Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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Notas do Capítulo 2
1. W. Manson, “Eschatology in the New Testament” (Escatologia no Novo Testamento), Scottish Journal of Theology Occasional Papers Vol.2 (Edição Avulsa do Jornal Escocês de Teologia) Edinburgh: Oliver and Boyd, 1953, p.6.

2. Ibid., p.7

3. O Cullmann, Salvation, p.172.

4. Ver G. Kittel, “eschatos”, in Theological Dictionary of the New Testament (Dicionário Teológico do Novo Testamento), Grand Rapids: Eerdmans, 1964.

5. O termos “escatologia inaugurada” é usado por J.A T. Robinson em seu livro Jesus and His Coming (Jesus e sua Vinda) (London: SCM, 1957). Foi primeiro sugerido por G.Florovsky (W. A Whithehouse, “The Modern Discussion of Eschatology”, Scottish Journal of Theology Occasional Papers Vol.2, p.76 número 1) (“A Discussão Moderna da Escatologia”, in Jornal Escocês de Teologia, Edição Ocasional).



6. G. Vos, Pauline Eschatology (Escatologia Paulina), p.46

7. Arnt E Gingrich destacam que o plural de aion é usado freqüentemente no Novo Testamento para designar a eternidade (Greek-English Lexicon of the New Testament) (Léxico Grego-Inglês do Novo Testamento), Chicago: Univ of Chicago Press, 1957, pp.26-27). Veja também H. Sasse “aion”, DITNT, I.

8. Uma justaposição semelhante de ho aion houtos e ho aion mellon é encontrada em Ef 1.20-21.

9. Um tipo semelhante de expressão é encontrado em Hb 1.2, onde é dito que Deus, que antigamente falou aos pais pelos profetas “nestes últimos dias (literalmente: “ao final destes dias”, ep’eschatou ton hemeron touton) tem-nos falado pelo Filho”. Cp. Também 1 Pe 1.20 “conhecido (Cristo), com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos (ep’eschatou ton chronon), por amor de vós.”

10. G.C. Berkouwe, Return, pp.12-13.

11. G.E. Ladd, Presence, p.337.

12. O Culmann, Time, p. 87.

13. H. Berkhof, Well-Founded Hope (Esperança Bem-fundamentada), p.19.



14. Ibid, p.20.
CAPÍTULO 3
O SENTIDO DA HISTÓRIA
Poucas questões são tão cruciais, no mundo de hoje, como a do sentido da história. Após o trauma de duas guerras mundiais no espaço de uma geração o pesadelo da Alemanha de Hitler e a futilidade do Vietnam, nossa geração está clamando por uma resposta a esta questão. Um teólogo eminente de nossos dias, Hendrikus Berkhof, observa: “Nossa geração está estrangulada pelo medo: medo do homem, por seu futuro e pela direção em que somos dirigidos, contra nossa vontade e desejo. E dessa situação brota um grito por iluminação, em relação ao sentido da existência da raça humana, e acerca do alvo para o qual estamos direcionados. Esse é um grito por uma resposta à velha pergunta sobre o sentido da história” 1.

Berkhof continua, dizendo que a igreja de Jesus Cristo deve conhecer a resposta à pergunta do sentido da história, uma vez que a Bíblia nos fornece essa resposta. Por muitos séculos, porém, a igreja e seus teólogos mal perceberam esse material na Bíblia - material esse que podia tê-los provido de uma teologia da história 2. Por causa disso, muitos cristãos hoje falham em viver na plena luz da interpretação cristã da história. Berkhof continua: “A igreja de Cristo o século vinte é espiritualmente incapaz de resistir às rápidas mudanças que acontecem a seu redor porque ela não aprendeu a ver a história na perspectiva do reinado de Cristo. Por essa razão ele interpreta os eventos de seu tempo em termos inteiramente seculares. Ela é dominada pelo temos num sentido mundano, e de um modo mundano ela tenta livrar-se do temor. Neste processo Deus não passa de um substituto beneficente”3.

Por causa disso, deveríamos nos deter algo mais para examinar a questão do sentido da história. Este é um aspecto da escatologia que nós devemos não só entender, mas em cuja luz devemos mais e mais viver e trabalhar.

Passemos a examinar, primeiramente, duas interpretações da história que devemos rejeitar. A primeira delas é encontrada entre os antigos gregos. Os gregos tinham uma visão da história a que podemos chamar de “cíclica”: as coisas acontecem em ciclos infinitamente repetidos, de modo que aquilo que está acontecendo hoje vai se repetir algum dia. Baseados neste tipo de visão, fica obviamente impossível encontrar qualquer sentido verdadeiro para a história. É concebível que se possa viver para determinados alvos individuais de vida, mas a história propriamente dita não poderia ser considerada como dirigindo-se para um alvo, uma vez que a história somente se repete a si mesma. John Marsh deu-nos uma análise penetrante da visão grega da história:

“A partir da natureza de sua cosmologia, era, talvez, impossível para os gregos desenvolver qualquer coisa diferente de sua visão cíclica da história. A idade áurea do mundo começaria um dia novamente, e o ciclo dos eventos iria se repetir. Se uma visão assim é verdadeira, a existência histórica foi então privada de sua significação. O que faço agora eu já fiz em um ciclo mundial anterior, e voltarei a fazê-lo em ciclos futuros do mundo. Desaparecem responsabilidade e decisão, e com elas qualquer significação real para vida história que, na verdade, se torna apenas num ciclo algo mais grandioso. Exatamente como o grão, cada ano, é semeado, cresce a amadurece, assim os eventos da história irão se repetir freqüentemente. Além disso, se tudo que pode acontecer é a constante repetição de um ciclo de eventos, não há possibilidade de sentido no ciclo em si. Ele não alcança nada em si próprio e também não pode contribuir para nada fora de si. Os eventos da história são destituídos de significado”4.
Os gregos, portanto, não podiam conceber a história em si como tendo propósito ou levando a um fim. Para os gregos, tempo e história eram apenas incorporações imperfeitas de ideais que nunca foram realizados. Tempo e história, para eles, representavam o domínio do qual a pessoa buscava ser libertada. Conforme salienta Oscar Cullmann, esta compreensão da história também afeta a compreensão que o sujeito tem da redenção:

“Uma vez que, no pensamento grego, o tempo não é concebido como uma linha ascendente oblíqua, com começo e fim, porém, mais como um círculo, o fato de o homem estar preso ao tempo deve ser experimentado aqui como uma escravidão, como uma desgraça. O tempo se move dentro do eterno curso circular, no qual tudo continua a se repetir. É por isso que o pensamento filosófico do mundo grego se ocupa com o problema do tempo. E é também por causa disso que todo grego que se esforça para alcançar a redenção, tem como objetivo ser liberto desse eterno curso circular e, deste modo, ser liberto do próprio tempo.

Para os gregos, a idéia de a redenção acontecer através de uma ação divina no curso dos eventos, no tempo, é impossível. Redenção, no helenismo, somente pode consistir do fato de sermos transferidos da existência neste mundo, uma existência presa ao curso circular do tempo, para dentro do Além que está afastado do tempo, e está já e sempre acessível” 5.

A visão da história dos gregos é incompatível com a visão cristã, que vê história como um cumprimento do propósito de Deus, e como movendo-se em direção a um alvo. Para os escritores da Bíblia, história não é uma série de ciclos repetitivos sem sentido, mas um veículo através do qual Deus realiza seus propósitos para o homem e o universo. A idéia de que a história está se movendo para alvos estabelecidos por Deus, e que o futuro é para ser visto como o cumprimento de promessas feitas no passado, é a contribuição singular dos profetas de Israel.

Uma Segunda interpretação da história, que deve ser rejeitada, é a do existencialismo ateísta. Para o existencialismo desse tipo, a história é sem sentido. Nenhum padrão significativo, nem um movimento para um fim podem ser vistos na historia; só uma sucessão de eventos desprovida de sentido. Sento este o caso, cada um é deixado com o que pareceria ser um total individualismo: cada pessoa deve tentar encontrar o seu caminho da existência não autêntica para a existência autêntica, através da tomada de decisões significativas. Mas, a história como um todo, fica desprovida de sentido.

Podemos ver uma ilustração desta abordagem a respeito da história na obra de Albert Camus intitulada “A Peste”. A cidade de Orã foi tomada de ratos, que trouxeram com eles a horrível peste bubônica. Corajosamente, o médico e os que estavam ligados a ele combatiam a peste; finalmente eles conseguiram deixar a epidemia sob controle. Ao final do livro, porém, o doutor diz: “É apenas uma questão de tempo. Os ratos voltarão”. Vários indivíduos trabalharam heroicamente e com auto-sacrifício para estancar a maré de sofrimento; mas nada de sentido duradouro foi efetuado na história - as coisas permanecem praticamente assim como sempre foram. O fato de A Peste ser considerada como a representação alegórica, de Camus, do reinado de terror que Hitler impôs à Europa, serve apenas para enfatizar o que acabamos de dizer.

A visão existencialista da história é, portanto, incompatível com a visão cristã. Sem negar a importância da decisão individual, o cristianismo afirma haver sentido na história. Deus está desenvolvendo seu plano na história. Indivíduos podem rebelar-se contra Deus e tentar frustar seu plano. Outros tentarão realizar sua vontade e viver para o progresso do seu reino. Em ambos os casos Deus permanece no controle.

Quais são as principais características de uma interpretação cristã da história? Embora mais pontos possam ser mencionados, vejamos cinco características.



(1) A história é um desenvolvimento dos propósitos de Deus. Deus revela seus propósitos na história. Isto é verdadeiro primeiramente no que é geralmente denominado “história sacra” ou “história santa”. Com “história sacra” queremos dizer história da redenção - redenção que Deus faz de seu povo através de Jesus Cristo. Esta redenção tem suas raízes nas promessas, tipos e cerimônias do Antigo Testamento; chega a seu cumprimento na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo; e alcançará sua consumação nos novos céus e nova terra, que ainda são futuros. Como fica evidente pela descrição acima, a redenção tem uma dimensão histórica. Ela envolve a história da raça humana, a história de uma nação (Israel), a história de uma pessoa (Jesus de Nazaré) e a história de um movimento (o início e primeiros anos da igreja). estas histórias são reveladoras de Deus: elas desvendam ou expõem seu propósito redentor para com a raça humana. Os eventos dessa “história sacra” revelaram Deus antes de haver uma Bíblica completa. Poderia ser dito inclusive que Deus revelou a si mesmo ao homem primeiramente através de eventos históricos - eventos como o êxodo, a travessia do Jordão, a volta do cativeiro, o nascimento de Jesus Cristo e o derramamento do Espírito. Mas, como George Ladd enfatiza: “Estes eventos são... auto-explanatórios, mas requerem a Palavra de Deus para interpretar o caráter revelatórios, mas requerem a Palavra de Deus para interpretação inspirada do sentido divinamente intencionado destes eventos”6.

