Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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Notas do Capítulo 4

1. Ladd, Presence, pp. 325-326.

2. Veja adiante.

3. A palavra grega usada aqui é eggiken.

4. Ladd, Presence, p. 108.

5. Novamente a palavra grega é eggiken.

6. Aqui a palavra grega é ephthasen, do verbo phthanein, que significa “chegar”

7. Ladd, Presence, pp. 111-112.

8. K. L. Schmidt, “basileia” , TDNT, I, p.589.

9. Ladd, Presence, p. 123



10. Ibid., p.127 n. 11.

11. Ibid., pp. 134-138.

12. H. Ridderbos, The Coming of the Kingdom (A Vinda do Reino) Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1962, pp. 24-25.



13. Ibid., p. 27.

14. Ibid., ps. XXVII, 29; Ladd, Presence, p.42.

15. Ladd, Presence, p. 331.

16. Cp Schimidt op.cit., pp.584-585; Ridderbos, Coming, pp. 23-24.

17. Ladd, Presence, p. 157.



18. Ibid., p.215.

19. A leitura grega é entos hymon. Outras traduções da expressão incluem: “dentro de vós” (RSV margem ASV texto), e “entre vós” (NIV margem).

20. Veja também Ladd, Presence, pp. 149-217; Ridderbos, Coming, pp. 47-56; Norman Perrin, The Kingdom of God in The Teaching of Jesus (O Reino de Deus no Ensino de Jesus), pp. 74-78.

21. Cp. Ladd, Presence, pp. 307-328; Ridderbos, Coming, pp.36-56, esp. 55,56; Perrin, op.cit., pp.83-84.

22. Ladd, Presence, p.218.

23. Ridderbos, Coming, p.468.



24. Ibid., pp. 520,521.

25. Ladd, Presence, p. 338.

26. Ver acima.

27. Cp. também Mc 10.15 e a passagem paralela, Lc 18.17.

CAPÍTULO 5
A ESCATOLOGIA E O ESPÍRITO SANTO
O papel desempenhado pelo Espírito santo na escatologia nem sempre foi completamente analisado. Em 1912, Geerhardus Vos atraiu a atenção do mundo erudito para este papel no artigo intitulado: The Eschatological Aspect of the Pauline Conception of the Spirit” (O Aspecto Escatológico da Concepção Paulina do Espírito) 1. Mais recentemente, Neil Q. Hamilton escreveu um monografia sobre o assunto intitulada The Holy Spirit and Eschatology in Paul (O Espírito Santo e a Escatologia em Paulo) 2. Ambos os autores indicam que a obra do Espírito Santo é de significação decisiva para a escatologia.

Vimos anteriormente que, de acordo com o testemunho bíblico, os crente já estão na nova era predita pelos profetas do Antigo Testamento, e já estão desfrutando dos privilégios e bênçãos dessa era. Também observamos, entretanto, que os crentes experimentaram estas bênçãos escatológicas de maneira apenas provisória e aguardam por uma consumação futura do Reino de Deus, no qual deverão desfrutar plenamente dessas bênçãos. O papel que o Espírito desempenha na escatologia ilustra mais esta tensão entre o que nós já temos e o que ainda esperamos.

Vejamos agora, primeiramente, o papel do Espírito na escatologia em geral. No Antigo Testamento, o Espírito está relacionado com a escatologia de pelo menos três modos:

(1) É dito que o Espírito Santo preparará o caminho para irrupção da era escatológica final através de certos sinais proféticos. Assim, por exemplo, o profeta Joel prediz o derramamento do Espírito que ocorrerá num tempo que ele designa simplesmente como “depois (acharey khen), mas que Pedro, em sua citação desta passagem no dia de Pentecostes, denomina “nos últimos dias” (en tais eschatais hemerais, At 2.17). O sentido imputado a este derramamento do Espírito por Pedro, em Atos 2.17-36, indica que ele foi um dos eventos excepcionais que marcaram a vinda dos últimos dias.

(2) É dito que o Espírito será Aquele que repousará sobre o Redentor vindouro e o equipará com os dons necessários. Observe, por exemplo, Isaías 11.1-2.

Do tronco de Jessé sairá um rebento.



E das suas raízes um renovo.

Repousará sobre ele o Espírito do Senhor,

O Espírito de sabedoria e de entendimento,

O Espírito de conselho e de fortaleza,

O Espírito de conhecimento e de temor do Senhor”.
Em outra passagem, o profeta, numa antecipação, coloca as seguintes palavras na boca do Messias vindouro:

O Espírito do Senhor Deus está sobre mim,



porque o Senhor me ungiu,

para pregar boas novas aos quebrantados,

enviou-me a curar os quebrantados de coração,

a proclamar libertação aos cativos,

e pôr em liberdade os algemados;

e apregoar o ano aceitável do Senhor

e o dia da vingança do nosso Deus;

a consolar todos os que choram” (Isaías 61.1-2; cp. 42.1).
Poder-se-ía deduzir destas passagens que o Espírito Santo estará permanente e significativamente ativo na vida do Messias. A atividade do Espírito no e através do Messias será, por causa disso, uma característica especial da nova era predita pelos profetas.

(3) O Espírito aparece como a fonte da futura nova vida de Israel, incluindo tanto bênçãos materiais como renovação ética. Assim, por exemplo, lemos em Isaías 44.2-4:

Não temas, ó Jacó, servo meu, ó amado a quem escolhi.

Porque derramarei água sobre o sedento,

e torrentes sobre a terra seca;

derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade,

e a minha bênção sobre os teus descendentes;

e brotarão como a erva,

como salgueiros junto às correntes das águas”(cp. também Isaías 32.15-17).
Passagens similares podem ser encontradas em Ezequiel 37.14 e 39.29. Ezequiel não fala só de bênçãos nacionais; ele também prediz a renovação de membros individuais da nação: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro em vós o meu espírito [o Espírito, ASV], e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.25-27) 3.

Nos Evangelhos, ouvimos Jesus referir-se ao Espírito de modo a cumprir a profecia do Antigo Testamento. Assim, por exemplo, em Lucas 4.17-19, Jesus é referido mencionando a passagem de Isaías 61, à qual acabamos de aludir, e aplicando-a a si mesmo: “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.21). aqui Cristo reinvindica ser o Messias sobre quem o Espírito do Senhor repousa, em cumprimento à profecia de Isaías. Em Mateus 12.28, mais adiante, Jesus faz alusão ao fato de ele expulsar demônios pelo Espírito de Deus como prova de que o Reino de Deus chegou aos seus ouvintes. Aqui, o modo pelo qual o Espírito reveste Cristo de poder está citado como evidência da chegada da nova era.

Embora os textos que acabamos de citar descrevam o Espírito repousando sobre Jesus e revestindo-o de poder, há quatro passagens nos Evangelhos que indicam Jesus, diferentemente de João Batista, que batizava apenas com água, batizará com o Espírito Santo (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33). Estas palavras implicam em que Cristo tem o poder para conceder o Espírito Santo a seu povo. Em Atos 1.6, Jesus esclarece que a expressão “ser batizado com o Espírito” refere-se a um evento que está para ocorrer: “Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias”. Este evento, como fica óbvio em Atos 2, foi o derramamento do Espírito Santo que aconteceu no dia de Pentecostes - um evento que teve grande significação escatológica 4.

