o comportamento conformista e da tomada licre de decisões acerca de si próprio, seus alvos e seu modo de vida. Está claro que Bultmann reinterpretou a esatologia do Novo Testamento à luz da filosofia existencialista, especialmente a de Martin Heidegger125.

A título de avaliação, podemos realmente apreciar a insistência de Bultmann na necessidade de uma decisão em resposta à pregação da Palavra. Podemos também concordar com ele em que o homem encontra a existência autêntica somente através da fé em Jesus Cristo. Mas, certamente, temos de repudiar, como sendo totalmente, arbitrária, a rejeição de toda Escatologia futura por parte de Bultmann, bem como sua redução da mensagem bíblica à mera antropologia. Vemos nele uma unilateralidade tão grande quanto à de C.H.Dodd. Mas enquanto o contexto filosófico do pensamento de Dodd é um tipo de platonismo, o contexto das posições de Bultmann é a filosofia do existencialismo126.

Enquanto que Bultmann foi muito fortemente influenciado por Martin Heidegger, Jügen Moltmann recebeu seu ponto de partida especialmente de Erns Bloch, que era um marxista judeu, sustenta em sua obra Prinzip Hoffonung (Esperança Principal) que o hoem é um ser em seu caminho para o futuro. A essência de seu ser não está no que ele tem, mas no que ele espera - está em seu aguardar por aquilo que necessitamos de uma fé em Deus para, dessa forma, sermos dirigidos para o futuro, Moltmann decidiu colocar as idéias de Bloch, acerca do homem que espera, num contexto cristão. Ele o fez em seu controvertido livro Theology of Hop (Teologia da Esperança).

Moltmann tem algumas coisas importantes a dizer acerca da importância da Escatologia. Escatologia, afirma ele, não deve ser considerada merramente como um “apêndice frouxamente preso” à teologia dogmática127. Ela tem a ver não somente com coisas que acontecererão no fim dos tempos, mas com toda a vida de hoje:

“Do princípio ao fim, e não meramente no epílogo, o Cristianismo é Escatologia, é esperança, é aguardar o futuro e para ele se mover e, por essa razão, é também revolucionar e transformar o repsente. O escatológico não é um elemento do Cristianismo, mas é a premissa da fé cristã como tal, a chave à qual tudo está ajustado, o brilho que aqui inunda todas as coisas no alvorecer de um esperado novo dia. Pois a fé cristã vive do engrandecimento do Cristo crucificado, e esforça-se pela promessa do futuro universar de Cristo... Por isso, a Escatologia não pode realmente ser apenas uma parte da doutrina cristã. Antes, a perspectiva escatológica é característica de toda a proclamação cristã, de cada existência cristã e e toda a Igreja128.


Mas, que é que Moltmann entende por Escatologia? A Escatologia cristã, diz Moltmann, fala de “Cristo e seu futuro”. Uma vez que ela entende a história como a realidade instituída por promessas divinas, sua linguagem é a linguagem de promessas129. O pensamento escatológico é um “pensamento de expectação”, que corresponde à esperança cristã. À luz das palavras de Paulo sobre “a expectação intensa da criatura”, a teologia deve atingir um novo modo de pensar acerca da história - um modo que esteja orientado para o futuro de Deus para o mundo130.

Moltmann constrasta a esperança cristã com duas formas de desesperança que ele vê serem predominamtes no mundo de hoje: presunção e desespero. A presunção, representada por homens tais como Karl Marx, pensa que pode construir um mundo de liberdade e dignidade humana através de suas próprias forças, sem contar com Deus. O desespero, representado por Albert Camus (“pensar claramente e não mais esperar”) e pelos existencialistas, desistiu de toda esperança e considera a vida como totalmente sem sentido. Contrapondo-se a estes dois, somente a esperança cristã tem uma mensagem relevante para os dias de hoje131: “A glória da auto-realização e a miséria da auto-estranheza surgem, igualmente, da desesperança de um mundo de horizontes perdidos. A tarefa da Igreja Cristã é manifestar, a este mundo, o horizonte do futuro do Cristo crucificado”132.