Embora seja verdade, portanto, que Deus se auto-revela na Bíblia, que é sua Palavra, não devemos esquecer que ele se revela primeiramente nos eventos históricos que estão registrados na Bíblia. Revelação acontece tanto através de atos como de palavras. Mas os atos necessitam de uma interpretação antes que sua mensagem revelatória possa ser entendida. Deus revela a si próprio, portanto, através de ambos, atos e palavras - através de seus atos conforme interpretados por suas palavras. Assim, por exemplo, somente quando o evento do êxodo é interpretado pelos escritores do Antigo Testamento é que ele é entendido como sendo uma revelação do poder redentor e do amor do Deus de Israel que, em cumprimento de suas promessas e em resposta às orações do seu povo, o libertou da escravidão egípcia.

Até aqui temos nos ocupado somente da “história sacra”. Vimos que a “história sacra” é reveladora de Deus e de seus propósitos. Porém, uma vez que a “história sacra” é a chave para se entender o sentido de toda a história (porque está no cerne da ação de Deus em relação ao homem), e uma vez que toda a história está sob controle e direção de Deus, nós podemos dizer que toda a história é uma revelação de Deus. Isto não significa que a história seja sempre cristalina em sua mensagem. A verdade, freqüentemente, está no patíbulo e o erro, freqüentemente, está no trono. Enquanto os eventos históricos estão acontecendo, é geralmente bem difícil, se não impossível, discernir o que Deus nos está dizendo através deles. Ainda voltaremos a tratar deste assunto, em conexão com a natureza provisória dos julgamentos históricos. Contudo, deve ser mantido que história - particularmente a história redentora - revela Deus e seus propósitos.

(2) Deus é o Senhor da história. Isto está claramente ensinado na Escritura. Os escritores do Antigo Testamento afirmavam que o reino de Deus domina sobre tudo (Sl 103.19), inclusive sobre os reinos das nações (2 Cr 20.6) e que ele inclina o coração do rei para onde deseja (Pv 21.1). Os escritores do Novo Testamento nos contam que Deus realiza todas as coisas segundo o conselho da sua vontade (Ef 1.11) e que ele tem determinado os tempos estabelecidos para as nações da terra e os lugares exatos onde elas deveriam viver (At 17.26).

Isto significa, conforme Ladd o diz, que “Deus é Rei e atua na história para trazer a história para um fim divinamente direcionado”7. Deus está no controle da história. Isto não significa que ele manipula os homens como se estes fossem marionetes; a liberdade do homem em tomar suas próprias decisões e sua responsabilidade por essas decisões são mantidas em todos os tempos. Mas isto significa que Deus tem domínio inclusive sobre as obras malignas dos homens, fazendo-as servir a seu propósito. Uma ilustração veterotestamentária excepcional para isto é encontrada na história de José. Depois de os irmãos de José o terem vendido como escravo, José tornou-se o principal governador do Egito sob Faraó, e foi assim, um instrumento para a preservação de muitos, inclusive de sua própria família, por ocasião da grande fome. As palavras que ele endereçou a seus irmãos, após a morte de seu pai, sublinham o soberano senhorio de Deus sobre a história: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente de vida” (Gn 50.20). A suprema ilustração do Novo Testamento acerca do soberano controle de Deus sobre a história é, obviamente, a crucificação de Jesus Cristo. Apesar de ser o feito mais perverso ocorrido na história, inclusive este crime terrível estava sob o completo controle de Deus: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At 4.27,28)). Precisamente por causa do controle de Deus, o mais detestável feito consumado na história tornou-se o cerne do plano redentor de Deus e a suprema fonte de bênçãos para a raça humana. Conforme o autor do Sl 76 diz: “Pois até a ira humana há de louvar-te” (v.10).

O fato de Deus ser o Senhor da história, implica que todo o que ocorre serve a seu propósito, seja de uma forma ou de outra. A queda de Samaria sob os assírios, no oitavo século a C., estava tão completamente sob o seu controle, que Deus pode tomar a Assíria de cetro de sua ira (Is 10.5). E, então, depois de Deus ter usado a Assíria para cumprir seu propósito, ele a humilhou e destruiu (Is 10.12,24-27). Nações estrangeiras e governadores estão tão completamente na mão de Deus que ele pode chamar Ciro, o soberano eventualmente a sua terra - , de seu pastor e seu ungido (Is 44.28; 45.1).

O que isso nos acrescenta é que toda a história cumpre os propósitos soberanos de Deus, tanto as nações como os indivíduos. Nações se elevam e caem de acordo com a vontade de Deus; ele as usa conforme lhe aprouver e domina sobre seus planos. A mesma coisa é verdade para os indivíduos. Aqueles que se rebelam contra Deus, e desafiam suas leis, estão “acumulando ira” para si próprios “para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Rm 2.5), considerando que todas as coisas “cooperam para o bem daqueles que amam a Deus e vivem para seu louvor” (Rm 8.28, ASV).

Pelo fato de ser Deus o Senhor da história, a história tem sentido e direção. Nem sempre podemos ser capazes de discernir o propósito de Deus na história, mas que esse propósito existe é um aspecto primordial de nossa fé. Nem é necessário dizer que a suprema revelação do propósito de Deus na história é a vinda de Jesus Cristo ao mundo: “É o propósito e a vontade do Criador que dão à história a sua configuração; e a penetração do eterno na plenitude dos tempos foi nada menos que a asseveração, na história, do propósito eterno de Deus” 8.



(2) Cristo é o centro da história.

“o dinamismo e caráter histórico exclusivo da cristandade são resultado da Vinda de Cristo, a qual constitui o fato central da história cristã. Este fato é único e - não repetitivo -, a qualidade essencial de tudo que é histórico; e ele enfoca o todo da história mundial”9. Estas palavras do escritor russo, Nicolas Berdyaev, servirão para nos introduzir à outra característica principal da interpretação cristã da história: a de que Cristo é o centro da história. Oscar Cullmann chama nossa atenção para o fato de que o modo pelo qual datamos nossos calendários, numerando anos antes ou depois do nascimento de Cristo, tem implicações teológicas:

“... O ponto interessante e teologicamente decisivo não é o fato que recua no tempo até Dionysius Exiguus, que o nascimento de Cristo foi tomado como ponto de partida da enumeração subseqüente... O decisivo é antes a prática, que tem estado em voga apenas nos últimos dois séculos, de numerar tanto para diante como para trás a partir do nascimento de Cristo. Apenas quando isto é feito é que o evento-Cristo é considerado como o ponto central temporal de todo o processo histórico.

Nós dizemos “sistema cristão de contagem do tempo”. Mas ele é o sistema comum no mundo Ocidental... Mas hoje dificilmente alguém considera o fato de que esta divisão não é uma mera convenção que repousa sobre a tradição cristã, porém, na verdade, pressupões asserções fundamentais da teologia do Novo Testamento em relação a tempo e história”10.

Cullmann continua dizendo que a diferença principal entre a compreensão veterotestamentária de história e a do Novo Testamento é que o ponto central da história moveu-se do futuro para o passado. Para o crente neotestamentário a vinda de Cristo é esse ponto central, e por causa disso ele está consciente de viver entre o ponto central da história e sua culminação - A Parousia de Jesus Cristo 11.

Isso implica em que a vinda de Cristo foi o evento singular mais importante da história humana. Implica também em que este evento teve significação decisiva para toda a história subseqüente e, inclusive, para toda a história precedente. A analogia de Cullmann do “Dia D ” e “Dia V” já foi mencionada: A primeira vinda de Cristo foi o “Dia D”, no qual aconteceu a batalha decisiva da guerra, garantindo a derrota final do inimigo. A segunda vinda de Cristo será como o “Dia V”, no qual o inimigo finalmente depõe suas armas e se rende 12. O crente neotestamentário vive, por assim dizer, entre o “Dia D” e o “Dia V” 13.

O fato de a vinda de Cristo ser o ponto central da história significa que, neste evento central, “não apenas tudo o que acontece antes é cumprido, mas também que tudo o que é futuro está decidido” 14. O evento-Cristo, portanto, coloca seu selo distintivo em toda a história.

“... Uma vez que o reino de Deus foi cumprido em Cristo, nenhum outro se não o mesmo reino pode chegar ao fim da história... Esta ação [o cumprimento das promessas do Antigo Testamento na vinda de Cristo] cumpre tanto o que veio antes como o que se segue depois, na história, e constitui ontologicamente a imposição do modelo divino de providência e redenção sobre a história e, epistemologicamente, o ponto na qual a revelação da vontade e propósito divinos são totalmente revelados. Ela significa também que o fim do processo histórico não pode ser outro que a manifestação final ou revelação do cumprimento da história que teve lugar em seu ‘centro’” 15.


A Bíblia, portanto, nos ensina a ver a história humana como completamente dominada por Jesus Cristo. A história é a esfera da redenção de Deus, na qual ele triunfa sobre o pecado do homem através de Cristo, e uma vez mais reconcilia o mundo consigo mesmo (2 Co 5.19). através de Cristo Deus ganhou de uma vez por todas a vitória sobre a morte (1 Co 15.21,22), Satanás (Jo 12.31), e todos os poderes hostis (Cl 2.15). A centralidade de Cristo na história está representada simbolicamente no quinto capítulo do livro de Apocalipse. Somente o Cordeiro é digno de tomar o rolo e de romper seus sete selos - a ruptura dos selos significando não apenas a interpretação da história mas a execução dos eventos da história (conforme mostram os capítulos seguintes). O cântico dos seres viventes e dos anciãos, que se segue aos louvores dados ao Cordeiro como Redentor do mundo:

Digno és de tomar o livro



e de abrir-lhe os selos,

porque fostes morto e com teu sangue

compraste para Deus os que procedem

de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5.9).
(4) A nova era já foi instaurada. Conforme observamos no capítulo 2, o crente do Novo Testamento estava consciente de que ele vivia nos últimos dias e na última hora. Podemos notar alguma evidência bíblica mais para isto. Cristo diz de João Batista: “Entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João; mas o menor do reino de Deus é maior do que ele” (Lc 7.28). a implicação das palavras de Jesus parece ser que João, como o predecessor de Cristo, ainda pertenceu à antiga era, ao invés de pertencer à nova era do reino que Jesus estava agora inaugurando. Por outro lado, aqueles que se tornam membros do reino de Cristo, começam por meio dele a viver no novo mundo.