O livro de Atos descreve o derramamento do Espírito no Capítulo 2. Em seu discurso no dia de Pentecostes, Pedro cita a profecia de Joel à qual nos referimos anteriormente, indicando que esta profecia foi agora cumprida e que, portanto, os “últimos dias” foram agora instaurados (Atos 2.16-17). Disto fica claro que a “nova era” escatológica deve ser marcada pela presença do Espírito na Igreja, em toda a sua plenitude.

Paulo vê o Espírito principalmente como o dom escatológico, o revelador da nova era, de acordo com a profecia do Antigo Testamento 5. Em Colossensses 1.13 Paulo diz que Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor”. Hermann Ridderbos vincula declarações desse tipo com a obra do Espírito Santo, e conclui que, segundo Paulo, o Espírito nos introduz em um novo modo de existência:

“...’Carne’ e ‘Espírito’ representam dois modos de existência; por um lado, o da velha era que é caracterizada e determinada pela carne e, pelo outro lado o da nova criação que é o Espírito de Deus... por esta razão a igreja não está mais ‘na carne’, i.e., sujeita ao regime da primeira era e dos poderes malignos que nela reinam, mas está ‘no Espírito’, trazida para sob o domínio da liberdade em Cristo (Rm 8.2 ss, 9, 13; 2 Cl 3.6; Gl 3.21). Todas as facetas do contraste entre carne e Espírito... ficam transparentes e notáveis a partir desta estrutura escatológica básica da pregação de Paulo e constitui um elemento altamente importante dela” 6.


Geerhardus Vos sustenta que o que é único acerca de Paulo é seu entendimento da universalidade da obra do Espírito. O Espírito não somente vive agora em todos os crentes, como também opera em todos os aspectos de sua vida religiosa e ética 7. Considerando a ligação entre o Espírito e a escatologia para Paulo, Vos tem isto a dizer: “...o ‘pneuma’ [Espírito] era, na mente do apóstolo, antes de tudo, o elemento da esfera escatológica ou celestial que caracteriza o modo de vida e existência no mundo porvir e, consequentemente, daquele forma antecipada na qual o mundo por vir é mesmo agora realizado...” 8.

Uma outra forma de se abordar isto é dizer que, para Paulo, o Espírito significa o irromper do futuro no presente, de forma que os poderes, privilégios e bênçãos, da era futura estão desde já disponíveis para nós através do Espírito: “... o Espírito, pertence primeiramente, ao futuro no sentido de que o que nós testemunhamos no Espírito, da ação pós ressurreição, pode ser entendido somente quando visto como uma irrupção do futuro no presente. Em outras palavras, baseado na obra de Cristo, o poder do futuro redimido foi liberado para agir no presente na pessoa do Espírito Santo”9.

Por causa disso, para Paulo, o recebimento do Espírito significa que nós podemos nos tornar participantes do novo modo de existência associado à era futura, e agora tomar parte nos “poderes da era por vir”. Desta forma, Paulo insistiria em que o Espírito dá é somente uma prova antecipada das bênçãos muito maiores que hão de vir. É por esta razão que ele chama o Espírito de: “primícias” e “garantia” das bênçãos futuras, que deverão ultrapassar, em muito, as da vida presente. Por causa disso, poderíamos dizer que, para Paulo, a era do Espírito (do Pentecostes até a Parousia) é um tipo de era provisória. Durante essa era, os crentes já têm as bênçãos da era futura mas “ainda-não” as têm em sua plenitude.

Prosseguindo, passemos a examinar o papel escatológico do Espírito em conexão com certos conceitos bíblicos específicos. Comecemos com o papel que o Espírito Santo desempenha em relação à nossa filiação. Paulo baseia a filiação dos crentes na obra de Cristo, mas a relaciona muito intimamente com a obra do Espírito Santo. Aprendemos de Gálatas (4.4-5) que Deus enviou seu Filho para que nós pudéssemos ser adotados como filhos. A palavra grega huiothesia, usada aqui, se refere aos direitos legais envolvidos na filiação; a New International Version (Nova Versão Internacional) de fato, refere-se ao termo, definindo-o como “os direitos plenos de filhos”. Paulo agora segue adiante no verso 6: “E, porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” O papel do Espírito é descrito aqui como aquele que testifica a filiação dos crentes, clamando: “Aba! Pai!” 10 em seus corações - isto é, para dar aos crentes a certeza de que eles são filhos de Deus e de que Deus é, de fato, seu Pai e de que eles são, de fato, seus filhos. Outra passagem principal onde Paulo descreve a filiação dos crentes, é Romanos 8.14-16. No verso 14, ele diz que todos aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Então, como evidência dessa declaração, Paulo prossegue dizendo, no verso 15: “Porque não recebestes o Espírito de escravidão para virdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção (pneuma huiothesias)”. A questão aqui é se deveríamos entender espírito de adoção como se referindo a um certo espírito ou ao Espírito Santo. Uma porção de versões usam a letra maiúscula na palavra Espírito nesta última expressão ao passo que mantêm espírito com inicial minúscula na frase anterior (KJNEB, NIV). Provavelmente, será mais satisfatório considerar a última expressão como descrevendo o Espírito Santo aqui (Espírito de adoção) uma vez que o Espírito Santo está associado com nossa adoção e a confirma. O Espírito Santo, então, nesta passagem, se torna distinto do espírito ou atitude mental associada ao estado de escravidão do qual os leitores da epístola tinham acabado de ser libertos.

Quando Paulo continua dizendo: “baseados no qual clamamos: Aba, Pai!” (v.15), ele repete virtualmente o que tinha dito em Gálatas 4.6, exceto que neste último texto ele afirma claramente que são crentes os que clamam “Pai”, pois são levados a fazê-lo pelo Espírito que neles habita. Este pensamento é continuado no verso 16: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”. Novamente, o papel do Espírito é descrito aqui como aquele que testifica ou dá testemunho junto ao espírito dos crentes de que eles são realmente filhos de Deus. O tempo presente do verbo symmartyrei implica que este testemunho do Espírito não é dado apenas em determinadas ocasiões dramáticas ou espetaculares, mas que continua ao longo da vida.

Paulo, agora, indica que a adoção assegurada pelo Espírito aos crentes tem dimensões escatológicas. Porque, no verso 19, ele afirma que a criação inteira aguarda, em ardente expectativa, pela revelação dos filhos de Deus. Estas palavras implicam em que os filhos de Deus ainda não provaram a plenitude das bênçãos e privilégios que sua filiação inclui. O que está implicado no verso 19 é colocado explicitamente no verso 23: “E não somente a criação, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo aguardando a adoção de filhos (huiothesian), a redenção do nosso corpo (tem aplytrosin tou somatos hemon)”. A palavra apolytrosis, redenção, significava originalmente a recompra de um escravo ou cativo, tornando-o livre pelo pagamento de um resgate (lytron) 11. Quando aplicado ao corpo, como aqui, a palavra refere-se obviamente à libertação do corpo das limitações terrenas que ocorre na ressurreição. Portanto, a “adoção de filhos” (huiothesia) descrita neste verso é algo ainda futuro, que nós ainda aguardamos ansiosamente. O Espírito, portanto, testifica nossa adoção, assegurando-nos a posse de algo que nós temos, mas ainda não desfrutamos plenamente. Nós temos os direitos plenos associados com a adoção, mas nós realmente não possuímos ainda tudo o que nossa adoção envolve. A “Huiothesia” completa é ainda objeto de esperança” 12. Ou, como Hamilton o diz: “Esta redenção futura do corpo é o ainda-não-cumprido, é o aspecto futuro da adoção que o Espírito cumprirá. Que esta é uma função do Espírito fica claro no verso 11. Assim, no caso de adoção, a ação do Espírito presente é apenas preliminar. A obra propriamente completa do Espírito está no futuro” 13.