Para entender a perspectiva escatológica de Moltmann, temos de conhecer a sua posição sobre a revelação. Harry Kuitert disse que, para Moltmann, a promessa é a categoria que determina a revelação133. Segundo o pensamento de Moltmann, todas as revelações de Deus são promessas134. Tanto a revelação do Antigo Testamento como a do Novo Testamento ocorrem primariamente em termos de promessas; essas promessas, entretanto, “não foram completamente desdobradas em nenhum evento - permanecendo algo restante que aponta para o futuro” 135. Deus, assim afirma Moltmann, revela a si mesmo na forma de promessa e na história que é marcada pela promessa. Por essa razão, a doutrina cristã da revelação de Deus não deve pertencer nem à doutrina de Deus, nem à antropologia, porém à Escatologia: ela é uma expectação pelo futuro da verdade136.

No mesmo sentido, encontramos os comentários de Moltmann acerca da Palavra de Deus: “Ela [a Palavra de Deus] não provê uma revelação final, mas nos chama a um caminho cuja meta é mostrada em termos de promessa... Como promessa de um futuro universal e escatológico, a palavra aponta para além de si mesma, para eventos vindouros no futuro... É por isso que a proclamação está na tensão escatológica à qual nos referimos... Ela é verdadeira na extensão em que anuncia o futuro da verdade. Ela comunica essa verdade de um modo tal que só a podemos ter mediante um esperar confiante por ela e por um buscá-la de todo o coração” 137.

O que diz Moltmann acerca da revelação entre fé e esperança? “Na vida cristã, a fé tem a prioridade, mas a esperança tem a primazia... É pela fé que o homem encontra o caminho da verdadeira vida, mas é somente a esperança que o mantém nesse caminho” 138. A primazia da esperança, na fé cristã, tem implicações importantes para nosso conhecimento:

“A fé espera com o fim de saber no que crê. Por isso, todo o seu conhecimento será um conhecimento antecipatório e fragmentário, formando um prelúdio ao futuro prometido... 139.

Portanto, o conhecimento do futuro, que é iluminado pela promessa, é um conhecimento da esperança, é prospectivo e antecipatório, mas é também provisório, fragmentário, aberto, esforçando-se além de suas forças... Dessa forma, o conhecimento de Cristo torna-se um conhecimento antecipatório, provisorio e fragmentário acerca de seu futuro, ou seja, do que ele virá a ser” 140.
Portanto, mesmo o nosso conhecimento de Deus é, para Moltmann, primordialmente um conhecimento do futuro de Deus141. Na verdade, Deus é descrito como um Ser cuja natureza essencial é futura: “O Deus aqui mencionado [no Antigo e no Novo Testamentos] não é um Deus imanente ou transcedentes, mas é o ‘Deus da esperança’(Rm 15.13), um Deus que tem o ‘futuro como sua natureza essencial’ (conforme colocado por E.Bloch), conforme dado a conhecer no Êxodo e na profecia israelita, o Deus a quem, por essa razão, não podemos realmente ter em nós ou sobre nós, mas unicamente à nossa frente, que nos encontra em suas promessas para o futuro, e a quem por isso também não podemos ‘ter’, mas a quem somente podemos aguardar em esperança ativa” 142.

Que tipo de conhecimento, então, nós temos de Jesus Cristo? Somente podemos falar acerca de Jesus Cristo e de seu futuro143. “A esperança cristã pelo futuro vem de observarmos um evento específico e único - a ressurreição e manifestação de Jesus Cristo. Entretanto, a mente teologica esperançosa somente pode observar este evento ao procurar abarcar o horizonte futuro projetado por esse evento. Por isso, reconhecer a ressurreição de Cristo significa reconhecer, nesse evento, o futuro de Deus para o mundo e o futuro que o homem encontra nesse Deus e em seus atos... A Escatologia cristã fala do futuro de Cristo que traz o homem e o mundo à luz” 144.