Entre os escritores bíblicos não há nenhum que tenha dado tanta ênfase aos fato de que Cristo nos introduziu numa nova era, como o Apóstolo Paulo. Em Cl 1.13, ele diz que Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor”, significando que nós fomos libertados do poder do velho mundo do pecado (cp Gl 1.4). Em Ef 2.5-6, Paulo frisa que Deus “nos deu vida juntamente com Cristo... e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus”, dando a entender que pela fé nós estamos, mesmo agora, vivendo na nova era. Em Rm 12.2, ele insta especificamente com seus leitores a “não se conformarem com este mundo [ou era; a palavra grega é aion], mas para “se transformarem” pela renovação de vossa mente” (RSV). O conhecido contraste paulino entre “carne” e “Espírito” não é tanto um contraste psicológico entre dois aspectos de nosso ser, mas um contraste entre dois estilos de vida que pertencem a duas esferas de poder, ou a dois mundos: o velho e o novo 16. Um comentário similar poderia ser feito acerca do contraste entre “velho homem” e “novo homem” nos escritos paulinos. “Velho homem” refere-se à velha era ou mundo no qual o homem é um escravo do pecado, ao passo que “novo homem” designa a nova era ou mundo no qual o homem está liberto da escravidão do pecado e é livre para viver para o louvor de Deus. O crente neotestamentário foi transferido da velha era do pecado para a nova era da liberdade cristã 17.

Herman Ridderbos vê neste conceito a chave para a pregação de Paulo:

“... Antes de tudo ele, Paulo, era o proclamador de um novo tempo, o grande ponto decisivo na história da redenção, a introdução de uma nova era mundial. Tal era a perspectiva dominante e o fundamento de toda a pregação de Paulo. Somente ela pode iluminar as várias facetas e inter-relações de sua pregação, e.g., justificação, estar em Cristo, sofrer, morrer e ressuscitar com Cristo, o conflito entre o espírito e a carne, o drama cósmico, etc.

A pessoa de Jesus Cristo forma o mistério e o ponto central desta grande revelação redentora da história. Pelo fato de Cristo se ter revelado, um novo século foi instaurado, o velho mundo terminou e o novo mundo começou”18.

Alguém poderia objetar, dizendo que o que foi desenvolvido acima não é característico da história geral, uma vez que somente os cristãos estão vivendo na nova era que Cristo inaugurou. A questão é, porém, que desde que Cristo apareceu aqui na terra - foi crucificado e ressuscitou dos mortos -, a nova era foi verdadeiramente inaugurada. O fato de que nem todos os homens estarem participando, pela fé, das bênçãos da nova era não anula a existência dessa era. John Marsh fornece a seguinte ilustração, que ele próprio ouvira do Bispo Nygren:

“Hitler ocupou a Noruega mas, em 1945, ela foi libertada. Suponhamos que bem longe, no quase inacessível norte, alguma aldeia com um governante nazista não tenha, por algumas semanas, ouvido a notícia da libertação. durante esse período, nós podíamos dizer, que os habitantes dessa aldeia estavam vivendo no ‘velho’ tempo do nazismo, em vez de no ‘novo’ tempo da libertação norueguesa.

...Qualquer pessoa que viva agora num mundo que foi liberto da tirania dos poderes malignos, e que ignore ou seja indiferente ao que Cristo fez, está exatamente na posição desses noruegueses a quem as boas novas de libertação não alcançaram. Em outras palavras, é fácil para nós perceber que os homens podem viver na era a C., em plena A D.” 19.

O fato é, então, que Cristo verdadeiramente introduziu a nova era, a era do reino de Deus. Por causa disso, o mundo não é mais o mesmo desde que Cristo veio; uma mudança eletrizante aconteceu. A menos que uma pessoa conheça e admita esta mudança, ela não terá realmente entendido o sentido da história.

(5) Tudo na história se move em direção a um alvo: os novos céus e nova terra. Não obstante ter Cristo instaurado a nova era, a sua consumação final ainda é futura. Por causa disso, a Bíblia vê a história como dirigida para um alvo divinamente estabelecido. A idéia de que a história tem um alvo é, como vimos, a contribuição peculiar dos profetas hebreus. Nas palavras de Karl Lowith: “O horizonte temporal para um alvo final é, porém um futuro escatológico, e o futuro para nós existe apenas na expectação e esperança. O sentido final de um propósito transcendente está centrado num futuro esperado. Tal expectação era bem mais intensamente viva entre os profetas hebreus; ela não existia entre os filósofos gregos” 20.

Não só os profetas hebreus mas também os escritores do Noto Testamento vêem a história como dirigida para um alvo. No capítulo anterior, notamos que aquilo que os escritores do Antigo Testamento tinham representado como um movimento, era visto pelos escritores do Novo Testamento como provido de dois estágios: a era messiânica presente e uma era que ainda era futura. A primeira vinda de Cristo deveria ser seguida de uma segunda vinda. O reino de Deus, que foi estabelecido, ainda não chegou à sua consumação final. Embora muitas profecias tenham sido cumpridas muitas ainda estão para ser cumpridas.

O crente neotestamentário, portanto, está ciente de que a história move-se para o alvo desta consumação final. Esta consumação da história, como ele a vê, inclui eventos tais como a Segunda Vinda de Cristo, a ressurreição geral, o Dia do Juízo, e os novos céus e a nova terra. Uma vez que os novos céus e a nova terra serão a culminação da história, podemos dizer que toda história está se movendo para este alvo.

Para entender completamente o sentido da história, portanto, devemos ver a redenção de Deus em dimensões cósmicas. Uma vez que a expressão “céus e terra” é a descrição bíblica de todo o cosmos, podemos dizer que o alvo da redenção é nada menos do que a renovação do cosmos., aquilo que os cientistas da atualidade denominam de universo. Uma vez que a queda do homem no pecado afetou não apenas a ele só mas, também, ao resto da criação (ver Gn 3.17-18; Rm 8.19-23), a redenção do pecado deve igualmente envolver a totalidade da criação de Deus. Hermann Ridderbos faz o seguinte comentário: “Esta redenção [operada por Cristo]... adquire o sentido de um drama divino que abrange tudo, ou, seja, é uma luta cósmica, na qual está envolvido não somente o homem em seu pecado e condição de perdição, e na qual estão inscritos os céus e a terra, anjos e demônios, e cujo alvo é trazer de volta todo o cosmos criado para estar sob o domínio e senhorio de Deus” 21.

Esta dimensão cósmica da redenção está claramente ensinada em passagens como Ef 1.9-10 e Cl 1.19-20. A primeira passagem diz o seguinte: “desvendando-nos [Deus] o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra”. A passagem de Colossenses é importante porque conjuga a redenção cósmica com o fato de que Cristo é o autor da criação tanto como da redenção (veja v.16) “todas as coisas foram criadas através dele [Cristo] e para ele”. Cristo está envolvido na redenção como aquele através de quem e para quem todas as coisas foram criadas, e como aquele que, por causa disso, está mais profundamente interessado na criação inteira. Nada menos do que a libertação total da criação de seu “cativeiro da corrupção” (Rm 8.21) poderá satisfazer os propósitos redentores de Deus.

Para que possamos ver a história à luz destes propósitos, portanto, nós devemos vê-la como movendo-se em direção ao alvo do universo finalmente restaurado e glorificado. Retornaremos a este assunto mais adiante, quando tratarmos do tópico da nova terra. Por enquanto, será bastante lembrar que é essencial à interpretação cristã da história perceber sua natureza orientada para o alvo. Isso não significa que nós podemos ver sempre, exatamente, como cada evento histórico está relacionado com o alvo da história, uma vez que isso, muitas vezes, é extremamente difícil. Mas significa, entretanto, que ao lermos as manchetes, ouvirmos o noticiário e lermos as revistas informativas, devemos crer que o Deus da história está sempre no controle, e que a história está se movendo firmemente para seu alvo.

Estas são as principais características da interpretação cristã da história. Passemos agora a observar algumas das implicações desta interpretação da história para nossa compreensão do mundo em que vivemos.

(a) A atividade característica da era presente são as missões. Se Cristo realmente inaugurou o reino de Deus e se ele realmente nos deu a Grande Comissão (Mt 28.19,20), como ele de fato, o fez, então a grande tarefa da igreja é levar o evangelho a cada criatura. O próprio Cristo disse: “E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim” (Mt 24.14). uma razão pela qual Cristo ainda não retornou, conforme 2 Pe 3.9, é que o Senhor é paciente com os homens “não desejando que nenhum pereça mas que todos venham ao arrependimento” (ASV). Todas estas considerações somam-se a uma coisa: a atividade missionária da igreja que é a atividade característica dessa era entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.

Oscar Cullmann expressa este pensamento nas seguintes palavras: “A proclamação missionária da Igreja, sua pregação do evangelho, dá ao período entre a ressurreição de Cristo e a Parousia seu significado para a história redentora; e ela tem este significado através de sua conexão com o Senhorio presente de Cristo” 22. Hendrikus Berkhof, na verdade, devota um capítulo inteiro de seu livro Christ the Meaning of History (Cristo, o sentido da história) para “O Esforço Missionário Como Uma Força Fazedora da História” 23. Neste parágrafo, Berkhof fala das novas realidades que esta pregação missionária trouxe para o mundo: uma nova compreensão do homem e da natureza e o novo reconhecimento do mundo como uma unidade. Ele encontra nas missões cristãs uma evidência do poder da ressurreição de Cristo: “O que é verdadeiro do sofrimento de Cristo é também verdadeiro a respeito do poder de sua ressurreição. Este poder se auto-manifesta não apenas no indivíduo, mas também na Igreja como um todo. Como tal, é de significação constitucional para o Reino e seu fazer história. A marca primeira e central deste fato é a continuação da empresa missionária (Mt 24.14)” 24.

(b) Nós vivemos numa tensão contínua entre o já e o ainda não. Como vimos, a posição do crente neotestamentário é esta: ele vive nos últimos dias, mas o último dia ainda não chegou; ele está na nova era, mas a era final ainda não está aí. Embora ele desfrute dos “poderes da era porvir”, ele ainda não está livre de pecado, sofrimento e morte. Embora ele tenha as primícias do Espírito, ele geme interiormente enquanto espera por sua redenção final.

Esta tensão dá à era presente seu sabor peculiar. O cristão desfruta hoje de bênçãos que o crente veterotestamentário nunca conheceu; ele tem uma compreensão muito mais rica do plano redentor de Deus do que seu colega-crente do Antigo Testamento. Mas o cristão ainda não está no final do caminho. Embora ele seja agora um filho de Deus, ainda não é aparente o que ele será (1 Jo 3.2). embora ele saiba que está em Cristo e que ninguém jamais poderá arrancá-lo fora das mãos de Cristo, ele percebe que ainda não tem posse da perfeição e que precisa confessar seus pecados diariamente.