Em conexão com nossa filiação, podemos também notar o que Paulo diz acerca de sermos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17; Gl 4.7). A herança que haveremos de receber, que poderia ser considerada como o complemento de nossa adoção, é descrita em outros lugares, em termos que se referem claramente ao futuro: 1 Co 6.9; Gl 5.21; Ef 1.14 e 18; Cl 3.24 e Tt 3.7. Embora possamos admitir que ser filho envolve ser herdeiro, o que está incluso na herança é, certamente, ainda objeto de esperança14 .

Concluímos que o papel do Espírito, em conexão com nossa adoção, é de assegurar-nos de que, realmente, somos filhos de Deus em Cristo e herdeiros de Deus com Cristo, mas, ao mesmo tempo, devemos lembrar-nos de que a riqueza plena desta filiação só será revelada na Parousia. Mas uma vez ficamos apercebidos da tensão que existe entre o já e o ainda não que caracteriza esta era. Embora o Apóstolo João não conecte nossa adoção especialmente com a obra do Espírito Santo, nas seguintes palavras, ele de fato descreve nossa filiação tanto em termos do que já temos como do que ainda esperamos: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, ao ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus... Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é” (1 Jo 3.1,2).

Um outro conceito bíblico que nos ajuda a compreender o papel escatológico do Espírito é o das primícias (aparche). Esta palavra é aplicada a Cristo em 1 Co 15.20 e 23 (“as primícias dos que dormem”). Existe, entretanto, uma passagem na qual esta palavra é aplicada ao Espírito Santo: Rm 8.23, que foi citada acima: “E não somente a criação, mas também nós que temos as primícias do Espírito (ten aparchen tou pneumatos), gememos igualmente em nosso íntimos, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”.

O que significa o termo “primícias”? A palavra era usada no Antigo Testamento para descrever os primeiros frutos do ou dos rebanhos, que eram oferecidos a Deus (Dt 18.4; 26.2; Nm 10.35-37). As primícias, portanto, representam o início da colheita. Em Rm 8.23, o Espírito Santo é denominado de primícias 15 . Aqui o Espírito é descrito como o início de uma colheita somente neste caso é Deus, e não o adorador, quem dá as primícias. G.Delling o pondera bem: “Em Rm 8.23, a relação de doador e recipiente está invertida e “aparche” são as primícias de Deus para o homem (cp.2 Co 5.5). O dom do pneuma é apenas provisório. É apenas o princípio, que será ulteriormente seguido por huiothesia, pelo dom do soma pneumatikon 16 .

Assim como nos tempos do Antigo Testamento as primícias eram o início de uma colheita muito maior que estava ainda por vir, assim o recebimento do Espírito Santo pelo crente, é o precursor de coisas melhores que hão de vir. Agora, nós temos o Espírito; após a Parousia, deveremos ter a colheita inteira que inclui a ressurreição do corpo. Por causa disso, gememos em nosso íntimo, porque temos apenas o início da colheita. Mas a posse presente do Espírito, como primícias, nos dá a certeza de que um dia deveremos colher toda a ceifa 17 .

Um conceito bíblico relacionado com este é o do Espírito como nosso penhor de bênçãos futuras. A palavra grega traduzida como penhor, na Versão Revista e Atualizada no Brasil, é arrabon, e é aplicada ao Espírito em três passagens: 2 Co 1.22; 5.5 e Ef 1.14. Arrabon é um termo semita emprestado, transliteração grega de uma palavra hebraica. Significa “um ‘penhor’ que mais tarde é devolvido (apenas Gl 38.17-20); um ‘depósito’ que paga parte da dívida total e dá um direito legal...; ‘sinal em dinheiro’ que ratifica um acordo...” 18 . Talvez, alguém poderia sugerir a palavra “sinal” ou “primeira prestação”, se não fosse o fato de que no mundo de hoje, um sinal não garante o pagamento da dívida toda. Eis porque a palavra arrabon pode ser melhor traduzida por penhor ou garantia.

Em 2 Co 1.22, Paulo nos conta que o Espírito foi-nos dado como uma garantia de que todas as promessas de Deus, que têm o sim e o amém em Cristo, serão cumpridas. Aprendemos de 2 Co 5 que o Espírito é a garantia de que um dia entraremos em um modo celestial de existência, descrito no verso 1 como “da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus” 19 . E em Ef 1.14, somos ensinados que o Espírito é o penhor de nossa esperança - a herança da glória futura. Em todas estas três passagens o Espírito Santo é descrito como um “depósito que garante” 20 bênçãos futuras e o cumprimento de promessas divinas.

A palavra arrabon, como aplicada ao Espírito, portanto, enfatiza especialmente o papel do Espírito na escatologia. Ela indica que o Espírito, que agora os crentes possuem é a garantia e penhor do complemento futuro de sua salvação no eschaton. Enquanto que a designação do Espírito, como primícias, indica a natureza provisória do gozo espiritual presente, a descrição do Espírito como nossa garantia implica a certeza do cumprimento derradeiro. A importância do conceito a respeito do Espírito como arrabon está mais desenvolvida nas seguintes observações:

“Paulo chama a atenção especial para o fato de que o Espírito apresenta parte do futuro que agora se tornou presente, quando ele o designa como “primeiros-frutos” (aparche Rm 8.23), e como “sinal” (arrabon, 2 Co 1.22) 21.

Agora o Espírito possui o significado de “penhor” [em 2 Co 5.5], exatamente porque Ele constitui um pagamento provisório do total que será recebido no futuro... Arrabon significa dinheiro pago em compras como garantia de que o total da compra será pago subseqüentemente. Neste caso, portanto, o Espírito é visto como relacionado especificamente com a vida futura, não como constituindo a composição substancial desta vida; e a posse presente do Espírito é considerada à luz de uma antecipação22.

Portanto, para Paulo, o dom do Espírito significou tanto a realização da escatologia como uma reconfirmação dela; isso fica implicado pelo uso que ele faz do termo arrabon; a posse do Espírito significa que parte da futura felicidade já foi atingida e, igualmente, significa que parte dela ainda permanece futura, ainda não possuída” 23.
O Espírito Santo é também chamado de selo. Existem três passagens neotestamentárias onde é dito que os crentes foram selados com o Espírito: 2 Co 1.22; Ef 1.13 e 4.30. Nos tempos do Novo Testamento os pastores freqüentemente, marcavam seus rebanhos com selo para distinguir suas próprias ovelhas das de outros24. Isto sugeriria que, quando a figura do selo é aplicada a crentes, ela designa uma marca de propriedade. Ser selado com o Espírito, então, significa ser marcado como possessão de Deus.

Em 2 Co 1.22, a idéia de que Deus nos selou (o verbo grego usado é uma forma de sphragizo) é colocado em paralelo com a idéia de que Deus nos Deu seu Espírito como garantia de que todas as suas promessas para conosco serão cumpridas. Embora esta passagem não afirme que é pelo dom do Espírito que Deus nos sela, isto fica implícito na segunda metade do verso. Em Ef 1.13, isto é tornado explícito: “nele [Cristo], quando crentes, fostes marcados com um selo, o Espírito Santo prometido” (NIV). É significativo que aqui, bem como em 2 Co 1.22, o conceito de ser selado com o Espírito é posto em paralelo com o conceito do Espírito como nossa garantia (arrabon). Por causa disso, pareceria que ser selado com o Espírito não significa apenas ser designado como propriedade de Deus, mas também ser assegurado de que Deus continuará a nos proteger e completará, ao final, nossa salvação. Efésios 4.30, na verdade, afirma isso, expressamente: “e não entristeçais o Espírito de Deus no qual fostes selados para (eis) o dia da redenção”. G.Fitzer reitera este ponto ao dizer: “o Espírito Santo, como penhor da herança, é agora o selo com o qual o crente é marcado, designado e guardado para a redenção. Ele mostra que o crente é possessão de Deus para o dia da redenção” 25.