Moltmann também afirma que, ao falarmos do futuro de Jesus Cristo, queremos denotar o que é descrito na biblia como a “Parousia de Cristo”. Entretanto, acrescenta ele, “a Parousia realmente não significa o retorno de alguém que partiu, mas a ‘chegada da iminente’... Ela é a ‘presença do que está vindo em nossa direção, o que poderíamos chamar de um futuro que está chegando’” 145. Nosso próprio futuro está intimamente ligado com o futuro de Cristo146.

Este futuro de Cristo envolve o senhorio último de Cristo sobre todas as coisas e, portanto, também inclui uma nova criação: “A esperança cristã está dirigida para um novum ultimum, para uma nova criação de todas as coisas pelo Deus da ressurreição de Jesus Cristo. Assim, ela abre uma perspectiva futura que abrange todas as coisas, incluindo também a morte... Ela sabe que nada pode ser ‘muito bom’ até que ‘todas as coisas se tornem novas’” 147.

A Escatologia de Moltmann, portanto, tem dimensões cósmicas: “Agora o mundo inteiro está envolvido no processo escatológico divino da história, não apenas o mundo de homens e nações... Não são apenas os mártires que estão incluídos nos sofrimentos escatológicos do servo de Deus, mas a criação inteira está incluída nos sofrimentos dos últimos dias. O sofrimento torna-se universal e destrói a auto-suficiência do cosmos, do mesmo modo como então a alegria escatológica ressoará nos ‘novos céus e nova terra’” 148.

Para Moltmann, o Reino de dues não é presente, mas apenas futuro; o Cristianismo deve ser entendido como a comunidade daqueles que aguardam pelo Reino de deus149. O único sentido no qual o Reino é presente é “como promessa e esperança para o horizonte futuro de todas as coisas” 150.

O fato de o Reino ser apenas futuro implica que nossa existência presente está em contradição com o que deverá ser151.

“Declarações de esperança de promessa, entretanto, têm de esperar em contradição com a realidade que pode ser experienciada no presente... Presente e futuro, experiência e esperança, estão um em contradição com o outro na Escatologia cristã, resultando disso que o homem não chega à harmonia e ao acordo com a situação dada, mas é posto no conflito entre a esperança e a experiência...

Por isso, também à Escatologia é proibido divagar, e ela tem de formular suas afirmações de esperança em contradição com nossa experiência presente de sofirmento, mal e morte” 152.
Pelo fato de a esperança estar em contradição com a realidade presente, a esperança pode não ser uma mera antecipação passiva de bênçãos futuras, mas deve ser um fermento em nosso pensar, convocando-nos à transformação criativa da realidade153. A esperança cristã nunca pode descansar satisfeita com o status quo, mas deve engajar-se intimamente em todos os “movimentos de mudança histórica” que visam a um mundo melhor154. A Igreja, portanto, tem uma tarefa importante no mundo: “Essa esperança faz, da Igreja Cristã, um constante distúrbio na sociedade humana, procurando, assim como esta última o faz, estabilizar-se em uma ‘cidade parmanente’. Ela faz da igreja a fonte de novos impultos contínuos para a realização da justiça, liberdade e humanidade aqui, à luz do futuro prometido que está por vir” 155.

Uma vez que o ponto mais característico da Escatologia de Moltmann é a antecipação do futuro de Jesus Cristo e do futuro de Deus, sua posição pode ser designada como “Escatologia futurista”. Na verdade, Moltmann é bastante crítico quanto a Barth e a Bultmann, por não fazerem jus à orientação futura da Escatologia bíblica. Ele reefuta a Barth por fazer do eschaton meramente o “presente da eternidade” transcedental e, dessa forma, deixa de ver a Escatologia em termos de progressão histórica156. Ele critica Bultmann por fazer do eschaton meramente uma crise de engajamento kerigmático157. Ele também contesta o ensino de Bultmann acerca da auto-compreesão no momento da decisão, dizendo que não se pode chegar a uma verdadeira auto-compreensão sem uam apreciação do caráter do “ainda-não” de nossa existência presente. No momento da fé, diria Moltmann, não se chega a uma existência autêntica, mas está-se somente a caminho dela158.