Uma vez que Cristo conquistou a vitória, nós devemos ver evidências desta vitória na história e no mundo ao nosso redor. Mas, desde que a consumação final da vitória ainda não aconteceu, continuará havendo muitas coisas na história que não entendemos, que não parecem refletir a vitória de Cristo. Até o Dia do Juízo final, a história continuará a ser marcada por uma certa ambigüidade. Karl Lowith bem comenta:

“Invisivelmente, a história mudou fundamentalmente; visivelmente, ela continua a mesma, porque o Reino de Deus já está próximo e assim, como um eschaton, ainda por vir. Esta ambigüidade é essencial a toda a história após Cristo: o tempo já está cumprido e ainda não consumado... em função desta profunda ambigüidade do cumprimento histórico onde tudo ‘já’ é ‘ainda-não’ é, o cristão vive numa tensão radical entre presente e futuro. Ele tem fé e tem esperança. Estando tranqüilo em sua experiência presente e concentrando-se no futuro, ele confiantemente desfruta daquilo em função do que está se esforçando e aguardando ansiosamente” 25.


(C) Há duas correntes de desenvolvimento na história. A tensão descrita acima entre o já e o ainda-não implica que, lado a lado com o crescimento e desenvolvimento do reino de Deus, na história do mundo desde a vinda de Cristo, nós também vemos o crescimento e desenvolvimento do “reino do mal”. Recordaremos que na Parábola do Joio (Mt 13.24-30, 36-43), Jesus ensinou que o joio que representa os filhos do maligno - continuará crescendo até a hora da ceifa, quando será finalmente separado do trigo. Em outras palavras, o reino de Satanás existirá e crescerá enquanto o reino de Deus crescer, até o Dia do Juízo.

Berkhof conecta o desenvolvimento paralelo destas duas correntes com a cruz e ressurreição de Cristo e sustenta que ambas as correntes, a cristã e a anticristã, alcançarão uma crise final antes do fim da história humana como nós a conhecemos: “... As duas correntes reveladas na cruz e ressurreição, a corrente da rebelião do homem e a corrente do poder superior de Deus, irão igualmente continuar e serão aprofundadas e fortalecidas até que ambas alcancem um ponto de culminação e uma crise. Isto é o que as imagens sobre os anticristos e o Anticristo, e acerca do Milênio e a grande batalha final, procuram expressar” 26. Ele insiste que para vermos a história, em sua totalidade, devemos continuar a ver ambas as correntes: “...Crus e ressurreição são ambas conjuntamente o segredo da história. Devemos rejeitar a falta de apreciação de um ou dos dois fatores, ou o isolamento um do outro como, por exemplo, é feito quando o poder da ressurreição é considerado ativo apenas na Igreja... não há equilíbrio entre cruz e ressurreição. As sombras criadas pelo reinado de Cristo são perfeitamente parte desta dispensação, enquanto que a luz do seu reino permanecerá ofuscada até o fim” 27.

Aqui vemos, novamente, a ambigüidade da história. A história não revela um triunfo simples do bem sobre o mal, nem uma vitória total do mal sobre o bem. Mal e bem continuam a existir lado a lado. O conflito entre ambos continua durante a era presente, porém, uma vez que Cristo conquistou a vitória, a solução final do conflito nunca está em dúvida. O inimigo está lutando uma batalha perdida.

Isto nos leva a considerar a questão do progresso. Podemos nós dizer que a história revela progresso genuíno? Novamente nos deparamos com o problema da ambigüidade da história. Para cada avanço, assim nos parece, há um recuo correspondente. A invenção do automóvel trouxe consigo a poluição do ar e um temível aumento dos acidentes rodoviários. A invenção da imprensa trouxe uma enchente de livros e revistas inferiores, triviais e mesmo pornográficos. O advento da TV significou a apresentação de muitos programas envolvendo violência, com um conseqüente aumento dos crimes de violência. A cisão do átomo resultou no indescritível horror de Nagasaki e Hiroshima. E assim por diante. Para cada passo à frente, como se pode ver, a raça humana dá um passo para trás. Progressão está emparelhada com regressão.

Nicolas Berdyaev conjuga o conceito de progresso com a visão otimista de vida característica do século dezenove, mostrando que a idéia do progresso está baseada em um tipo ingênuo de Utopia que o homem do século vinte não pode aceitar mais 28. Ele sustenta que, quando nós olhamos para a história de pessoas e nações numa escala ampla, não encontramos progresso real, porém mais ascensão seguida de declínio:

“Ao examinarmos o destino de pessoas, sociedades, culturas, observamos que todas elas passam por estágios nítidos de nascimento, infância, adolescência, maturidade, e florescência, idade avançada, decadência e morte. Toda grande sociedade e cultura nacionais e ficam sujeitas a este progresso de decadência e morte. Valores culturais são imortais porque cultura contém um princípio imortal. Mas as próprias pessoas, consideradas como organismos vivos dentro da estrutura da história, estão condenadas à decadência e morte tão logo sua eflorescência tenha passado. Nenhuma grande cultura ficou imune à decadência...

Tais considerações têm levado historiadores importantes, tais como Edouard Meyer, a negar categoricamente a existência de progresso humano numa linha reta ascendente. Existe um desenvolvimento de tipos apenas distintos de cultura, e culturas prósperas nem sempre alcançam o nível de suas precedentes” 29.

Enquanto a visão histórica de Berdyaev é basicamente pessimista, a de Hendrikus Berkhof é mais otimista. Ele não nega que, paralelamente ao crescimento do reino de Deus, os poderes anticristãos também crescem. Contudo, ele contesta que o crescimento desses poderes anticristãos seja apenas o lado sombrio do crescimento do reino de Deus 30. Portanto, Berkhof insiste em que, ao olharmos para a história com os olhos da fé, podemos ver progresso uma vez que, inclusive, os movimentos e forças anticristãs estão sempre sob o controle de Cristo e, em última instância, servem à seus propósitos:

“Na luta por uma existência genuinamente humana, pela libertação do sofrimento, pela elevação do subdesenvolvimento, pela redenção dos cativos, pela diminuição das diferenças de raça e classe, por oposição ao caos, ao crime, ao sofrimento, à doença e à ignorância - em resumo, na luta pelo que denominamos progresso -, há uma atividade acontecendo por todo o mundo para a honra de Cristo. Às vezes ela é realizada por pessoas que o conhecem e desejam [a honra de Cristo]; mais freqüentemente, é realizada por aqueles que não tem esse interesse, mas cujas obras provam que Cristo verdadeiramente recebeu - bem objetivamente - todo o poder na terra” 31.
Em resumo, embora devamos sempre reconhecer estas duas correntes de desenvolvimento na história - a do reino de Deus e a do reino do mal -, a fé sempre verá a primeira como controlando, dominando e, finalmente, conquistando a segunda. É no reino de Deus que devemos ver o sentido real da história.

(d) Todos os nossos juízos históricos devem ser provisórios. Esta é a mais uma implicação da ambigüidade da história. Nós sabemos que no juízo final o bem e o mal serão finalmente separados e uma avaliação final de todos os movimentos históricos será dada. Até àquela hora, como Jesus disse, o trigo e o joio crescerão juntos. Isto implica em que todos os nossos julgamentos, feitos do lado de cá do juízo final, têm de ser relativos, aproximativos e provisórios. Nunca poderemos estar absolutamente certos de se um evento histórico específico é bom, mau, ou - em caso ambivalente - predominantemente bom ou predominantemente mau. Um escritor o coloca assim: “Até ao fim de tudo, fenômeno histórico nenhum é ou absolutamente bom ou absolutamente mau” 32.

Freqüentemente, tendemos a ver movimentos históricos e forças simplesmente em termos de preto ou branco: “a igreja é boa; o mundo é mau”. Na realidade, as coisas são muito mais complicadas do que isso. Há muita coisa má na igreja, e há muita coisa boa no “mundo”. Conforme Abrahan Kuyper costumava dizer: “o mundo, geralmente, é melhor do que nós esperamos, ao passo que a igreja é geralmente pior do que esperamos”. Por causa disso, os eventos históricos não devem ser vistos simplesmente em termos de branco ou preto, porém mais em termos de diferentes tons de cinza.

Contudo, o fato de todos os julgamentos históricos serem provisórios, não significa que nós não devamos emiti-los. Até julgamentos falhos acerca da significação de eventos históricos são melhores do que a falta de julgamento. Note o que Berkhof tem a dizer sobre isso:

“o fato de nem o Reino de Cristo nem o reino do anticristo terem sido revelados até agora, mas de estarem eles escondidos sob a aparência do oposto, e de estarem entrelaçados em todo lugar, não significa que nada se possa conhecer ou reconhecer acerca deles. A história mundial não é preta ou branca, mas também não é nem mesmo cinza. O olho da fé reconhece o cinza claro e o cinza escuro, sabe que estas diferenças de graduação se originam em diferenças de princípios.

Somando a este, encontramos um assunto muito importante. A história é o terreno de ações e decisões humanas. Escolhas têm de ser feitas... Tendo em vista a ambigüidade de nossa história, toda interpretação sempre permanecerá discutível. Mas ela é inevitável. É um ato de grata obediência e, como tal, nunca é desprovida de sentido e de bênçãos. Ela não acontece de modo cego. Por mais relativos que os fatos possam ser, o cinza claro e escuro impressiona claramente a nossa visão” 33.

(e) A compreensão cristã da história é fundamentalmente otimista. O cristão crê que Deus está no controle da história e que Cristo conquistou a vitória sobre os poderes do mal. Isto significa que o resultado final das coisas com certeza será bom e não mau, que o propósito redentor de Deus será finalmente realizado, e que “apesar de o errado, tantas vezes, parecer tão forte, Deus ainda é o soberano”.