Portanto, o ensino de que os crentes foram selados com o Espírito Santo também tem implicações escatológicas. Ter recebido o Espírito como um selo significa, antes de tudo, estar seguro, de que se pertence a Deus - uma asseveração que deve ser entendida à luz do que foi dito anteriormente sobre o testemunho do Espírito em nossos corações, no sentido de que somos filhos de Deus. Mas o selo do Espírito também significa segurança para o futuro, e a certeza de que, ao final, vamos receber nossa herança em Cristo. Para citar Neill Hamilton: “Efésios 1.13 também apresenta a relação do Espírito com o crente de modo tal que vemos o Espírito como presente para o crente não apenas agora, enquanto ele crê em Cristo, mas também depois da hora quando o crente toma posse de sua herança na era futura. Aqui temos descrita uma função do Espírito no presente do crente que só é cheia de significado em relação ao futuro” 26.

Finalmente, passemos a ver como o Novo Testamento relaciona o Espírito Santo com a ressurreição do corpo. É dito do Espírito que ele está ativo tanto na ressurreição de Cristo como na ressurreição dos crentes. No que toca à ressurreição de Cristo, podemos notar a declaração de Geerhardus Vos: É pressuposto pelo Apóstolo, embora não expresso em palavras textuais, que Deus ressuscitou a Jesus através do Espírito” 27 .

Talvez, a passagem mais clara que relaciona o Espírito com a ressurreição de Jesus Cristo seja a de Rm 1.3,4: “com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi, e foi designado filho de Deus, com poder, segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos”. Esta passagem contém vários contrastes. Primeiro, há um contraste entre “descendência” (genomenos) e “designado” (horistheis). Parece melhor entender estes termos como descrevendo dois estados sucessivos na vida de Cristo28. “Descendente” descreve a existência de Cristo durante sua vida terrena, antes de sua ressurreição, como alguém que nasceu de uma mãe terrena; “designado” descreve a declaração de Deus acerca de Cristo, como o “Filho de Deus em poder” durante a era pós-ressurreição.

O próximo contraste é entre as frases “segundo a carne” (kata sarka) e “segundo o Espírito de santidade” (kata pneuma hagiosynes). Estas frases contrastam o modo dos dois estados de existência. O modo de existência de Cristo, anterior à sua ressurreição, está descrito como sendo “segundo a carne”; seu modo de existência pós-ressurreição é dito ser “segundo o Espírito de santidade”. Hamilton tem algo útil a dizer acerca deste contraste: “As palavras ‘segundo o Espírito de santidade’ explicam este estado novo. Elas estão em contraste com as palavras ‘segundo a carne’, que descrevem o modo de ser de Cristo anterior à ressurreição. ‘Paulo, então, distingue dois modos diferentes da existência de Cristo que, de maneira nenhuma, estão no mesmo plano’ 29. A carne foi o veículo da existência de Cristo antes da ressurreição. O Espírito Santo é agora o veículo o modo, a maneira de Seu estatus como Senhor” 30.

Um terceiro contraste é entre as expressões “de Davi” (literalmente: “da semente de Davi, ek spermatos David) e “pela ressurreição dos mortos” (ex anastaseos nekron). Estas duas expressões contrastam a origem de cada modo de existência. O modo de existência anterior de Cristo foi “da semente de Davi”, enquanto que seu último modo de existência foi “a partir da ressurreição dos mortos”. “A ressurreição... portanto é, conforme Paulo, a entrada em uma nova fase de filiação caracterizada pela posse e exercício de um poder sobrenatural único” 31.

Embora não esteja especificamente afirmado, nesta passagem, que o Espírito estava ativo, na ressurreição de Cristo, isso certamente está implícito. Porque se a nova fase, pós-ressurreição, da filiação de Cristo, é vivida “segundo o Espírito de santidade” então, certamente, esse mesmo Espírito de santidade tem de ter estado ativo com o fim de trazer Cristo para este novo estado. Se o Espírito sustenta Cristo durante seu estado de exaltação, o Espírito também deve ter inaugurado a vida ressurrecta de Cristo.

Esta igualmente ensinado, por implicação, em Rm 8.11, que o Espírito estava ativo na ressurreição de Cristo: “Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que em vós habita”. Embora Paulo não diga aqui que foi o Espírito que ressuscitou dos mortos a Cristo, ele realmente afirma que o mesmo que ressuscitou Cristo também ressuscitará os crentes “pelo seu Espírito”. Certamente, se os crentes devem ser ressuscitados por meio do Espírito, deve ser correto inferir que o Espírito também ressuscitou a Cristo dentre os mortos 32.

Se o Espírito esteve ativo na ressurreição de Cristo, ele também está ativo na ressurreição dos crentes. Se olharmos mais uma vez para Romanos (8.11), veremos isto claramente demonstrado. Deus ressuscitará os crentes da morte, diz Paulo, “por meio do seu Espírito que [ou quem] em vós habita”. O Espírito Santo, portanto, é retratado aqui como a garantia de que um dia nossos corpos serão ressuscitados da morte a fim de compartilhar da existência gloriosa na qual Cristo já entrou.

“... no versículo 11 foi substituído o simples pneuma pela definição completa” “ o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos”. Nesta designação de Deus reside a força do argumento: o que Deus fez por Jesus, fará igualmente para o crente. É pressuposto pelo apóstolo, embora não expresso em palavras textuais, que Deus ressuscitou a Jesus através do Espírito. Aqui o argumento da analogia entre Jesus é mais fortalecido pela observação de que o instrumento pelo qual Deus efetuou a ressurreição de Jesus, já está presente nos leitores. A idéia de que o Espírito opera instrumentalmente na ressurreição e está claramente implícita” 33.
É lançada mais luz sobre o papel do Espírito na ressurreição dos crentes, em 1 Co 15.42-44: “Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, e ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural [soma psychikon],

ressuscita corpo espiritual [soma pneumatikon]”. Algumas traduções, como a RSV, trazem a expressão “corpo físico” para sõma psychikon, o que pode nos confundir, dando a impressão de que o “corpo espiritual” (soma pneumatikon) da ressurreição seja imaterial ou não-físico. A tradução “corpo natural”, para soma psychikon, encontrada nas versões ASV, NIV e RAB, ajuda o leitor a evitar esse erro. Com “corpo espiritual” Paulo não quer significar um corpo que seja não-material, mas antes, um corpo que esteja, completamente, sob controle do Espírito Santo.