Moltmann trouxe uma importante contribuição ao estudo da Escatologia bíblica. Certamente, temos de apreciar sua argumentação de que a Escatologia não é somente um apêndice da teologia dogmática, mas é a chave à qual se ajusta toda a mensagem do Cristianismo. Também, podemos ficar agradecido por sua insistência em que a esperança cristã deve ser um fermento em nosso pensamento e um incentivo para a ação cristã. Temos também de apreciar sua ênfase sobre o fato de que a Escatologia bíblica não se ocupa meramente de momentos atemporais ou de encontros existenciais, porém envolve o cumprimento das promessas de Deus na história. A preocupação de mo, pelas implicações cósmicas da Escatologia, é bem recebida como uma correção à perspectiva escatológica individualista de Bultmann.

Entretanto, existem três pontos sobre os quais temos de discordar de Moltmann. O primeir deles é sua ênfase unilateral ao caráter exclusivamente futuro do Reino de Deus. Tendo admitido que o Reino exclusivamente presente de Dodd é uma distorçãoda verdade bíblica, temos também de reconhecer que o Reino exclusivamente futuro de Moltmann é uma distorção tão séria quanto a de Dodd. Será verdade, como insiste Moltmann, que nossa experiência presente é contraditória unicamente em relação àquilo que aguardamos? Não é fato que Paulo nos diz que já fomos ressuscitados com Cristo (Cl 3.1), que já estamos assentados com ele nos lugares celestiais (Ef 2.6) e que já possuímos “as primícias do Espírito?” (Rm.8.23). Será verdade que só podemos aguardar a Deus, mas não podemos tê-lo em nós? Não é fato que o Novo Testamento nos ensina que Deus habita em nós pelo seu Espírito Santo? (Rm 8.9).

Uma segunda objeção a Moltmann diz respeito à sua interpretação da revelação feita exclusivamente em termos de promessa. Não há dúvida de que a revelação de Deus, nas Escrituras, efetivamente inclui suas promessas, porém inclui também muito mais. Ela é também uma revelação dos feitos redentores de Deus no passado. A crucificação e a ressurreição de Jesus Cristo não significam somente promessas para o futuro, mas também vitória no passado; elas significam, como Vo e Cullmann corretamente sustentam, que grande incisão Escatológica na história já foi feita. Por isso, não é verdade que nosso conheciento de Cristo seja apenas um conhecimento fragmentário do que ele será; é também conhecimento certo do que ele efetivamente realizou por nós. Não é verdade que a proclamação cristã comunica a verdade de modo tal que só a possuímos por aguardá-la; pois, se fosse esse o caso, como poderia o Antigo Testamento falar daqueles que conhecem a verdade, obedecem a verdade, crêe na verdade e receberam o conhecimento da verdade? (Jo 8.32; Gl 5.7; 2 Ts 2.13; Hb 10.26).

Uma terceira dificuldade acerca de Moltmann é que sua descrição do futuro é vaga, meramente formal, faltando-lhe conteúdo específico159. Procura-se em vão, nos escritos de Moltmann, por ensino claro, inequívoco, sobre assuntos tais como a Segunda Vinda de Cristo o Dia do Juízo, a ressurreição futura e a nova terra. Seus comentários acerca desses ensinamentos - quando acontecem - são vagos, abstratos e imprecisos. Fica-se com um sentimento de que algo novo e maravilhoso acontecerá no futuro, mas que ninguém sabe exatamente o que haverá de acontecer.

A título de resumo, quais são os pontos que podemos considerar estabelecidos pelos estudos escatológicos revistos neste apêndice? Podemos observar quatro conclusões: (1) os ensinos escatológicos da Bíblia são integrantes de sua mensagem e não podem ser ignorados; (2) há um sentido pelo qual estamos agora nos últimos dias; (3) há também um sentido segundo o qual a consumação escatológica final da história ainda está no futuro; e (4) o Reino de Deus é tanto presente quanto futuro160. Em outras palavras, se a Escatologia bíblica deve ser completa, ela tem de lidar com realidade presente quanto com esperanças futuras.

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