Infelizmente, porém, os cristãos são muitas vezes excessivamente pessimistas acerca da era presente. Eles tendem a dar ênfase ao mal que eles, ainda, encontram no mundo, ao invés de dar ênfase à evidência da soberania de Cristo. Hendrikus Berkhof fala de um “pessimismo em relação à cultura” por parte dos cristãos:

“O cristão típico não espera ver nenhum sinal positivo do reinado de Cristo no mundo. Ele crê que o mundo somente fica pior e corre na direção do anticristo... O cristão típico não está ciente da presença do Reino hoje no mundo. ...Em nossas igrejas prevalece uma qualidade ruim de pietismo... que limita o poder de Cristo à sua relação pessoal com o crente individualmente, e não vê conexão entre Cristo e eventos seculares, ou entre Cristo e o trabalho diário. Isso nos leva a uma cegueira ingrata para com os sinais do reino de Cristo no presente. Expressões tais como: “nós vivemos numa cratera de vulcão”; “assim não vai agüentar mais muito tempo”; “a humanidade está piorando continuamente”; “o fim do tempo está próximo”, são muito populares nos círculos cristãos. E eles crêem que esse pessimismo em relação à cultura... está completamente de acordo com a fé cristã” 34.
Berkhof argumenta que uma visão tal da história não faz jus nem ao desempenho atual de Deus nem à vitória de Cristo e que, por causa disso, é negação de um aspecto essencial da fé cristã. Embora o cristão seja suficientemente realista para reconhecer a presença do mal no mundo e a presença do pecado no coração dos homens, ele ainda é basicamente um otimista. Ele crê que Deus está no trono, e que está desenvolvendo seus propósitos na história. Assim como o cristão deve crer firmemente que todas as coisas cooperam, conjuntamente, para o bem em sua vida, apesar das aparências em contrário, assim também ele deve crer que a história está se dirigindo para o alvo estabelecido por Deus, mesmo que eventos mundiais freqüentemente pareçam contrariar a vontade de Deus. Nas palavras de Berkhof: “Nós cremos num Deus que continua vitoriosamente a sua obra nesta dispensação. Isso é um to de fé. Este ato está baseado no fato de que Cristo ressuscitou dos mortos neste velho mundo e não é perturbado pelo fato de que a experiência, muitas vezes, parece contradizer esta fé. O crente sabe que, para Deus, os fatos estão de acordo com esta crença” 35.

(f) Há tanto continuidade como descontinuidade entre esta era e a próxima. Tradicionalmente, nós tendemos a pensar que a era por vir está de tal natureza, que “cairá neste mundo mau como uma bomba” 36 e que, portanto, envolve uma quebra absoluta entre esta era e a próxima. A Bíblia, porém, nos ensina que entre esta e a próxima era haverá tanto continuidade como descontinuidade. Os poderes da era porvir já estão em ação na era presente; se alguém está em Cristo, ele já é agora uma nova criatura (2 Co 5.17). O crente vive agora nos últimos dias; pelo menos num sentido ele já foi ressuscitado com Cristo (Cl 3.1) e Deus o fez sentar-se com Cristo nos lugares celestiais (Ef 2.6).

Na experiência cristã do crente, portanto, há uma continuidade real entre esta era e a próxima. O Catecismo de Heidelberg expressa esta verdade em sua resposta à Questão 58:

“Que conforto você deduz do artigo sobre a vida eterna?

Que, uma vez que eu agora sinto em meu coração o início do gozo eterno, após esta vida eu vou possuir alegria perfeita, tal qual olho nenhum viu nem ouvido ouviu, nem penetrou no coração humano - dessa maneira para louvar a Deus para sempre”.
Existirá, portanto, também alguma continuidade cultural entre este mundo e o próximo? Haverá algum sentido no qual nós possamos já hoje estar trabalhando para aquele mundo melhor? Podemos dizer que alguns dos produtos da cultura de que nós desfrutamos hoje continuarão a estar conosco no radiante amanhã de Deus?

Eu creio que sim. A nova terra que está vindo não será uma criação absolutamente nova, mas uma renovação da terra presente. Sendo este o caso, haverá continuidade tanto quanto descontinuidade entre nossa cultura presente e a cultura - se é que a chamaremos assim -, do mundo por vir. Berkhof nos lembra várias figuras bíblicas que sugerem esta continuidade:

“... A Bíblia... apresenta a relação entre o agora e o depois como aquela entre semeadura e ceifa, amadurecimento e ceifa, grão e espiga. Paulo declara que um homem pode construir sobre Cristo, o fundamento, com ouro ou prata, de modo tal que sua obra permanecerá na consumação e ele receberá galardão (1 Co 3.14). o livro de Apocalipse menciona as obras que seguirão os crentes na consumação (14.13), e duas vezes é dito na descrição da nova Jerusalém que a glória dos reis da terra (21.24) e das nações (21.260) será trazida para dentro dela. Para nós, que devemos decidir e trabalhar na história, é de grande importância tentar entender mais claramente o sentido desta linguagem figurativa que fala tão claramente sobre uma continuidade entre presente e futuro” 37.
O que isso tudo significa é que nós, realmente, devemos estar trabalhando agora para um mundo melhor, que nossos esforços desta vida em trazer o reino de Cristo a uma mais completa manifestação são de significado eterno. Uma vez que até aqueles que não amam a Cristo estão sob seu controle, nós podemos crer firmemente que produtos da ciência e a cultura produzida por descrentes poderão ser ainda encontrados na nova terra. Mas o que é de importância ainda maior para nós é que nossa vida cristã hodierna, nossa luta contra o pecado - tanto individual como institucional -, nossa obra missionária, nossa tentativa para promover uma cultura distintivamente cristã, terão valor não só para este mundo mas inclusive para o mundo porvir 38.
Notas do Capítulo 3
1. H. Berkhof, Meaning, p.13

2. Ibid, pp 13,14. A Cidade de Deus de Agostinho, obviamente forma uma notável exceção a esta declaração.

3. Berkhof, Meaning, p. 15

4. John Marsh, The Fulness of Time (A Plenitude do Tempo) Londo: Nisbet, 1952 p. 167

5. O Cullmann, Time, p.52. Sobre a visão grega da história, ver também Berkhof, Meaning, pp 19-21; e Karl Lowith, Meaning in History (Sentido na História) (Chicago: Univ of Chicago Press, 1949), pp. 4,5.

6. G. E. Ladd, Jesus and the Kingdom (Jesus e o Reino) New York: Harper and Row, 1964, p.xiv

7. Ladd, Presence, p 331

8. Marsh, op. Cit., p 170

9. Nicolas Berdyev, The Meaning of the History (O Sentido da História) London: Geoffrey Bles, 1936, p.108

10. Cullmann, Time, pp 18,19. Ver também Marsh, op cit., p. 155

11. Cullmann, Time, pp 81-83.



12. Ibid., pp 84, 145, 146

13. Tanto Marsh (op. Cit., pp. 177,178) como Berkouwer (Return, pp 74,75) têm criticado a analogia de Cullmann, principalmente baseados no caráter de tentativa de todos os julgamentos históricos. É obviamente verdadeiro que nenhuma analogia exata à obra redentiva de Cristo possa ser achada na história humana. Ainda assim, o ponto central de Cullmann está certamente bem colocado: através da primeira vinda de Cristo, a vitória sobre Satanás foi conquistada, mesmo que muitas batalhas ainda restam para serem travadas.

14. Cullmann, time, p.72

15. Marsh, op cit., pp 166,167

16. H. Ridderbos, Paul, pp 221, 222

17. Compare meu livro The Christian Looks at Himself (O Crente Olha para Si Mesmo) Grand-Rapids: Eerdmans, 1977, pp. 41-48

18. R Ridderbos, Paul and Jesus (Paulo e Jesus) Filadélfia: Presbyterian and Reformed, 1958, pp. 64,65

19. Marsh, op. cit., pp 155, 56

20. Lowth, op. Cit., p.6

21. Ridderbos, Paul na Jesus, p. 77

22. Cullmann, Time, p.157

23. Berkhof, Meaning, pp 81-100



24. Ibid., p 124

25. Lowith, op. Cit., p.188

26. H.Berkhof, Well-Founded Hop (Esperança bem fundamentada), p.79.

27. Berkhof, Meaning, pp.177,178

28. Berdyev, op cit., pp 186-93

29. Ibid., p. 194

30. Berkhof, Meaning, pp 170, 71



31. Ibid., p. 173

32. D. Chantepie de la Saussaye, La Crise Religiouse en Hollande (A Crise Religiosa na Holanda), 1860, p.50 citado em Berkhof, Meaning, p.194

33. Berkhof, Meaning, p.199. Com relação à natureza provisória do julgamento histórico, observe também a útil distinção que Frank Roberts faz entre dois extremos que devem ser evitados: “Excesso de confiança” e “Excesso de desconfiança”, in A Christian View of History? (Uma visão cristã da História?) Grand Rapids: Eerdmans, 1975, pp. 10-13.

34. Berkhof, Meaning, p.174.



35. Ibid., p.170.

36. Ibid., p.182.

37. Ibid., p.189.

38. Para uma interpretação cristã da história, em adição às obras já mencionadas, ver também Herbert Butterfield, Christianity and Hitory (Cristianismo e História) (London: G. Bell, 1949), e A T. Van Leeuwen, Christianity in Word Histoy (Cristianismo na História Mundial) (New York: Scribner, 1965).


CAPÍTULO 4
O REINO DE Deus
O Reino de Deus é o tema central da pregação de Jesus e, por extensão, da pregação e ensino dos apóstolos. Foi mencionado anteriormente que um dos eventos que o crente veterotestamentário aguardava era a vinda do Reino de Deus, e que essa expectação estava conectada, especialmente em Daniel, com o aparecimento futuro do Filho do Homem. A chegada do Reino de Deus, portanto, bem como sua permanência e consumação final, deve ser vista como um aspecto essencial da escatologia bíblica. Georg Ladd faz o seguinte comentário: “Uma vez que a missão histórica de Jesus é vista pelo Novo Testamento como um cumprimento da promessa vétero-testamentária, toda a mensagem do Reino de Deus incorporada nos atos e palavras de Jesus pode ser incluída na categoria da escatologia” 1.

Como podemos verificar no levantamento histórico encontrado no apêndice, o Reino de Deus é um conceito extremamente importante nas discussões escatológicas modernas. Ritschl, Harnack e C.H. Dodd consideram o Reino, no ensino de Jesus, como exclusivamente presente, enquanto que homens como Weiss, Schweitzer e Moltmann ensinavam que o reino era exclusivamente futuro. Ainda outros eruditos bíblicos, como Geerhardus Vos e Oscar Cullmann, viam o Reino tanto como presente quanto como futuro - presente em um sentido e futuro em outro 2. Para chegarmos a uma avaliação destes pontos de vista conflitantes, deveremos ter de examinar, cuidadosamente, o conceito do Reino de Deus.