“Esse objetivo Pneumatikon expressa a qualidade do corpo no estado escatológico. Todo pensamento de imaterialidade, ou eterialidade ou ausência de densidade física deve ser cuidadosamente afastado do termo... Para manter estes mal-entendidos afastados, deve-se preservar, cuidadosamente, a letra maiúscula tanto na tradução como vice-versa: pneumatikon (com inicial minúscula) quase com certeza nos leva ao erro, enquanto que, Pneumatikon (com inicial maiúscula), não apenas soa como uma nota de advertência mas também aponta positivamente na direção certa. Paulo tenciona caracterizar o estado de ressurreição como o estado no qual Pneuma [Espírito] governa” 34.
À luz da passagem acima, portanto, o Espírito Santo não está ativo apenas ao efetuar a ressurreição do corpo mas também, continuará (ativo) a sustentar e dirigir o corpo ressurrecto, depois da ressurreição ter acontecido: “Se o Espírito inaugurou e sustém a vida do Senhor ressurrecto, então o Espírito igualmente inaugurará e susterá a vida dos redimidos em sua ressurreição. Isto é verdadeiro porque Paulo vê, no Senhor exaltado, a atual realização do futuro dos redimidos” 35.

Falta destacar um elemento. Se é verdade, como Paulo nos conta em 2 Coríntios (3.18), que o Espírito já está operando em nós agora, transformando-nos na imagem de Cristo36, conclui-se que esta renovação progressiva é um tipo de antecipação da ressurreição do corpo. Dessa forma, o Espírito Santo é o elo de ligação entre o corpo presente e o corpo ressurrecto.

“O Espírito não somente opera no homem, portanto, mas também renova sua humanidade. Mas o segredo da continuidade entre o corpo presente e o corpo ressurrecto não está no “ser humano”, mas também no Espírito. E o fundamento firme da crença que um dia o mortal vestirá a imortalidade está em conformidade com isto. Quem nos tem preparado para este fim é Deus, que nos deu o Espírito como um penhor (2 Co 5.5). Neste sentido, a obra é renovação do Espírito nos crentes, durante sua vida presente pode também ser entendida como um início da ressurreição do corpo, e ser descrita por Paulo desta forma (cp 2 Co 3.18; 4.10, 11, 16, 17; Ef 5.14; Fp 3.10,11). Assim, o esplendor da glória da vida futura os ilumina mesmo agora (2 Co 3.18; 4.6), as primícias e penhor no tempo presente de sua ressurreição da morte (cf Gl 6.8; Rm 8.23; 2 Co 5.5)” 37.
Em conclusão, podemos dizer que, na posse do Espírito, nós que estamos em Cristo, temos a prova antecipada das bênçãos da era vindoura, e um penhor e garantia da ressurreição do corpo. Dessa forma, agora, nós temos apenas as primícias. Aguardamos a consumação final do Reino de Deus, quando então desfrutaremos dessas bênçãos em sua plenitude.
Notas do Capítulo 5
1. In Biblical and Tehological Studies (Estudos Bíblicos e Teológicos), pp. 209 a 259.

2. Schottis Journal of Theology Occasional Papers número 6 (Edição avulsa do Jornal Escocês de Teologia), Edinburgh: Oliver and Boyd, 1957.

3. Sobre este assunto ver também G.Vos, Pauline Eschatology (Escatologia Paulina) pp. 160 a 162.

4. Sobre o significado de “batismo com o Espírito Santo” veja minha obra Holy Spirit Baptism (Batismo do Espírito Santo), Grand Rapids Eerdmans, 1972. Sobre o papel escatológico do Espírito nos Evangelhos, ver também G.Vos, “The Eschatological Aspect of the Pauline Conception of the Spirit”(O Aspecto Escatológico da Concepção Paulina do Espírito), pp. 222, 223.

5. H. Ridderbos, Paul, p 87.



6. Ibid., pp. 66, 67.

7. Vos, Pauline Eschatology, p.58.



8. Ibid., p. 59.

9. N.Q.Hamilton, The Holy Spirit and Eschatoly in Paul (O Espírito Santo e a Escatologia em Paulo), p. 26. Cp. Vos, Pauline Eschatology., p. 165.

10. A expressão “Aba! Pai! Era de uso comum naquela época. Aba era a palavra aramaica para Pai, e era freqüentemente usada nas orações. A palavra Aba indicaria uma certa intimidade e ternura àqueles que falavam aramaico, evocando memórias da infância.

11. Arndt e Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament (Léxico grego-inglês do Novo Testamento), p. 95.

12. A Oepke, “Paris”, TDNT, V, p. 653,

13. Hamilton, op. cit., p.32. ver também G. Berkouwer, Return, pp. 114, 115.

14. Cp Ridderbos, Paul, pp 203, 204. E. Schweizer, “huios”, TDNT, VIII, pp. 391, 392.

15. Embora alguns comentaristas entendam tou pneumatos como um genitivo partitivo (significando a primeira das bênçãos concedidas pelo Espírito, com outras que se seguirão), parece ser mais correto entender a construção como um genitivo de aposto: o aparche que é o Espírito.

16. G.Delling, “aparche”, TDNT, I, p. 486.

17. Sobre o Espírito como primícias, ver também Hamilton, op. cit., p.19; e Berkower, Return, p.114.

18. J.Behn, “arrabon” TDNT, I, p.475.

19. Uma vez que parece inadequado pensar acerca do corpo ressurrecto como sendo “eterno nos céus”, é provavelmente melhor pensar acerca deste “edifício de Deus” como referindo-se ao modo celestial de existência que, para o crente, começa com a morte e culmina na ressurreição. Cp Calvin, ad. loc., e veja mais adiante.

20. A tradução de arrabon encontrada na NIV.

21. O Cullmann, Konigsherrschaft Christ and kirche im Neuen Testament (O Senhorio Real de Cristo e a Igreja no Novo Testamento), p.20, transcr. N.Q.Hamilton, op.cit., p.20.

22. G.Vos, Pauline Eschatology, p.165.

23. C.K. Barrett, The Holy Spirit and the Gospel Tradition (O Espírito Santo e a Tradição dos Evangelhos), New York: Macmillan, 1947, p.153. C.P. Berkouwe, Return, p. 114; Hamilton, op.cit., pp.20,21; H.M.Shires, The Eschatology of Paul in the Life of Modern Scholarship (A Escatologia de Paulo à luz da Erudição Moderna), Philadelphia: Westminster, 1966, p. 154.

24. G.Fitzer, “Sphragis”, TDNT, VII, p.950, número 86.

25. Ibid.,p.949.

26. Hamilton, op.cit., p.28. Sobre o Espírito como selo, ver também Ridderbos, Paul, pp.399-400; G.W.H. Lampe, The Seal of the Spirit (O Selo do Espírito), segunda edição, Naperville: Allenson, 1967.



27. Pauline Eschatology, p.163.

28. Ibid., pg. 155, número 10, onde Vos discute os três contrastes mencionados no texto.

29. Hamilton, op.cit., p.13. Note também o seguinte comentário de A Nygren: “Assim, a ressurreição é o ponto decisivo na existência do Filho de Deus. Antes disso Ele era o Filho de Deus em fraqueza e solidão. Através da ressurreição ele tornou-se o Filho de Deus em poder”; Commentary on Romans (Comentário de Romanos), transcr. C.Rasmussen, Philadelphia: Fortress, 1949, p.51.

30. Hamilton, op.cit., p.13. Deveria ser óbvio que a palavra carne em Romanos 1.3 não significa escravidão ao pecado.

31. Vos, Pauline Eschatology, p.156 número 10.

32. Sobre este assunto ver também Vos, “The Eschatological Aspect of the Pauline Conception of the Spirit”, pp.228-235; Hamilton, op.cit., pp.12-15; Ridderbos, Paul, pp.538-539.