No início do Novo Testamento, ouvimos João, o Batista, e Jesus, ambos anunciando a vinda do Reino de Deus. João Batista veio pregando no deserto da Judéia, dizendo: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2) 3. João exortava seus ouvintes, preparando para a vinda deste Reino, que seria inaugurado pelo Messias, designado apenas como “O que Haveria de Vir”. João viu a missão d Aquele que Haveria de Vir como sendo primeiramente de separação: aqueles que se arrependessem ele salvaria, e julgaria os que não se arrependessem. João, na verdade, “esperava essa dupla obra messiânica acontecer em um evento escatológico único” 4. Ele tinha pregado que o Messias vindouro iria tanto “recolher o seu trigo no celeiro” como queimar a palha em fogo inextinguível (Mt 3.12). Quando João estava na prisão, começou a refletir sobre o fato de que, embora tivesse visto Jesus realmente recolhendo trigo, não o vira queimando palha. Isso levou João a enviar seus discípulos a Jesus, e a perguntar: “És tu aquele que estava para vir, ou havemos de esperar outro?” (Mt 11.3). Na resposta, Jesus citou profecias do Antigo Testamento que estavam sendo cumpridas em seu ministério; profecias acerca dos cegos recebendo sua visão e dos coxos sendo reabilitados (vs 4-5). As palavras de Jesus implicavam que a fase de julgamento de seu ministério, como João a tinha descrito, deveria vir mais tarde; assim temos aqui a primeira alusão ao fato de que a primeira vinda do Messias deveria ser seguida por uma segunda - um fato que João não tinha entendido claramente.

Jesus também anunciou a vinda do Reino, em palavras que soavam semelhantemente àquelas de João Batista: “O tempo está cumprido e o Reino de Deus está próximo 5; arrependei-vos e credes no evangelho” (Mc 1.15). Porém, embora as pregações de João Batista e de Jesus soassem como semelhantes, havia uma diferença básica entre elas. A chave para a diferença é encontrada nas palavras de Jesus: “O tempo está cumprido”. Enquanto João tinha dito que o Reino estava para vir na pessoa daquele que Haveria de Vir, Jesus disse que o tempo predito pelos profetas agora estava cumprido (Lc 4.21), e que o Reino agora estava presente na sua própria pessoa. Dessa forma, por exemplo, Jesus podia dizer o que João Batista nunca falou: “O Reino de Deus é chegado sobre vós” (Mt 12.28; Lc 11.20) 6. Por esta razão, então, Jesus pode falar acerca de João Batista: “Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no Reino dos céus é maior do que ele” (Mt 11.11). João foi o precursor do Reino, mas ele próprio ficou do lado de fora dele; ele anunciou a nova ordem de coisas, mas não era ele próprio parte dela. Ladd descreve da seguinte maneira a diferença entre as pregações do Reino por João Batista e por Jesus: “João tinha anunciado uma visitação iminente de Deus, o que significaria o cumprimento da esperança escatológica e a vinda da era messiânica. Jesus proclamou que essa promessa estava de fato sendo cumprida... Ele anunciou, corajosamente, que o Reino de Deus tinha vindo a eles... A promessa foi cumprida na ação de Jesus: em sua proclamação das boas novas para os pobres, liberdade para os cativos, visão restaurada para o cego, libertando aqueles que eram oprimidos. Isso não era uma teologia nova ou nova idéia ou nova promessa; era um novo evento na história” 7.

Podemos dizer, portanto, que Jesus mesmo inaugurou o Reino de Deus cuja vinda tinha sido predita pelos profetas do Antigo Testamento. Por causa disso, nós devemos ver o Reino de Deus sempre como indissoluvelmente ligado à pessoa de Jesus Cristo. Nas palavras e feitos de Jesus, milagres e parábolas, ensino e pregação, o Reino de Deus estava dinamicamente ativo e presente entre os homens.

Às vezes, nos Evangelhos, o nome de Cristo é igualado com o Reino de Deus. Isto será evidente se olharmos para as passagens paralelas, nos Sinóticos, que tratam da história do jovem rico. Em resposta à pergunta de Pedro: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos: que será, pois, de nós?” (Mt 19.27), Jesus diz: “Todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna” (v.29). No paralelo, em Marcos, Jesus fala de deixar todas estas coisas “por causa do Reino de Deus” (Lc 18.29).

Encontramos uma equiparação similar entre Cristo e o Reino no livro de Atos. Filipe é descrito como alguém “que os evangelizava a respeito do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo” (At 8.12). E Paulo é descrito no último versículo do livro de Atos como “pregando o Reino de Deus e ensinando acerca do Senhor Jesus Cristo” (At 28.31, RSV).

Passagens desse tipo talvez ajudem a explicar porque não lemos tanto acerca do Reino de Deus nas Epístolas quanto nos Evangelhos. Nos escritos de Paulo, na verdade, o termo reino é encontrado apenas treze vezes, e nas Epístolas não-paulinas ele é encontrado apenas cinco vezes. Isto não significa, entretanto, que os Apóstolos não ensinavam ou pregavam o Reino. O comentário de Karl Ludwig Schimidt é útil aqui: ‘Desta forma, podemos ver porque a Igreja apostólica é pós-apostólica do NT não falava muito do basileia tou theou (Reino de Deus) explicitamente, mas sempre o enfatizou implicitamente através de sua referência ao kyrios lesous Christos (= O Senhor Jesus Cristo). Não é verdade que ele agora colocou a Igreja em lugar do Reino pregado por Jesus de Nazaré. Pelo contrário, a fé no Reino de Deus persiste na experiência de Cristo pós-Páscoa” 8.

Deveríamos dizer, neste ponto, algo a respeito da distinção entre Reino de Deus e Reino dos céus. Somente Mateus usa a última expressão; em todas as outras partes do Novo Testamento encontramos Reino de Deus (com variações ocasionais como Reino de Cristo ou Reino de nosso Senhor). Embora alguns tenha tentado encontrar uma diferença de sentido entre estas duas expressões, deve ser mantido que Reino dos céus e Reino de Deus são sinônimos em seu significado. Uma vez que os judeus evitavam o uso do nome divino, na prática judaica ulterior, a palavra céus era usada freqüentemente como um sinônimo para Deus; porque Mateus estava escrevendo primeiramente para leitores judeus, podemos entender sua preferência por esta expressão (embora até Mateus utilize o termo Reino de Deus quatro vezes). A expressão malkuth shamayim (reino dos céus) é encontrada na literatura judaica ulterior; a frase que Mateus geralmente utiliza, basileia ton ouranon (reino dos céus), é uma tradução grega literal desta expressão hebraica. Uma vez que as expressões Reino dos céus e Reino de Deus são intercambiáveis nos sinóticos, podemos concluir seguramente que não há diferença de significação entre as duas.

Como deveremos definir o reino de Deus? Esta não é uma tarefa fácil, especialmente porque o próprio Jesus nunca forneceu uma definição do reino. Também não encontramos tal definição nos escritos apostólicos; as palavras de Paulo em Rm 14.17: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”, mesmo que úteis e esclarecedoras, não são exatamente uma definição. Deveremos ter de agir indutivamente.

Georg Eldon Ladd indica que os Evangelhos nem sempre falam da mesma maneira acerca do Reino; ele encontra pelo menos quatro usos distintos da expressão 9.

Muitos eruditos bíblicos têm enfatizado um ou outro significado, freqüentemente refletindo sua posição teológica particular. Naturalmente, é também bem possível que as diferentes maneiras pelas quais Jesus e os Apóstolos falaram sobre o Reino representem facetas diversas de uma única, porém complexa idéia.

Ao procurarmos o significado central do Reino, a primeira questão a ser colocada é se o Reino vigora sobre um setor ou território sobre o qual Deus governa, ou sobre o Reino ou governo de Deus como tal. A concepção mais amplamente aceita do Reino de Deus é que seu significado principal é o Governo ou Reino de Deus mais do que um território sobre o qual ele governe. Ladd menciona dezoito fontes recentes que representam o Reino como o Governo ou Reinado de Deus 10. Ele cita uma porção de passagens do Novo Testamento, tanto dos Evangelhos como de fora deles, que trazem o pensamento de que o Reino é o Reino de Deus 11. Embora ocasionalmente o termo “reino” tenha conotação de espaço, ao referir-se a uma ordem de coisas ou a um estado de paz e felicidade, normalmente ele descreve o Reinado de Deus sobre o seu povo.

Não há dúvida de que o primeiro significado, especialmente o de domínio como o exercício da dignidade real, é pronunciamentos centrais acerca do “Reino dos Céus” nos Evangelhos. Então, o significado espacial do Reino é secundário. Quando o texto diz que basileia ton ouranon “está próximo”... não deveríamos pensar primeiramente em uma entidade espacial ou estática que esteja descendo dos céus, mas antes em um governo real divino que de fato e efetivamente começa sua operação; por causa disso, devemos pensar na ação divina do rei 12.

... O Reino dos Céus pregado por João e Jesus é antes de tudo um processo de caráter dinâmico... Pois a vinda do Reino é o estágio inicial do grande drama da história do fim 13.
Portanto, o Reino de Deus deve ser entendido como o Reinado dinamicamente ativo de Deus na história humana através de Jesus Cristo, cujo propósito é a redenção do povo de Deus do pecado e de poderes demoníacos, e o estabelecimento final dos novos céus e nova terra. Isto significa que o grande drama da história da salvação foi inaugurado e que a nova era foi instaurada 14. O Reino não deve ser entendido como apenas a salvação de certos indivíduos ou mesmo como o Reino de Deus no coração de seu povo; não significa nada menos que o Reino de Deus sobre todo o seu universo criado. “O Reino de Deus significa que Deus é Rei e age na história para trazer a história a um alvo divinamente determinado”15.

Fica evidente, portanto, que o Reino de Deus, como descrito no Novo Testamento, não é um estado de atividade realizada através de conquistas humanas, nem a culminação de esforços humanos extenuantes. O Reino é estabelecido pela graça soberana de Deus e suas bênçãos devem ser recebidas como dons dessa graça. A tarefa do homem não é trazer o Reino para a existência, mas nele ingressar pela fé, e orar para que ele seja mais e mais capacitado a submeter-se ao governo beneficente de Deus, em todas as áreas de sua vida. O Reino não é a escalada ascendente do homem para a perfeição mas a irrupção de Deus na história humana para estabelecer seu Reinado e para levar adiante seus propósitos 16.

Dever-se-á acrescentar que o Reino de Deus inclui tanto um aspecto positivo como um negativo. Ele significa redenção para aqueles que o aceitam e nele ingressam pela fé, e juízo para aqueles que o rejeitam. Jesus deixa isto muito claro em seus ensinos, especialmente em suas parábolas. Aquele que ouve as palavras de Jesus, e as pratica, é como um homem que constrói sua casa sobre a rocha, enquanto aquele que ouve as palavras de Jesus, mas não as pratica, é semelhante ao homem que constrói sua casa sobre a areia - e grande foi a sua queda (Mt 7.24-27). Aqueles que aceitam o convite para as bodas, se regozijam e estão felizes, enquanto que aqueles que rejeitam o convite são entregues à morte, e o homem sem as vestes nupciais é lançado fora nas trevas (Mt 22.1-14). Na verdade, porque a nação de Israel, como um todo, rejeitou o Reino, Jesus disse que o Reino de Deus seria tirado deles e dado a uma nação que produzisse seus frutos (Mt 21.43). O propósito primeiro do Reino de Deus é a salvação, no sentido integral da palavra, daqueles que nele ingressam - porque “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para salvar o mundo através dele” (Jo 3.14, NIV). Mas aqueles que rejeitam e desprezam o Reino receberam o maior julgamento: “Todo o que cair sobre esta pedra [a pedra angular, que é Jesus Cristo] ficará em pedaços’; e aquele sobre quem ela cair, ficará reduzido a pó” (Lc 20.18)

Quais são os sinais da presença do Reino? Um destes sinais é a expulsão de demônios por Jesus. Quando Jesus fez isto, mostrou que ele havia conquistado uma vitória sobre os poderes do mal e que, por causa disto, o Reino de Deus tinha chegado. O próprio Jesus salientou isto, quando disse aos fariseus que argumentavam que ele estava expulsando demônios por Belzebu, o príncipe dos demônios: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o Reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28).

Um outro sinal é a queda de Satanás. Quando os setenta retornaram de sua missão, dizendo que até os demônios se sujeitavam a eles em nome de Cristo, Jesus é citado dizendo: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.18). Não há dúvida de que estas palavras devem ser interpretadas figuradamente, não literalmente. Elas significam que “a vitória sobre Satanás”, que o pensamento judaico situava conjuntamente no fim da era, aconteceu na história, em certo sentido, na missão de Jesus”17. Podemos dizer que, nessa época, o poder do Reino de Deus entrou na história humana através do ministério dos discípulos - um ministério, entretanto, que estava baseado na vitória que Jesus já tinha conquistado sobre Satanás. Resta dizer que esta vitória sobre Satanás, embora decisiva, ainda não é final, uma vez que Satanás continua ativo durante o ministério subseqüente de Jesus (Mc 8.33; Lc 22.3 e 31). O que de fato aconteceu durante o ministério de Jesus foi uma espécie de amarração de Satanás (veja Mt 12.29 e compare com Ap 20.2) - isto é, uma restrição de suas atividades. Que tipo de restrição isto envolveu nos veremos mais adiante.

Ainda um outro sinal da presença do Reino foi a realização de milagres por Jesus e seus discípulos. Na operação desses milagres era efetuada a vinda do Reino. O próprio Jesus indicou isto em sua reposta a João Batista, na qual ele instruiu seus discípulos como segue: “ide, e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.4-5). Mas estes milagres foram apenas sinais; eles tinham suas limitações. Primeiro, nem todos os doentes foram curados, nem todos os mortos ressuscitados. Mais ainda, os doentes que foram curados, os coxos que tiveram seu andar recuperado e os mortos que foram ressuscitados, ainda tinha de morrer. Os milagres tinham função provisória, indicando a presença do Reino, mas ainda não marcando sua consumação final.

Mais um sinal, até mais importante que o último, era a pregação do Evangelho. Os milagres de cura não foram o maior dom que Jesus concedeu. Muito mais importante foi a salvação ele trouxe àqueles que creram - uma salvação mediata ou, seja, através da pregação do Evangelho. Quando Jesus disse aos setenta: “Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem e, sim, porque os vossos nomes estão arrolados nos céus” (Lc 10.20), ele estava restaurando o senso de prioridade deles. É significativo, portanto, que na resposta de Jesus a João Batista, citada acima, o sinal último e culminante, que mostra que Cristo verdadeiramente é o Messias e que o Reino verdadeiramente veio, é este: “aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.5).

A dádiva do perdão de pecados é um sinal da presença do Reino. Nos profetas do Antigo Testamento, o perdão dos pecados tinha sido predito como uma das bênçãos da era messiânica vindoura (vejam-se Is 33.24; Jr 31.34; Mq 7.18-20; Zc 13.1). quando Jesus veio, ele não somente pregou acerca do perdão de pecados mas, realmente, o concedeu. A cura do paralítico, após Jesus ter perdoado seus pecados, foi uma prova de que “o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados” (Mc 2.10). o fato de que os escribas acusaram Jesus de blasfêmia nesta ocasião, uma vez que - assim argumentavam -, somente Deus pode perdoar pecados, indicou que eles não perceberam que o Reino de Deus realmente estava presente entre eles. Eles não se deram conta de que “A presença do Reino de Deus não era um novo ensino de Deus: era uma nova atividade de Deus na pessoa de Jesus, trazendo aos homens, como uma experiência presente, o que os profetas prometeram no Reino escatológico”18.

Relacionado com os sinais da presença do Reino, dever-se-ia relembrar que a vinda do Reino não significou um fim para o conflito entre bem e mal. Continuará a haver conflito e oposição entre o Reino de Deus e o Reino do mal através da história, e neste conflito o povo de Deus será convocado ao sofrimento. Na verdade, a antítese entre estes dois reinos, é até intensificada pela vinda de Cristo. Não nos disse Jesus: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” (Mt 10.34)?

O que há de maior interesse na área da escatologia a respeito do Reino é a questão sobre se o Reino de Deus, nos ensinos de Jesus e dos apóstolos, era considerado uma realidade presente ou uma realidade futura, ou ambas. Esta questão tem sido objeto de muito debate. Será relembrado que alguns eruditos vêem o Reino como exclusivamente futuro, outro o vêem como exclusivamente presente e outros, ainda, o entendem tanto como presente quanto como futuro. Faremos jus a todos os dados bíblicos apenas quando concebermos o Reino de Deus tanto presente como futuro.

Jesus ensinou claramente que o Reino de Deus já estava presente em seu ministério. Mateus 12.18 foi citado anteriormente: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o Reino de Deus sobre vós” (cp. Lc 11.20). O verbo grego usado aqui, ephthasen, significa chegou ou veio, e não está para vir. O ponto é que a expulsão de demônios, por parte de Jesus, é prova de que o Reino chegou, uma vez que não se pode saquear os bens de um homem forte sem primeiro ter amarrado o homem forte (aqui significando o demônio). Outra passagem que ensina claramente a presença do Reino nos dias de Jesus é a de Lc 17.20-21. Os fariseus tinham acabado de perguntar a Jesus sobre quando viria o Reino de Deus - significando, supomos, uma demonstração dramática do forte poder de Deus que iria arrasar os romanos e estabelecer o reinado de Deus sobre o mundo de maneira fisicamente visível. Jesus responde como segue: “Não vem o Reino de Deus como visível aparência, nem dirão: ei-lo aqui! Ou: lá está! Porque o Reino de Deus está no meio de vós” 19. Estas palavras não deveriam ser forçadas a significar que não há “sinais dos tempos”, ou sinais da segunda vinda de Cristo, aos quais nós devemos estar alertas, porque o próprio Jesus fala destes sinais em outras ocasiões. O que Jesus está dizendo é que ao invés de aguardar sinais espetaculares exteriores da presença de um Reino, primeiramente político, os fariseus devem perceber que o Reino de Deus está no meio deles agora, na pessoa do próprio Cristo, e que a fé nele é necessária para entrar nesse Reino.

Algumas das parábolas de Jesus implicam que o Reino já está presente. As parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor (Mt 13.44-46) ensinam que agora o homem deve vender tudo o que possui para entrar no Reino. As parábolas do construtor da torre e do rei saindo a guerrear (Lc 14.28-33) ensinam a importância de calcular o custo antes de entrar no Reino, novamente implicando que o Reino está agora presente. No sermão do monte, além disso, as bem-aventuranças descrevem o tipo de pessoa de quem se pode dizer: “deles é (estin) o Reino dos céus” (Mt 5.3-10). Quando os discípulos fazem uma pergunta a Jesus acerca de quem é o maior no Reino dos c[eus, Jesus convida uma criança a integrar o grupo e diz: “Aquele que se humilhar, como esta criança, este é o maior no Reino dos céus” (Mt 18.4). e quando os discípulos repreendem aqueles que estão trazendo crianças a Jesus, o Mestre diz: “Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é (estin) o Reino dos céus” (Mt 19.14). Podemos acrescentar que os sinais previamente mencionados (expulsão de demônios, realização de milagres, a pregação do Evangelho e a concessão do perdão de pecados) também evidenciam o fato de que o Reino está presente no ministério de Jesus 20.

Jesus, entretanto, também ensinou que havia um sentido no qual o Reino de Deus ainda era futuro. Podemos ver, primeiramente, algumas declarações específicas com esta finalidade. A seguinte passagem do sermão do monte descreve a entrada do Reino como algo ainda futuro e a combina com um futuro dia do juízo: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos milagres? Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.21-23). Verbos no tempo futuro são igualmente usados na seguinte declaração, que fala claramente acerca de um Reino futuro: “Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus. Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 8.11-12).

Muitas das parábolas ensinam uma consumação futura do Reino. A parábola das bodas indica um tempo futuro de bênçãos para aqueles que aceitam o convite, mas num lugar de punição, nas trevas exteriores, para aqueles que falham em preencher todos os requisitos (Mt 22.1-14). A parábola do joio e sua explicação (Mt 13.24-30 e 36-43) falam da “consumação do século” (synteleia tou aionos) quando os que praticam a iniqüidade serão lançados na fornalha acesa e quando os justos “resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai”. A parábola da rede (Mt 13.47-50) descreve, de modo semelhante, a “consumação do século” (synteleia tou ainos), quando “sairão os anjos e separarão os maus dos justos”. Na parábola das dez virgens (Mt 25.1-13) aprendemos acerca da demora do noivo, acerca de um grito à meia-noite, e sobre algumas que entraram com o noive para a festa das bodas e outras para quem a porta estava permanentemente cerrada. A parábola termina com uma advertência tipicamente “escatológica”: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (v.13). e a parábola dos talentos (Mt 25.14-30) fala acerca de um homem que fez uma jornada e ficou fora por muito tempo, acerca de um ajuste final de contas, e acerca de alguns que foram convidados a entrar no gozo de seu Senhor e outros que foram expulsos para as trevas exteriores.

Não seria difícil fornecer mais evidências. Pelo que já foi citado, fica claro que o Reino de Deus, no ensino de Jesus, era tanto presente como futuro. Tentar negar qualquer aspecto desta doutrina é adulterar a evidência 21.