33. Vos, Pauline Eschatology, p.163. Cp Hamilton, op.cit., pp.18, 19; Ridderbos, Paul, p.538.

34. Vos, Pauline Eschatology pp. 166,167. Cp. Ridderbos, Paul, pp.544, 545, incluindo número 160. Para uma discussão completa do significado do termo “corpo espiritual”, ver mais adiante.

35. Hamilton, op.cit., p.17.

36. O tempo presente de metamorphounetha (nós estamos sendo transformados) sugere um processo contínuo.

37. Ridderbos, Paul, p.551.


CAPÍTULO 6
A TENSÃO ENTRE O JÁ

E O AINDA-NÃO
Temos visto que aquilo que caracteriza especificamente a escatologia do Novo Testamento é uma tensão subliminar entre o “já” e o “ainda-não”. O crente, assim ensina o Novo Testamento, já está na era escatológica mencionada pelos profetas do Antigo Testamento, mas ainda não está no estado final. Ele já experimenta a presença do Espírito Santo em si, mas ainda espera por seu corpo ressurrecto. Ele vive nos últimos dias, mas o último dia ainda não chegou.

Em capítulos anteriores, tocamos nesta tensão de várias maneiras. Vimos que o Novo Testamento expressa esta tensão em sua doutrina das duas eras: a era presente e a era vindoura (veja pp. 28-30). Percebemos que a compreensão da história que subjaz ao Novo Testamento implica na existência desta tensão: continua havendo duas correntes de desenvolvimento na história - a do Reino de Deus e a do reino do mal (acima, pp.45-49). O próprio Reino de Deus, na verdade, só pode ser entendido à luz desta tensão, como sendo uma realidade tanto presente como futura (acima, pp.66-73).

O papel do Espírito Santo na escatologia lustra mais a tensão entre o que já somos e o que esperamos ser (abaixo, pp. 74-90). Observamos isto especialmente em conexão com conceitos tais como nossa filiação (pp. 80-83), o Espírito como primícia (p.83), e o Espírito como penhor e selo (pp.83-86).

Na verdade, é impossível entender a escatologia Neotestamentária à desta deste tensão. A tensão entre o já e o ainda-não está implícita nos ensinos de Jesus. Porque Jesus ensinou que o Reino de Deus é tanto presente como futuro, e que a vida eterna é tanto uma possessão presente como uma esperança futura. Esta tensão mais tarde, também permeia os ensinos do Apóstolo Paulo. Para estes Apóstolo, a vida de Jesus se auto-revela no tempo presente em nossa carne mortal (2 Co 4.10, 11), mas a presença desta vida nova é provisória e imperfeita, de modo que podemos referi-la tanto dela revelada, como podemos falar dela como escondida (cp Cl 3.3; Rm 8.19,23). Por causa disso, às vezes, Paulo escreve acerca da morada presente do Espírito numa linguagem alegre e triunfante (Rm 8.9; 2 Co 3.18), enquanto que outras vezes ele fala acerca do crente gemendo intimamente e anelando por coisas melhores (Rm 8.23; 1 Co 5.2) 1.


Esta tensão também é mencionada nas Epístolas não-paulinas. O autor de Hebreus contrasta a primeira vinda de Cristo com a segunda: “Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (9.28). Pedro conecta a ressurreição de Cristo com nossa esperança futura: “que nos regenerou para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros” (1 Pe 1.3,4). E João realça o contraste entre o que somos agora e o que deveremos ser: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é” (1 Jo 3.2).

Contrariamente à opinião de alguns, esta tensão entre o já e o ainda-não é também encontrada no livro de Apocalipse. Embora uma discussão mais completa deste livro seja fornecida mais adiante, podemos notar aqui que nem uma visão exclusivamente preterista deste livro, nem uma exclusivamente futurista lhe faz jus completamente. A visão preterista afirma que maior parte do que é encontrado no livro de Apocalipse ou já tinha acontecido à época em que o livro foi escrito, ou estava para acontecer logo após seu surgimento. A visão futurista, ao contrário, sustenta que a maior parte do que está no livro não somente era futuro quando o livro foi escrito mas, mesmo hoje, ainda não aconteceu. Nenhuma destas posições leva em conta a tensão já-ainda-não, que permeia o livro inteiro. O livro do Apocalipse se refere tanto ao passado como ao futuro. Ele constrói sua expectação pelo futuro sobre a obra que Cristo fez no passado. Entre as várias referências do livro à vitória que Cristo conquistou no passado, podemos citar as seguintes: 1.18; 5.5-7, 9,10; 12.1-5, 11. Entre as referências deste livro à segunda vinda de Cristo encontram-se as seguintes: 1.7; 19.11-16; 22.7, 12, 20. O livro do Apocalipse, portanto, retrata a igreja de Jesus Cristo como salva, segura em Cristo, e destinada para uma glória futura - embora ainda sujeita a sofrimento e perseguição enquanto o noivo demora.

Pelo fato de a tensão entre o já e o ainda-não ser um aspecto tão importante da escatologia Neotestamentária, vamos continuar a explorar mais algumas de suas implicações para nossa vida e pensamento de hoje.

(1) Esta tensão já-ainda-não caracteriza o que geralmente denominamos de os “sinais dos tempos”. Por “sinais dos tempos” entendemos eventos que têm de acontecer antes que Cristo retorne, incluindo coisas tais como a pregação missionária da Igreja, a conversão de Israel, a grande apostasia, a grande tribulação e a revelação do anticristo. Estes sinais serão discutidos, com maior detalhe, mais adiante. Neste momento, entretanto, podemos notar que esses sinais tomam parte da tensão já-ainda-não, uma vez que apontam tanto para o que já aconteceu como para o que ainda está porvir. Todos os “sinais dos tempos” apontam para a primeira vinda de Cristo no passado e apontam, no futuro, para sua segunda vinda. Além disso, estes sinais não devem ser considerados como acontecendo exclusivamente no tempo-final, imediatamente antes da volta de Cristo, mas devem ser vistos como ocorrendo ao longo de toda a era entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo2 . Embora estes sinais deixem lugar para um cumprimento culminante futuro, imediatamente antes da volta de Cristo3, eles são de tal natureza que serão encontrados ao longo da história da igreja no Novo Testamento.

Como ilustração deste ponto, considere a pregação missionária do Evangelho. Jesus disse: “E será pregado este evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim” (Mt 24.14). Esta pregação do Evangelho, por isso, é tanto uma marca distintiva da era na qual vivemos agora, como um sinal apontando no futuro para a Segunda Vinda de Cristo. A pregação missionária do Evangelho é um sinal que nos lembra a vitória de Cristo no passado e que antecipa seu retorno glorioso.

(2) A Igreja está envolvida nesta tensão. Uma vez que a igreja é uma comunidade de pessoas que foram redimidas por Cristo, ela é uma comunhão daqueles que não obstante serem um povo novo, são também pessoas imperfeitas. Não se deve perder de vista nem a novidade nem a imperfeição. A pregação, ensino, cuidado pastoral e disciplina praticados na igreja, portanto, sempre têm de levar esta tensão em conta. O povo de Deus não deve ser tratado como aqueles que ainda estão totalmente depravados, “completamente incapazes de qualquer bem e inclinados para todo mal” 4, mas devem ser tratados e considerados como novas criaturas em Cristo. Ao mesmo tempo, porém, deve ser lembrado que o povo de Deus é ainda imperfeito. Por causa disso, os cristãos deveriam lidar um com o outro como pecadores perdoados. Deve sempre haver uma prontidão para aceitar e perdoar irmãos que pecaram contra nós. Além disso, qualquer correção que deva ser feita, deveria acontecer no Espírito de Gl 6.1: “Se alguém for apanhado em pecado, meus irmãos, vós que sois espirituais tendes obrigação de o trazer ao bom caminho, sem qualquer complexo de superioridade, para vos salvaguardar contra possíveis tentações” (Philips).