O apóstolo Paulo também pensava que o Reino de Deus era tanto presente como futuro. Algumas de suas declarações descrevem claramente o Reino de Deus como estando presente. Em 1 Coríntios 4, Paulo está escrevendo acerca de alguns inimigos seus arrogantes, que pensam que ele não está vindo para Corinto: “Mas em breve irei visitar-vos, se o Senhor quiser, e então conhecerei não a palavra, mas o poder dos ensoberbecidos. Porque o Reino de Deus consiste não em palavra mas em poder” (vs. 19,20). Obviamente, Paulo não está pensando a respeito de um Reino futuro, mas acerca de um Reino que é presente agora. De modo semelhante Paulo fala a seus leitores em Roma: “Porque o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). E em uma de suas últimas epístolas ele descreve a seus irmãos em Colossos: “Porque ele [Deus] nos resgatou do domínio das trevas e nos trouxe para dentro do Reino do Filho que ele ama, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados” (Cl 1.13-14, NIV). Uma vez que desfrutamos agora do perdão dos pecados, está claro que o Reino do qual Paulo fala aqui é um Reino ao qual nós temos o privilégio de pertencer desde agora.

Mas há também passagens nas quais Paulo retrata o Reino como futuro. Em 2 Tm 4.18, Paulo escreve: “O Senhor me livrará de cada ataque maligno e trazer-me-á a seu Reino celestial em segurança” (NIV). Tanto a expressão “Reino celestial” como o tempo futuro do verbo traduzido “trazer-me-á em segurança” (sosei) indicam que Paulo, aqui, está pensando acerca do Reino futuro. A palavra herdarão (kleronomeo) sugere um benefício que será recebido em algum tempo futuro. Quando Paulo utiliza este verbo, para indicar que certas pessoas serão excluídas do Reino de Deus, ele está obviamente referindo-se ao Reino no sentido futuro: “Ou não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus?” (1 Co 6.9); “eu vos declaro, como já outrora vos preveni que não herdarão o Reino de Deus os que tais coisas praticam [as obras da carne]”(Gl 5.21). Em Ef 5.5 ele utiliza o substantivo derivado deste verbo para fazer uma declaração semelhante: “Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no Reino de Cristo e de Deus”. E em 1 Co 15.50, Paulo descreve: “Isto afirmo, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção”. Uma vez que ele está falando aqui acerca da ressurreição do corpo, fica claro que o Reino de Deus é também aqui considerado como ume estado de coisas que ainda é futuro.

Resumindo, então, podemos dizer que o Reino de Deus, tanto no ensino de Jesus como no do apóstolo Paulo é uma realidade tanto presente como futura. Por causa disso, nossa compreensão do Reino precisa fazer jus a ambos estes aspectos. George Eldon Ladd dá ênfase à importância de vermos estes dois aspectos: “A tese central deste livro [The Presence of the Future (A Presença do Futuro)] é que o Reino de Deus é o reinado redentor dinamicamente ativo de Deus para estabelecer seu governo entre os homens, e este Reino, que aparecerá no final da era como um ato apocalíptico, já entrou na história humana na pessoa e missão de Jesus para vencer o mal, para libertar os homens do poder do mal e para trazê-los para as bênçãos do reinado de Deus. O Reino de Deus envolve dois grandes momentos: cumprimento dentro da história e consumação ao fim da história” 22. Herman Ridderbos salienta um ponto semelhante. Ele sugere que, no começo de seu ministério, Jesus deu mais ênfase à presença do Reino em cumprimento à profecia do Antigo Testamento, ao passo que, mais para o fim de seu ministério, ele deu maior destaque à vinda futura do Reino 23. Entretanto, Ridderbos insiste em que os aspectos presentes e futuro do Reino nunca devem ser separados:”... Porque o futuro e o presente estão indissoluvelmente conectados na pregação de Jesus. Um é o complemento necessário do outro. A profecia acerca do futuro só pode ser vista corretamente do ponto de vista da presença cristológica, assim como o caráter do presente implica a necessidade e certeza do futuro”24.

Aquele que crê em Jesus Cristo, portanto, faz parte do Reino no tempo presente, desfruta de suas bênçãos e compartilha de suas responsabilidades. Ao mesmo tempo, ele percebe que o Reino é presente agora, apenas um estado provisório e incompleto, e por causa disso, ele aguarda por sua consumação final no fim da era. Pelo fato de o Reino ser tanto presente como futuro, podemos dizer que ele, agora, está escondido de todos, exceto daqueles que têm fé em Cristo; um dia, entretanto, ele será totalmente revelado, de forma que até seus inimigos terão, finalmente de reconhecer e curvar-se perante seu governo. Este é o destaque na parábola do fermento, em Lc 13.20-21. Quando o fermento (ou levedura) é colocado na farinha, nada parece acontecer por um momento, mas ao final toda a massa está fermentada. De maneira semelhante, o Reino de Deus está escondido agora, fazendo sua influência ser sentida silenciosa mas penetrantemente, até que um dia surgirá a céu aberto para ser visto por todos. Portanto, o Reino, em seu estado presente, é objeto de fé, não de vista. Mas quando a fase final do Reino for instaurada pela segunda vinda de Jesus Cristo, “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.11).

O fato de o Reino de Deus estar presente num sentido e ser futuro em outro implica que permanece um certa tensão entre estes dois aspectos. Podemos descrever esta tensão em duas formas: (1) A Igreja deve viver com um senso de urgência, percebendo que o fim da história, como o conhecemos, pode estar bem próximo. Porém, ao mesmo tempo, ela deve continuar a planejar e trabalhar por um futuro nesta terra presente, que pode durar um longo período. (2) A Igreja foi alcançada pela tensão entre a era presente e a era por vir. Conforme Georg Ladd pondera: “A Igreja experimentou a vitória do Reino de Deus; e, mesmo assim, a Igreja está, como outros homens, à mercê dos poderes deste mundo... É esta situação que cria a austera tensão - na verdade, um conflito agudo; porque a Igreja é o ponto focal do conflito entre o bem e o mal, Deus e Satanás, até o fim dos tempos. A Igreja nunca pode estar descansando ou facilitando, mas precisa ser sempre a Igreja em luta e conflito, freqüentemente perseguida, mas certa da vitória última” 25.

Já observamos que a escatologia Neotestamentária deve ser comentada em termos do que já foi realizado e, também, em termos do que ainda deve ser realizado e, por causa disso, toda a teologia do Novo Testamento é marcada pela tensão entre o já e o ainda não 26. Podemos agora perceber que esta tensão está ilustrada e exemplificada pelo ensino neotestamentário acerca do Reino de Deus. Nós estamos no Reino e, mesmo assim, aguardamos sua manifestação completa; nós compartilhamos de suas bênçãos mas ainda aguardamos sua vitória total; nós agradecemos a Deus por ter-nos trazido para o Reino do filho que ele ama, e ainda assim continuamos a orar: “Venha o teu Reino”.

Quais são algumas das implicações, a nível de fé e vida, do fato de o Reino de Deus estar presente conosco agora e estar destinado a ser revelado em sua totalidade na era porvir? Em primeiro lugar, podemos observar que somente Deus pode nos colocar nos Reino. Deus nos chama para o seu Reino (1 Ts 2.12), dá-nos o Reino (Lc 12.32), traz-nos para o Reino do seu Filho (Cl 1.13), e nos confia o Reino (“E eu [Cristo] vos confio um Reino, assim como meu Pai confiou um Reino a mim”, Lc 22.29, NIV). De passagens deste tipo aprendemos que pertencer ao Reino de Deus não é uma conquista humana mas um privilégio que nos é concedido por Deus.

Mas este fato não nos livra de responsabilidade em relação ao Reino. Notaremos, mais adiante, que o Reino de Deus exige, de nós, arrependimento e fé. Em várias ocasiões Jesus disse que nós precisamos entrar no Reino de Deus. Só se pode entrar no Reino humilhando-se a si mesmo como uma criança (Mt 18.3 e 4) 27, fazendo a vontade do Pai dos céus (Mt 7.21), ou tendo uma justiça que excede à dos escribas e fariseus (Mt 5.20). É difícil para um homem rico entrar no Reino de Deus (Mc 10.25), presumivelmente porque ele é tentado a confiar mais em suas riquezas do que em Deus. A não ser que renasçamos ou nasçamos do Espírito, não podemos entrar no Reino de Deus (Jo 3.3 e 5). Somente Deus pode fazer alguém renascer; e dessa forma o ponto no qual a mensagem do Evangelho atinge o ouvinte é a intimação para crer: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”(Jo 3.16).

O Reino de Deus, na verdade, demanda nada menos que compromisso total. Nós devemos, assim disse Jesus, buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça, confiando em que, assim fazendo, todas as outras coisas de que necessitamos nos serão dadas (Mt 6.33). Nós temos de, por assim dizer, vender tudo o que temos para adquirir o Reino (Mt 13.44,45). Para permanecer no Reino, devemos estar prontos para arrancar fora o olho que nos faz tropeçar (Mt 29) e cortar fora a mão que nos faz pecar (Mt 5.30). devemos estar dispostos a odiar, se necessário, pai, mãe, irmão, irmã, e mesmo nossas próprias vidas por amor do Reino (Lc 14.26). Devemos estar prontos a renunciar a tudo o que temos para sermos discípulos de Jesus (Lc 14.33). Em outras palavras, ninguém deve buscar entrar no Reino a não ser que tenha calculado minuciosamente os custos (dessa decisão) (Lc 14.28-32).

Mais outra implicação da presença do Reino poder ser acrescentada: o Reino de Deus implica redenção cósmica. O Reino de Deus, como já vimos, não significa apenas salvação de certos indivíduos, nem mesmo a salvação de um grupo escolhido de pessoas. Significa nada menos do que a renovação completa de todo o cosmos, culminando nos novos céus e nova terra. Paulo descreve as dimensões cósmicas do Reino de Deus em palavras inspiradas:

“[Deus] em toda a sabedoria e prudência, desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.8-10).

“Porque Deus se agradou em ter toda sua plenitude habitando nele [Cristo], e em através dele reconciliar consigo mesmo todas as coisas, sejam coisas na terra ou coisas no céu, ao fazer a paz através de seu sangue, vertido na cruz” (Cl 1.19,20, NIV).

“A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.19-21).


Ser um cristão do Reino, portanto, significa que devemos ver toda a vida e toda a realidade à luz do alvo da redenção do cosmos. Isto implica, como Abraham Kuyper uma vez falou, que não há nenhuma polegada do universo da qual Cristo não diga: “É minha”. Isto implica uma filosofia da história cristã: toda a história deve ser vista como o desenvolvimento do propósito eterno de Deus. Esta visão do Reino inclui uma filosofia cristã da cultura: a buscar seu louvor. Isso também inclui uma visão cristã da vocação: todas as chamadas são de Deus, e tudo o que nós fazemos na vida cotidiana deve ser feito para louvor de Deus, seja estudo, ensino, pregação, negócios, indústria ou trabalho doméstico. George Herbert o coloca bem:

Ensina-me, meu Deus e Rei,



a te ver em todas as coisas,

e que, em qualquer coisa que eu fizer,

a fazê-lo como para ti.
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