(3) Esta tensão deveria ser um incentivo para um viver cristão responsável. A tensão contínua entre o e o ainda-não implica que, para o cristão, a luta contra o pecado continua ao longo da presente vida. Mas esta é uma luta para se engajar, não na expectação da derrota, mas na certeza da vitória. Nós sabemos que Cristo desferiu um golpe mortal no reino de Satanás e que a condenação de Satanás é certa.

Nós já somos novas criaturas em Cristo, habitadas pelo Espírito Santo, que nos fortifica de modo que realmente podemos “mortificar os maus feitos do corpo” (Rm 8.13, NIV). Mas não podemos atingir a perfeição sem pecado nesta vida. Nossa imperfeição contínua, entretanto, não nos dá uma desculpa para viver irresponsavelmente, nem implica que devamos renunciar a tentar fazer o que agrada a Deus. Na verdade, nós apenas podemos continuar a viver com o ainda-não à luz do.

Uma compreensão da força que é nossa, através da habitação do Espírito Santo, deveria nos motivar a viver uma vida cristã positiva e vitoriosa. A fé na transformação contínua que em nós é operada pelo Espírito (cp 2 Co 3.18) deveria nos estimular em nossos esforços. Acima de tudo, deveríamos ser encorajados pela convicção de que nossa santificação é, em última instância, não uma conquista nossa mas dom de Deus, uma vez que Cristo é a nossa santificação (1 Co 1.30).

Podemos considerar mais um aspecto nesta conexão. A relação entre o e o ainda-não não é de antítese absoluta, mas antes de continuidade. O primeiro é o antegozo do último. O Novo Testamento ensina que há uma conexão estreita entre a qualidade da nossa vida presente e a qualidade da vida além-túmulo. Para indicar o modo pelo qual a vida presente esta relacionada com a vida vindoura o Novo Testamento utiliza figuras tais como o prêmio, a coroa, o fruto, a colheita, o grão e a espiga, semeadura e ceifa (cp. Gl 6.8) 5. Conceitos como estes nos ensinam que temos uma responsabilidade de viver para o louvor de Deus como o melhor de nossa capacidade mesmo enquanto continuamos a não alcançar a perfeição.

(4) Nossa auto-imagem deveria refletir esta tensão. Por auto-imagem quero designar o modo como uma pessoa olha para si mesma, seu conceito acerca de seu próprio valor ou falta de valor. O fato de o cristão se encontrar na tensão entre o que já possui em Cristo e o que ele ainda não desfruta, implica que ele deveria ver a si mesmo como uma pessoa nova imperfeita. Mas a ênfase deveria cair sobre a novidade, não sobre a contínua imperfeição. Colocar a ênfase na imperfeição em vez de na novidade é viver no Novo Testamento de cabeça para baixo. Conforme Oscar Cullmann comenta, para o crente cristãos nos dias de hoje o excede em peso ao ainda-não 5.

Porque continuamos a viver na tensão escatológica entre o á e o ainda não, nós realmente não vemos ainda nossa novidade em Cristo em sua totalidade. Nós vemos muito em nossas vidas que se assemelha mais ao velho que ao novo. Por causa disso, fica um sentido no qual esta novidade sempre é um objeto de fé. Mas a fé no fato de que somos novas criaturas em Cristo é um aspecto essencial de nossa vida cristã.

Embora a tensão permaneça, é também verdadeiro que a vida cristã é marcada por crescimento espiritual. O novo homem que vestimos, como cristãos, está continuamente sendo renovado: “Não mintais um para o outro, uma vez que vos despistes do vosso velho homem com suas práticas e vestistes o novo homem, que está sendo renovado em conhecimento na imagem de seu criador” (Cl 3.9,10, NIV). O cristão, portanto, deveria olhar para si mesmo como uma nova pessoa em Cristo, pessoa que está sendo progressivamente renovada pelo Espírito de Deus 7.

(5) Esta tensão nos ajuda a entender o papel do sofrimento na vida dos crentes. “Por que sofre o justo?” é uma questão tão velha quanto o livro de Jó. Uma resposta a esta questão é que o sofrimento, na vida dos crentes, é uma manifestação concreta do ainda-não. O sofrimento ainda acontece na vida de cristãos porque ainda não foram eliminados todos os resultados do pecado. O Novo Testamento ensina que “através de muitas tribulações, nos importa entrar no Reino de Deus” (At 14.22). Paulo conecta nosso sofrimento presente com nossa glória futura (Rm 8.17,18). E Pedro aconselha seus leitores a não se surpreender “com o julgamento penoso que estais sofrendo como se algo estranho estivesse acontecendo a vós” mas antes “alegrai-vos em participar dos sofrimentos de Cristo” (1 Pe 4.12, 13, NIV).

O episódio das almas debaixo do altar, em Apocalipse (6.9-11), também nos ajuda a entender o problema do sofrimento na vida dos crentes. João ouve as almas daqueles que foram mortos por causa da palavra de Deus, clamando: “Ó Soberano Senhor... até quando não julgas nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (v.10). a pergunta sobre porque Deus permite injustiças tão terríveis acontecerem sobre a terra, requer uma resposta. E a resposta é dada em dois estágios. Primeiro, àqueles que clamavam foram dadas vestiduras brancas - um símbolo óbvio de vitória. Depois, é-lhes dito para descansar um pouco mais, até que o número de seus conservos, que deveriam ser mortos, seja completado (v.11). Assim, o povo de Deus continuará a sofrer injustiça até o fim desta era - contudo, aqueles que sofrem e morrem por causa de Cristo receberão suas vestiduras brancas da vitória.

Por causa disso, temos de ver o sofrimento dos crentes à luz do eschaton, ocasião em que Deus enxugará todas as lágrimas dos nossos olhos e quando não mais haverá sofrimento e morte (Ap 21.4). Entrementes, sabemos que Deus tem seus propósitos para permitir a entrada do sofrimento na vida de seu povo. Paulo nos ensina, em Romanos 5, que o sofrimento produz perseverança, a perseverança produz caráter e o caráter produz esperança (vs. 3,4). E o autor de Hebreus, embora admitindo que a disciplina e o sofrimento não parecem ser agradáveis na hora em que são experimentados, nos conta que tal disciplina mais tarde “produz uma colheita de justiça e paz para aqueles que por ela foram treinados” (12.11, NIV) 8.

(6) Nossa atitude para com a cultura está relacionada com esta tensão. H. Richard Niebuhr em seu livro Christ and Culture (Cristo e a Cultura) 9, aponta várias abordagens para com a cultura que foram utilizadas por diversos grupos cristãos no passado, variando desde rejeição total até aceitação acrítica da produção cultural de não-cristãos, com numerosas posições intermediárias. Aplicando o conceito da tensão já-ainda-não à questão das conquistas culturas, tanto de crentes como de descrentes, ajudaremos a lança alguma luz sobre este eterno problema.

É geralmente entendido, por muitos cristãos, que o relacionamento entre o mundo presente e a nova terra que está porvir é de descontinuidade absoluta. A nova terra, pensam muitos, cairá como uma bomba em nosso meio. Não haverá nenhum tipo de continuidade entre este mundo e o vindouro; tudo será totalmente diferente.

Esta compreensão, porém, não faz jus ao ensino das Escrituras. Há tanto continuidade como descontinuidade entre este mundo e o vindouro 10. O princípio aqui envolvido está bem expresso em palavras que foram freqüentemente usadas por teólogos medievais: “A graça não destrói a natureza mas a restaura” 11. Em sua atividade redentora, Deus não destrói as obras de suas mãos mas as limpa do pecado e as aperfeiçoa, a fim de que possam finalmente alcançar o alvo para o qual ele as criou. Aplicado a este problema, esse princípio significa que a nova terra que aguardamos não será totalmente diferente da terra atual, mas será uma renovação e glorificação da terra na qual vivemos agora.

Já observamos, anteriormente, figuras neotestamentárias que sugerem que aquilo que os crentes fazem nesta vida terá conseqüências na vida porvir - figuras como as da semeadura e ceifa, grão e espiga, amadurecimento e colheita. Paulo ensina que uma pessoa pode construir sobre a fundação da fé em Cristo, com materiais duráveis como ouro, prata ou pedras preciosas, de modo que na consumação sua obra possa sobreviver e ele possa receber uma recompensa (1 Co 3.10-15). O livro do Apocalipse fala acerca das obras que seguirão aqueles que morreram no Senhor (14.13). Fica claro, de passagens como esta, que aquilo que os cristãos fazem para o Reino de Deus nesta vida tem significado também para o mundo porvir. Em outras palavras, há uma continuidade entre o que é feito para Cristo agora e o que deveremos desfrutar no futuro - uma continuidade expressa no Novo Testamento em termos de galardão ou gozo (cp 1 Co 3.14; Mt 25.21,23).

Mas, que dizer acerca da produção cultural dos não-cristãos? Devemos simplesmente renegar tais produtos como sem valor porque não foram produzidos por crentes e não foram conscientemente dedicados à glória de Deus? Os cristãos que tomam esta atitude, falham em apreciar a obra da graça geral de Deus no mundo atual, através da qual mesmo homens não-regenerados são capacitados para fazer contribuições válidas para a cultura mundial.

“Toda verdade é de Deus; consequentemente, se homens iníquos disseram qualquer coisa que seja verdadeira e justa, não devemos rejeitá-la; porque ela veio de Deus 12.

Sempre que depararmos com estes assuntos em escritores seculares, deixemos essa admirável luz da verdade que neles brilha nos ensinar que a mente do homem, embora decaída e pervertida em sua inteireza está mesmo assim vestida e ornamentada com os excelentes dons de Deus. Se consideramos o Espírito de Deus como a única fonte da verdade, nunca devemos rejeitar a verdade em si, nem menosprezá-la pareça como for, a não ser que desejemos desonrar o Espírito de Deus. Porque, em tendo os dons do Espírito em pouca estima, desprezamos e rejeitamos o próprio Espírito” 13.
Com relação à cultura não-cristã, portanto, temos de lembrar que o soberano poder de Cristo é tão grande que ele pode governar em meio a seus inimigos, e fazer com que aqueles que não o conhecem façam contribuições à ciência e à arte, contribuições que servirão à sua causa. Os poderes despertos pela ressurreição de Jesus Cristo estão ativos no mundo de hoje! O governo soberano de Cristo sobre a história é tão maravilhosos que ele pode fazer até seus inimigos louvá-lo, embora eles o façam involuntariamente. E quando lemos, no livro do Apocalipse, que os reis das nações da terra deverão trazer sua glória para a nova Jerusalém (21.24,26), concluímos que haverá alguma continuidade até entre a cultura do mundo atual e a do mundo vindouro.

A tensão entre o e o ainda-não, portanto, implica em que não devemos desprezar o que o Espírito de Deus capacitou a homens não-regenerados produzirem, mas devemos avaliar todos esses produtos culturais à luz dos ensinos da Palavra de Deus. Podemos usar em gratidão qualquer coisa de valor da cultura deste mundo, desde que a usemos com discriminação.

Como cristãos, acima de tudo, temos de fazer o que melhor podemos para continuar a produzir uma cultura genuinamente cristã: literatura cristã, arte, filosofia, uma abordagem cristã da ciência, e assim por diante. Mas não devemos esperar alcançar uma cultura totalmente cristã deste lado do eschaton. Uma vez que ainda não somos o que devemos ser, todos os nossos esforços em estabelecer uma cultura cristã serão apenas uma aproximação.

Para dar certeza, embora haja uma continuidade entre o mundo presente e o mundo por vir, a glória do mundo vindouro superará em muito a glória do mundo presente. Porque:



Nenhum olho viu,

Nenhum ouvido ouviu,

Nenhuma mente concebeu

O que Deus tem preparado para aqueles que o amam

(1 Co 2.9, NIV).


Resumindo o que foi desenvolvido neste capítulo, concluímos que toda a nossa vida cristã deve ser vivida à luz da tensão entre o que já somos em Cristo e o que um dia esperamos ser. Olhamos, no passado, com gratidão, para a obra concluída e a vitória decisiva de Jesus Cristo. E olhamos para o futuro com ansiosa antecipação da Segunda Vinda de Cristo, quando instauraremos a fase final de seu Reino glorioso, e traremos à plenitude a boa obra que ele começou em nós 14.

Notas do Capítulo 6
1. Ver também H. Riderbos, Paul, pp. 169-175.

2. Cp. G Berkower, Return, Cap. 8, e veja adiante, pp.

3. Isto se aplica particularmente à manifestação do anticristo. Embora desde a primeira vinda de Cristo sempre tenha havido anticristos no mundo (veja 1 Jo 2.18,22), o Novo Testamento também nos ensina a aguardar um anticristo único e final no futuro (veja 2 Ts 2.3-10).

4. Heidelberg Catechism (Catecismo de Heidelberg), questão 8.

5. Veja H. Berkhof, Christelijk Geloof, Nijkerk: Callenbach, 1973, p.511.

6. O Cullmann, Salvation, p.183.

7. As implicações da nossa fé cristã para nossa auto-imagem estão mais exploradas em minha obra: The Christian Looks at Himself (O Cristão Olha para Si Mesmo).

8. Sobre o assunto do sofrimento e martírio na vida dos crentes, veja Berkouwer, Return, pp. 115-122.

9. “Gratia non tollit sed reparat naturam”.

10. Commentary on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon (Comentário das Epístolas a Timóteo, Tito e Filemon), transcr W. Pringle, Grand Rapids: Eerdmans, 1948, de Tito 1.12, pp. 300, 301.

11. Institutas, ed., J. T. McNeill trasncr., F.L.Battles, Phidadelphia: Westminster, 1960) II, 2, 15.

12. Para uma discussão mais ampliada da tensão do “já-ainda-não”, veja Berkouwer, Return, pp.20-23, 110-115, 121, 122, 138, 139; Cullmann, Salvation, pp. 32, 172-185; Hamilton, The Holy Spirit and Eschatology in Paul (O Espírito Santo e a Escatologia em Paulo), pp. 39, 87; W. Manson, “Eschatology in the New Testament” (A Escatologia em o Novo Testamento), pp. 7, 9-13; Ridderbos, Paul, pp. 230, 231, 249-252, 267-277; Shires, The Eschatology of Paul in the Light of Scholarship (A Escatologia de Paulo à luz da Erudição Moderna), pp.18, 162, 163, 169, 226.



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